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Quarta-feira, 21/11/2018
Blog de Aden Leonardo Camargos
Aden Leonardo Camargos

 
Heróis improváveis telefonam...



Roça do Vó Manoel, óleo sobre tela dessa neta.



Heróis improváveis ligam de número que você nunca imaginaria atender. Claro, de outro Estado que não o seu. Claro que em um dia de nada, de chuva, sem passarinhada (só as loucas das andorinhas) e chuva daquelas que você reza para jogar as mangas Doce de Leite do vizinho no seu chão. Se você acha que chuva é para encher os rios, engana-se. É pra manga cair. Principalmente a Doce de Leite, um bebezinho. Cai.

Presto atenção também em cores que não sei o nome, mas principalmente presto atenção em vento, nuvens, sabiás de setembro, sol, lua. Presto atenção para lembrar do que era bom, paz, sossego. Dos dias na roça, dos avós, das tramelas, cancelas, porteiras e palavras que não existem mais fisicamente por aqui. No meu mundo urbano cinza monstro.

Hoje o Chukichi Kurozawa me ligou. Eu fiquei com aquela cara de “peraí” mineiro. Isso tudo porque confessei prestar atenção na sua ausência do programa de domingo que assisto por afetividade guardada, o Globo Rural. Escrevi, conversando primeiramente com um robô, onde deixava minha dúvida. A dúvida não era como criar abelhas, como fazer muda de Cambuci. Era cadê o Chukichi. Que durante todos esses anos era chamado para resolver as dúvidas dos leitores e... pá, sumiu. Parecia até coisa de Minas mesmo: cadê isso que tava aqui? Sei não, sumiu. Sumiu é a explicação que mineiro aceita, se aparece, apareceu.

Carinhosamente recebi a resposta por e-mail, que ele ainda continua salvando as mais horríveis dúvidas com as mais lindas respostas. Se a planta é doce, comestível, da família de nome louco em latim... Já memorizo o preço da saca de café Arábica e Conilon. Latim ainda é difícil.

Não bastasse o orgulho que fiquei da resposta assim por e-mail, hoje me ligou! Eu que trago todas as férias na roça colada nas minhas melhores alegrias. Eu que tomo café olhando algum lugar porque lembra a cancela da cozinha e a gente olhando o quintal. Eu que fiquei presa no paiol porque esqueci de fechar a tramela e a Mimosa entrou (a vaca que meu avô amansou para seguir a gente). Aprendi que num palheiro não se acha agulha e muito menos a saída se uma vaca gorda entrar. Paiol aqui é onde se guarda palha, deixo claro. Ou era, já nem sei mais. Hoje em dia deve ser Straw Place, regulado certificado carimbado pela Anvisa.

Eu que já me perdi em planilhas do Excel e até para isso já imaginei, se meu amigo consultor do Globo Rural Chukichi Kurozawa respondesse o meu “queisso?”... Saberia! Ele que quando chamado, com uma simples fotografia, sabe... Ele que vem voando cheio de livros com desenhos de frutos e folhas, feitos à mão e pousa com sua resposta: pode comer que é bom. Ou isso veio da Índia... ou... Como pode alguém saber tudo?

Eu que quando triste de marré deci, em Belo Horizonte, olhando pela janela do vigésimo sexto andar, resolvi entre todas as opções da noite ir no show do Rolando Boldrin, no Minascentro. Sozinha na fila e pensando que estou fazendo aqui. Eu que soube. Eu que trouxe de volta aquela alegria simples da gente infância. Das prosas, dos cheiros, dos chamamentos das criações. Eu que um dia antes atravessando a Contorno esqueci do nada como era mesmo o mundo, não sabia atravessar a rua e o sinal vermelho me deu espanto e não soube ligar o telefone, discar, nem falar nada eu soube Esqueci como se lia. Porque o Excel surta a gente. Eu que triste, estava deixando de saber e acreditar. Eu que fui resgatada naquela noite pela simplicidade da roça.

Não sei quantas vezes o agro, a roça ainda vão me resgatar. Eu que hoje nem pedia resgate, voei. Desde o telefone tocar e eu desligar ainda com cara de “peraí”, estou cá pensando nas minhas referências, às somas que nos tornamos. E veio um cheiro de café, queijo, fogão à lenha, lamparina, chuveiro à serpentina, leite, quintal, açude. Hoje sei que o que vem da terra, entra no coração. Hoje sou aquele quintalzão cheio de folhas estalando debaixo dos meus pés, impossível brincar de pique-esconde. Quanto mais corre mais barulho faz. Tenho que contar, eu recebi um telefonema do Chukichi Kurozawa! Eu sou um barulho bom hoje...



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Postado por Aden Leonardo Camargos
21/11/2018 às 21h22

 
O mundo era mais aberto, mãe...





Ei mãe! Eu tenho uma cafeteira elétrica, mas você não poderia entender a brincadeira. Nem sabia que eu queria ter. E lá fora hoje bem cedinho um sabiá cantou. Vai fechando agosto e eles começam aqui na nossa cidade, nesse cantinho do mundo, a cantar para a sabioua (sei que não é assim). Pode me corrigir, igual quando escrevo na sua mão que dia é hoje. Depois do banho. Quando é sábado e eu não coloco direitinho, você diz “põe acento no a”. Porque professores nunca deixam de ensinar. Acho que só sei que dia é hoje e ontem e amanhã porque escrevo na sua mão. Deve ser o único motivo para se saber. Que outro motivo importa?

Mas o sabiá cantou lá fora em alguma árvore que ainda resta dos nossos vizinhos. Eu mesma construí em cima do nosso quintal. Tenho nem cebolinha no vaso. Enfim, o assunto sabiá não vinga hein, nem há como definir, porque logo que ouvi, você abriu a porta da escada e me chamou, fraquinho feito som de sabiá... Setembro está chegando. Era quase isso, era dor. Parece que a vida vem dando um pote gelado de dor no seu corpo que é um pouco torto de dor, artrite ou artrose ou escoliose. Para mim são sinônimos de estradas cheias de curvas, difíceis de passar. Você está passando por ela. Pouco importa o nome. Artrite parece ‘ar triste’ que uma criança falou.

Veio uma melancolia, sabe mãe. E lembrei que a gente ia na Prassisporte nadar. Era esse nome, que a gente mineiro e criança aprende que é assim a palavra “Praça de Esportes”. Era um quarteirão redondo, como um super pão de queijo. Ainda é. Não é mais um clube que frequento e lembro da piscina azul e você de maiô preto me segurando. Lembrei das compras na “Cobal” como era tudo exposto e diferente de hoje. O macarrão, farinhas, tudo era aberto numa caixa inclinada. Dormia aberto, amanhecia aberto... A vida era mais aberta, mesmo que alguns bichos noturnos passassem por lá. Quem não tem ratos e baratas passeando na cabeça, né?

Eu ganhava um Chicabon se não pedisse nada, nadinha mesmo. A moça do caixa chamava-se “Márcia” e então você autorizava. A geladeira de picolés era enorme, tipo uma montanha que de baixo eu podia imaginar a neve. Eu não conseguia subir, eu era gorda... Posso amenizar e falar gordinha. Mas era gorda.

Tanto que só era chamada para os times de queimada. Era até preferida... Minha “bolada” fazia todo mundo correr. Agora vivo de dieta, malho e sou alguma coisa magra. Minha bolada nem existe e se eu fingir ter uma bola de futebol nas mãos, os meninos não correm mais de medo. Acho que era meio esse tal empoderamento da mulher, um começo. Vê lá hein mãe? Eu fundando essas palavras... Lá pelos anos 70. Empoderamento feminino é uma bola de queimada. Pronto. Está feito, igual Deus fez o mundo.

Agora estou esperando a hora de ligar para o doutor bonito. Ele é bonito de branco e com os olhos pacientes. Aquela calma de quem parece ser o Mágico de Oz numa cadeira que roda e comanda os mundos de cada um. Ele pode vir aqui te ver. Porque eu só sei ouvir o sabiá pequenininho que você se tornou. Não sirvo para acertar os remédios. Para que mesmo a gente serve, né, mãe? Pra quê?



Imagem: Google

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Postado por Aden Leonardo Camargos
24/8/2018 às 16h48

 
Não sei se você já deitou em estrelas.





Não sei se você já deitou em estrelas. De perto, bem de perto estão coladas numa pele quente que sob a luz de uma luminária no canto são quase escuras. Seus brilhos não podem ser mesmo coisa natural. É um sol todo repartido que uma criança desenhou e tentou te fazer ver. Se você juntar tudo e tentar inventar algo real, ou sequer ousar outro desenho, o tempo te passará em segundos. Por exemplo, quando são dez e meia da manhã, do nada são cinco da tarde.

Não adianta tocar esse fundo de céu na tentativa idiota de movê-las para si. Elas podem na verdade estar na porta da farmácia. Tudo na porta da farmácia é passado. Inclusive estrelas que nem sua eram.

Para achar que você as tem – hoje em dia tudo que se afirma já é seu – faça o seguinte:

1- Junte um coração ainda descompassado pelos desencontros.

2- Uma pitada de desentendimento - hoje em dia é fácil não entender o que acontece.

3- Uma oração - uma novena para ser mais exato.

4- Peça sem que seu pedido seja tão claro (já que você tem que ser desentendido).

5- Tome uma xícara de café em algum lugar (não vale na sua casa).

6- Desista de esperar sempre.

7- Diga: “senta aqui”.

O restante do processo é um tanto cego. Arriscado. Mas quem quer estrelas nem pouco mais se importa com perigo. Perigoso é enterrar submetralhadoras. Todo resto é apenas duvidoso de dar certo. Que é perigo: você cavar onde esqueceu e encontrar seus armamentos dentro de você. Em vez de explosão, nota-se tão obsoleto e sujo de areia que você nem é mais um brinquedo de criança. É apenas algo que foi sumariamente morte.

Procure estrelas. Apenas procure. O mapa está nos olhos fechados dos outros...

Imagem: Google

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Postado por Aden Leonardo Camargos
12/8/2018 às 13h24

 
Quando tudo vira cor no vento da viagem



Imagem: La Bioguia



Já teve casas brancas, algum trocado e fracassos. Seu reino foi muito perto, naquela estrada amarela que leva ao Retiro do Homem Só – um lugarejo que segue a linha do trem de ferro, daquela empresa que manda em tudo na cidade.

Numa noite qualquer cheia de galáxias distantes, amarraram na sua porteira - sempre entreaberta - uns óculos estranhos, bem mais escuros que o breu dos seus cabelos. Ela sabe que ninguém pode fugir do que está tão perto, do que é sem nome. Com o mesmo desdém da manhã nascendo, colocou nos olhos e qual surpresa... Tudo ficou mais iluminado. Uma explosão crescente de estrelas anãs nos seus olhos. Foi ficando cega de tanta luz.

Era verdade diante dos olhos. Cega, completamente cega. Mas a luz saía pelas lentes e devido à cegueira, mal podia controlar seus raios, entrando e saindo pelo decote da camiseta de ordenhar seus pensamentos-gados-leiteiros... Sua primeira roupa do dia.

Assistindo esse mundo de luz, foi voltando pra casa e viu que a estrada era verde-azul. O amarelo envelhecido da poeira era mesmo uma ilusão. Conseguiu também ler numa árvore, gravada em baixo relevo “as perguntas são suas, não devolva a ninguém”.

Seus olhos imediatamente teceram teias de material fino e transparente, formando aquela bolha que só existe nos olhos dos gatos.

Agora estava dentro de seus próprios olhos num mundo de luz sem dor.

Antes de entrar em casa, tropeçou na sua armadura transparente. A segunda roupa do dia, de defesa contra abelhas dulcíssimas.

Abriu a porta de casa, tudo diminuiu de importância. Seus livros se transformaram em roteiros, suas janelas, manivela. Deitou na cama-grama, apertada em coisas da casa.

Alguém mais estava lá e também era luz, era sabor, trouxe um mapa mundi, um cigarro, um sorriso, chicletes, lista de compras, despedidas e chegadas.

Ligou à chave, era casa conduzida. Quando tudo vira cor no vento da viagem, nada sobra de antigamente. Ninguém pode fugir sem permanecer... Quando se tem lugar pra fugir – você nem sabe que estava em fuga – o que você conquista é um lugar redondo. Chamam de abraço. Ou vida.



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Postado por Aden Leonardo Camargos
21/12/2017 às 16h56

 
Convite para as coisas que não aconteceram





Convite para as coisas que não aconteceram:

Dia 25 de março, sábado. No Ekoa Café, Rua Fradique Coutinho, 914 - Vila Madalena, São Paulo. Começa às 15:00h. É um lançamento coletivo, mais três amigos tomarão café/poesia/lindezas conosco!

(Estarei lá! Espero que vocês amigos de Sampa possam ir, olha... se o livro for legal a gente toma mais e mais café, conversamos). Vou esperar que acontença!

Leia também:Blog da Scenarium

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Postado por Aden Leonardo Camargos
24/3/2017 às 06h38

 
Como nascer em vulcões inventados


Imagem: Million Pictures



Ou manual de tatuagem



Cassirrá nasceu da entrega de corações ao vulcão 7uMyJ de criptografia radioativa. Foram três corações que sacrificaram para que ela surgisse e o mal continuasse a reinar na tribo. Um dos corações exigidos foi o de uma criança que observava borboletas. Outro de um arqueiro que caçava coelhos. O último de um bobo da corte do reino mais pobre já encontrado. Foi uma exigência de um deus bêbado revelada em sonho para o sacerdote numa noite de chuva codificada.

Não foi fácil encontrar os ingredientes do sonho quente exigidos pelos deuses (havia outros bêbados juntos). Mas assim que os corações arrancados e jogados ainda pulsando lá caíram, surgiu uma luz mequetrefe, saiu do fundo do caldo azul da cratera número três, do lado contrário da 44. Cassirrá já surgiu feito fim de mágica ruim: com arco, flechas e tinha cara de homem mau. Um cavalo que caçava borboletas veio junto - era um combo dos deuses para a tribo.

Cassirrá não sabia palavras. Não sabia sequer olhar. E mestre Super-Cocho-da-tribo foi ensinar as coisas difíceis de ser. As fáceis também. Mesmo Cassirrá não sabendo bulhufas, detestou os ensinamentos. E eram os únicos que teria. Não sabia que não sabia o que era errado ou tosco. Apenas não gostava, ou queria.

“continue limpando sua mente, de crenças, de limitações, teorias, ideias e a verdade será revelada”.

Por que já não revelava a verdade logo, não sabia. Já que ela ainda não sabia o que era verdade. Todas essas aulas na tenda branca fez Cassirrá montar seu cavalo e não agradecer coisa nenhuma. Porque não existem essas coisas de verdade, de realidade. Ela descobriu isso, com seu cavalo procurando borboletas, com sua flecha em punho, mirando para o chão onde nenhum coelho passava. Era apenas uma alma de bobo da corte brincando com fome. Como todos que são eles mesmos.

Cassirrá errou pelo mundo. Por não saber.

Bem velhinha e já com milhares de borboletas-moedas no vestido, aprendeu. E por fidelidade à filosofia, só aprende quem não sabe.

Morreu iluminada. Virou uma aguinha azul que voava borboletas em janeiro. Naquele lugar que ninguém foi visitar ou colher flores.



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Postado por Aden Leonardo Camargos
27/2/2017 às 11h45

 
Inventário de provas

Imagem:Jorge Pinheiro


Rabisquei mais. Só para que você nunca soubesse. Para que te alimente dessa deslembrança necessária, como no dia que fiquei te esperando não me ligar. A gente vai esperando cada vez menos. E o nada fica até melhor quando a gente presencia a certeza.

Desde aquele dia que eu estive longe, desfiz de muita coisa. Foi como desmanchar pontos errados no tecido: dá uma raiva tranquila na pele.

Só não sei ainda porque hoje, agora mesmo, rabisquei com força. A linha feita afundou na minha perna. Fui cortando o rabisco que fiz. Diz o médico do pronto-atendimento do meu plano de saúde que nada vai ficar bem. Adoro auto-ajuda reversa.

Eu disse que queria te servir o pedaço do bolo partido que arranquei cheio de mim com umas vísceras que eu te falaria. Saem pela boca quando grito de dor. O estilete estava velho e preciso de alguma imunidade.

A gente perde imunidade. Um pedaço da perna. Deixo como inventário um buraco como prova de existência. Ele disse “louca e manca por um ou dois dias”. “Uma limpeza profunda, procedimentos de eteceteras. Barbitúricos”.

Todo mundo quer ir embora de algum lugar. Eu fui. Deixei umas marcas de areia na sua casa, mas qualquer onda leva embora. Ou mais uma festa.



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Postado por Aden Leonardo Camargos
21/2/2017 às 22h45

 
Caixa preta à pátina perdida





Imagem: La Bioguia

Você perdeu a caixa preta
Com dourado, à pátina
Lá deixei a voz com o pijama usado
Dormido com perfume,
Você perdeu o livro novo,
Perdeu o vermelho que amo
Como prova de descontrole
Perdeu meus palpites em tudo que me meto
Afundei num oceano

Morta, procurei seu inimigo
Soube histórias de vocês
Dessas de perder
encanto.
Sobrou escombros, buracos, um velho abandonado
Não sabia que morrer era tão simples.
Agora é lavar tudo,
Fazer um porta-nada
Lacrar a caixa
Com um aviso enviado
De ler na missa de sétimo dia

Sou um futuro buraco negro
Expelindo o contrário

Você perdeu.
Restou um corpo numa caixa à pátina
Ex-seu
Deus seja louvado
Você não viria mesmo viver


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Postado por Aden Leonardo Camargos
28/12/2016 às 22h08

 
Joguei esse dia triturado na pocinha azul, um céu





Imagem: Google + bagunçada por mim.

Hoje enquanto eu falava mentalmente pelas ruas orações afirmativas sem a palavra “não” – porque dizem uns loucos que nada no Universo saca o que seja “não” – você passou. Não sei o que acontece. Posso variar os horários, você passa. Talvez tenha sido implantado um chip de não em mim. E o Universo entende pataca. Eu também confundo.

O som da sua voz perguntando “quer que desliga de novo?” (na minha cara e foi você quem ligou), soa feito um pilão de milho, do sítio que a Dona Vitalina batia. A gente nunca sabe quando fica pronto. Quando é o fim. Acho que já é hora de recolher as coisas moídas. Sou um fubá saído da sua maldade.

Depois que te vi, ainda fervorosamente (e mais que antes) pensava em caixa alta...Tudo que eu quero transformar em fim. Uma moça com o rosto rosa de espinhas descia a Silva Jardim e me chamou de outro nome. Senti que sou uma ótima bruxa. Às vezes a mágica funciona. Não existe mais passado, nem futuro do pretérito.

Abri meu tarô hoje à tarde. Tudo que vi é que tudo é uma grande bobagem... A gente morre devagar.

Hoje depois de mover o destino pelas ruas, sentei de frente para o que falta. Imprimi o mapa de onde quero te esquecer. É um lugar de ficar perdido. Pega até trem para a saída certa. Lá o pilão de milho e sua voz "querquedesligadenovo” vão ficar desajustados com o ambiente.

Desenhei uma boneca de varetas. Umas lágrimas azuis formaram uma poça no pé. Um gatinho (que ninguém numa hora dessas pode ficar sem afeto) e uma música do Renato Russo, no absurdo que canto.

Hoje foi um dia muito difícil, pelas coisas que você não sabe... Amassei feito pão com muito fermento errado ou como presente de buscar. É difícil controlar o fermento sobrando. É difícil buscar o que é de ganhar. Joguei esse dia triturado na pocinha azul. Você vai pensar que é céu. E o céu é isso, uma mistura de Universos... Onde cresce a massa do impossível.



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Postado por Aden Leonardo Camargos
24/12/2016 às 17h31

 
Quando algo está para acabar, chove. Foi testado.



Imagem: Adilson Nogueira


Tem poucos dias que vi sua foto, circulando. Nesses ventos que sobem pelos de gatos e fotos desavisadas. Você foi naquela festa que combinamos de ninguém ir. Onde outras fotos existem. Mulheres plastificadas, com a vida que bem sabemos. Achei que eu tinha coisa melhor para fazer.

Daí por vingança, respondi um e-mail Spam. Só para contar que tenho mais o que fazer. Descobri que tenho sixteen million (million hein, não thousand) dólares para receber de um suposto parente meu que morreu em Hong Kong - Mr. Fong, o investigador, descobriu pelo sobrenome!

E comecei a conversar.

É muito bom saber que mais gente me acha otária. O Mr. Huo Fong entendeu que revelei meu verdadeiro nome: Chris Drummond. Nunca antes da história desse país, revelei. E me chama de “dear” baby. Deeeaaarrr. Tá?

Eu, que você nem sabe, nem nunquinha vai saber, porque a felicidade da sua foto nunca vai permitir: sou toda um fake. Acho a verdade patética! E com meu sixteen million vou ver a aurora boreal... Sem salvar seu contato. E claro, você vai ver nessas fotos por aí. Que faltam sei lá, thirty days for nothing.

Ver sua foto doeu mais que raio caindo numa tarde rosa. Mais que o gelo de hotel de iglu, de uma pessoa só olhando o céu num chão de neve, que faz barulhinho quando cai.

Sua felicidade também faz. Barulhinho. Aqui dentro... Quando algo já está para acabar, chove... Essas tardes coloridas tem cheiro de fim. Chove muito por aqui.



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Postado por Aden Leonardo Camargos
7/12/2016 às 21h23

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