Contubérnio Ideocrático, o Blog de Raul Almeida

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Quarta-feira, 25/5/2022
Contubérnio Ideocrático, o Blog de Raul Almeida
Raul Almeida

 
Parei de fumar

O habito de fumar encontrou abrigo na minha geração, como um dos seus modos de afirmação. Beber qualquer bebida alcoólica completava a muleta, aumentando o sentimento de poder, de estar próximo a ser ou até sentir-se adulto.
Hoje Sabemos o mal que o tabaco traz para a saúde, apesar da eventual sensação de prazer, que os fumantes dizem encontrar no cigarro ou mesmo em outros produtos de tabaco.
Parei com o cigarro faz um bom tempo.
Fiquei menos fedorento, mais disposto, com o olfato e paladar absurdamente melhorados e deixei de incomodar aos mais inteligentes, que não se deram ao risco do tabagismo ou desistiram antes de mim.
Quando um vizinho vai para a varanda tocar fogo na mecha, mesmo em andar mais afastado, percebo o sinistro odor. Pior é caminhar pela rua e sentir a pobreza tabagista consumindo as verdadeiras bombas paraguaias, cigarros contrabandeados, cujo fedor se propaga sem qualquer respeito. Sinto pena e nojo.
Começar a fumar é sempre precedido de uma atividade subliminar, enfiada em nossas mentes através dos outdoors, clipes, fotos nas revistas mais elegantes, anúncios finamente elaborados, mostrando gente bonita, elegante, bem sucedida, em lugares maravilhosos e bem decorados. Mulheres lindas, sufocantemente atraentes e varões corajosos, intrépidos, heróicos, fortes, poderosos, atléticos e suas baforadas sinistras.
Quando vamos ao cinema a marca que está pagando para aparecer, acho que chamam de merchandising, está em todos os cantos e momentos mais dramáticos, românticos ou bonitos do filme. O espectador desavisado, distraído com a narrativa, vai levando marteladas no subconsciente:
Ser vencedor, ser bonito, ser heróico, inteligente, grande sedutor e conquistador passa, obrigatoriamente, por fumar cigarros, charutos e até, o prosaico cachimbo.
O álcool não fica atrás.
Uma cena com dois executivos poderosos começa mostrando os copos curtos e cubos de gelo, que serão rapidamente cobertos por alguma bebida forte e, se os negócios forem bem,os cigarros ou charutos aparecem.
O mesmo acontece quando a história é com valentões, etc.
Num outro viés, vamos ter licores, vermutes, vinhos comuns ou espumantes, e, na melhor das hipóteses, a cerveja, hoje metida a besta, cara, exclusiva, cheia de ciência, especialistas, cronistas, e muito blá blá blá.
A turma que cria vontades ou dificuldades para vender produtos ou soluções é a mais diabólica, fascinante inteligente e propulsora de negócios bons ou maus.
Conforme a índole dos geniais inventores de desejos e expectativas, o bem e o mal, o inútil e o indispensável vão fazendo a economia rodar.
Aqui percebo similitude com os acontecimentos recentes da atividade política que se imaginou melhor, mais confiável e certeira em suas promessas e afirmativas.
O cheiro horrível do tabaco e do álcool que infesta corpos, mentes, roupas, cabelos e boca, permite analogia quando vemos cadáveres insepultos de um passado politico rejeitado, saindo de covas que não imaginávamos tão rasas.
Nomes contaminados por sinistra convivência com os dilapidadores da Bolsa da Viúva, com o que de mais repulsivo e enojante controlou a nossa ingênua e generosa Republica, aparecem serelepes e incensados, de banho tomado e cabelo penteado, no desenho daquilo que se imaginou impoluto. Figuras horrendas ainda vivas no cenário nacional confraternizando entre si, preparando mais uma desfeita para nossa mais profunda e determinada fé na redenção do Pais.
Nossa confiança na reabilitação econômica, política, cívica, moral.
Os cinqüenta e sete milhões e algumas centenas de milhares de eleitores votaram na esperança da neutralização dos contumazes operadores de mamatas,não nos patifes que engambelaram boa parte do eleitorado e ainda se acham capazes de continuar atrapalhando a nossa vontade de progresso, precedido de muita ORDEM.
A nossa expectativa não é pelo cheiro de podre, contaminante e hediondo, semelhante ao do tabaco ou do mau hálito dos bebedores contumazes, que simbolicamente, sentimos quando vemos declinados os nomes dos que continuam posando de autoridade em ou sobre alguma coisa.
A nossa esperança está sob ataque.
Dize-me com quem andas e te direi que és.
Andar com patife, corrupto, ladrão, prevaricador,ou incompetente, deixa marcas indeléveis tal como uma tatuagem. Se apagar fica a cicatriz. Se deixar, revela o passado.
Estamos esperando que desliguem a vitrola, as entrevistas, o blá blá blá e queremos de volta o que nos foi prometido, berrado, jurado.
Ou, o que for imoral e ilegal, vai continuar se alternando e engordando a malta dos privilegiados amigos e serventes dos patifes bons de pose e conversa.
Queremos a nossa esperança mantida viva, sem sustos, espantos ou aflições.


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Postado por Raul Almeida
25/5/2022 às 09h54

 
Asas de Ícaro

Ícaro, filho de Dédalo, tentou subir aos céus com asas feitas com penas de gaivotas e cera de abelha. Queria fugir do Labirinto onde estava preso, juntamente com seu pai.
A lenda de Ícaro e o sonho de voar alto, ganhar o espaço, vencer, também traz as advertências e conselhos quanto a cuidados com o calor do Sol, para evitar o derretimento da cera, alem do perigo de voar muito baixo, perto das águas do mar, encharcando as penas, aumentando o peso e provocando afogamento.
Uma lenda. Uma história fantástica.Ficção à moda antiga.
Observo a estante bem ali na minha frente, repleta de encadernações de projetos, pastas com documentos, pilhas de papéis rascunhados com ideias, aulas, diagramas, mapas.
Vida colecionada em lembranças de um passado de trabalho, criação, e realizações. Igualmente, testemunhos de enganos, sonhos não concluídos ou realizados, tempo perdido, enfim, uma papelada inerte, absolutamente inútil.
As gavetas da estante parecem cestas trançadas pelas mãos da autoconfiança, da coragem e da fé, cheias de penas de gaivotas virtuais, ainda sujas com os restos da cera, igualmente virtual, imaginada a partir dos livros, aqui favos do mel do conhecimento, colecionados na mesma estante, em outras prateleiras.
Cada encadernação, cada pasta, cada maço de papel grampeado rabiscado com alguma idéia, os mapas e roteiros para execução de tarefas, as notas e registros, enfim cada lembrança contida remete a um vôo. A maior parte bem sucedidos, mas nenhum pouso definitivo no topo do penhasco das ambições. Apenas visitas.
O calor do Sol das vitórias sempre começava a derreter a cera da humildade, da serenidade, do equilíbrio.
Os ventos do reconhecimento sempre atenuaram o planeio em voos, quase nunca suaves, rumo ao fundo do vale da vida.
A cada descida observei as escarpas riscadas por diversas trilhas tortuosas, abertas em direção ao cume, repletas de gente lutando para vencer as armadilhas da vida em busca dos sonhos.
No meio do paredão, atado por correntes flamejantes, reconheço o Titã Prometeu sofrendo seu eterno castigo, apenas por ter dado aos humanos o segredo do conhecimento.
Ah, Prometeu, o rebelde…
Hoje as gaivotas passam voando aqui na frente da varanda do apartamento onde moro, sem correr nenhum risco de serem depenadas. O mel vem livre da cera e sempre está presente na primeira refeição, sinalizando a perenidade do sabor doce, não importa quem o está experimentando.
Os voos estão limitados ao espaço do viveiro: do poleiro para o bebedouro, do bebedouro para o poleiro ou para o pote de ração. As lembranças se alternam entre as delícias dos êxitos e as dores dos castigos.
Uma vez Icaro, outra vez Prometeu…
RA

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Postado por Raul Almeida
21/5/2022 às 12h49

 
Auto estima

Quem é que acha que pode dizer aos outros
o que vestir para melhor se ver ou
para melhor falar ou escrever.
Quem é que pode pretender mudar,
sem medo de se arrepender,
a cor dos cabelos, o jeito de ser,
o modo de rir, a voz, o saber.
Quem pensa que ditar moda
faz melhor aos seus iguais
nunca será capaz de entender
o prazer de apenas se deixar ser
tal qual como Deus criou.
Nasceu para ser gordo, gorda ou magrela,
nasceu para ser princesa, corista ou Cinderela.
Será rico ou será pobre. Será plebeu, paria ou nobre.
Nada adianta tentar mudar.
Não adianta chorar, berrar, espernear.
O melhor e deixar a vida correr e aceitar.
Dizem que ele escolhe, define e organiza
tudo que vem pela frente.
Então, o jeito é pegar
o que escolheu para a gente.
Gordo, gorda ou magrela, inteligente ou nem tanto,
bonitão ou bonitona, gulosa ou enfastiada,
não faz a menor diferença.
Ser feliz é o que conta, ser do bem é o que vale.
Viver em paz e harmonia, com muita felicidade
Com bom humor, com verdade, com amor, com amizade.
Gozar a vida sem medo, sem rancor, sem avareza.
Sem maldade, sem tristeza, com muita tranqüilidade.
Não gosta de feijoada? Come pouco? Não bebe?
O manequim está grande? Não tem porte elegante?
O que é que está faltando? Qual importância tem?
Deixe a vida ir passando sem sentir dor ou tormento. Coma, beba e desfrute. Ame até a exaustão.
Com vontade e paixão.
Goze a vida sem pudores.
Tenha quantos amores quiser, mas nada de sentir dores, principalmente, de amores.
Só não faça confusão: Roupa de magro é de magro.
Roupa de gordo é de gordo.
Encontre o seu figurino, Encontre a sua verdade.
Encontre a sua parceira, Parceiro, caso ou ficante.
Não copie, não invente.
Procure, ache.
Descubra que a felicidade é aceitar o destino e a tal fatalidade.


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Postado por Raul Almeida
8/5/2022 às 11h38

 
A Caixa de Brinquedos

(reapresentação)

Antonio Ferreira Gonçalves Leitão, um comerciante bem sucedido filho e neto de comerciantes de ferragens estava cansado da monotonia das férias e feriados. Era sempre a mesma coisa: Praia, mais praia e praia novamente.
Seguindo a própria rotina, foi o último a sair da loja, verificando se estava tudo em ordem dos fundos até a porta principal. E o negócio era bem amplo. Verificou os cadeados das portas de subir e descer e foi caminhando até ao estacionamento.
-Não! Não agüentava mais, seguiu pensando.
Abriu o carro de longe, com a chave eletrônica, o que sempre lhe causava discreto espanto. O carro piscava e apitava quando ele chegava perto. Que maravilha. Mas descer a serra estava fora de cogitação. No próximo feriado iria no sentido inverso. Faria o possível e o impossível para convencer sua esposa.
Chegou diante do portão da garagem, outra maravilha moderna, abriu, entrou e fechou com o comando à distância. Colocou o carro no lugar, respirou fundo e entrou pela porta lateral.
Vendera o apartamento do Guarujá por conta da parentada e dos amigos que se convidavam, transformando aquilo que deveria ser um lugar de descanso em alojamento. O pior: Os três filhos pós-adolescentes davam a impressão de gostar da bagunça.
Quem pagava a conta era ele, Antonio Ferreira Gonçalves Leitão, comerciante de ferragens, e ponto final. O dia em que cada um pudesse escolher o que fazer para ocupar feriados ou dias vazios com seus próprios recursos, que o fizessem da maneira que lhes melhor aprouvesse. Queria ir para um hotel fazenda, entre a serra e o vale, com muito verde, algum silêncio, paisagem, boa comida e descanso. Estavam todos, definitivamente, convidados. Só que a família pensava diferente.
Abriu a geladeira da cozinha e sentiu passos vindo em sua direção: A esposa.
- Oi! Tudo bem? Abraçou-a e puxou assunto: Que tal inventarmos algo novo no feriado da semana que vem? Outra vez praia...
Você bem que poderia encontrar algo novo, senão já sabemos o que vem pela frente: Lentidão na estrada, chopinho, fila para almoçar no restaurante da moda, comprinhas de quinquilharias.
- Bem, se você estiver disposto a abrir a carteira, poderemos viajar, fazer um cruzeiro marítimo pelo Caribe. Quem sabe Miami? São poucos dias.
- Nem tanto ao mar, nem tanto a terra. Pensei em subir a serra.
- Aquela coisa sem graça, de ficar olhando um para a cara do outro na rua principal, procurando algum conhecido ou tomando banho de água mineral? Não estamos tão velhos e as crianças nem podem ouvir falar nessa história.
- Vi a propaganda de um hotel-fazenda, temático. Uma coisa interativa, teatral, com os empregados caracterizados à moda do século 19. Uma verdadeira cápsula do tempo. É como se fossemos convidados por uns dias à mansão de um barão do tempo do império.
- E qual é a graça?
- A programação inclui passeios, aventura, trilhas na serra, belíssimas flores, pássaros, cascatas, arvorismo, tirolesa. Quero mudar um pouco essa rotina de cadeirinha, protetor solar, cerveja de latinha, toalha cheia de areia. Estou cansado de ver as mesmas caras, as mesmas poses, as mesmas atitudes. Quero diversificar! Nas ultimas vezes só as gírias das crianças mudaram.
- Hum, não sei não. Pelo menos, a praia é diversão conhecida e garantida.
- Olha, trouxe um folheto para você ver. Talvez gostes. A cidadezinha parece interessante. Arquitetura colonial, antiquários, artesanato tradicional, confecções, moda, coisas do gênero. Vamos tentar?
- Vamos.
- Então você fala com a turma.

- Que foi que deu nele? Perguntou Cássio Murilo, o filho, quando Ernestina Maria das Graças Magalhães Leitão, bem cuidada ex-aluna de colégio de freiras, formada em sociologia pela PUC de São Paulo, freqüentadora de academia, praticante de Pillates e linda em seus 48 anos, comunicou o plano de viagem do pai.
- Hotel fazenda é coisa para velho. O que é que eu vou fazer lá? Ordenhar vacas? Tirar fotos com cavalinhos? Será que o pai não vê o nosso lado? O pessoal todo está na praia. As pessoas interessantes não vão para hotéis-fazenda. Que programa mais punk...Concluiu.
- E a gente como é que fica? Comentou Cecília Maria, a mais velha das filhas. Tomar chá com torradas servido por mucamas? Isso é programa de gente?
- Vocês estão esquecendo duas coisas: Primeiro é a vontade do pai, que sempre faz todas as nossas. Nunca disse não. Vendeu o apartamento na praia, pois não mais estávamos aproveitando e vocês sabem bem da historia. Segundo: Ele quer conhecer, quer ver como é. Nunca sugeriu nada. É a vez dele, de quem sempre paga a conta! E que contas.
Acabaram-se os argumentos contra e agora era começar a preparar a viagem.
O tema da conversa durante a sobremesa foi o que levar na bagagem.

O casarão colonial com uma dúzia de janelas podia ser avistado desde a estrada, lá no fundão perto do horizonte. Uma curva para lá, outra para cá, a construção sumia e aparecia, emoldurada pela serra coberta pela luz de um céu de poucas nuvens. Chegando mais perto, as cercas caiadas de branco, mostravam os limites da propriedade. A primeira impressão era de um cartão postal. Tirando a arquitetura, a paisagem poderia ser confundida com o verão de um cantão suíço.
- Bom dia. Temos reserva.
- Bom dia! Sejam bem-vindos! Conforme o vosso pedido, as acomodações estão aqui no casarão.
A jovem recepcionista com roupas de senhorinha, sorridente e gentil, falava e gesticulava em rapapés figurando um estilo colonial. Aguardou uns instantes enquanto Antonio preenchia as fichas e concluiu, indicando com um gesto a direção da sala de visitas
- Convidamos todos a tomarem café.
- Esse pessoal recebia muita gente mesmo, comentou a filha do meio, Letícia, meneando os cabelos pintados de louro, e mostrando desdém com o recém-começado programa. Que sala de visitas enorme.
- É mesmo respondeu Antônio, sem esconder o entusiasmo e expectativa quanto ao programa.
- Bom dia!
Outra moça vestida de mucama cumprimentou reverenciando, enquanto mostrava a mesa redonda guarnecida por louças brancas sobre uma toalha rendada. Em seguida, um rapaz vestido com um libré, chegou empurrando um carrinho muito bem arranjado com pães, bolos, biscoitos caseiros, manteiga, mel, geléias coloridas, café e leite quente.
- Bom dia!
Novamente o cumprimento cordial e o serviço um pouco afetado, segundo comentou Ernestina, até então observadora muda e atenta.
As cinco mesas da sala de visitas, transformada num coffee-shop estilizado, estavam ocupadas por gente bonita, alegre e curiosa, muito diferente do que Cássio imaginara, ao saber que o programa do feriado prolongado fora mudado.
- Até que não está tão mal assim, murmurou entre os dentes, enquanto perscrutava todo o ambiente com olhar crítico e presunçoso.
- Então, o que estão achando? Perguntou Antonio, enquanto experimentava o pão ainda morno, com a manteiga produzida na fazenda.
- Vamos ver, não é? Por enquanto é tudo novidade. Esta gente fantasiada de novela das seis é um tanto bizarra, mas acho que vai dar para o gasto, respondeu Cassio.
- Eu estou gostando.
- Eu também. Responderam primeiro Letícia e depois Cecília, notando o desapontamento do pai com a resposta pouco gentil do irmão.
Estavam terminando, quando um outro funcionário vestido de fidalgo apareceu cumprimentando e iniciando uma descrição das facilidades e divertimentos que o hotel oferecia.
Entre passeios a cavalo, visita as instalações rurais, caminhadas nas trilhas na serra, o sarau das 20 horas e a ceia das 23, a piscina e o seu bar foram o que mais chamou a atenção da família.
Entreolharam-se cúmplices, sorriram discretamente e, sugeriram continuar o programa conhecendo aquela parte descrita pelo homem fantasiado de conde, como um verdadeiro jardim de delicias. Antonio, antevendo o lugar apenas como mais um palco para as caras e bocas praianas do qual pretendeu fugir, nada disse.

Os três apartamentos da ala direita do casarão eram confortáveis e adaptados à modernidade, com isolamentos térmicos e acústicos, teto rebaixado, banheiro confortável, TV., e todas facilidades de um hotel de qualidade. Definitivamente, não era um programa de roça tal como os três filhos haviam pensado.
Menos de uma hora após a chegada, as expectativas quanto ao aproveitamento do feriado prolongado tinham mudado substancialmente. Ninguém iria ordenhar vacas ou dar comida às galinhas. As pessoas avistadas não formavam um bando de velhinhos e velhinhas pré-caquéticas. Nesse aspecto Antonio estava redimido. O lugar e o programa tinham tudo para serem divertidos. Uma novidade a ser desfrutada.
Saíram dos apartamentos quase ao mesmo tempo, menos Antonio que ficou arrumando documentos e valores a colocar no pequeno cofre dentro do armário.
Ernestina, Cecília, Letícia e Cássio questionaram-se quanto à bagagem tão praiana, se o lugar sinalizava campo, montanha. O fato é que maiôs, sungas, chinelos bolsas e tudo que fosse necessário para uma temporada al mare foi colocado nas malas, juntamente com camisas de flanela, botas e roupas mais adequadas ao interior. Talvez por isso, o compartimento de carga da van ficara absolutamente entupido.
A porta do ultimo apartamento da mesma ala ocupada pela família estava entreaberta deixando ver uma escrivaninha antiga, igual ou quase, a que o avô de Antonio tinha ao fundo do escritório de sua primeira loja.
- A mesa do vovô! Exclamou em voz baixa, esticando o olhar lá para dentro.
A curiosidade o colocou no meio do cômodo. Havia de tudo. Uma vitrola de corda, duas bicicletas Philips empoeiradas e com pneus murchos, utensílios para a lida no campo, latões, ferros estranhos, canecas enormes, arreios.
Uma das estantes dividia pilhas de livros de registro com brinquedos antigos e o que mais chamou a sua atenção, a caixa de blocos de madeira para montar casas, com o rótulo escrito em alemão: Der Baukasten. Era igual a que herdara do pai que, por sua vez, ganhara do seu avô. Que coincidência! A escrivaninha e o brinquedo. Não resistiu a tentação e, no momento em que esticava os braços para abri-la e matar saudades, ouviu uma voz autoritária e forte cumprimentar:
- Bom dia Antonio! Traga para cá.
- Ande logo. Traga a caixa para cá, esta que você está querendo pegar.
O tremendo susto o trouxe de volta das recordações perdidas no fundo da memória.
- Vamos! O que está esperando? Traga a caixa para cá, não temos tempo a perder.
- Ah... Bom dia Sr. Não o vi chegar. Estava a caminho da piscina quando vi a porta aberta e aquele móvel igual ao do meu avô. Deu-me tanta saudade, sabe como é.
- Sei. Sei sim. Agora vamos. Deixe-me ajuda-lo com isso.
Antonio entregou a caixa de brinquedo ao desconhecido, observando atentamente os detalhes do seu trajar, desde a gravata até aos sapatos cuidadosamente lustrados.
- Mais uma personagem nessa historia, pensou em silêncio enquanto acompanhava os passos rápidos e firmes do estranho.
Atravessaram a recepção seguindo para as portas da entrada abertas em par, alcançando a varanda e a escada. Embaixo, o cocheiro e o palafreneiro aguardavam ao lado de uma carruagem fechada, com duas parelhas de cavalos. Antonio exultava com a escolha do programa. Parecia um parque temático americano: Todo mundo fantasiado, a decoração, o ambiente, a teatralidade.
Os sabores dos pães caseiros e da manteiga ainda permaneciam em sua boca. Pensava no que os outros estavam perdendo naquela pressa de ir para a piscina, passar protetor solar, fazer cara de paisagem, enfim repetir o programa de sempre, sem qualquer novidade.
- Suba! O criado ajuda. A voz de entonação imperativa, não conseguiu tirar o meio-sorriso de sua cara. Antonio, totalmente envolvido com as novidades, aboletou-se num dos assentos, enquanto o estranho sentava à sua frente, colocando a caixa e a bengala de castão de prata ao lado, apoiada no banco quase encostando ao seu pé. A porta foi fechada e o cocheiro pôs os cavalos em marcha. Olhava para fora dando conta não haver notado a fileira de casas de colonos ao lado da estradinha de terra de acesso ao casarão. Seria capaz de jurar, até aquele momento, que tudo era asfaltado e que... Bem, talvez não tivesse percebido, tão ansioso que estava em conhecer a Fazenda.
- Posso saber para onde vamos?
Perguntou sorridente, no exato momento em que o céu escurecia de pesadas nuvens, e o ruído dos trovões deslocava o ar sacudindo a carruagem. Não teve resposta. O estranho abaixou as cortinas das janelas, e olhando para ele ordenou:
- Segure-se!
Nem bem acabou a frase de alerta e um raio caiu bem na frente assustando os cavalos. Os gritos ininteligíveis do cocheiro misturavam-se ao barulho da tempestade.
Um susto enorme, forte cheiro de enxofre, a chuva entrando pelos vãos da janela da carruagem e Antonio começou achar a quantidade de efeitos especiais um pouco exagerada.
- Onde será que vai isso dar? Pensava desconfiado, recordando as atrações dos parques de Orlando. Aqui tudo estava muito mais sinistro.
A escuridão foi tomando o interior da carruagem e a sensação de que a luz evaporava e saia pelas frestas, começou a provocar desconforto.
- Senhor!
Senhor, estou passando mal. Quero sair. Pare, por favor.
Antonio procurava chamar a atenção do velho, falando e gesticulando nervoso e inseguro. Sentia a estrada descendo e continuava escutando o cocheiro gritar. Não se conteve mais e abriu a cortina da sua janela, constatando a escuridão do lado de fora,repleta de criaturas aladas fosforescentes, horríveis e ruidosas, sendo quebrada por relâmpagos. Os morcegos descomunais com caudas em forma de seta e olhos chamejantes rodeavam a carruagem de forma ameaçadora. A tremedeira começou pelos pés e um sofrimento atroz, junto com arrepios, foi subindo e tomando todo o corpo.
Mal terminaram o breve diálogo e o balançar frenético parou, dando lugar a um rodar macio e calmo. Agora a janela aberta mostrava um nevoeiro denso e claro, que se esgarçava um pouco menos que lentamente. Logo a paisagem se recompôs exibindo um cenário verdejante.
O velho bateu duas vezes com o castão da bengala no teto da carruagem, paralisada imediatamente pelo cocheiro.
- Ainda não acabou? Antonio não chegou a pronunciar o pensamento, respondido imediatamente pelo velho:
- Não. Não acabou. Estamos começando. Vamos descer.
- Estou satisfeito. È muito real. Perfeito. Não esperava tanto realismo. Estou surpreso com tanta tecnologia.
Desceram e o estranho voltou a tomar Antonio pelo braço, conduzindo-o em direção à porta do que parecia ser uma hospedaria do final do século 18.
- Vamos entrar.
- Sejam bem vindos! A mulher sorridente encaminhou-se na direção dos dois, falando e abrindo os braços numa saudação comum.
- Querem comer alguma coisa?
- Sim. Traga um pouco de vinho e o que tiver pronto, respondeu o velho sem consultar Antonio.
- Vamos descansar e seguir viagem.
- Eu não tenho fome. Vou almoçar lá no hotel com o meu pessoal.
- Então não coma. Vai perder uma chance de conhecer algo muito especial.
O velho encerrou a conversa, apontando onde ele deveria sentar-se. Uma cesta de frutas decorava a mesa indicada pela mulher que os recebera.
Olhando em volta Antonio percebeu a sala repleta de fisionomias conhecidas. Controlou o espanto, baixou os olhos, pensou um pouco, e voltou a observar enorme angústia provocada pela presença do velho no semblante de cada uma delas.
Era isso! Havia ali uma coleção de lembranças ruins, de pessoas más, aproveitadoras, covardes, desonestas e traidoras. Todas tinham feito algo de mal a Antonio!Um calafrio percorreu seu corpo e os olhos do velho, firmes e frios, olhavam no fundo dos seus como se indagassem o que fazer com elas.
Permaneceu em silêncio, encarando as lembranças, desapontamentos, desilusões, prejuízos, dores e tristezas. Depois de instantes, conseguiu achar o ponto de resposta e disse:
- Obrigado, não vou comer. Não tenho fome.
- Então beba, tome um gole.
- Não, obrigado. Não quero. Talvez água. Só água.
- Traga uma jarra d'água, ordenou o velho à mulher que aguardava ao lado.
Mais uma coisa, surreal e absurda, acontecia: O rotulo da caixa de brinquedos colocada sobre a mesa brilhava durante a breve conversa.
O velho abriu a caixa retirando um manual de instruções, semelhante a um fino caderno ilustrado, e entregou a Antônio.
- Dê uma olhada. É igual ao que você conhece, não é?
- É sim. Nem me lembrava mais disto.
- Vamos construir um castelo com essas peças mais escuras. Começaremos pela masmorra que fica na base, depois o salão nobre e as torres.
- Castelo? Masmorra? Construir uma prisão? Nunca fiz isso. Aqui ensina a fazer casas, sobrados, igreja, estação de trem.
Antonio estava confuso. Por um momento esquecera o passeio, o hotel temático, a família esperando no bar da piscina, o feriado prolongado.
- Na masmorra vamos prender os maus, no salão vamos escutar os bons e nas torres colocar os sonhos. Foi a resposta do velho, ao começar a retirar da caixa os primeiros blocos, arrumando e formando as paredes da base do castelo. Em seguida voltou a provocar Antonio:
- Aqui está! O calabouço: Quem é que vamos colocar aí dentro? Por quem começaremos?
- Desculpe, mas já estou um pouco velho para ficar brincando de construir castelos com blocos de madeira. Está acontecendo algo que não consigo entender e não estou gostando...Não vou colocar nada nem ninguém ai dentro. Não tenho tempo para ficar pensando em quem é mau, bom, ou coisas assim respondeu, mostrando surpresa e desagrado.
O velho levantou-se, e deixando as peças e a caixa aberta sobre a mesa, caminhou para a porta.
- Venha! Chamou Antonio já em pé e ansioso por deixar o lugar.
A carruagem não estava mais por ali e apenas algumas pessoas andavam de um lado para o outro, como se aguardassem a chegada de algum visitante.
Antonio começou a sentir o peso dos olhares da pequena multidão que se formou do lado de fora. deu uma olhada para trás, para dentro da hospedaria, e não viu mais ninguém. A sala estava completamente deserta, a mulher retirava as sobras da refeição do velho e caixa havia desaparecido.
A menina bem no centro do povo aglomerado, mostrava pesar e tristeza. Seus olhos doces e angustiados foram empurrando a memória até perceber que era a namoradinha dos tempos da adolescência. Prometera casamento, jurara amor eterno e ela acreditara em tudo, sem nenhuma duvida, sem desconfiança, cheia de amor. Ele fora embora sem dar notícia. Lembrou-se das filhas em desesperado silêncio:
- Meu Deus!
Era a vez de deparar-se com suas iniqüidades, patifarias, malandragens, golpes, traições, falcatruas, irresponsabilidade, egoísmo, vaidade.
Ao lado da mocinha outras mulheres, de tempos e idades diferentes, olhavam para ele com o mesmo ar de desapontamento e frustração. Ex-empregados pareciam querer entender algo fora das quitações e indenizações. E ali estavam vizinhos, parentes, conhecidos, amigos tentando obter uma explicação, um gesto, uma justificativa para um estrago qualquer provocado por ele. Não cobravam, mas eram credores. Não reclamavam, mas tinham sido prejudicados. Não choravam, mas mostravam desencanto, desapontamento, frustração, dor.
Antonio tentou caminhar em direção ao grupo, mas não teve forças. As pernas estavam pesadas, os braços não se moviam. Tentou falar e nada. A boca continuava entreaberta, seca e muda. Não tinha nenhuma ação. Mal conseguia enxergar o que se passava à sua frente. Num estupor infernal, notou o velho saindo da multidão, com a caixa debaixo de um dos braços e a bengala na outra mão. Mesmo assim não conseguiu sair do transe. Seus olhos suplicavam clemência, perdão. Sua fisionomia transmitia vergonha e arrependimento. Seu corpo tremia de medo, pavor, fraqueza e infelicidade.
As pessoas começaram a afastar-se, uma a uma saindo do seu campo de visão, virando a cara e tomando um rumo qualquer. O velho assistia a tudo, impávido, insensível, indiferente. Alguém trouxera uma cadeira onde ele sentou-se com a caixa por cima das pernas cruzadas. Assim ficou até que o ultimo individuo deu as costas e partiu. Antonio sentiu um enorme alivio.
O velho sorriu pela primeira vez e falou com a mesma firmeza de sempre:
- Vamos deixar o castelo para outro dia. As torres precisam ser mais bem planejadas.
Em seguida levantou-se e tomou Antonio pelo braço, tal como no começo, lá no corredor do hotel.
- Antonio o que houve? Maria Ernestina estava em pé no quarto, diante da cama onde ele parecia descansar da viagem.
Você veio aqui para dormir? Levanta daí, estamos te esperando e você aí deitado.
- Ah... Não sei. Recostei-me e... Sei lá. Peguei no sono. Não me lembro de nada. Faz muito tempo que estou dormindo?
- Uns dez minutos, talvez.
- Que coisa engraçada. Acho que sonhei. Lembrei da escrivaninha do vovô, aquela que está na garagem.
- Vamos, estão nos esperando.
Ao passar pela porta do ultimo apartamento da mesma ala, Antonio se deteve, tentou lembrar de algo, ficou ali por alguns instantes ao lado da mulher que nada entendia.
- Vamos! Não vais querer voltar e dormir de novo.

Uma empregada vestida de mucama passava, empurrando o carrinho de arrumadeira.
- Moça, por favor, o que é que tem nesse quarto?
- É o apartamento do Gerente.
- Ah, obrigado. Só curiosidade.
Do outro lado o velho, invisível por detrás de uma coluna, fazia anotações numa espécie de diário:
Antonio Gonçalves Ferreira Leitão - prorrogado por mais 10 anos.
Raul Almeida.

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Postado por Raul Almeida
26/4/2022 às 11h37

 
No Shopping

Outro dia errei o caminho de volta para casa propositadamente, e entrei no Shopping.
Fui caminhando, olhando para lá e para cá, parando aqui e ali, até que encontrei a tal praça bebível e mastigável. Optei pela extravagância de um cappuccino enorme, quase uma sopa, muito perfumado, saboroso e caro.
Sentado de frente para o vai e vem da moçada, fiquei observando os diversos clichês, modelitos, protótipos "fashion" , vários bípedes implumes, alguns em herméticos mundos com enormes umbigos, outros em pequenos grupos de excentricidades homogêneas, enfim um zoológico sem grades muito engraçado e bizarro.
Entre uma bicada e outra no super café, notei um casal de idades indefiníveis pelas aparências.No primeiro momento tive impressão de que já os tinha visto, mas algo estava fora do esquadro.Tinha certeza que a conhecia.Tentei lembrar de onde. Segui olhando discretamente,procurando não arrumar confusão com o sujeito de aspecto um tanto desagradável, beirando o tosco,com a barba por fazer,a cara suja dos inconfiáveis,dos falsos,dos que não têm amigos,muito diferente dela, elegante e com estilo, tresandando classe, charme e confiança. Já tinha visto o camarada algumas vezes, até bem de perto e agora me lembrava que, da última vez me deu um cartão de visitas.
-Talvez a idade esteja me arengando, disse aos meus botões
Com ela sempre foi diferente. Chegamos a conversar por horas. Encantadora, fluida como uma manequim de Dior, elegante como uma modelo de Saint Laurent, inteligente, fascinante e, agora ali com aquele cafajeste sinistro. Que coisa mais improvável.
Distraído, evitando encarar qualquer das criaturas, divaguei, procurando lembrar os seus nomes. Uma dupla assimétrica, destoante, anacrônica.
Senti um toque forte no ombro e, saindo da bobeira momentânea, percebi a mulher colocando duas cadeiras a minha frente e se aboletando junto com o companheiro.
Ela falou primeiro:
- Que bom te ver! Faz tempo que você não me liga!
Arregalei os olhos a boca ficou seca, procurei uma resposta e o homem começou:
- Estávamos lembrando de você e,olha só,ai sentadinho, tomando café, como se a vida fosse um mar de rosas.
Ela, imediatamente, intreferiu, colocando a mão delicadamente sobre os meus lábios e respondendo, elegantemente, ao bruto:
-Você não vai tira-lo de mim. Ele é fiel. Não vou deixar.
Respirei fundo e lembrei dos nomes dele e o dela, que, ultimamente, andava distante:
Sr.Fracasso e Dona Esperança.


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Postado por Raul Almeida
9/4/2022 às 11h36

 
Fazer o que?

Começa a segunda semana, dia 14 do mês, juntamente com o seu próprio fim: sexta-feira. Tento parar o pensamento, o ruído das palavras sentidas e não pronunciadas, a interlocução comigo mesmo e perceber a inutilidade da constatação. Ora, apenas uma coincidência, uma travessura do calendário. A mente dá uma cambalhota e encontra o Papa Gregório, o patrono da marcação do tempo, tal como é hoje.
E tome elucubrações vazias,
E como seria no calendário lunar? Será que tem sexta-feira nos rodopios da lua? Não seria ele o mais adequado aos que vivem na e da noite? Afinal, o calendário lunar é usado por milhões de pessoas nesse mesmo mundo.
Antigamente o domingo dos noturnos era na segunda-feira. Trabalhei e vivi da noite por um bom tempo. Folgava na segunda. Às vezes, já avançado na madrugada pensava na vida dos fregueses, alguns pagando contas, outros sem notar o tempo passando. Vez por outra uma altercação, um bradar, um desconforto, até alguma pancadaria assisti sem grande espanto, Tudo fazia parte do horário.
Luzes fortes, comida, bebida, música em volumes abissais, gente bonita, gente feia, cheiro de tabaco misturado com colônias, perfumes, molhos e bebidas.
O meu tempo de vida dentro da noite não foi muito longo, mas suficiente para conhecer um mundo , quase uma dimensão, fascinante, diferente, com regras próprias, com ritmo próprio, com sentimentos, paixões, cores e rotinas próprias. Nele as pessoas diurnas entram e saem. Sonham, sofrem, amam ou, apenas, se divertem.
Calendários à parte, o trabalho noturno ocupa uma enorme quantidade de tipos muito especiais de seres noturnos. Alguns eventuais, outros por rotina de escala, alternando a luz e a sombra, mas sem os quais a vida seria muito mais difícil. São os que têm que resolver os problemas causados pelo Acaso ou a Fatalidade. São os socorristas, os profissionais de Saúde, plantonistas, bombeiros, operários que dão suporte a ocorrências atípicas como queda de árvores, desligamentos de força e luz, policiais. Para esses não há festa, música, gente bonita falando alto. Aqui a dimensão não tem nenhum fascínio. E o tempo jogando contra, a dor gritando mais alto, o medo gargalhando em estrépito e escândalo, Muitas vezes a vida pedindo socorro.
O dia vai clareando, o pessoal da noite terminou o seu trabalho e vai procurar o seu descanso. Amanhã tem mais.
Hoje termina mais um ciclo de sete dias. Uma semana. Bem, hoje é sexta-feira, começa o fim de semana…
Não importa. O calendário não sinaliza fins de semana. Só sexta-feira.
Sextou!
Vamos festejar.


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Postado por Raul Almeida
14/1/2022 às 12h38

 
Olhar para longe

Olhar para longe, para o horizonte, sempre remete algo à frente dos olhos. Uma paisagem, uma montanha, uma criança , um projeto de vida. Aqui, o sentido figurado da ideia de horizonte reveste-se de outras filigranas, tais como a esperança, a coragem, a fé, alguma certeza ou incerteza de sucesso.
A vitória, a realização ou mesmo a materialização de um projeto de vida que deu certo vai sobrepondo sinais e marcas, chamados de recordações. O álbum de fotos, a caixinha de lembranças, as tais “lembrancinhas”, gentis quinquilharias sempre revestidas de um sorriso. Um abraço, um aniversário, um nascimento de um filho ou neto, enfim, algum momento do qual temos enorme dificuldade de nos separarmos, ao mesmo tempo que vamos percebendo a inutilidade em continuar guardando aquelas coisas. A vida se mostra, surpreendentemente, curta ao olharmos para trás e percebermos o quanto poderíamos ter feito se… se isso ou aquilo.
Remeto as montanhas lá no fundo da paisagem,a condição de marcadoras virtuais de lembranças do meu passado, a quilômetros de distância do ponto de onde as observo. Nada físico, nada esportivo. Não fui alpinista nem esportista radical, escalador, etc. Uso a natureza apenas para estabelecer metáforas, analogias estapafúrdias, reforços avivadores da imaginação.
Bem a frente, lá na serra de Petrópolis, o Dedo de Deus traz meu filho, único, vencedor, rompendo o céu das dificuldades, ultrapassando os abismos do quotidiano, aprendendo mais e mais a cada passo, sempre para frente, sempre para cima, sempre magistral.
Os contornos próximos fazem coro e apoiam aquela pedra transformada, por um momento em meu lembrar. No recém nascido, no menino, no rapaz, agora no homem, no senhor.
Sigo olhando na mesma direção. Há muito mais por ali.
Antes, Muri, cidadezinha próxima onde passei momentos maravilhosos com a esposa, a filha, a família que começava a formar-se. Os olhos brilhantes e curiosos da pequena, as cambalhotas, travessuras, corridas para lá e para cá, sempre cobertas pelo sorriso iluminado, maravilhoso, doce e gentil da mãe. E tome lembranças provocadas por um simples horizonte montanhoso, agora equidistante no plano físico, e virtual das lembranças. Ainda atordoado com as efervescências do pensamento, memória e mente, consigo ver, ainda que olhando na mesma direção, um horizonte sob dois aspectos. Ali na frente uma ideia de viagem, passeio, quem sabe. No passado, quanta coisa boa, quanta alegria, quanto amor. Mas não há saudade, pois os atores estão vivos, ativos, vencedores.
Saio da varanda , fecho a cortina e vou dar de cara com o espelho da minha vida, enquanto dou uma escovada nos restos do que já foi uma cabeleira. Nao consegui escapar dele, Sempre um espelho para lembrar que o tempo não notou nada do que vi até agora. Não testemunhou, não interviu, não ajudou nem atrapalhou. Apenas seguiu e segue construindo lembranças, saudades e ruínas eventuais.
Penso no Janus, o deus romano de duas faces, uma para frente e outra para trás, e as várias interpretações que li sobre tal figura. Continuo usando o horizonte ali na frente, restaurando as lembranças do passado.

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Postado por Raul Almeida
12/1/2022 às 16h41

 
Desigualdades

Quem nasce burro, ou melhor, limitado intelectualmente, não será nunca igual aquele que nasce inteligente, Não há nenhuma formula, tratamento, feitiço, reza, simpatia que mude o padrão: Burro é burro.
Quem nasce vagabundo será vagabundo a vida inteira. É estigma. É defeito de fabricação
Quem nasce inteligente, com facilidade de entender os seus entornos, as situações e oportunidades que a vida vai apresentando no seu decorrer, será reconhecido como tal.
Inteligente é inteligente . Apesar de eventualmente comportar-se como um burro. Mas o inverso não acontece, Um burro pode ser prudente, mas inteligente nunca.
Quem tem sorte, é sortudo (a). Não tem erro. Quem não tem sorte é azarado.
Quem é inteligente e tem sorte vai dar certo, vai prosperar, vai progredir, vai encontrar objetivos a alcançar, vai vencer.
Quem é feio, mas inteligente e sortudo tem mais chances do que os que são bonitos mas burros e/ ou azarados.
Quem é bonito, inteligente, sortudo, prudente, focado, tem todas as condições de vencer, prosperar, realizar a vida com sucesso.
Quem é burro, feio, azarado, imprudente tem todas as indicações para um retumbante fracasso, limbo, derrota e tristeza.
E daí? Quanta besteira. Quanto raciocínio e tempo perdido, inútil.
Não. Apenas uma forma de escancarar a estupidez que é o conceito de igualdade.

Não existe igualdade. Não existem dois indivíduos iguais, nem nunca existiram.
A igualdade nega a realidade da vida. Raças, sexos, nacionalidades, capacidade intelectual, aptidões, ventura ou desventura, alegria e tristeza, prosperidade e miséria, fogo e água, luz e treva, anormais e normais. Ricos e pobres, céu e inferno D´us e Satan.

Os igualitários querem dividir o que não conquistaram.
Os invejosos querem compartilhar o que a vida não lhes concedeu. Os estroinas, satrapas, ladinos, igualitários, vagabundos e malandros querem manter o controle, reservando para si mesmos o que de melhor a desigualdade oferece.
Não existe igualdade senão na morte.
O enterro de primeira só interessa aos que estão fora do caixão. Ninguém quer ser visto num velório com um féretro simples, forrado com pano preto e alças de lata. Fica mal na foto.
Ser solidário, sem filantropo, ser condescendente, ser piedoso, não quer dizer ser socialista, comunista, sindicalista ou, o pior,politico. Basta ser inteligente, para entender a necessidade de ajudar aos que não o são.
O resto fica resolvido na igualdade bíblica que a todos favorece: Marcos 2-38 Todos serão perdoados.
Então, cada um no seu quadrado e segue o salão.

Raul Almeida

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Postado por Raul Almeida
25/11/2021 às 09h16

 
Novembro está no fim...

Sem muito o que dizer ou o que contar, chegamos ao fim de mais um ano.
Daqui a pouco é dezembro. Festas tradicionais serão mais ou menos celebradas, cumprimentos, saudações e frases comemorativas para um novo ano serão desencavadas da memória em rotinas cerimoniais, encontros de amigos, reuniões de empregados, famílias, e até nos depósitos de velhos e teimosos viventes, descartados do convívio com o mundo, incômodos em casa, doentes, tristes, esquecidos de si próprios, dispendiosos, desnecessários.
As mudanças e transformações na maneira de entender o mundo, de amar, querer, cobiçar, pretender e pensar em melhor desfrutar a vida, ficam bem nítidas quando planos, objetivos, desejos , vontades, aspirações e crenças são revisitadas, reorganizadas, reformuladas e colocadas na primeira página do livro do novo ano.
Não é assim para todos.
A maioria nem sabe o que é planejar a vida para seguir em frente mais um ano, mais um tempo, ou mesmo se a vida pode ser imaginada ou planejada com alguma antecedência. Os dias passam, sem foco, sem objetivo outro senão o de sobreviver, ganhar pela manhã para comer a noite...
Para todos o destino, o acaso e a fatalidade vão escrever a melodia, fazer o arranjo, dar o tom, o timbre e abrir ou rasgar a cortina do palco da vida para mais um recital de 365 dias e 6 horas. Mais um ano, mais esperança, mais fé, mais vontade ou , apenas, mais do mesmo.
Assim é.
A qualquer momento o ano acaba.
A qualquer momento o fim do mundo acontece.
A qualquer momento o Barqueiro do Aqueronte encosta seu barco, cobra as duas moedas, separa os que vão seguir e atravessar o Rio do Inferno ou os que vão continuar ali na margem, entre lamúrias, remorsos e arrependimentos.
Assim é ou, será assim?
Não faz diferença. Dezembro está chegando, muitas casas estarão enfeitadas para comemorar o Natal, depois a chegada do novo ano, da nova jornada. Vamos nessa!
Novos ou renovados desejos, vontades, aspirações, objetivos, crenças e expectativas.
Viva o marketing para ajudar nas escolhas das coisas materiais. Viva a medicina para acalmar os malucos, mitigar as dores, curar os doentes.
Segue o salão...Ah, para os que tem medo do sobrenatural, das profundezas dantescas, das furnas satânicas para os de mau caráter, vai o consolo bíblico, só para não esquecer: Marcos 3-28 Todos serão perdoados.
Feliz Natal! Feliz e próspero Ano Novo.
Raul Almeida

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Postado por Raul Almeida
24/11/2021 às 12h00

 
Burca ou albornoz

Os argumentos contra ou favor ao isolamento social, por definição o distanciamento físico entre pessoas, não convenceram aos que menos recursos tem para resistir a Peste chinesa.
(Se a epidemia de gripe foi "espanhola"...)
O Corona virus, na versão oficial.

O noticiário expõe a realidade da tragédia, quando separa os miseráveis dos pobres, por sua vez distanciados dos remediados e prósperos. A mortalidade entre os primeiros é muito maior do que nos dois últimos grupos.

A discussão sobre a atitude rebelde, a insubordinação e discordância quanto a medida "restritiva à liberdade", tem facilitado a polarização e politização do assunto.

A idiotice de alguns, a ignorância e incompreensão tácita de muitos e a necessidade econômica de boa parte dos cidadãos, além da ordinária, imoral e canalha atitude de políticos ambiciosos, vai retardando a eficácia e segurança das recomendações e ações de quem mais entende do assunto: sanitaristas, médicos, e infectologistas.

Proteger o nariz e a boca com máscaras apropriadas, usar luvas, manter a distância entre os circunstantes, não promover ajuntamentos, reuniões, festas, comemorações, nada que aglomere ou aproxime pessoas.

Lavar as mãos adequadamente e repetir os cuidados sempre que usa-las: ao pegar em puxadores, maçanetas, trincos, torneiras, botoneiras de elevadores, cadeiras e assentos, enfim, sempre.
Usou o sanitario?
Pegou a caneta na loterica?
Subiu no ônibus? Desceu?
Abriu a porta do Banco?
Usou o caixa eletrônico?
Pois é.
Lave as mãos muito bem, como se estivesse com nojo do último objeto que tocou. Desinfete com o álcool-gel, não desperdice nem economize.

Não é preciso, por enquanto, usar burca ou albornoz. Mas se você não ajudar, vai usar mortalha, saco preto, um caixote ou o último lençol da casa.

Fique esperto.


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Postado por Raul Almeida
18/4/2020 às 18h54

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