Contubérnio Ideocrático, o Blog de Raul Almeida

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Terça-feira, 27/2/2018
Contubérnio Ideocrático, o Blog de Raul Almeida
Raul Almeida

 
O jogo dos tronos na versão brasileira

A saga Game of Thrones, tanto no formato de livro como na serie de TV e um fenômeno mundial de sucesso. A continuação esta sendo esperada para 2019. A conferir.

O controle dos sete reinos vai sendo disputado a ferro e fogo, mas o que fica muito evidente e a importância das intrigas, conchavos, conspirações e mutretas de toda espécie.

Os personagens vão se aliando ou delatando e matando sem piedade, pudor ou remorso. O importante e estar junto ao mais forte, ao mais valente, ao mais astuto, enfim ao que, em dado momento, demonstra estar com o controle, com o poder

A ambientação nos remete a idade media. A geografia, como de resto todo o cenário, nos leva a castelos europeus e a lugares próximos. Não vemos asiáticos nem africanos. E uma questão entre povos diferentes, mas facilmente identificáveis como europeus.

Sete reinos poderiam ser vinte e seis estados e um distrito federal
O império sobre todos eles poderia ser a presidência, e os governadores representariam cada povo, cada reinado.
A analogia e valida quando observada pelo viés das relações entre os nossos poderosos e seus entornos.

A delação, uma palavra para suavizar a soma da traição com a falsidade, revela informações, provas e testemunhos que, em algum momento, servirão de proteção ou mesmo de arma contra um atual amigo ou aliado, convertido em perigo, adversário ou inimigo.

A qualquer momento nos surpreendemos com o fato de que fulano gravou uma conversa particular com seu amigo sicrano a qual esta recheada de informações tenebrosas sobre negociatas, corrupção, manobras, conchavos, maquinações, diatribes, infâmias, enfim prato feito para qualquer jornal ou programa de noticias seja no radio ou na TV.

Um senador, um alto Quadro, um ex-importante ainda ativo, alguém que realmente possa desestabilizar um ou vários próceres, deixa “vazar”, ou divulga, um documento, uma gravação, faz um depoimento arrebentando com algum parceiro ou conhecido em negócios passados sempre escusos, infames, corruptos e/ou desonestos.

A gente acorda, vai aos cuidados, senta pra tomar o café e liga a TV ou o radio, abre o jornal e lá estão os figurantes do novo escândalo. Da nova delação, da mais recente traição, do novo caudal de patifarias reveladas...

Jogo Duro. Não adianta.
Hoje vidraça, amanhã pedra.
Assim e o ambiente onde politicos fazem o seu quotidiano,

Lembra bem o seriado da TV: Game of thones

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Postado por Raul Almeida
27/2/2018 às 12h18

 
Quando os verões acabam

Chega o tempo em que os verões acabam.

Não se trata de uma estação do ano, três meses de sol forte, chuvas fortes, sorrisos fortes, emoções fortes. Não.

O verão climático sinaliza a chegada das férias, da praia, das cores mais brilhantes, das roupas mais leves, da comida menos carregada, dos amores surpreendentes, das emoções e das travessuras. Vai repetir-se a cada ano, com maior ou menor intensidade para uns e para outros, cada qual no seu quadrado.

Os que podem muito, chegam a ter dois verões no mesmo ano. Vão nadar na Grécia, na costa Amalfitana, na Cote d’Azur, em Positano. Depois vão para o Caribe, para as ilhas do Pacifico, Chegam ate a ir para o Brasil.

A turma do meio vai para o nordeste, para Floripa, para o litoral sul de São Paulo, ou o norte do Rio. E vem argentino, vem chileno, vem americano, alemão.

O pessoal da geral vai para as praias das suas cidades, dos seus bairros, enfim, dentro do raio de ação do transporte publico e do bolso para o pastel ou o milho.

Na paralela um enorme contingente de trabalhadores sô nota que e verão por conta do aumento das vendas de cocos, refrescos, sorvetes de palito, cangas e chapéus de palha.
Tem a turma do sanduíche natural , do queijo de coalho, das batidas tenebrosas onde o amendoim reina soberano ou aquela caipirinha valha-me deus, onde a certeza do álcool liquida qualquer pretensão ou preocupação com a higiene.
São os marcadores do verão. Surgem e se multiplicam tal como desaparecem com o tempo ruim, baço e triste dos outros meses.

Os verões ao quais me refiro, se extinguem sem importar o mês ou o hemisfério.

O sol brilha la fora, mas a tristeza resplandece. A memória para o que interessa falha, e se agigantam saudades, culpas, e a solidão em si mesmo. Depois, o outono emocional perene continua, por mais que se tente abrir as cortinas das boas lembranças.

A realidade e cruel.Os verões não voltarão mais.

O brilho das alegrias sempre fica meio empoeirado com as verdades duras e frias da vida vivida. Os dias eventuais que se parecem com dias de verão, são escassos mas acontecerão trazendo alguma energia, um pouco do sabor e cheiro dos tempos dos infindáveis verões, de anos a fio, quando tudo parecia fácil, não havia erros, equívocos, culpas.
Tudo estava certo.
Tudo conduzia ao sucesso, a vitória, a paz de espírito, a verdade, ao bem.
Era assim mesmo, se por acaso, alguém ficasse despedaçado ou despedaçada pelo caminho, era parte do jogo, estava escrito.

So que não era verdade. Aquele imenso verão acabou.
Os êxitos se apequenaram diante das culpas, dos remorsos, das desilusões, das derrotas, dos equívocos.

O outono impiedoso segue mais longo do que seria provável, sinalizando o inverno tenebroso, que começa a ser esperado com alguma ansiedade.

Acabaram-se os verões.
Agora acontecem eventuais dias ou momentos com gosto e cara de verão. Não estão conseguindo enganar como o faziam há bem pouco tempo.

So resta a constatação um tanto cínica:

“Não se fazem mais verões como antigamente”

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Postado por Raul Almeida
27/1/2018 às 16h12

 
Feliz 2018

Passagem do ano.

Uma data, um registro, uma imposição de lembranças de todos tipos.

Quando éramos jovens, quando estávamos aflitos, quando sobrou muito de tudo. Quando faltou...

Aqui em Niterói o " réveillon" foi antecipado, escamoteado pelo horário de verão, ladrão do tempo real.

Alem, pelo mundo afora, a mesmice dos fogos, dos copos e taças, da obrigação de se mostrar feliz.

Antecipada ou não a virada do relógio tem a mágica de levar a ilusão de igualdade entre os miseráveis e os prósperos .
O espetáculo pirotécnico na praia de Icarai, é proporcionado por estranhas baterias de obuseiros de vários calibres, morteiros, metralhas e foguetes, que não levam morte nem medo.
É o lado gay, o lado drag, da pólvora, da dinamite, do tolueno em sua mensagem de extravagância e impertinência .
O barulho horrível chega perto, sacode as vidraças invadindo o ar, junto com o cheiro da fumaça quase sufocante.


Valeu! A fila andou!

Agora vamos esperar o carnaval, quando, novamente, teremos luzes, fogos, menos é claro, fantasias no lugar das roupas brancas, muitas risadas, bebidas, comidas e festa.
E, todos misturados seguiremos à frente da bateria ensurdecedora , delirando.
A opulência desfrutando, o barraco desmoronando...

Em vários cantos pelo mundo, seres humanos estarão fugindo com medo e horror, tentando sobreviver,ficar longe do barulho sinistro das baterias de morteiros e obuses militares.
Nada de novo.
A fila continuará a andar.

A ironia recomenda: Feliz ano novo!


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Postado por Raul Almeida
20/1/2018 às 13h31

 
O Peregrino

A criatura coberta com um casaco esfarrapado, uma trouxa de pano passando pelo ombro e um galho seco, seguro pela mão direita a guisa de cajado, provocou desconfiança e medo em tantos quantos a viram chegando pela principal rua da vila

Em poucos minutos, as crianças foram recolhidas, os velhos se aboletaram nas janelas , as mulheres procuraram esconder-se e os homens, divididos em valentões, comuns e covardes, ficaram pelas poucas esquinas e portas dos comércios, fazendo poses e tentando mostrar alguma determinação e hostilidade ao andarilho. Durou pouco aquele medo todo. A porta da igreja, aberta, reverteu toda a aflição em curiosidade e simpatia.
O estranho localizou a casa divina e, caminhando sem fixar os olhos em ninguém, caminhou diretamente para la.
BR> O trajeto não excedeu os 10 minutos, durante os quais a conversa no barbeiro de 2 cadeiras, uma para o dono e a outra para um segundo figaro que nunca chegou e sempre ficou vazia, mudou imediatamente. De assuntos gerais sobre colheitas, futebol, e incorreções entre uma senhora e seu matrimonio compartilhado com o dono da farmácia, para o estupor da chegada de um invasor. Pior, um miserável.

Logo na cidade orgulhosa pela ausência de mendigos e de pedintes.

Aquilo era insuportável. Se o sujeito estivesse pensando em ficar por ali, ah, seria varrido de alguma forma, para outro lugar. Para a próxima vila, para a beira da rodovia federal, para longe, bem longe.

A conversa no bar, tambem, mudou para o mesmo objetivo: impedir a permanência daquele nojo ambulante, daquele vagabundo sujo e maltrapilho mais do que o tempo necessário para um copo d’agua. Ali não iria ficar nem meia hora, bradava o filho de um tradicional morador, proprietário de uma fazendinha, na verdade, um sitio, bem pertinho da cidade.
O rapaz, grandão e falastrão, era visto como bom partido pelas solteiras, e pouco apreciado pelos pais das mesmas, por sua fama de violento e pretensioso.
Pudera, era um dos riquinhos, se e que ter duas dúzias de vacas leiteiras em produção, algumas parcelas em lavoura, pasto, pomar, transforma alguém em rico. Bem, naquele lugar, era.

Ao seu comentário irado, somaram-se outros.
Os amigos do falador, lavradores temporários esperando alguma oportunidade, enfim, velhos tão ou mais vagabundos que o desconhecido, foram acrescentando detalhes ao melhor modo de expulsar o intruso, caso ele manifestasse, de alguma forma, a vontade de permanecer na vila.

Os absurdos verbalizados, nem de longe pareciam sair da boca dos fervorosos cristãos de todo domingo, dos piedosos e solidários cidadãos que se reuniam, rapidamente, para desatolar a vaca de algum vizinho, fazer uma visita ao mais recente candidato a moribundo, enfim, gente que sempre procurou mostrar o arrependimento de qualquer eventual pecado, a caridade, a união pelas boas ações, tudo em conformidade aos sermões e palestras proferidas pelo vigário.

O Andarilho, sem claudicar, ou tremer, caminhou pela rua, fora das calçadas, seguindo em direção a igreja. Parou diante da porta, trocou o cajado de mão, persignou-se e entrou, caminhando ate a primeira fila de bancos. Ainda apoiado no cajado, ajoelhou-se, voltou a persignar-se moveu a cabeça para cima, e fixou os olhos no crucifixo centenário, começando a murmurar uma oração.

O pessoal do bar e do barbeiro chegou e ficou olhando, pelo lado de fora da igrejinha , acompanhando a atitude e movimentação do maltrapilho.
Poucos instantes depois, algumas velhotas, outras nem tanto, uma ou outra criança, foram se ajuntando aos que já estavam na porta, observando tudo.

A voz do homem era audível, mas as palavras incompreensíveis. O falatório estava na altura exata de ser percebido, mas não compreendido.

A curiosidade do povo, agora quase toda a vila, era enorme.

Alguém lembrou de chamar o padre. Não foi possível. Tinha saído cedo e a igreja estava por conta de uma das dedicadas senhoras da congregação. Escondida na sacristia atrás do altar, escutava e olhava por uma fresta, o que aquele mendigo estava fazendo em sua igreja, limpinha, varrida e espanada. Que angustia.

Não entendia o que ele dizia, mas via bem a sua cara barbuda, cavada e calma. Aos poucos simpatizou com a figura. Parecia um peregrino.
Sim! Um peregrino, rezando em latim. Um homem santo, alguém que não dava valor a coisas materiais e tinha um modo próprio de adorar ao Senhor.

Tão logo entendeu tratar-se de um peregrino, saiu pela porta de trás da igreja e foi contar a novidade as amigas. Ainda não sabia da comoção em toda cidade com a chegada do estranho. Logo que deu a volta na construção santa, percebeu o enorme aglomerado de gente. Aproximou-se e, em voz baixa, pediu silencio para não atrapalhar o peregrino.

-Peregrino? Como assim?

A piedosa congregada, foi recuando e trazendo consigo a populaça, reunida na porta de sua linda igreja, varrida e espanada com fervor.

-Ele esta rezando em latim. Que nem o papa! Ele olha pra deus, e parece que fala com ele!

-Mas, como e possível, um mendigo roto, com uma trouxa nas costas ser um peregrino, comentou um dos mais céticos e menos assíduos nas missas.

-E um peregrino sim! Eu conheço! Respondeu a piedosa,cuidadora da igreja.
-E sim! Algumas outras congregadas começaram a repetir, em voz mais alta, chamando a atenção do pessoal mais próximo a porta.

O contestador calou-se.
Num passe de mágica, o maldito, o miserável, o imundo, o invasor, fora transformado em fiel penitente.

O melhor estava por vir.

A cidade aglomerada na porta da igreja, foi entrando com cuidado, e se ajeitando nos bancos. Primeiro no fundo ate lotar, completamente, inclusive nas laterais como acontecia todos os domingos, deixando livre, apenas, o banco do peregrino, que permanecia orando, olhando para a imagem, parecendo desconhecer o que estava se passando.

Nem meia hora após sua chegada, e a vila quase toda, estava ali ao seu lado, em oração e respeito.

Em dado momento, o peregrino levantou-se e caminhou em direção ao altar. Apenas alguns passos, seis ou sete, deixando sua trouxa e o cajado, no caminho de acesso.

Um rumor de surpresa e espanto foi ouvido: Ohhh!

Ninguém saiu do lugar.

O peregrino ajoelhou-se bem perto do crucifixo e começou a rezar, em voz alta e, em línguagem comprensivel.

Fez a primeira e a segunda mais conhecidas preces , pedindo perdão para os pecados de todos que ali estavam, pedindo saúde, enfim a formula geral de solicitações e petições ao divino, concluindo com um sonoro amen.

Todos responderam: amen!

Então uma voz alta e diferente do peregrino ecoou na pequena igreja:

Bem aventurados aqueles que tem fé.
Bem aventurados aqueles que acreditam.
Bem aventurados os de bom coração.
Bem aventurados os que ajudam aos que precisam.
Bem aventurados os que dão, pois irão receber em dobro.

A imagem respondera as preces!

O homem era um santo!
Milagre! Milagre! Milagre!
Gloria! Gloria! Gloria! Gloria!

Uma gritaria formidável, um estupor, dois enfartes, vários desmaios, a choradeira e euforia tomaram conta do ambiente e o peregrino, tão logo a voz se calou, procurou a porta da sacristia, aquela que servira de esconderijo para a piedosa, saindo em seguida, pela outra, a dos fundos, voltando para a rua.

Abriu a sua trouxa, tirou uma caneca e um prato de alumínio, peças logo arrancadas e disputadas pelos moradores ávidos em lhe dar água e comida. Abençoou a todos quantos beijaram suas mãos.
Agradeceu as roupas limpas e os sapatos substitutos das velhas sandálias.
Fez a barba no barbeiro, tomou banho na casa a piedosa, não recusou a coleta feita em seu nome e apreciou a carona ate a rodoviária.

Uma hora depois da saída do ônibus em direção a capital, sentado na primeira fila, ao lado da janela, deu uma conferida na coleta, levantou e avisou ao motorista que iria descer antes, na primeira parada.

Ali mesmo na parada, conseguiu uma carona com um caminhoneiro.

Durante a viagem, contou um pouco de sua historia. Era ventríloquo. Trabalhava em circo e teatro. Gostava do que fazia. De vez em quando participava dos grandes espetáculos da semana santa.

Desceu em Brasília.


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Postado por Raul Almeida
17/1/2018 às 11h28

 
A sagrada liberdade e o divino direito

Nao existe maior bem do que a liberdade, não ha maior valor do que o direito. Acredito que todo mundo com mais de um neurônio, pode entender, aceitar e ate divulgar tal ideia.
A liberdade de ir e vir, a liberdade de contestar, a liberdade de viver em paz, a liberdade de tomar decisões e responder pelos resultados das mesmas. A liberdade que obriga ao respeito a liberdade do próximo.
O mesmo se da com o direito. O direito de ir e vir, o direito de contestar, o direito de escolher, o direito de assumir uma posição, um lado da questão, uma preferencia, o direito a proteção do estado, o direito a reclamar e o direito a se defender.

Quando uma pessoa no mais amplo e total exercício do seu direito e liberdade, viola o pactuado, o aceito com certo, o regido pela lei do Estado, portanto, a lei que os homens entenderam ser o melhor para reger a sociedade, escolhe algo que rompe com o combinado, o pactuado, o legal. O que todos entendem como necessário para o bem estar comum. A contrapartida tem que ser, nada mais nada menos que a aplicação da tal Lei Soberana, indiscutível, total, colegial, meia, e arquibancada.

Quem fuma maconha comete ilícito, quem fuma crack, idem, assim como que cheira ou se injeta com cocaína, morfina, heroína, e por ai vai.

As novas ferramentas do diabo, aquelas que modificam a realidade do momento vivido, estão se multiplicando a partir de fármacos e medicamentos. Ainda vem coisa por ai.
Assim, um maconheiro dentro da sua casa ou em algum lugar fechado consumindo maconha esta cometendo o mesmo ilícito do que se estivesse na rua, na praça, no clube, na praia... O cheirador idem.
Mas o cracudo não! Nao esta cometendo ilícito, não esta infringindo a lei, não esta violando o pacto principal da sociedade, a obediência as leis, de acordo com as ONGS e movimentos sociais que vão a rua defende-los.

Bem, se não estão cometendo ilícito por consumir crack, uma droga letal, ilegal e proibida, estão cometendo outros crimes bárbaros a saber: Criação de meios e facilidades para a proliferação de pragas e moléstias tais como: Sarna, piolho comum, carrapatos, phitirus pubis, o popular "chato", sífilis, aids, tuberculose... Tal como tem constatado as autoridades sanitárias que, eventualmente os examinam.
Alem de serem vetores de pragas e doenças, violam hábitos essenciais de higiene,de limpeza e de conduta social e urbana. Sim! Conduta! Promiscuidade também e ilegal!
E mais, ao obstruir calçadas e vias publicas, praças, logradouros, etc., novamente impedem que as pessoas normais exerçam o sagrado direito a liberdade de ir e vir. Atrapalham o direito das pessoas produzirem, de trabalharem, de conseguir emprego e renda, pois o comercio fecha, míngua, acaba nos locais onde a choldra viciada se reúne.
Pior. Para financiar suas delicias e devaneios, assaltam, roubam, furtam agridem e molestam pessoas normais, que não estão enlouquecidas voluntariamente, não estão infringindo, cometendo ilícitos ou crimes.
Nao da para entender a defesa do lixo, do chorume humano, da decadência, da desgraça enraizada e escolhida por alguns em detrimento de todos.

Os defensores das cracolândias, sob qualquer pretexto, são criminosos, são ordinariamente canalhas, são o pior dos lixos.Muito pior do que os cracudos que dizem defender, quando sabemos que fazem , apenas, oposição politica sistemática contra tudo e todos que querem por ordem nesse inferno.

Deveriam ser presos e responder por tamanha barbaridade.


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Postado por Raul Almeida
30/5/2017 às 11h24

 
Infinitamente infinito

Os primeiros momentos da manhã começaram a tinturar o céu com o azul entremeado de tons indefinidos, variando entre o rosa dos flamingos, o borgonha avinagrado do vinho dormido e o amarelo do sol, espiando ainda muito discretamente.

Ela acordou e foi saindo da cama, conferindo o horário no relógio embutido na moldura da Tv. Calçou os chinelos, moveu-se com absoluta discreção e cuidado evitando acordar o marido, espichado com a cara virada para cima, tranqüilo, arrumadinho na cama, como sempre ficava. Nunca foi de ficar se virando para um lado e para o outro. Apagava , ficava quieto depois que desligavam a TV. situada bem em frente a cama, sobre a cômoda de nove gavetas, jacarandá legitimo, herança de muitos anos, desde o tempo da bisavó.

Aquele relojinho eletrônico, com sua luz verde não apagava nunca. Acabou por mostrar-se de utilidade indiscutível. Quando havia remédio para tomar de seis em seis ou de quatro em quatro horas, no meio da noite, ele estava ali para a conferencia do horário. Os dois tinham a capacidade de acordar e tomar o medicamento sem que fosse preciso o uso de qualquer alarme. Bastava pensar firmemente na hora da próxima pílula e, pronto, acontecia. O relógio confirmava o acerto. Bem, às vezes não dava muito certo, mas meia hora pra lá ou para cá, não fazia grande diferença no entender do casal.

Deu mais uma olhada no companheiro, aproveitando o fiapo de luz que escapava para dentro do quarto, escorregando num canto onde a cortina ficava afastada alguns centímetros da parede. Lá fora a claridade aumentava rapidamente. Desde que acordou ate agora, o quarto foi ficando claro o suficiente para não precisar acender o abajur.

Foi para o banheiro tomar os cuidados de sempre. Escovar os cabelos curtos e prateados após limpar os dentes, colocar as próteses ate ali afogadas na solução de bicarbonato de sódio, piscar, repetidamente os olhos, fitar-se profundamente, tentando ver melhor o que o espelho teimava mostrar sem pena: A ação do tempo sobre a fisionomia. As linhas de expressão transmutadas em finas rugas, as marcas em torno dos olhos, as pupilas denunciando a catarata, os lábios sem o viço antigo, o pescoço.

- Arre, o tempo não da folga. Estou velha, murmurou consigo mesma.Em seguida foi preparar o café matinal, rotina que alternava com o marido.

Enquanto arrumava o suporte para o coador de flanela pensava na vida, nas centenas de cafés da manhã divididos com ele, o esposo amado.

Um arrumava a mesa, e o outro fazia o resto. A leiteira no fogão sendo cuidada para não ferver e entornar, a cesta com o pão de dieta, as torradas eventuais, a manteiga sem sal, a geléia do gosto mais dela do que dele, o eventual omelete de um ovo sô, na verdade um mexido mal acabado.

Sorriu, lembrando das ocasiões em que transbordavam de alegria por qualquer motivo. Eram jovens, estavam começando a caminhada juntos.

Cerrou o cenho lembrando os momentos de apreensão e angustia, quando ele perdeu um promissor emprego, depois quando ela adoeceu de repente e mais tarde quando nasceu o primeiro filho dos três que tiveram.

A pratica matinal consumiu pouco mais de um quarto de hora na preparação da primeira refeição. Conferiu tudo: A posição do material, as xícaras, pratos, talheres, comidinhas, água, e os remédios.

Abriu a janela puxando a alavanca que movimentava as três peças de vidro que a compunham, deu uma olhada sem ver nada no lado de fora, imaginado o bom tempo que a luminosidade daquela manha estava sinalizando.

Pegou a cadeira, afastando-a da mesa para poder sentar-se.

- Que estranho! Ele ainda não acordou, não fez nenhum barulho, não tossiu nem pigarreou, nem foi ao banheiro! Esta velho mesmo... Dorme, dorme, dorme.
Vou apagar o fogo do leite e descansar mais um pouquinho também, voltou aresmungar colocando a cadeira no lugar.

Começar a fazer o café e depois voltar para dormir mais um pouco era um costume que os dois tinham de longa data. Na maior parte das vezes levantavam juntos. Um habito com peculiaridades.

Conforme o aperto, um ia lavar o rosto primeiro enquanto o outro aliviava os momentos chamados de “necessidades”. Faziam troça com a coincidência. Mas não era nada de mais. Comiam nas mesmas horas, bebiam água ou sucos, igualmente juntos, enfim, só o banho e que um esperava o outro terminar.

Outra peculiaridade era destrancar a porta de entrada, logo que o primeiro acordasse. Assim, não precisavam pular da cama quando a ajudante chegasse. Ela era pontual e as oito horas da manha, metia a mão na porta, entrava pe ante pe, e ia trocar de roupa. Já vinha de café tomado, mas uma xícara daquele perfumado café mineiro, coado a moda antiga sempre era filada.

Ela voltou para o quarto, agora bem claro, deu uma ajeitada na cortina buscando alguma penumbra, sentou-se, descalçou os chinelos e aboletou-se do lado do dorminhoco. Pouco tempo depois procurou a mão do companheiro estendida ao lado do corpo em repouso, enquanto a outra restava sobre o peito.

Não houve a habitual resposta, o acolhimento entrelaçando os dedos. Ela insistiu, notando a temperatura fora do habitual, muito mais fria. Alem do mais, estava flácida, sem consistência.

Não teve tempo para manifestar qualquer reação.

O marido sorridente exclamou com surpresa: Você também veio! E abraçando-a com ternura, beijou-lhe a testa soltando o abraço e mantendo as mãos dadas.

- Vamos, olha so que coisa maravilhosa! Que céu! Que azul mais delicado. Não sei como descrever, se e escuro ou claro! E quantas estrelas, que coisa mais linda.

Enquanto falava, percebia que o espaço estava coalhado de pontos de luz, semelhantes as estrelas mais distantes, que se fundiam uns com os outros, afastando-se e crescendo cada vez mais, ao mesmo tempo em que ganhavam o espaço.

-Que lindo, que suave, que cheiro bom.
-Aroma, e aroma que se diz, corrigiu a senhora.
=Tão suave, delicado, parece que estamos no céu...
Enquanto falavam e observavam os entornos, nem se deram conta de que também estavam sublimando, transformando-se em pontos luminosos ao mesmo tempo em que se fundiam um ao outro. Em pouco tempo já estavam completamente integrados e brilhando em meio aos outros pontos. Em breve iriam participar daquela reação magistral, e formar uma nova estrela.

A empregada chegou, abriu a porta, deu uma olhada no quarto do casal, olhando pela fresta da porta, hoje encostada, diferente dos outros dias em que ficava fechada. Parou para fixar a vista, desconfiou e entrou.

Voltou para a sala, pegou o caderno de telefones e procurou um numero especifico , assinalado com o destaque: Em caso de emergência, ligar para este numero.

Foi para a cozinha, encheu a xícara com o café já coado e morno, pegou uma fatia do pão de dieta, marrom, meio duro, passou manteiga e ficou esperando alguém da família.

RA.

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Postado por Raul Almeida
25/5/2017 às 20h24

 
O encontro improvavel

O executivo de altíssimo nível esperou ate que sua entrada fosse aceita na sede de seu principal concorrente. E demorou um bocado ate a liberação e ordem de leva-lo imediatamente, a presença do Presidente do Conselho .

Já tinha trabalhado ali por muito tempo, frações de eternidade a bem da verdade.

Nada mudou.

Enquanto caminhava observa tudo em volta. A sobriedade tranqüila das cores dos corredores, os uniformes do mesmo pessoal que ele conhecera em outros tempos, o formato dos portais e portas.

Enfim o carpete sempre com a cara de novíssimo, repleto dos sons de passos, sussurros, comentários discretos, sorrisos e gestos cordiais e suaves, entre seus usuários.

Seguia caminhando e constatando a imensa monotonia. O muzak fluindo pelo espaço,repetindo os mesmos temas imperceptíveis aos ouvidos acostumados, e levemente sugestivos aos poucos novos funcionários.

Estava no centro das decisões. Dali partiam todas as diretrizes, todas as idéias, todos os projetos, todas as reformas e demolições.

Vencida a ultima barreira de verificações e validações do passe e do crachá provisório, o portal descomunal abriu-se lentamente. A curiosidade esbarrou no enorme biombo de refinado trabalho artístico, mal deixando perceber o formato circular do ambiente que protegia.

Que pena... Não se conseguia ver nada, muito menos o chefão, o todo poderoso. A luz escapava por cima e pelos lados do biombo sinalizando a distancia entre aquele trambolho, o grande executivo e a porta. A intensidade era colossal.

-Muito bem. Você por aqui.

Aproxime-se. O que o traz ? Não poderia usar os canais usuais para suas mensagens e sinais? Qual e a razão para quer ver-me? O que esta acontecendo?

-Vim pedir sua ajuda, vim pedir um ar, um fôlego, um pouco de paz...

-Você pedindo fôlego? Vamos la.

Bem, depois que o Italiano comentou as principais características do meu estabelecimento, a propriedade que o sr. me deu, o movimento turístico ficou equilibrado. Os passageiros chegavam, ficavam um tempo, alguns pediam visa permanente, enfim, aprendiam as artes, ofícios, profissões da região montavam suas lojas, seus clubes e, as coisas iam correndo bem, como sempre.

De um tempo para cá, não estamos mais dando conta da demanda. A publicidade, que já foi nossa aliada principal, agora esta criando um problema atrás do outro.

-Como assim? Estas perdendo a forca? Sempre se gabou de ser velho, sabido, poderoso...

-Deixa disso... A coisa esta complicada. De um dia para o outro, as requisições para troca de destino no momento do embarque, estão causando um problema danado. A gente esta com um problema absurdo, inimaginável, angustiante.

-Já fui avisado do fenômeno, mas o que e que publicidade tem a ver?

-Esta todo mundo falando que aqui não acontece mais nada... As canções são as mesmas, a comida não melhorou nadinha, as roupas são absolutamente sem graça, a paisagem monótona, enfim a programação de lazer e uma lastima. Em contrapartida, la na firma, estão todos os que sempre fizeram a vida ser mais fácil de aguentar.

Os músicos, artistas, funcionarias da alegria, mágicos, prestidigitadores, jogadores, valentões, inteligentes, inteligentíssimos, vigaristas, criaturas estranhas, tudo. Absolutamente tudo que e ilegal, imoral ou engorda, alem de ser divertido, colorido, cheiroso, bonito. Esta tudo conosco.

-O que?

-Pois e. Tudo culpa da propaganda que, a bem da verdade, não e enganosa. Esse pessoal tem residência, não precisa de visa. Chega, sai, vai, volta, e sempre de bom humor, com novas idéias, novas drogas, novas comidinhas, novas ambições.

-Mas e os castigos? Os flagelos, as pragas e martírios?

-Ah... So para pobre.

Pobre adora o céu. Quer pagar a conta e subir tocando harpa

Mesmo os que são pobres mas tem projeto trocam de portão, e entram correndo no nosso. Os caras são sádicos, masoquistas, tarados, loucos de pedra, e tudo com cara de santo, de normal... Vão chegando, tentando pular a catraca. Mostram passaportes falsos, querem subornar todo mundo. Começam pedindo um trago, uma musica, um bagulho, um rango apimentado.

E os tais políticos então... Já montaram sindicatos. Passam o tempo fazendo apenas intrigas,acordos,conchavos com os demônios mais antigos. E promessas de aumento para o pessoal das fornalhas, organizam passeatas, quebradeiras que jogam lava pra todo lado, embaraçam as cordas para enforcados, amarram os chicotes, entopem os esgotos. Arrancam os fios da iluminação e das caldeiras para vender no ferro velho de Vulcano. Arrebentam o calçamento.

Querem mudar a nossa organização, o inferno, para acochambrar os amigos, os correligionários, os cupinchas que estão para chegar.

-Preciso de sua ajuda Mestre.Imploro.

-Tudo bem, vamos ver se achamos alguém para ser um novo Noah. Ai mandamos um novo diluvio, damos uma nova zerada na fatura e começamos novamente.

Agora va.
E, nada de querer ocupar os terrenos no purgatório ,montar acampamentos provisórios, etc com a desculpa de falta de lugar Por enquanto vai ficar como esta. RA

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Postado por Raul Almeida
21/3/2017 às 15h36

 
Eugenia e Sofia

A tarde de brumas e nevoeiros observada pelo janelão do apartamento, deu a impressão de que o céu apropriou-se da cidade levando a vida para seus invisíveis domínios. Agora estava tudo dentro de uma nuvem. Conforme o ponto de vista, humor, estado de espírito, sei lá, de cada um, tal condição poderia se vista como boa, neutra ou sinistra. Alguém poderia imaginar-se morto ou morta esperando o tal carro que recolhe os que já eram. Outros nem notariam o que estava acontecendo. Afinal um nevoeiro, um véu de brumas, apenas um fenômeno meteorológico corriqueiro e sem graça. Os românticos imaginariam o prenuncio de um sol quente e risonho dando brilho a vegetação, umedecida por gotículas de orvalho, refletindo diamantes de luz...

Eugenia meneou a cabeça escovando os cabelos macios, enquanto se gostava mais um pouco em frente ao espelho. Sorriu para si mesma em discretos movimentos labiais cheios de sensualidade, conferiu a pele, deslizando as mãos por todo o comprimento de cada um dos braços, admirou o colo sem farturas ou timidez, deixando o olhar derramar-se pelo fim do próprio corpo, virando-se em seguida, para contemplar seu reves na cumplicidade do espelho.

Em seguida vestiu o pegnoir de vapor de seda tão fino que era, adcionando-se levíssimo tom de encabulado azul, cor certa para destacar o dourado de seus cabelos e pelos sedosos, discretos, inocentes em pequenos caracóis quase ocultos pela admirável anatomia.

A liturgia dos cuidados de Eugenia, repetida sem nenhuma alteração ao longo de toda sua existência, nunca representou monotonia. Renovada na certeza do bom propósito do seu viver, jamais deu atenção aos críticos e invejosos, esvaziando apenas com um olhar suave e indulgente, todas as raríssimas ocasiões em que percebeu algum traço de descontentamento com sua presença. Inteligente, intuitiva, astuta, sagaz e consciente, sempre antecipou o desagradável, e não caiu em nenhuma armadilha.

Evento, festa, exposição, comemoração, projeto, plano, enfim, não rejeitava nada. Mas o objetivo de cada acontecimento para o qual fosse convidada era rigorosamente esmiuçado. Alguns bem intencionados, mas sem futuro, eram descartados com especial elegância. Mais ate do que os aceitos. Pudera, Eugenia era a figura que as mais conhecidas personagens em todos os setores da vida, faziam questão de ter por perto.

Concluiu o ritual, deixando-se envolver por gotas do fugaz aroma de felicidade, antes contido no frasco de um exclusivíssimo perfume.

A brisa consistente foi esfumando o nevoeiro para que a noite pudesse instalar suas expectativas. O escuro vencendo a penumbra do entardecer ativou instintos, liberou vontades, incitou desejos, compondo o cenário de predileção para o brilhar de Eugenia.

O lado bom da noite.

Mais abaixo, exatamente dois andares, Sofia saiu do banho ficando momentaneamente nua, a escorrer o fim das próprias águas pelo corpo firme e cuidado ate o limite da saúde. Sem imperfeições nem grandes detalhes.

Cabelos fartos, escuros, ondulados, brilhantes e incisivos, ornando a fisionomia ponderada, simétrica, pouco marcada por levíssimos traços de expressão. Um pescoço bem torneado, ombros e braços ladeando o tronco guarnecido por belos seios redondos, sérios, mais para figura renascentista do que pin-up de borracharia dos tempos passados. O ventre de mulher comum, quase escondendo de si mesma a virilha espalhafatosa pela prodigalidade da cabeleira pubiana, e finalmente, coxas e pernas concedendo a necessária harmonia para que o porte, a estatura, enfim o corpo inteiro permaneçam em confortável estética.

Mesmo não sendo um modelo de beleza, precisaria querer para ficar só.

Em mística sintonia, terminaram suas toilletes no mesmo segundo em que seus telefones insiram em tilintar, cada um com o seu ring tone: Eugenia com acordes de harpa, Sofia com o mais tradicional dos telefones de mesa. Não era por nada, mas preferia identificar o som do seu aparelho com aquilo que representasse a verdadeira personalidade do objeto. Cada coisa.

As chamadas para Eugenia e para Sofia partiram de pontos diferentes e mesmo objetivo, a confirmação da presença em um mesmo evento.

Aceitaram sem argumentar.

Faltou dizer que se conheciam de longa data. Mas quando Sofia era induzida a sair fora, Eugenia nem se dava ao trabalho de acenar, conceder um daqueles maravilhosos sorrisos. Pior, chegava a desdenhar da outra. E a recíproca sempre se fez presente.

Apagaram as luzes de seus confortáveis apartamentos, conferiram, pela ultima vez, o conteúdo das trousses, desceram para a garage e deram partida em seus automóveis. Eugenia no modelo esporte de sóbria marca alemã. Sofia no discreto multiuso não menos sofisticado, de outra montadora.

Finalmente, a inauguração do Grand Hotel.

O noticiário econômico alardeou por meses a importância daquele novíssimo e imponente equipamento turístico, fruto de investimentos e idealismo sem precedentes de um jovem empresário.

O mesmo fez a crônica mundana, ampliando a expectativa quanto as novidades do projeto em seus vários salões de eventos, diversos bares ambientados em distintos cenários e restaurantes de todos os níveis, desde o mais frugal e informal ate a uma franquia exclusiva de um Chef parisiense, multiestrelado, sofisticado e caríssimo.

Os detalhes dos apartamentos, suítes e aposentos especiais para altíssimas titulagens, provocaram a imaginação dos mortais comuns, atentos a quaisquer detalhes dos falsos mistérios produzidos pelo marketing, os tais teasers. Assim, os metais dourados de grande qualidade, diga-se de passagem, apareceram como verdadeiros tesouros.

-As torneiras da suíte do presidente são de ouro maciço, comentava-se na televisão.

-A segurança foi toda planejada por uma empresa ligada ao exercito de Israel, aumentavam os mais deslumbrados.

A verdade estava um pouco longe. Moderno, eficaz, elegante, luxuoso e, sem duvida, seguro e protegido. Um belo hotel, não uma presepada bilionária.

As providencias tomadas para o êxito da festa, incluíram o fechamento de algumas ruas no entorno do prédio, a instalação de projetores de luz, para lamber a fachada e invadir o infinito, a posição dos veículos para transmissão da chegada das autoridades, estrelas das artes, personagens do jet set, enfim, dezenas de manobristas-motoristas, pessoal engalanado e de luvas brancas abrindo portas e fazendo mesuras, fotógrafos, repórteres , guarda de honra, tudo devidamente previsto, identificado, marcado e esperado com ansiedade.

Os jornalistas e suas equipes, quase todos cronistas especializados em amenidades, não deixaram escapar a chegada triunfal de Eugenia.A um sinal que só eles conheciam, colocaram-se em frente à porta dando enorme trabalho ao pessoal dos ternos pretos, impedido de usar de argumentos físicos um tanto mais acentuados, para conter os curiosos e permitir o acesso dos eleitos.

Eugenia abriu a porta do cintilante automóvel, e numa coreografia exclusiva, lançou para fora uma das pernas, depois a outra, esticando a mão em gesto delicado para o amparo de uma luva branca calçada em mão comum. Retribuiu a mesura com diáfano sorriso e, sem notar o olhar suplicante do funcionário, acenou para os fotógrafos, escutando a gritaria do contubernio humano contido nas barreiras e cordões de isolamento, ficando de pe, para melhor desfrutar da estrondosa recepção, insistindo em mais acenos, curtos e discretos.

Sofia fez a curva, reduzindo ao maximo a velocidade de seu confortável e elegante SUV e parou no mesmo lugar aonde, momentos antes, Eugenia desembarcou. Esperou o segundo necessário para o funcionário alcançar a maçaneta do carro e abrir a porta, movendo-se para fora com elegância e recato.

Os fotógrafos e repórteres mantiveram a mesma sofreguidão por um bom ângulo ou uma palavra qualquer da convidada, mas os seguranças, novamente, evitaram as entrevistas, desimpedindo o caminho.

Dentro do prédio, um ambiente fervilhante. Grupos disseminados por toda parte, com seus membros bem pertinho uns dos outros, fechados em mundos tão distantes como financistas ou artistas de palco, grandes empresários ou esportistas profissionais. Todos de primeira linha, mas cada um no seu quadrado, sorridentes em terceiras dentições divinas, porcelanadas. Velhotes com implantes capilares perfeitos, políticos com tinturas bizarras, senhoras com emboços e rebocos magníficos e mais brilho em sorrisos tão falsos quanto os dentes.

Nos vazios dos grupos mais importantes a segunda e terceira linha de convidados, a massa de manobra bem vestida, pululava tentando a melhor posição possível para ser notada. Formada por modelos masculinos e femininos exibindo alta moda, burgueses com boas amizades em seus ternos de bons tecidos, sapatos reconhecidos pelo solado carmim, enfim, perucas, jóias verdadeiras, bijoux, u’a miríade de alpinistas sociais atritando corpos, cercando intelectuais provectos e deslumbrados em suas proprias importâncias.

Um numero incontável de órfãos sem turma, outros tantos iniciantes na carreira de arroz de festa, no caso de altíssimo nível, atravancando-se e buscando situar-se, com trejeitos, meneios e olhares perdidos em horizontes imaginários. As conhecidas caras de paisagem.

Enfim, uma festa de verdade.

Quando o perfume inimitável e super exclusivo de Eugenia impregnou a atmosfera com suavidade, as cabeças com e sem coroas, implantes, perucas e penteados voltaram-se como num comando militar. Ordem unida seria a palavra mais certa. Um murmúrio de admiração fremiu com suavidade.

Ao fundo, no palco montado com elegância, a orquestra de 52 musicos-professores ensaiada a exaustão, e com o timbre certo para aquele tipo de encontro de celebridades, cortou, em semicolcheia, o que estava tocando e atacou o tema do filme Misty. Não se sabe se por homenagem ou ironia, já que a personagem vivida por Audrey Hepburn, não seria uma referencia muito gentil a convidada. Mas, a musica inebriante, elegante, sofisticada, e agradável mereceu o aceno discreto da recém chegada.

Ao notar Sofia, o maestro sorriu, piscou o olho e dedicou outra melodia, não menos agradável e elegante : What are you doing for the rest of your life... Instintivamente, Sofia foi sendo envolvida pelos pequenos grupos de grandes empresários.

Os banqueiros, de quem sempre foi predileção, aumentaram o tamanho dos raros e sóbrios sorrisos, afastando-se em ritual, a esperar pela suave e incisiva palavra de abertura de conversa, proferida pela fascinante Sofia.

Não era para menos. Mais informada do que muitos departamentos de analise econômica de todos os conglomerados, redes e banqueiros independentes ali presentes, não iria surpreender. Apenas aguçar as mentes mais privilegiadas, provocar os mais afoitos, desdenhar dos arrivistas e oportunistas temporariamente poderosos, ate trocar de grupo de influentes e dirigentes de alto coturno, bem próximos e ansiosos por seus vaticínios... Sofia era quase invisível para a maior parte dos presentes.

Eugenia flutuava e desaparecia nas escorregadias e mudas risadas reveladoras dos mais luminosos dentes, encaixados na sua boca estonteante e sedutora. Todo o conjunto de admiradores se entremeava e serpenteava tal e qual um formigueiro a sua volta. A fina flor do babado chic e inconseqüente, formado por estilistas, modistas, artistas de vários matizes, protopensadores hiper indulgentes com tudo que fosse loucura, jovens empresários audaciosos e destemidos, enfim, alegria ciclopica.

O gerador daquele total deslumbramento tinha um belo nome, uma estampa admirável, um carisma fulminante, uma capacidade de levar qualquer um ao descontrole, inocente descompostura, e a perda de noção da realidade.Era muito bom estar o mais próximo possível de Eugenia.

Cerca de uma hora antes, a inauguração propriamente dita tinha acontecido sob acordes de banda de musica e a presença de autoridades de todos os poderes, desde a turma do turismo com o seu ministro, ate ao bispo e seus paramentos eclesiásticos de impressionante cor púrpura. Magistrados, militares de alta patente, personalidades do corpo diplomático, e mais o creme de la creme da sociedade rica e famosa, formaram o primeiro pelotão liderado pelo empresário e o prefeito, cuja mulher cortou a redundante fita.

O costume de chegar um pouco mais tarde, não era exclusividade das duas. Algumas figuras em seus melhores momentos, sempre se valeram de tal expediente buscando atenção e foco.

Batalhões de cozinheiros, ajudantes, confeiteiros, arrumadores, e serventes, garçons, maitres, chefes e gerentes movimentando-se rapidamente, por todos os lados, mantinham os copos cheios e os buffets repletos de iguarias finamente adornadas.

Eugenia e sua flute sempre cheia dava a impressão de nunca beber um gole, assim como Sofia e seu parfait sem álcool, quase invisível tal a elegância de seus modos.

(continua)

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Postado por Raul Almeida
4/3/2017 às 15h14

 
24 de Agosto, um dia na recente historia do Brasil

Hoje, 24 de agosto e aniversario do suicídio de Getúlio Vargas, Com ele se foi a ideia do trabalhismo original.Os herdeiros de Vargas desfiguraram uma das vertentes do fascismo brasileiro. A outra era o Integralismo do Plinio Salgado e o seu anauë, saudação caricata, 'a moda hitleriana.

Vargas fortaleceu os sindicatos, mantendo o seu controle, abusou do nacionalismo ao ponto de, ate, prestigiar um substituto para o Papai Noel, o Vovô Indio, mas isso e outra conversa.

Negociou a CSN com os americanos em troca da construção da base militar de Natal, usada pelos gringos durante a segunda guerra e parcialmente desmantelada, para ser entregue aos brasileiros.

Foi um ditador cruel e impiedoso...Depois de ser deposto pelo General Dutra, o carola,em 1945, voltou nos braços do povo com a alcunha de Bom velhinho. Durante seu domínio, foram criadas leis importantes como a CLT copiada do fascismo italiano pelo Dr. Marcondes Filho, seu ministro. Estabeleceu o salario mínimo, e criou a Policia Politica, a Policia Especial, o SAPS que. em versão moderna, tomou o nome de: Restaurantes Populares.

Risonho, simpatico, sempre com um bom puro entre os dedos, distribuía sorrisos e deixava para o Filinto Muller, que morreu torrado num acidente de avião muitos anos depois, (1973) a tarefa de torturar seus maiores inimigos: Os comunistas e integralistas. A historia conta que o choque elétrico poderia ser considerado caricia, entra as varias formas de truculências e barbaridades praticadas pelos empregados do bom velhinho GeGë, alcunha suave para a doce figura do caudilho, que distribuía simpatia e fala mansa. Em 1950,cinco anos depois de sua defenestragem, voltou nos braços do povo, eleito com absurda vantagem.

Cercado dos mesmos corruptos e ordinários, cujas dinastias seguem por ai, foi perseguido pelos adversários, igualmente politicos, com diversos matizes de caráter O Jornalista Carlos Frederico Werneck de Lacerda, de lingua ferina, pena ligeira e coragem para peitar a fachada mentirosa de um governo populista e cheio de mutretas, foi alvejado por capangas da "guarda pessoal" de Vargas. A empreitada falhou, o escândalo mobilizou o pais e Vargas se matou.

R.I.P Vargas. Poucos, mas bons acertos. O resto a historia se encarrega de encobrir.



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Postado por Raul Almeida
24/8/2016 às 11h26

 
Na minha opinião...

A frase sequer começou e, numa espécie de sincope mental, terminou dentro da própria cabeça, sem qualquer sentido.

A percepção de que não havia necessidade de dizer nada, absolutamente nada, confirmou a certeza já adquirida, de que ninguém se importava com suas idéias, experiências ou sentimentos.

Nada.

Ninguém estava prestando atenção a ele sentado ali, opaco, semi silente, fora do contexto, do momento e da realidade daquele grupo. Estava cumprindo tabela, como se diz.

Fazia parte de uma desejada ausência que, por força das circunstancias, estava adiada: Um aniversario em família. Um encontro de gerações, uma convergência de antagonismos discretos e tolerados. Uma farsa social.

Mais uma risada, mais uma frase com sentido impreciso, mais um deboche sem endereço certo e ele procurava intensificar sua invisibilidade.

-Obrigado, estou satisfeito.

-Não, não bebo mais tanto assim...

-Pode me passar a jarra com água?

A conversa, entrecortada de risadas, afirmações em voz mais alta, varias sons ao mesmo tempo e os ruídos de talheres, louças, copos e taças, mal conseguia penetrar a angustia de estar ali.

Faltava pouco para terminar o encontro quando a pessoa que fazia aniversario começou a distribuir os pedaços do bolo e nomear cada um dos agraciados com o doce.

O primeiro foi marido, depois a mãe, depois um parente distante, em seguida a mais jovem presente, e a seguir uns e outros entre filhos e assemelhados, ate que todos estavam com seus quinhões.

Uma distração, um breve momento e foi lembrado.

- Um pedaço especial.sei que você gosta!

-Obrigado, agora não, estou muito satisfeito e evitando açúcar, sabe como e, a idade, essas coisas...

-Oh, você gosta! Toma ai!

-Não obrigado. Fica para outra vez.

Em seguida pediu licença levantando-se da cadeira com a desculpa de ir aos cuidados. Entrou no banheiro, olhou-se no espelho, tentou conter o choro, mas não deu.

Esperou um pouco, lavou-se, esfregou bem os olhos, levantou a cabeça e voltou para recusar o café, o licor, o bombom e os sorrisos de “vai que já esta tarde”.

Ficou por ali mais um tempinho, pensando e voltando ao passado em acelerada viagem. Devolveu os sorrisos pendurados nas bocas desrespeitosas, desejou saúde e prosperidade a aniversariante, estendendo a firula verbal a todos os presentes e foi embora.

Não representava uma herança, um legado, uma caixa de jóias, quem sabe um pecúlio. Não tinha nada. Não valia nada que se pudesse trocar. Ao contrario, dava despesa e preocupação.

Era chato, tinha opinião, era falastrão, contava historias que ninguém queria escutar. Era metido, gostava de coisas boas, de tudo que, agora não podia mais comprar. Era um traste. Um estorvo. Um ser incomodo, difícil de remover por conta das circunstancias.

-Ah. Na minha opinião, bem que poderia perder a esperança e abrir caminho para a solução de todos os problemas que causo com minha insolente mania de pensar que sei, que posso, que faço, que ainda tenho algum valor.

Sentado junto a janela do ônibus intermunicipal, voltava para casa dando conta de que não tinha nada para deixar para ninguém. Lembrava dos mais recentes instantes passados na festa de aniversario sem conseguir ficar triste. Não conseguiu mais chorar, sequer falar sozinho.

A senhora vestida com elegância, olhar profundo e singelo, sorriso amistoso e mãos tratadas a ele estendidas, acenou com a cabeça, piscando um olho cúmplice e simpático, sentando-se ao seu lado.

As magoas, amarguras, desapontamentos, tristezas, saudades, vontades e esperanças despediram-se com acenos e gestos largos. Morreu sem perder a pose, sentado, olhando pela janela.



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Postado por Raul Almeida
15/7/2016 às 16h21

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