Contubérnio Ideocrático, o Blog de Raul Almeida

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Terça-feira, 24/1/2023
Contubérnio Ideocrático, o Blog de Raul Almeida
Raul Almeida
 
Saudades, lembranças

Atualmente não mais permito que a armadilha da saudade distraia a minha atenção. O que foi bom, super, ótimo, etc., teve o seu tempo.
As lembranças são boas. Saudades nem tanto.
Lembranças são fotos virtuais de bons momentos guardados na mente. Não guardo os maus. Saudade é sofrer por qualquer lembrança.
Tenho ótimas lembranças, algumas transformadas em histórias verbais, sempre presentes quando pertinentes. Outras motivam reflexões e avisos para que algo não venha a se repetir. Tenho lembranças de verdadeiras façanhas prazerosas, mirabolantes, inacreditáveis, bizarras, eletrizantes e singulares, outras menos emocionantes, mas igualmente gratificantes. O resto cancelei, eliminei, apaguei na medida do possível. Agora é um dia de cada vez.
Recomendo a todos amigos, independente da idade ou experiência de vida, reduzir o passado a poucas, pouquíssimas lembranças e não fazer grandes planos. O Acaso e a Fatalidade, vão colocar as luzes no destino de cada um, sem avisar, sem respeitar, sem amor ou piedade.
Deixe a fila andar

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Postado por Raul Almeida
24/1/2023 às 17h18

 
A culpa é dele

Afinal, de quem é a culpa?
A lenda nos dá conta que Pandora, a primeira mulher criada por Zeus, na verdade por Hefesto, a mando do Chefão, abriu uma caixa, que na versão original era um jarro com uma tampa, libertando todos os males até então desconhecidos pela humanidade. A mitologia grega é formidável em seu conteúdo. Deuses, semi-deuses, titãs, heróis, vilões, ingênuos, patifes, maravilhosos e maravilhosas em narrativas e cenários diversos. Uma leitura muito divertida.
Os autores gregos, Homero, Hesíodo, e outros brilham até hoje. As explicações desde as origens do Universo e suas criaturas, até o registro dos momentos históricos, batalhas, conquistas, fenômenos climáticos, místicos, enfim, toda a obra dos grandes mestres, continua ajudando aos contemporâneos donos do saber, a explicar, interpretar ou fabular sôbre o grande mistério da vida.
Mas, além do Paraíso, perdido por conta da desobediência do casal primevo, uma das explicações para os sofrimentos e atribulações da humanidade é a pobre Pandora que levou a culpa pela dispersão de toda as mazelas do Mundo, ao abrir o tal jarro, ou caixa sem saber o que ali estava guardado. Ainda assim, conseguiu manter a esperança, como prêmio de consolação.
A coincidência entre Eva e Pandora, mulheres, mostra o lado misógino das narrativas, sempre atribuindo à fêmea a culpa pelos infortúnios, sofrimentos e tristezas da vida.
Que horror!
A mulher, fonte da vida, retratada como vetor do mal.
Mas, de quem seria a culpa por todas as coisas adversas, ruins, tristes, negativas, que trazem dor e pranto durante as nossas andanças pelo Paraíso?
O que é que permite a um ser pensante, decidir , tomar partido, escolher, definir, agir ou não em determinada situação? O que levou Eva a provar do fruto proibido e o compartilhar com Adão, assim como Pandora a destampar o jarro e liberar as mazelas, foi ele!
Vamos perceber que o fruto proibido assim como o jarro destampado são masculinos. Mas ele quem? O que? O masculino, o macho, o poderoso, o decisivo livre arbítrio. Comum aos dois gêneros, é o que decide.
Acertar ou errar, perder ou ganhar, progredir, ou estagnar, regredir, encolher. Em todas ocasiões, o Juiz interno, endógeno, soberano, sutil ou cruel será sempre o responsável.
O livre arbítrio é o filho mais velho do destino de cada um. É o pai do remorso, da tristeza, da culpa, do amargor, da infelicidade ou do Sucesso.
A culpa dos males do Mundo?
O poder divino de decidir o próprio rumo.
(é jarro e não caixa, nas versões primitivas do mito)

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Postado por Raul Almeida
19/12/2022 às 13h50

 
Conforme o combinado

Apesar da paisagem enfarruscada com o céu encabulado em sua vestimenta cinzenta de nuvens e buracos mostrando o desejado azul, a Primavera chegou aqui na varanda do vigésimo andar.
As fragatas, pontuais, mantém a rota para algum lugar lá no fundão da baía. Passam bem na minha frente e, conforme a direção do vento, fazem manobras elegantes e harmoniosas, afastando-se das paredes dos edifícios. Em algumas ocasiões vemos seus olhos amarelos com o centro negro, dando a impressão que nos observam, enquanto voam livremente.
No piso alguns vasos com diversas plantas esperam a rega matinal. Na maior parte do tempo o céu, indecorosamente despido, permite um escândalo de luz e calor. O Sol levanta de mansinho e vai inundando toda a face do prédio, aquecendo, matando os fungos, espantando a tristeza, e chamando a todos para uma caminhada lá embaixo na calçada em direção a praia, logo ali, duas quadras e pronto. O mar que, aqui de cima vejo distante, além da vizinhança, fica muito mais bonito, quando estamos ali na beira.Mas não dá para reclamar.
Consigo ir além das fragatas, gaivotas, andorinhas, e mais algumas outras aves, até urubus bem lá nos confins das alturas.
A vista alcança o horizonte com as serras à esquerda, da Mantiqueira, e em frente a do mar, e seu harmonioso conjunto de curvas acima e abaixo, sinalizando a região de Petrópolis, já na serra os Órgãos. O Dedo de Deus é o destaque.
Volto o olhar para o interior da varanda. Está na hora de tratar do bebedouro dos beija-flores, compartilhado com cambaxirras, sanhaços e até um desavisado bem-te-vi. A passarada acorda cedo e já pousa na rede de segurança ou revoa nervosa, como se cobrasse o café da manhã.
Esfrego a cara para espantar o restinho de sono, abro bem os olhos e desperto para a Primavera. Sim! é hoje! Começa a primavera. Para complicar um pouco, tem um tal equinócio que vai acontecer amanhã, dia 23 de setembro. Mas essa é outra conversa.
Olho para o vaso da primeira Amarilis a florescer. Esperou o dia certo, foi crescendo, crescendo e agora, pela manhã, começa o espetáculo maravilhoso da abertura da primeira flor. Serão quatro. Amanhã teremos mais uma e outra a caminho, até completar o quarteto. Está conosco há dezessete anos e nunca deixou de nos presentear com suas flores. Um bom sinal.
Mais um motivo para encher o regador, correr para os pés da linda amiga, matar a sua sede, refrescar suas raízes, sorrir e conversar um pouco, agradecendo por sua fiel amizade.
Muito obrigado Amarilis. Sejam bem vindas as tuas flores.

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Postado por Raul Almeida
22/9/2022 às 13h31

 
Primavera, teremos flores

A expectativa de um período de luz e flores está vibrando em cada habitante deste hemisfério. Muitos nem se darão conta , mas a natureza vai fazer o seu trabalho mesmo que agredida, insultada e até distorcida, com represas, desmontes, aterros, devastações e intervenções bélicas por todo mundo.
O planeta vai se regenerando, fechando suas chagas, adaptando as cicatrizes e mutilações, rugindo e trovejando suas dores, reagindo e suportando seus ocupantes sem perder o controle, o rumo, a órbita.
Novamente a esperança de melhores dias, melhores colheitas, mais luz e paz entre as criaturas humanas vai surgindo e crescendo nas mentes e corações. É a vez desse hemisfério sentir a energia sutil do Universo. O Sol mais brilhante, a natureza em festa com mais flores, mais alegria.Mais cores, mais amores.
Vamos novamente!
Vamos acreditar no amor, na harmonia, na alegria, no BEM, na indiferença do Universo as iniquidades de parte dos humanos, e aproveitar a Primavera, a luz do sol e as cores mais vivas neste momento.
Quem sabe até aprender a viver e seguir em estado permanente de Primavera.

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Postado por Raul Almeida
20/9/2022 às 11h51

 
Ponto de fuga

Aprender a desenhar foi uma das mais agradáveis atividades em toda a minha vida. E já se vão algumas dezenas de anos.
Até onde a memória alcança, o ato de rabiscar, buscando formar representações das coisas imaginadas ou à minha volta, sempre foi facilitado por meu avô, amigo desde as horas mais remotas do meu lembrar, ali pelos seis anos.
Ainda tenho guardadas garatujas daquela época. Foram colecionadas e deixadas em meio a outros papéis muito mais importantes, organizados em pastas e envelopes.
Um barco, uma "paisagem", um automóvel. Um perfil de um índio com o cocar foi repetido diversas vezes, assim como um veleiro, copiado de uma estampa.
O lápis comum, os lápis de cor, os blocos e folhas de papel sempre andaram por perto. Mais tarde e mais habilidoso, fui apresentado a caneta de desenho com tinta nanquim. Aí a coisa demorou bastante.
Um amigo muito próximo do vovô era desenhista profissional. Trabalhava no Ministério da Guerra, ali do lado da Central do Brasil. Era o chefe da seção da cartografia. Dele ganhei o meu primeiro lápis Turquoise HB. Que presentaço. Era sextavado, tinha cor azul, um "lamborguini" enquanto material de desenho. Só profissionais usavam aquele instrumento sagrado.
A primeira vez que o visitamos, fiquei maravilhado. As pranchetas tal como púlpitos sagrados, os bancos altos, a luz natural inundando tudo. Voltamos lá várias vezes, com intervalos muito maiores do que eu gostaria que fosse, mas era um lugar de trabalho. Também o visitávamos em sua casa. Aí fiquei sabendo que ele era professor. Em seu atelier e escritório mais uma novidade ao alcance das mãos: cavaletes de pintura. Um, grande e outro menor, com o banquinho em frente. E como tinha coisa! Paletas, tubos de tinta,uma prancheta encostada e de frente para a janela, um jaleco pendurado num cabide, por sua vez enganchado numa estante de livros… Tudo meio arrumado, meio tumultuado, meio sei lá o que… Nunca parei de desenhar. Sempre garatujando, rabiscando, tentando fazer melhor.
A vida foi acelerando e dispersando bons focos, agrupando quimeras e idéias, distraindo o olhar com borboletas imaginadas em fantásticas aventuras e perigosas experiências. Assim fui, tocando, literalmente, num conjunto musical de pós adolescentes poucos adultos, onde eu tinha quinze anos e o segundo mais velho dezenove… Toda semana tinha baile. Rendia um troco muito bem vindo. Semanas com dois bailes, um sábado e uma domingueira. E na segunda feira, o colégio, o ginasial e suas matérias, inclusive música, latim, desenho…
E voltamos para o desenho. Aquilo era muito aborrecido. O professor estava cumprindo a tabela da própria vida. Era desinteressado, sem carisma, sem pulso para segurar um magote de moleques patifes, que não prestavam atenção aos desenhos geométricos ou decorativos,a fazer em cadernos quadriculados, imitando ladrilhos de banheiro.Não aprendi nada. Mas, fazia a minha parte e sempre tirei boas notas na matéria, apesar do comportamento menos que recomendável.
Adulto, casado e com filhos, trabalhando em Banco, descobri uma associação de Artistas, onde eram oferecidos cursos de desenho e pintura artística. Conversei com a minha inspiração maior, meu anjo da guarda, minha luz até hoje e contei do meu interesse em frequentar as aulas daquela sociedade. Ela concordou imediatamente. Incentivou com entusiasmo.
Duas vezes por semana, após o trabalho de verdade. Fui apresentado aos modelos em gesso, para copiar sob a orientação de um artista experimentado, paciente e competente. Fiquei entusiasmado. Demorou até que aprendesse a usar o carvão no lugar do lápis. O esfuminho, a escovinha, no lugar da borracha.
A minha pretensa habilidade se descobria grosseira, primitiva, desarrumada, insolente. Eu precisava aprender a ver! a enxergar, a sentir os espaços, as proporções, a luz! Estava tudo ali na minha frente. Era só prestar a atenção.
O primeiro desenho estufou o meu peito de alegria e orgulho. Estava muito parecido com o busto de gesso que a turma estava copiando, retocando, aperfeiçoando, escovando e esfumando o carvão sobre o papel.
Finalmente, chegou o dia que eu esperava em total silêncio. Depois de estar mais ou menos enturmado com os frequentadores da sociedade, todos boêmios, cervejeiros, um tanto bregueiros e bem mais velhos, fui convidado a "encontrar o pessoal", num domingo, numa esquina do centro antigo da cidade do Rio de Janeiro. Eram uns quatro pintores de verdade, fazendo perspectivas com fachadas das igrejas históricas.
Você pinta?
Quero aprender, respondi.
Tem material?
Naquela altura, imagine só um cavalete de campo, uma caixa completa, com a paleta, as tintas, o solvente e os trapos. Nem pensar.
Material?
Uma risada coletiva e simpática, liberou a minha pergunta de uma resposta.
-Tudo bem, não deixa de aparecer lá.
E eu fui, ainda sem o tal material, no fim da rua do Ouvidor, quase na Praça XV. Cheguei pouco depois deles, mas a tempo de perceber a responsabilidade com o que estavam fazendo. Fui cumprimentando todo mundo e olhando com atenção quase que alucinada, para o que estava acontecendo. Um para lá, outro para ali, um terceiro mais para trás, enfim, todos buscando o melhor ângulo para começar o trabalho. A primeira lição estava começando.
O traçado, o horizonte, o ponto de fuga. Assim começou. No dia seguinte eu tinha uma caixa pequena, de estudante. Pincéis, uma espátula, uma paleta,tubos de tinta, os potes para o óleo e o solvente. Os trapos, peguei em casa. O cavalete, até hoje segue conservado, baleado, meio jururu, mas firme.
Comecei a acompanhar aqueles mestres amigos. Fui aprendendo a ver as ruas, as casas, as fachadas, os monumentos, as árvores, as calçadas. Depois fui aprender a pintar mato, florestas, lagoas, praias, Nunca deixei que a mediocridade me abandonasse. Nunca atingi a maioridade em desenho, pintura, música…
Sigo tentando achar o verdadeiro ponto de fuga para estabelecer a melhor perspectiva, o melhor ângulo da mais tranquila paisagem, da natureza mais gentil.
As fachadas sempre aparecem para ocupar um espaço de destaque. Os caminhos têm curvas e elevações para atrapalhar a minha incipiente técnica. A melhor descoberta foi aquela do horizonte duplo para se colocar algum corpo ou objeto flutuando no espaço.
Acho que a morte tem dois horizontes, mas somente um ponto de fuga.

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Postado por Raul Almeida
22/7/2022 às 12h51

 
A lantejoula

Eu voltava para casa caminhando e um reflexo luziu na calçada, passos a frente. Imaginei um diamante caído de alguma venturosa orelha e seu brinco, um brilhante suicida arrojando-se para fora do encastoamento do anel. A ganância atreveu-se em cutucar a minha mente.
Apertei os três passos de distância enquanto o brilho desaparecia com a mudança da posição do olhar. Cheguei perto, encima do alvo e lá estava a coitada. Uma lantejoula.
Entre desapontado e autocritico, dei uma discreta e desdenhosa risada, debochei daquele destino infame, e lembrei dos meus tempos de garçom de cabaré, do barulho infernal, do cenário padrão, das colegas entrando rapidamente, as lantejoulas das roupas das coristas, o porteiro vestido como um general da banda. Segui o meu caminho, penalizado com o destino daquela pobre lantejoula.
Poderia ter sido atada a uma imponente roupa de privilégios. Poderia estar num traje qualquer em qualquer degrau da escala da vida, desde os que podem mais e choram menos até aos que nem chorar podem. E estava ali, aproveitando um raio de sol perdido na calçada.
Fiz uma discreta reverência com a cabeça, e nem parei para conferir. Era uma lantejoula indigente, sem terra, sem teto, sem amor, sem futuro....

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Postado por Raul Almeida
26/6/2022 às 14h42

 
Asas de Ícaro

Ícaro, filho de Dédalo, tentou subir aos céus com asas feitas com penas de gaivotas e cera de abelha. Queria fugir do Labirinto onde estava preso, juntamente com seu pai.
A lenda de Ícaro e o sonho de voar alto, ganhar o espaço. Vencer, também traz advertências e conselhos quanto a cuidados com o calor do Sol, evitando o derretimento da cera, alem do perigo de voar baixo, perto das águas do mar, encharcando as penas, aumentando o peso e provocando afogamento.
Uma lenda. Uma história fantástica.Ficção à moda antiga.
Observo a estante bem ali na minha frente, repleta de encadernações de projetos, pastas com documentos, pilhas de papéis rascunhados com ideias, aulas, diagramas, mapas.
Vida colecionada em lembranças de um passado de trabalho, criação, e realizações. Igualmente, testemunhos de enganos, sonhos não concluídos ou realizados, tempo perdido, enfim, uma papelada inerte, absolutamente inútil.
As gavetas da estante parecem cestas trançadas pelas mãos da autoconfiança, da coragem e da fé, cheias de penas de gaivotas virtuais, ainda sujas com os restos da cera, igualmente virtual, imaginada a partir dos livros, aqui favos do mel do conhecimento, colecionados na mesma estante, em outras prateleiras.
Cada encadernação, cada pasta, cada maço de papel grampeado rabiscado com alguma idéia, os mapas e roteiros para execução de tarefas, as notas e registros, enfim cada lembrança contida remete a um vôo. A maior parte bem sucedidos, mas nenhum pouso definitivo no topo do penhasco das ambições. Apenas visitas.
O calor do Sol das vitória provocava a fusão da cera da humildade, da serenidade, do equilíbrio.
Os ventos do reconhecimento sempre atenuaram o planeio em voos, quase nunca suaves, rumo ao fundo do vale da existência.
A cada descida observei as escarpas riscadas por diversas trilhas tortuosas, abertas em direção ao cume, repletas de gente lutando para vencer as armadilhas da vida em busca dos sonhos.
No meio do paredão, atado por correntes flamejantes, reconheci o Titã Prometeu sofrendo seu eterno castigo, apenas por ter dado aos humanos o segredo do conhecimento.
Ah, Prometeu, o rebelde…
Hoje as gaivotas passam voando aqui na frente da varanda do apartamento onde moro, sem correr nenhum risco de serem depenadas. O mel vem livre da cera e sempre está presente na primeira refeição, sinalizando a perenidade do sabor doce, não importa quem o está experimentando.
Os voos estão limitados ao espaço do viveiro: do poleiro para o bebedouro, do bebedouro para o poleiro ou para o pote de ração. As lembranças se alternam entre as delícias dos êxitos e as dores dos castigos.
Uma vez Icaro, outra vez Prometeu…
RA

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Postado por Raul Almeida
21/5/2022 às 12h49

 
Auto estima

Quem é que acha que pode dizer aos outros
o que vestir para melhor se ver ou
para melhor falar ou escrever.
Quem é que pode pretender mudar,
sem medo de se arrepender,
a cor dos cabelos, o jeito de ser,
o modo de rir, a voz, o saber.
Quem pensa que ditar moda
faz melhor aos seus iguais
nunca será capaz de entender
o prazer de apenas se deixar ser
tal qual como Deus criou.
Nasceu para ser gordo, gorda ou magrela,
nasceu para ser princesa, corista ou Cinderela.
Será rico ou será pobre. Será plebeu, paria ou nobre.
Nada adianta tentar mudar.
Não adianta chorar, berrar, espernear.
O melhor e deixar a vida correr e aceitar.
Dizem que ele escolhe, define e organiza
tudo que vem pela frente.
Então, o jeito é pegar
o que escolheu para a gente.
Gordo, gorda ou magrela, inteligente ou nem tanto,
bonitão ou bonitona, gulosa ou enfastiada,
não faz a menor diferença.
Ser feliz é o que conta, ser do bem é o que vale.
Viver em paz e harmonia, com muita felicidade
Com bom humor, com verdade, com amor, com amizade.
Gozar a vida sem medo, sem rancor, sem avareza.
Sem maldade, sem tristeza, com muita tranqüilidade.
Não gosta de feijoada? Come pouco? Não bebe?
O manequim está grande? Não tem porte elegante?
O que é que está faltando? Qual importância tem?
Deixe a vida ir passando sem sentir dor ou tormento. Coma, beba e desfrute. Ame até a exaustão.
Com vontade e paixão.
Goze a vida sem pudores.
Tenha quantos amores quiser, mas nada de sentir dores, principalmente, de amores.
Só não faça confusão: Roupa de magro é de magro.
Roupa de gordo é de gordo.
Encontre o seu figurino, Encontre a sua verdade.
Encontre a sua parceira, Parceiro, caso ou ficante.
Não copie, não invente.
Procure, ache.
Descubra que a felicidade é aceitar o destino e a tal fatalidade.


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Postado por Raul Almeida
8/5/2022 às 11h38

 
A Caixa de Brinquedos

(reapresentação)

Antonio Ferreira Gonçalves Leitão, um comerciante bem sucedido filho e neto de comerciantes de ferragens estava cansado da monotonia das férias e feriados. Era sempre a mesma coisa: Praia, mais praia e praia novamente.
Não! Não agüentava mais, seguiu pensando.
Seguindo a própria rotina, foi o último a sair da loja, verificando se estava tudo em ordem dos fundos até a porta principal. E o negócio era bem amplo. Verificou os cadeados das portas de subir e descer e foi caminhando até ao estacionamento.
Abriu o carro de longe, com a chave eletrônica, o que sempre lhe causava discreto espanto. Aquilo piscava e apitava enquanto ele se aproximava.
Chegou diante do portão da garagem, outra maravilha moderna, abriu, entrou e fechou com o comando à distância. Colocou o carro no lugar, respirou fundo e entrou pela porta lateral.
Vendera o apartamento do Guarujá por conta da parentada e dos amigos que se convidavam, transformando o que deveria ser um lugar de descanso em alojamento. O pior: Os três filhos pós-adolescentes davam a impressão de gostar da bagunça.
Quem pagava a conta era ele, Antonio Ferreira Gonçalves Leitão, comerciante de ferragens, e ponto final. O dia em que cada um pudesse escolher o que fazer para ocupar feriados ou dias vazios com seus próprios recursos, que o fizessem da maneira que lhes melhor aprouvesse. Queria ir para um hotel fazenda, entre a serra e o vale, com muito verde, algum silêncio, paisagem, boa comida e descanso.Faria o possível e o impossível para convencer sua esposa Estavam todos, definitivamente, convidados.
Só que a família pensava diferente.
Abriu a geladeira da cozinha e sentiu passos vindo em sua direção: A esposa.
- Oi! Tudo bem? Abraçou-a e puxou assunto: Que tal inventarmos algo novo no feriado da semana que vem? Outra vez praia...
Você bem que poderia encontrar algo novo, senão já sabemos o que vem pela frente: Lentidão na estrada, chopinho, fila para almoçar no restaurante da moda, comprinhas de quinquilharias.
- Se você estiver disposto a abrir a carteira, poderemos viajar, fazer um cruzeiro marítimo pelo Caribe. Quem sabe Miami? São poucos dias.
- Nem tanto ao mar, nem tanto a terra, respondeu Antonio.
- Aquela coisa sem graça, de ficar olhando um para a cara do outro na rua principal, procurando algum conhecido ou tomando banho de água mineral? Não estamos tão velhos e as crianças nem podem ouvir falar nessa história.
- Vi a propaganda de um hotel-fazenda, temático. Uma coisa interativa, teatral, com os empregados caracterizados à moda do século 19. Uma verdadeira cápsula do tempo. É como se fossemos convidados por uns dias à mansão de um barão do tempo do império.
- E qual é a graça? Retrucou a mulher
- A programação inclui passeios, aventura, trilhas na serra, belíssimas flores, pássaros, cascatas, arvorismo, tirolesa. Quero mudar um pouco essa rotina de cadeirinha, protetor solar, cerveja de latinha, toalha cheia de areia. Estou cansado de ver as mesmas caras, as mesmas poses, as mesmas atitudes. Quero diversificar! Nas ultimas vezes só as gírias das crianças mudaram.
- Hum, não sei não. Pelo menos, a praia é diversão conhecida e garantida.
- Olha, trouxe um folheto para você ver. Talvez gostes. A cidadezinha parece interessante. Arquitetura colonial, antiquários, artesanato tradicional, confecções, moda, coisas do gênero. Vamos tentar?
- Vamos.
- Então você fala com a turma.
- Que foi que deu nele? Perguntou Cássio Murilo, o filho, quando Ernestina Maria das Graças Magalhães Leitão, bem cuidada ex-aluna de colégio de freiras, formada em sociologia pela PUC de São Paulo, freqüentadora de academia, praticante de Pillates e linda em seus 48 anos, comunicou o plano de viagem do pai.
- Hotel fazenda é coisa para velho. O que é que eu vou fazer lá? Ordenhar vacas? Tirar fotos com cavalinhos? Será que o pai não vê o nosso lado? O pessoal todo está na praia. As pessoas interessantes não vão para hotéis-fazenda. Que programa mais punk... E a gente como é que fica? Comentou Cecília Maria, a mais velha das filhas. Tomar chá com torradas servido por mucamas? Isso lá é programa?
- Vocês estão esquecendo duas coisas: Primeiro é a vontade do pai, que sempre faz todas as nossas. Nunca disse não. Vendeu o apartamento na praia, pois não mais estávamos aproveitando e vocês sabem bem da historia. Segundo: Ele quer conhecer, quer ver como é. Nunca sugeriu nada. É a vez dele, de quem sempre paga a conta! E que contas.
Acabaram-se os argumentos contra e agora era começar a preparar a viagem.
O tema da conversa durante a sobremesa foi o que levar na bagagem.
O casarão colonial com uma dúzia de janelas podia ser avistado desde a estrada, lá no fundão perto do horizonte. Uma curva para lá, outra para cá, a construção sumia e aparecia, emoldurada pela serra coberta pela luz de um céu de poucas nuvens. Chegando mais perto, as cercas caiadas de branco, mostravam os limites da propriedade. A primeira impressão era de um cartão postal. Tirando a arquitetura, a paisagem poderia ser confundida com o verão de um cantão suíço.
- Bom dia. Temos reserva.
- Bom dia! Sejam bem-vindos! Conforme o vosso pedido, as acomodações estão aqui no casarão.
A jovem recepcionista com roupas de senhorinha, sorridente e gentil, falava e gesticulava em rapapés figurando um estilo colonial. Aguardou uns instantes enquanto Antonio preenchia as fichas e concluiu, indicando com um gesto a direção da sala de visitas
- Convidamos todos a tomarem café.
- Esse pessoal recebia muita gente mesmo, comentou a filha do meio, Letícia, meneando os cabelos pintados de louro, e mostrando desdém com o recém-começado programa. Que sala de visitas enorme.
- É mesmo respondeu Antônio, sem esconder o entusiasmo e expectativa quanto ao programa.
- Bom dia!
Outra moça vestida de mucama cumprimentou reverenciando, enquanto mostrava a mesa redonda guarnecida por louças brancas sobre uma toalha rendada. Em seguida, um rapaz vestido com um libré, chegou empurrando um carrinho muito bem arranjado com pães, bolos, biscoitos caseiros, manteiga, mel, geleias coloridas, café e leite quente.
- Bom dia!
Novamente o cumprimento cordial e o serviço um pouco afetado, segundo comentou Ernestina, até então observadora muda e atenta.
As cinco mesas da sala de visitas, transformada num coffee-shop estilizado, estavam ocupadas por gente bonita, alegre e curiosa, muito diferente do que Cássio imaginara, ao saber que o programa do feriado prolongado fora mudado.
- Até que não está tão mal assim, murmurou entre os dentes, enquanto perscrutava todo o ambiente com olhar crítico e presunçoso.
- Então, o que estão achando? Perguntou Antonio, enquanto experimentava o pão ainda morno, com a manteiga produzida na fazenda.
- Vamos ver, não é? Por enquanto é tudo novidade. Esta gente fantasiada de novela das seis é um tanto bizarra, mas acho que vai dar para o gasto, respondeu Cassio.
- Eu estou gostando.
- Eu também. Responderam primeiro Letícia e depois Cecília, notando o desapontamento do pai com a resposta pouco gentil do irmão.
Estavam terminando, quando um outro funcionário vestido de fidalgo apareceu cumprimentando e iniciando uma descrição das facilidades e divertimentos que o hotel oferecia.
Entre passeios a cavalo, visita as instalações rurais, caminhadas nas trilhas na serra, o sarau das 20 horas e a ceia das 23, a piscina e o seu bar foram o que mais chamou a atenção da família.
Entreolharam-se cúmplices, sorriram discretamente e, sugeriram continuar o programa conhecendo aquela parte descrita pelo homem fantasiado de conde, como um verdadeiro jardim de delicias. Antonio, antevendo o lugar apenas como mais um palco para as caras e bocas praianas do qual pretendeu fugir, nada disse.
Os três apartamentos da ala direita do casarão eram confortáveis e adaptados à modernidade, com isolamentos térmicos e acústicos, teto rebaixado, banheiro confortável, TV., e todas facilidades de um hotel de qualidade. Definitivamente, não era um programa de roça tal como os três filhos haviam pensado.
Menos de uma hora após a chegada, as expectativas quanto ao aproveitamento do feriado prolongado tinham mudado substancialmente. Ninguém iria ordenhar vacas ou dar comida às galinhas. As pessoas avistadas não formavam um bando de velhinhos e velhinhas pré-caquéticas. Nesse aspecto Antonio estava redimido. O lugar e o programa tinham tudo para serem divertidos. Uma novidade a ser desfrutada.
Saíram dos apartamentos quase ao mesmo tempo, menos Antonio que ficou arrumando documentos e valores a colocar no pequeno cofre dentro do armário.
Ernestina, Cecília, Letícia e Cássio questionaram-se quanto à bagagem tão praiana, se o lugar sinalizava campo, montanha. O fato é que maiôs, sungas, chinelos bolsas e tudo que fosse necessário para uma temporada al mare foi colocado nas malas, juntamente com camisas de flanela, botas e roupas mais adequadas ao interior. Talvez por isso, o compartimento de carga da van ficara absolutamente entupido.
A porta do ultimo apartamento da mesma ala ocupada pela família estava entreaberta deixando ver uma escrivaninha antiga, igual ou quase, a que o avô de Antonio tinha ao fundo do escritório de sua primeira loja.
- A mesa do vovô! Exclamou em voz baixa, esticando o olhar lá para dentro.
A curiosidade o colocou no meio do cômodo. Havia de tudo. Uma vitrola de corda, duas bicicletas Philips empoeiradas e com pneus murchos, utensílios para a lida no campo, latões, ferros estranhos, canecas enormes, arreios.
Uma das estantes dividia pilhas de livros de registro com brinquedos antigos e o que mais chamou a sua atenção, a caixa de blocos de madeira para montar casas, com o rótulo escrito em alemão: Der Baukasten. Era igual a que herdara do pai que, por sua vez, ganhara do seu avô. Que coincidência! A escrivaninha e o brinquedo. Não resistiu a tentação e, no momento em que esticava os braços para abri-la e matar saudades, ouviu uma voz autoritária e forte cumprimentar:
- Bom dia Antonio! Traga para cá.
- Ande logo. Traga a caixa para cá, esta que você está querendo pegar.
O tremendo susto o trouxe de volta das recordações perdidas no fundo da memória.
- Vamos! O que está esperando? Traga a caixa para cá, não temos tempo a perder.
- Ah... Bom dia Sr. Não o vi chegar. Estava a caminho da piscina quando vi a porta aberta e aquele móvel igual ao do meu avô. Deu-me tanta saudade, sabe como é.
- Sei. Sei sim. Agora vamos. Deixe-me ajuda-lo com isso.
Antonio entregou a caixa de brinquedo ao desconhecido, observando atentamente os detalhes do seu trajar, desde a gravata até aos sapatos cuidadosamente lustrados.
- Mais uma personagem nessa historia, pensou em silêncio enquanto acompanhava os passos rápidos e firmes do estranho.
Atravessaram a recepção seguindo para as portas da entrada abertas em par, alcançando a varanda e a escada. Embaixo, o cocheiro e o palafreneiro aguardavam ao lado de uma carruagem fechada, com duas parelhas de cavalos. Antonio exultava com a escolha do programa. Parecia um parque temático americano: Todo mundo fantasiado, a decoração, o ambiente, a teatralidade.
Os sabores dos pães caseiros e da manteiga ainda permaneciam em sua boca. Pensava no que os outros estavam perdendo naquela pressa de ir para a piscina, passar protetor solar, fazer cara de paisagem, enfim repetir o programa de sempre, sem qualquer novidade.
- Suba! O criado ajuda. A voz de entonação imperativa, não conseguiu tirar o meio-sorriso de sua cara. Antonio, totalmente envolvido com as novidades, aboletou-se num dos assentos, enquanto o estranho sentava à sua frente, colocando a caixa e a bengala de castão de prata ao lado, apoiada no banco quase encostando ao seu pé. A porta foi fechada e o cocheiro pôs os cavalos em marcha. Olhava para fora dando conta não haver notado a fileira de casas de colonos ao lado da estradinha de terra de acesso ao casarão. Seria capaz de jurar, até aquele momento, que tudo era asfaltado e que... Bem, talvez não tivesse percebido, tão ansioso que estava em conhecer a Fazenda.
- Posso saber para onde vamos?
Perguntou sorridente, no exato momento em que o céu escurecia de pesadas nuvens, e o ruído dos trovões deslocava o ar sacudindo a carruagem. Não teve resposta. O estranho abaixou as cortinas das janelas, e olhando para ele ordenou:
- Segure-se!
Nem bem acabou a frase de alerta e um raio caiu bem na frente assustando os cavalos. Os gritos ininteligíveis do cocheiro misturavam-se ao barulho da tempestade.
Um susto enorme, forte cheiro de enxofre, a chuva entrando pelos vãos da janela da carruagem e Antonio começou achar a quantidade de efeitos especiais um pouco exagerada.
- Onde será que vai isso dar? Pensava desconfiado, recordando as atrações dos parques de Orlando. Aqui tudo estava muito mais sinistro.
A escuridão foi tomando o interior da carruagem e a sensação de que a luz evaporava e saia pelas frestas, começou a provocar desconforto.
- Senhor!
Senhor, estou passando mal. Quero sair. Pare, por favor.
Antonio procurava chamar a atenção do velho, falando e gesticulando nervoso e inseguro. Sentia a estrada descendo e continuava escutando o cocheiro gritar. Não se conteve mais e abriu a cortina da sua janela, constatando a escuridão do lado de fora,repleta de criaturas aladas fosforescentes, horríveis e ruidosas, sendo quebrada por relâmpagos. Os morcegos descomunais com caudas em forma de seta e olhos chamejantes rodeavam a carruagem de forma ameaçadora. A tremedeira começou pelos pés e um sofrimento atroz, junto com arrepios, foi subindo e tomando todo o corpo.
Mal terminaram o breve diálogo e o balançar frenético parou, dando lugar a um rodar macio e calmo. Agora a janela aberta mostrava um nevoeiro denso e claro, que se esgarçava um pouco menos que lentamente. Logo a paisagem se recompôs exibindo um cenário verdejante.
O velho bateu duas vezes com o castão da bengala no teto da carruagem, paralisada imediatamente pelo cocheiro.
- Ainda não acabou? Antonio não chegou a pronunciar o pensamento, respondido imediatamente pelo velho:
- Não. Não acabou. Estamos começando. Vamos descer.
- Estou satisfeito. È muito real. Perfeito. Não esperava tanto realismo. Estou surpreso com tanta tecnologia.
Desceram e o estranho voltou a tomar Antonio pelo braço, conduzindo-o em direção à porta do que parecia ser uma hospedaria do final do século 18.
- Vamos entrar.
- Sejam bem vindos! A mulher sorridente encaminhou-se na direção dos dois, falando e abrindo os braços numa saudação comum.
- Querem comer alguma coisa?
- Sim. Traga um pouco de vinho e o que tiver pronto, respondeu o velho sem consultar Antonio.
- Vamos descansar e seguir viagem.
- Eu não tenho fome. Vou almoçar lá no hotel com o meu pessoal.
- Então não coma. Vai perder uma chance de conhecer algo muito especial.
O velho encerrou a conversa, apontando onde ele deveria sentar-se. Uma cesta de frutas decorava a mesa indicada pela mulher que os recebera.
Olhando em volta Antonio percebeu a sala repleta de fisionomias conhecidas. Controlou o espanto, baixou os olhos, pensou um pouco, e voltou a observar enorme angústia provocada pela presença do velho no semblante de cada uma delas.
Era isso! Havia ali uma coleção de lembranças ruins, de pessoas más, aproveitadoras, covardes, desonestas e traidoras. Todas tinham feito algo de mal a Antonio!Um calafrio percorreu seu corpo e os olhos do velho, firmes e frios, olhavam no fundo dos seus como se indagassem o que fazer com elas.
Permaneceu em silêncio, encarando as lembranças, desapontamentos, desilusões, prejuízos, dores e tristezas. Depois de instantes, conseguiu achar o ponto de resposta e disse:
- Obrigado, não vou comer. Não tenho fome.
- Então beba, tome um gole.
- Não, obrigado. Não quero. Talvez água. Só água.
- Traga uma jarra d'água, ordenou o velho à mulher que aguardava ao lado.
Mais uma coisa, surreal e absurda, acontecia: O rotulo da caixa de brinquedos colocada sobre a mesa brilhava durante a breve conversa.
O velho abriu a caixa retirando um manual de instruções, semelhante a um fino caderno ilustrado, e entregou a Antônio.
- Dê uma olhada. É igual ao que você conhece, não é?
- É sim. Nem me lembrava mais disto.
- Vamos construir um castelo com essas peças mais escuras. Começaremos pela masmorra que fica na base, depois o salão nobre e as torres.
- Castelo? Masmorra? Construir uma prisão? Nunca fiz isso. Aqui ensina a fazer casas, sobrados, igreja, estação de trem.
Antonio estava confuso. Por um momento esquecera o passeio, o hotel temático, a família esperando no bar da piscina, o feriado prolongado.
- Na masmorra vamos prender os maus, no salão vamos escutar os bons e nas torres colocar os sonhos. Foi a resposta do velho, ao começar a retirar da caixa os primeiros blocos, arrumando e formando as paredes da base do castelo. Em seguida voltou a provocar Antonio:
- Aqui está! O calabouço: Quem é que vamos colocar aí dentro? Por quem começaremos?
- Desculpe, mas já estou um pouco velho para ficar brincando de construir castelos com blocos de madeira. Está acontecendo algo que não consigo entender e não estou gostando...Não vou colocar nada nem ninguém ai dentro. Não tenho tempo para ficar pensando em quem é mau, bom, ou coisas assim respondeu, mostrando surpresa e desagrado.
O velho levantou-se, e deixando as peças e a caixa aberta sobre a mesa, caminhou para a porta.
- Venha! Chamou Antonio já em pé e ansioso por deixar o lugar.
A carruagem não estava mais por ali e apenas algumas pessoas andavam de um lado para o outro, como se aguardassem a chegada de algum visitante.
Antonio começou a sentir o peso dos olhares da pequena multidão que se formou do lado de fora. deu uma olhada para trás, para dentro da hospedaria, e não viu mais ninguém. A sala estava completamente deserta, a mulher retirava as sobras da refeição do velho e caixa havia desaparecido.
A menina bem no centro do povo aglomerado, mostrava pesar e tristeza. Seus olhos doces e angustiados foram empurrando a memória até perceber que era a namoradinha dos tempos da adolescência. Prometera casamento, jurara amor eterno e ela acreditara em tudo, sem nenhuma duvida, sem desconfiança, cheia de amor. Ele fora embora sem dar notícia. Lembrou-se das filhas em desesperado silêncio:
- Meu Deus!
Era a vez de deparar-se com suas iniqüidades, patifarias, malandragens, golpes, traições, falcatruas, irresponsabilidade, egoísmo, vaidade.
Ao lado da mocinha outras mulheres, de tempos e idades diferentes, olhavam para ele com o mesmo ar de desapontamento e frustração. Ex-empregados pareciam querer entender algo fora das quitações e indenizações. E ali estavam vizinhos, parentes, conhecidos, amigos tentando obter uma explicação, um gesto, uma justificativa para um estrago qualquer provocado por ele. Não cobravam, mas eram credores. Não reclamavam, mas tinham sido prejudicados. Não choravam, mas mostravam desencanto, desapontamento, frustração, dor.
Antonio tentou caminhar em direção ao grupo, mas não teve forças. As pernas estavam pesadas, os braços não se moviam. Tentou falar e nada. A boca continuava entreaberta, seca e muda. Não tinha nenhuma ação. Mal conseguia enxergar o que se passava à sua frente. Num estupor infernal, notou o velho saindo da multidão, com a caixa debaixo de um dos braços e a bengala na outra mão. Mesmo assim não conseguiu sair do transe. Seus olhos suplicavam clemência, perdão. Sua fisionomia transmitia vergonha e arrependimento. Seu corpo tremia de medo, pavor, fraqueza e infelicidade.
As pessoas começaram a afastar-se, uma a uma saindo do seu campo de visão, virando a cara e tomando um rumo qualquer. O velho assistia a tudo, impávido, insensível, indiferente. Alguém trouxera uma cadeira onde ele sentou-se com a caixa por cima das pernas cruzadas. Assim ficou até que o ultimo individuo deu as costas e partiu. Antonio sentiu um enorme alivio.
O velho sorriu pela primeira vez e falou com a mesma firmeza de sempre:
- Vamos deixar o castelo para outro dia. As torres precisam ser mais bem planejadas.
Em seguida levantou-se e tomou Antonio pelo braço, tal como no começo, lá no corredor do hotel.
- Antonio o que houve? Maria Ernestina estava em pé no quarto, diante da cama onde ele parecia descansar da viagem.
Você veio aqui para dormir? Levanta daí, estamos te esperando e você aí deitado.
- Ah... Não sei. Recostei-me e... Sei lá. Peguei no sono. Não me lembro de nada. Faz muito tempo que estou dormindo?
- Uns dez minutos, talvez.
- Que coisa engraçada. Acho que sonhei. Lembrei da escrivaninha do vovô, aquela que está na garagem.
- Vamos, estão nos esperando.
Ao passar pela porta do ultimo apartamento da mesma ala, Antonio se deteve, tentou lembrar de algo, ficou ali por alguns instantes ao lado da mulher que nada entendia.
- Vamos! Não vais querer voltar e dormir de novo.

Uma empregada vestida de mucama passava, empurrando o carrinho de arrumadeira.
- Moça, por favor, o que é que tem nesse quarto?
- É o apartamento do Gerente.
- Ah, obrigado. Só curiosidade.
Do outro lado o velho, invisível por detrás de uma coluna, fazia anotações numa espécie de diário:
Antonio Gonçalves Ferreira Leitão - prorrogado por mais 10 anos.

Raul Almeida.

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Postado por Raul Almeida
26/4/2022 às 11h37

 
No Shopping

Outro dia errei o caminho de volta para casa propositadamente, e entrei no Shopping.
Fui caminhando, olhando para lá e para cá, parando aqui e ali, até que encontrei a tal praça bebível e mastigável. Optei pela extravagância de um cappuccino enorme, quase uma sopa, muito perfumado, saboroso e caro.
Sentado de frente para o vai e vem da moçada, fiquei observando os diversos clichês, modelitos, protótipos "fashion" , vários bípedes implumes, alguns em herméticos mundos com enormes umbigos, outros em pequenos grupos de excentricidades homogêneas, enfim um zoológico sem grades muito engraçado e bizarro.
Entre uma bicada e outra no super café, notei um casal de idades indefiníveis pelas aparências.No primeiro momento tive impressão de que já os tinha visto, mas algo estava fora do esquadro.Tinha certeza que a conhecia.Tentei lembrar de onde. Segui olhando discretamente,procurando não arrumar confusão com o sujeito de aspecto um tanto desagradável, beirando o tosco,com a barba por fazer,a cara suja dos inconfiáveis,dos falsos,dos que não têm amigos,muito diferente dela, elegante e com estilo, tresandando classe, charme e confiança. Já tinha visto o camarada algumas vezes, até bem de perto e agora me lembrava que, da última vez me deu um cartão de visitas.
-Talvez a idade esteja me arengando, disse aos meus botões
Com ela sempre foi diferente. Chegamos a conversar por horas. Encantadora, fluida como uma manequim de Dior, elegante como uma modelo de Saint Laurent, inteligente, fascinante e, agora ali com aquele cafajeste sinistro. Que coisa mais improvável.
Distraído, evitando encarar qualquer das criaturas, divaguei, procurando lembrar os seus nomes. Uma dupla assimétrica, destoante, anacrônica.
Senti um toque forte no ombro e, saindo da bobeira momentânea, percebi a mulher colocando duas cadeiras a minha frente e se aboletando junto com o companheiro.
Ela falou primeiro:
- Que bom te ver! Faz tempo que você não me liga!
Arregalei os olhos a boca ficou seca, procurei uma resposta e o homem começou:
- Estávamos lembrando de você e,olha só,ai sentadinho, tomando café, como se a vida fosse um mar de rosas.
Ela, imediatamente, intreferiu, colocando a mão delicadamente sobre os meus lábios e respondendo, elegantemente, ao bruto:
-Você não vai tira-lo de mim. Ele é fiel. Não vou deixar.
Respirei fundo e lembrei dos nomes dele e o dela, que, ultimamente, andava distante:
Sr.Fracasso e Dona Esperança.


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Postado por Raul Almeida
9/4/2022 às 11h36

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