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Segunda-feira, 24/10/2022
Blog da Mirian
Mirian de Carvalho (e-mail: [email protected])
 
Panfleto da ressurreição

Fosse ontem fosse hoje, choramos pelo dia que sangra
Fosse ontem fosse hoje, limpamos as feridas da luz
Fosse ontem fosse hoje, expomos nosso calcanhar de Aquiles
Fosse ontem fosse hoje, coturnos esfolam o chão
Fosse ontem fosse hoje, chove nos pombais
Fosse ontem fosse hoje, o veneno alimenta as víboras
Fosse ontem fosse hoje, respiramos.

Fosse agora e sempre, nosso fôlego recria-se do nada
Fosse agora e sempre, o dia ressurge inteiro.

Fosse muito ou nada, ressurgimos da miséria do mundo
Fosse muito ou nada, cremos na ressurreição.


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Postado por Mirian de Carvalho (e-mail: [email protected])
24/10/2022 às 14h12

 
PANFLETO AMAZÔNICO

Para Bruno Pereira e Dom Phillips

“Qual um sonho dantesco as sombras voam ...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!”
Castro Alves


Noite e dia inundando a cidade
nos atormenta o aluvião da perda,
a sede da morte bebe nosso sangue
e seu bafio invade-nos as casas e narinas.
Noutras bandas, esfacelados os seixos da vida
que se perde nas matas sem horizonte,
implumes, os pássaros emudecem
diante da terra espoliada.

Alucinação? Tenho febre?

“Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura ... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!”


Quem será o algoz?
Que não é sombra nem ficção?
E se esconde atrás da arma?

De quem pode ser a fúria?
Do que não é corvo nem micróbio?
E se deleita diante dos mortos?

Quem serão os muitos cabeças?
Que passam a boiada e se anunciam?
E abrem as portas do inferno?

“Dizei-me vós, Senhor Deus!
Tanto horror perante os céus?!”


Ignorando o cadáver dos justos,
dizimados os nativos, os animais,
as divindades, a selva e os rios,
o cadafalso rasteja aos pés do poder.
Mas em meu texto renascem plumas
em cada palavra e em nossos atos
vencendo a tormenta de fogo.

Delírio? Delírio? Ó, delírio!
O que me responderás?


Veloz veloz, veloz, em meu onirismo,
cauda de arara azul, escamas de folhas,
canto de uirapuru, trajeto condoreiro,
benfazejo peixe solar ilumina o mundo.
Seduzida pela visão, pergunto ao encantado
se a esperança, inseto e sentimento,
pode ganhar forma imaginária.
E renascer tal forma real.

Brasis afora e adentro,
adormeço numa rede.
Plantando a régia vitória dos cocares
um Quarup universal cantará para sempre
o nome dos nossos mortos.
Nas aldeias, eles renascerão com o sol.
E iniciarão os humanos
nos rituais da vida.

Num sonho coletivo os peixes voam ...
Bandos de asas canções entoam!
Na selva germinam rios e paz.


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Postado por Mirian de Carvalho (e-mail: [email protected])
4/7/2022 às 16h17

 
Primeira bem-aventurança

Para: João Pedro Stédile

Eu sou pobre, pobre, pobre
De marré, marré, marré
Eu sou pobre, pobre, pobre
De marré deci.


Mateus, no Sermão da Montanha
e Lucas, no Sermão da Planície
na devida ordem, chegariam à nossa era:
“Bem-aventurados os pobres de espírito
porque deles será o reino dos céus.”
“Bem-aventurados vós, os pobres,
ai de vós, os ricos!”

Ouvindo agora a voz de Lucas
não me diz a pobreza e a riqueza
medidas por moedas de ouro e prata.
Ricos, os poderosos, os opressores,
entre eles, mandatários e carcereiros.
Pobres, os seguidores do Cristo
os que se opõem ao mando
os que almejam fraternidade
nos arredores da Galileia.
E mundo afora.

Das palavras de Lucas,
vós, que sofreis a pobreza material,
podeis lutar contra a escravidão.
Das palavras de Mateus,
vós, pobres de espírito e discernimento,
podeis um dia enxergar a luz.
Das palavras dos Evangelistas
possamos nos valer todos nós.

Bem-aventurados vós, os pobres,
que sabem dividir o pão e os peixes.
Bem-aventurados vós, os pobres,
porque assim merecem o vinho.
Bem-aventurados vós, os pobres,
que desejam compartilhar a terra.
Bem-aventurados vós, os pobres,
porque almejam dividir a colheita.

Eu sou rica, rica, rica
De marré, marré, marré
Eu sou rica, rica, rica,
De marré deci.


Bem-aventurados esses pobres,
porque são ricos de marré deci.
Bem-aventurados esses pobres
porque podem virar a mesa.

(Série: Poemas dramatúrgicos)

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Postado por Mirian de Carvalho (e-mail: [email protected])
26/3/2022 às 18h56

 
Meus versos?

Rio se faz com riacho
manhã se faz do alvissareiro canto do galo
o fruto, ah! o fruto vem da invisível célula
amamentada e aquecida pela terra;
no cio explode o ânimo do corpo amante.

Poesia? Não sei de onde vem.

Rio se faz com riacho
riacho se faz da inesperada gota
fugindo do previsível rumo das águas da fonte;
delicada folhagem mantém vivos elefante e manada
peixe surge da translúcida escama.

Meus versos?

Quem sabe, venham das cosmogonias
quando tudo era nada, infinito, solidão? E vida?
Ou da audível mudez das vozes dos mortos-vivos,
das vozes trêmulas de desamparo,
soprando fagulhas de angústia?

Meus versos?

Sei que não participam dos séquitos dos reis
nem os glorificam nas cerimônias do beija-mão.
Carregando a quieta inquietude dos humanos
meus versos desejam desafiar a navalha que nos fere o corpo
e desmarcar fronteiras que nos prendem ao limbo.

Tempo incontido na fala do instante nascente,
poderá meu canto cativar outras vozes?


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Postado por Mirian de Carvalho (e-mail: [email protected])
17/3/2022 às 12h27

 
A Lei de Murici

“Em tempos de murici,
cada um cuida de si.”

No jargão popular, Murici virou nome de uma lei. Entanto, palavras e adágios pulam os muros dos dicionários e enciclopédias e a etimologia se perde nas precisas imprecisões da linguagem do povo, construindo e desconstruindo significados, o que faz a gente entender que a fala desvela uma filosofia do cotidiano. Esse dito popular aponta para vários lados de uma sabença capaz de alertar quanto aos dois lados da moeda: constatação e reflexão sobre o salve-se quem puder, abrindo sentidos da vida e ressonando de forma diversa nas várias classes sociais.

Aliás, é sempre assim. A linguagem pede interpretações. Se alguém da classe A disser: “estou com fome,” de imediato terá à sua frente lauto banquete. Se um morador de rua disser a mesma frase, o sentido muda e pode até indicar que está morrendo de fome.

Já conhecido em Portugal, e citado no século XVI por Gabriel Soares de Souza, tal adágio, aqui posicionado como epígrafe, fincou pé no Nordeste brasileiro, onde o fruto, o murici, aparece após o tempo das chuvas. João Ribeiro, tentando explicar o folclore pelo difusionismo dos antropólogos, atribuiu a origem do dito ao nome “murixi” ou “morexi” – o cólera − terrível epidemia que matava populações na Índia, onde os lusos iam à cata de especiarias. Assim, podem ter surgido corruptela e metáfora!

Visitando cenas de Os Sertões, encontrei referências de Euclides da Cunha a esse dito do povo. Afirma o autor que, após a morte do Cel. Moreira César na terceira expedição de Canudos, o Cel. Pedro Nunes Tamarindo, temendo ser morto, teria invocado tal adágio ao recusar-se a assumir o comando das tropas do governo. Uma vez salva sua pele, a tropa − o povão − que cuidasse de si.

Tempo vai. Tempo vem. Chuva miúda não mata ninguém. E a frutinha amarela deu nome à lei e o nome da lei virou sonoridade ao entrar no samba de vários autores, entre eles Juraci e Bezerra da Silva, ensinando como sobreviver em meio à malandragem.

Na internet há quem afirme que, em tempos de seca, só o muricizeiro retém água e permanece dando frutos: “Quando apenas a frutinha murici (tempo de murici) sobrevive é tempo de cada um cuidar de si, uma vez que, se só sobrou o murici, a coisa está feia. ”

Tempo vai, tempo vem, estamos em maus lençóis. A norma chamada popularmente Lei de Murici parece ter virado Medida Provisória nos últimos tempos, estendendo-se aos danos da Covid-19. Desdobrando o dito popular, eu diria: em tempos de mercado financeiro, não sobrevive nem muricizeiro.

Diante disso, Lima Barreto teria muito a acrescentar às histórias dos bruzundangas. Solidariedade? Farinha pouca, meu pirão primeiro. Pandemia? Todo mundo vai mesmo morrer um dia. Vacina? Cada um que se contamine e siga o rebanho dos mortos. Emprego pra quê? Vagabundo não gosta de trabalhar, afirmam os jogadores da bolsa.

Assim, como grande parte dos dizeres do povo, o adágio em pauta conduz sabença capaz de alertar para a riqueza da fala, escavando sentidos escondidos no fundo das verdades não verdadeiras. Ditos e adágios são feito poesia: suas palavras e imagens viram o mundo de cabeça pra baixo. E a linguagem pode tornar-se ato, dando novo sentido à vida e outro rumo à existência.

Dizem que “boi não sabe a força que tem”. Mas esse ditado pode significar muito mais: Ah! Mas se o boi descobre a força que tem! Por isso, na perspectiva poética, se, ante as dificuldades, cada um tem que cuidar de si, a fala também alcança aqueles que querem revogar a Lei de Murici.

Linguagem é isso: ontogênese. Quando menos se espera, um dito pode ressurgir trazendo antigas e novas ideias e também preciosas contradições que podem virar a mesa.

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Postado por Mirian de Carvalho (e-mail: [email protected])
15/11/2021 às 08h59

 
Três apitos

“Nos meus olhos você lê
Que eu sofro cruelmente
Com ciúmes do gerente impertinente
Que dá ordens a você [...]”.

Noël Rosa

Você duvida? Nos arredores de Vila Isabel, o poeta inscreveu o mundo de ontem. E o de hoje. Noël Rosa registrou na poesia o cenário do fordismo que, em Tempos Modernos, Chaplin satirizaria ao enfocar a desumanização do homem pela máquina. Em julho de 2019, guiando-me na visita ao prédio da antiga fábrica de tecidos, e sempre brincalhão, Seo Armindo observou: “Ora, pois, que acabamos de passar pelo gerente impertinente! Que carranca, pá!” Em "Três apitos", não escapara a Noël a figura do gerente alienado − espécie de guarda-da-esquina − que fiscalizava o trabalho.

Dizem os estudiosos que a namorada de Noël trabalhava numa fábrica de botões. Mas poesia inventa realidades que se bastam a si mesmas. Fosse indústria de salsichas, de botões ou tamancos, nosso apaixonado Noël captaria com perfeição a voracidade do capital contrapondo-se ao afeto. A poesia tem mil olhos. Cadê que ela deixa escapar alguma coisa!

Poema revisitado, aonde vais? Meu olhar te acompanha. E à escuta da canção de Noël, meus olhos enxergam o amor desenrolando-se dos fios de algodão:

“Mas você não sabe
Que enquanto você faz pano
Faço junto do piano
Estes versos pra você.”

Transformada a fábrica em centro comercial nos idos 1980, o apito tocava às 17 horas, como atração turística. Um ano antes da COVID-19, não mais o apito. Entanto, rememorando Nöel, meus ouvidos reverteram o tempo. Fios e mais fios reunidos na trama expelida pela máquina; meu pensamento emaranhado nos braços movimentando-se na luta contra o cansaço e a fome. E, naquele dia frio em 2019, era também de carne e osso a moça descalça, parada em frente ao supermercado: imagem que, numa hipérbole, lembrava a jovem na canção:

“Você no inverno
Sem meias vai pro trabalho [...]”

Entre as duas cenas, outras imagens emergiam naquele prédio. Imagem puxava imaginação e ideia. Nos arredores do quarteirão, meus ouvidos atentos à nostalgia poética ouviam a buzina do carro de Noël, querendo abafar o som que lhe feria os ouvidos e o amor. Você duvida? Em Vila Isabel, o poeta juntou fragmentos do seu tempo e de um futuro, que, em parte, se desenhava na pobreza. Trabalho precário. Desemprego. Miséria.

E, neste escrito, a poesia de Nöel atravessa o antigo cenário, ansiosa para chegar aonde não é chamada.

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Postado por Mirian de Carvalho (e-mail: [email protected])
13/11/2021 às 17h27

 
Os inocentes do crepúsculo

“Os inocentes do Leblon
não viram o navio entrar. [...]
Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram,” [...].
Carlos Drummond de Andrade


Cores fugazes ao esconderijo do sol
céus anunciadores do novo ciclo do dia
no convés do etéreo. À hora do Angelus,
os inocentes do crepúsculo contabilizam ações da bolsa.
E, quando finda a madrugada, dormem a sono solto
para repousar do trabalho pesado
feito por desconhecidos.

Ao contrariar tamanha inocência,
corpos amantes enlaçam-se às vozes do cio
para matizar o gozo da existência
na cidade dos humanos.

Ansiosos pelo mundo estanque
os inocentes do crepúsculo ignoram
o mito da origem reinventando o tempo.

Nas dores da alma e do pensamento caminhantes,
eles não enxergam a perseverança do corpo
reinventando a vida.


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Postado por Mirian de Carvalho (e-mail: [email protected])
17/9/2021 às 11h25

 
GIRASSÓIS

“Mais: quisera ser claro de tal forma
que ao dizer
— já!
todos soubessem o que haviam de fazer.”

Geir Campos

Seguindo a clareza do ouro da luz
meus girassóis prenunciam movimentos e voltas
que o mundo e as mãos poderiam dar
ante o tempo de sobressaltos
do nosso exílio na terra natal.
A centelhada da hora esperada
rápido se esgota na fuga do instante.
Mas esse lampejo se desdobra noutro instante
propício aos desígnios do estômago
e das florações.

Diante das barbas luminosas do sol
ou nas alamedas dos jardins anoitecidos
o mundo carrega nos ombros o tempo perdido
pesando no agora. Entanto,
à memória dos girassóis,
novo instante nos enlaçará o corpo
lembrando-nos o que podemos fazer.

AGORA.

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Postado por Mirian de Carvalho (e-mail: [email protected])
31/7/2021 às 12h41

 
A vida é

Imaginário dardo, inexistente alvo
folha voando ou caindo ao acaso
gelo que retarda o podre na maçã
arma cumprindo missão de encomenda
voz que protege da morte antecipada.

Culto do poder,
à mesa, brilhos brilhando nos talheres de ouro,
avidez da força, a vida parece festa inacabada.
Entre o séquito e a decomposição do fruto
há quem não se pergunte o que é a vida.

Aos tropeços, a vida insiste nos atos,
zelo das mãos ao cuidar da semente
colheita do feijão ante a cerca derrubada
fonte amiga do cântaro de barro.

No que tanto pesa, a vida é a vida.
Quando escolha do chão compartilhado.

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Postado por Mirian de Carvalho (e-mail: [email protected])
22/2/2021 às 14h48

 
Também no Rio - Ao Pe. Júlio Lancellotti

Acho que era sábado. Me lembro de quase tudo naquele dia.

Almoçamos fora. Passamos pelo Campo de Santana.
Por que o pavão não abriu a cauda?
Andamos, andamos, andamos. Na esquina da Presidente Vargas
com a Uruguaiana, um mendigo sentado no chão tilintava
moedas numa lata: “Um pobre peregrino / anda de porta em porta /
pedindo uma esmola / pelo amor de Deus [...]”.
Meu pai lhe estendeu uma nota igual àquela que demos no
restaurante. Tem gente que sustenta vagabundo, resmungou
um homem de terno cinza.
− Papai, ele não vai almoçar?
− Hoje, vai.

Chegamos ao Largo de São Francisco. Na papelaria, vitrines me
atraíam olhos e sonhos. Árvores de Natal, estrelas, luzinhas,
guirlandas. Ao embrulhar nosso presépio, o vendedor protegeu
com papelão o lago espelhado e os patinhos de cerâmica.

À saída, uma mulher desdentada, menino magrinho no colo,
pedia esmola.

Papai, queria dar pro menino a estrelinha. A mãe, o filho e
o mendigo podiam morar no presépio. Tem boizinho. Reis Magos.
Burrinho pra pra passear com eles. Lago pra beber água. E as
arvorezinhas dando frutas. Eles iam gostar de comer
maçã.


Décadas se foram. Ao passar pelo Largo de São Francisco,
aquele dia sempre recomeça. Passos distraídos, meu percurso de
hoje sem a correria do trabalho. Ao passar em frente à
Faculdade onde estudei, me veio a imagem do querido mestre que
queria mudar o mundo.

Pouco posso fazer sozinha nesse texto, enquanto lagartixas
passeiam sobre folhas secas no Campo de Santana.

Na esquina da Presidente Vargas com a Uruguaiana, o mendigo
continua tilintando moedas numa lata. A papelaria do Largo de São
Francisco não existe mais. Entanto, a mulher com a criança no
colo ainda pede esmola na porta daquela loja. Devem ter chegado à
cidade no século passado. Pensando bem, muito antes.

Eles têm a idade dos milênios.

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Postado por Mirian de Carvalho (e-mail: [email protected])
2/2/2021 às 19h58

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