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Domingo, 12/8/2018
Blog de Aden Leonardo Camargos
Aden Leonardo Camargos

 
Não sei se você já deitou em estrelas.





Não sei se você já deitou em estrelas. De perto, bem de perto estão coladas numa pele quente que sob a luz de uma luminária no canto são quase escuras. Seus brilhos não podem ser mesmo coisa natural. É um sol todo repartido que uma criança desenhou e tentou te fazer ver. Se você juntar tudo e tentar inventar algo real, ou sequer ousar outro desenho, o tempo te passará em segundos. Por exemplo, quando são dez e meia da manhã, do nada são cinco da tarde.

Não adianta tocar esse fundo de céu na tentativa idiota de movê-las para si. Elas podem na verdade estar na porta da farmácia. Tudo na porta da farmácia é passado. Inclusive estrelas que nem sua eram.

Para achar que você as tem – hoje em dia tudo que se afirma já é seu – faça o seguinte:

1- Junte um coração ainda descompassado pelos desencontros.

2- Uma pitada de desentendimento - hoje em dia é fácil não entender o que acontece.

3- Uma oração - uma novena para ser mais exato.

4- Peça sem que seu pedido seja tão claro (já que você tem que ser desentendido).

5- Tome uma xícara de café em algum lugar (não vale na sua casa).

6- Desista de esperar sempre.

7- Diga: “senta aqui”.

O restante do processo é um tanto cego. Arriscado. Mas quem quer estrelas nem pouco mais se importa com perigo. Perigoso é enterrar submetralhadoras. Todo resto é apenas duvidoso de dar certo. Que é perigo: você cavar onde esqueceu e encontrar seus armamentos dentro de você. Em vez de explosão, nota-se tão obsoleto e sujo de areia que você nem é mais um brinquedo de criança. É apenas algo que foi sumariamente morte.

Procure estrelas. Apenas procure. O mapa está nos olhos fechados dos outros...

Imagem: Google

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Postado por Aden Leonardo Camargos
12/8/2018 às 13h24

 
Quando tudo vira cor no vento da viagem



Imagem: La Bioguia



Já teve casas brancas, algum trocado e fracassos. Seu reino foi muito perto, naquela estrada amarela que leva ao Retiro do Homem Só – um lugarejo que segue a linha do trem de ferro, daquela empresa que manda em tudo na cidade.

Numa noite qualquer cheia de galáxias distantes, amarraram na sua porteira - sempre entreaberta - uns óculos estranhos, bem mais escuros que o breu dos seus cabelos. Ela sabe que ninguém pode fugir do que está tão perto, do que é sem nome. Com o mesmo desdém da manhã nascendo, colocou nos olhos e qual surpresa... Tudo ficou mais iluminado. Uma explosão crescente de estrelas anãs nos seus olhos. Foi ficando cega de tanta luz.

Era verdade diante dos olhos. Cega, completamente cega. Mas a luz saía pelas lentes e devido à cegueira, mal podia controlar seus raios, entrando e saindo pelo decote da camiseta de ordenhar seus pensamentos-gados-leiteiros... Sua primeira roupa do dia.

Assistindo esse mundo de luz, foi voltando pra casa e viu que a estrada era verde-azul. O amarelo envelhecido da poeira era mesmo uma ilusão. Conseguiu também ler numa árvore, gravada em baixo relevo “as perguntas são suas, não devolva a ninguém”.

Seus olhos imediatamente teceram teias de material fino e transparente, formando aquela bolha que só existe nos olhos dos gatos.

Agora estava dentro de seus próprios olhos num mundo de luz sem dor.

Antes de entrar em casa, tropeçou na sua armadura transparente. A segunda roupa do dia, de defesa contra abelhas dulcíssimas.

Abriu a porta de casa, tudo diminuiu de importância. Seus livros se transformaram em roteiros, suas janelas, manivela. Deitou na cama-grama, apertada em coisas da casa.

Alguém mais estava lá e também era luz, era sabor, trouxe um mapa mundi, um cigarro, um sorriso, chicletes, lista de compras, despedidas e chegadas.

Ligou à chave, era casa conduzida. Quando tudo vira cor no vento da viagem, nada sobra de antigamente. Ninguém pode fugir sem permanecer... Quando se tem lugar pra fugir – você nem sabe que estava em fuga – o que você conquista é um lugar redondo. Chamam de abraço. Ou vida.



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Postado por Aden Leonardo Camargos
21/12/2017 às 16h56

 
Convite para as coisas que não aconteceram





Convite para as coisas que não aconteceram:

Dia 25 de março, sábado. No Ekoa Café, Rua Fradique Coutinho, 914 - Vila Madalena, São Paulo. Começa às 15:00h. É um lançamento coletivo, mais três amigos tomarão café/poesia/lindezas conosco!

(Estarei lá! Espero que vocês amigos de Sampa possam ir, olha... se o livro for legal a gente toma mais e mais café, conversamos). Vou esperar que acontença!

Leia também:Blog da Scenarium

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Postado por Aden Leonardo Camargos
24/3/2017 às 06h38

 
Como nascer em vulcões inventados


Imagem: Million Pictures



Ou manual de tatuagem



Cassirrá nasceu da entrega de corações ao vulcão 7uMyJ de criptografia radioativa. Foram três corações que sacrificaram para que ela surgisse e o mal continuasse a reinar na tribo. Um dos corações exigidos foi o de uma criança que observava borboletas. Outro de um arqueiro que caçava coelhos. O último de um bobo da corte do reino mais pobre já encontrado. Foi uma exigência de um deus bêbado revelada em sonho para o sacerdote numa noite de chuva codificada.

Não foi fácil encontrar os ingredientes do sonho quente exigidos pelos deuses (havia outros bêbados juntos). Mas assim que os corações arrancados e jogados ainda pulsando lá caíram, surgiu uma luz mequetrefe, saiu do fundo do caldo azul da cratera número três, do lado contrário da 44. Cassirrá já surgiu feito fim de mágica ruim: com arco, flechas e tinha cara de homem mau. Um cavalo que caçava borboletas veio junto - era um combo dos deuses para a tribo.

Cassirrá não sabia palavras. Não sabia sequer olhar. E mestre Super-Cocho-da-tribo foi ensinar as coisas difíceis de ser. As fáceis também. Mesmo Cassirrá não sabendo bulhufas, detestou os ensinamentos. E eram os únicos que teria. Não sabia que não sabia o que era errado ou tosco. Apenas não gostava, ou queria.

“continue limpando sua mente, de crenças, de limitações, teorias, ideias e a verdade será revelada”.

Por que já não revelava a verdade logo, não sabia. Já que ela ainda não sabia o que era verdade. Todas essas aulas na tenda branca fez Cassirrá montar seu cavalo e não agradecer coisa nenhuma. Porque não existem essas coisas de verdade, de realidade. Ela descobriu isso, com seu cavalo procurando borboletas, com sua flecha em punho, mirando para o chão onde nenhum coelho passava. Era apenas uma alma de bobo da corte brincando com fome. Como todos que são eles mesmos.

Cassirrá errou pelo mundo. Por não saber.

Bem velhinha e já com milhares de borboletas-moedas no vestido, aprendeu. E por fidelidade à filosofia, só aprende quem não sabe.

Morreu iluminada. Virou uma aguinha azul que voava borboletas em janeiro. Naquele lugar que ninguém foi visitar ou colher flores.



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Postado por Aden Leonardo Camargos
27/2/2017 às 11h45

 
Inventário de provas

Imagem:Jorge Pinheiro


Rabisquei mais. Só para que você nunca soubesse. Para que te alimente dessa deslembrança necessária, como no dia que fiquei te esperando não me ligar. A gente vai esperando cada vez menos. E o nada fica até melhor quando a gente presencia a certeza.

Desde aquele dia que eu estive longe, desfiz de muita coisa. Foi como desmanchar pontos errados no tecido: dá uma raiva tranquila na pele.

Só não sei ainda porque hoje, agora mesmo, rabisquei com força. A linha feita afundou na minha perna. Fui cortando o rabisco que fiz. Diz o médico do pronto-atendimento do meu plano de saúde que nada vai ficar bem. Adoro auto-ajuda reversa.

Eu disse que queria te servir o pedaço do bolo partido que arranquei cheio de mim com umas vísceras que eu te falaria. Saem pela boca quando grito de dor. O estilete estava velho e preciso de alguma imunidade.

A gente perde imunidade. Um pedaço da perna. Deixo como inventário um buraco como prova de existência. Ele disse “louca e manca por um ou dois dias”. “Uma limpeza profunda, procedimentos de eteceteras. Barbitúricos”.

Todo mundo quer ir embora de algum lugar. Eu fui. Deixei umas marcas de areia na sua casa, mas qualquer onda leva embora. Ou mais uma festa.



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Postado por Aden Leonardo Camargos
21/2/2017 às 22h45

 
Caixa preta à pátina perdida





Imagem: La Bioguia

Você perdeu a caixa preta
Com dourado, à pátina
Lá deixei a voz com o pijama usado
Dormido com perfume,
Você perdeu o livro novo,
Perdeu o vermelho que amo
Como prova de descontrole
Perdeu meus palpites em tudo que me meto
Afundei num oceano

Morta, procurei seu inimigo
Soube histórias de vocês
Dessas de perder
encanto.
Sobrou escombros, buracos, um velho abandonado
Não sabia que morrer era tão simples.
Agora é lavar tudo,
Fazer um porta-nada
Lacrar a caixa
Com um aviso enviado
De ler na missa de sétimo dia

Sou um futuro buraco negro
Expelindo o contrário

Você perdeu.
Restou um corpo numa caixa à pátina
Ex-seu
Deus seja louvado
Você não viria mesmo viver


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Postado por Aden Leonardo Camargos
28/12/2016 às 22h08

 
Joguei esse dia triturado na pocinha azul, um céu





Imagem: Google + bagunçada por mim.

Hoje enquanto eu falava mentalmente pelas ruas orações afirmativas sem a palavra “não” – porque dizem uns loucos que nada no Universo saca o que seja “não” – você passou. Não sei o que acontece. Posso variar os horários, você passa. Talvez tenha sido implantado um chip de não em mim. E o Universo entende pataca. Eu também confundo.

O som da sua voz perguntando “quer que desliga de novo?” (na minha cara e foi você quem ligou), soa feito um pilão de milho, do sítio que a Dona Vitalina batia. A gente nunca sabe quando fica pronto. Quando é o fim. Acho que já é hora de recolher as coisas moídas. Sou um fubá saído da sua maldade.

Depois que te vi, ainda fervorosamente (e mais que antes) pensava em caixa alta...Tudo que eu quero transformar em fim. Uma moça com o rosto rosa de espinhas descia a Silva Jardim e me chamou de outro nome. Senti que sou uma ótima bruxa. Às vezes a mágica funciona. Não existe mais passado, nem futuro do pretérito.

Abri meu tarô hoje à tarde. Tudo que vi é que tudo é uma grande bobagem... A gente morre devagar.

Hoje depois de mover o destino pelas ruas, sentei de frente para o que falta. Imprimi o mapa de onde quero te esquecer. É um lugar de ficar perdido. Pega até trem para a saída certa. Lá o pilão de milho e sua voz "querquedesligadenovo” vão ficar desajustados com o ambiente.

Desenhei uma boneca de varetas. Umas lágrimas azuis formaram uma poça no pé. Um gatinho (que ninguém numa hora dessas pode ficar sem afeto) e uma música do Renato Russo, no absurdo que canto.

Hoje foi um dia muito difícil, pelas coisas que você não sabe... Amassei feito pão com muito fermento errado ou como presente de buscar. É difícil controlar o fermento sobrando. É difícil buscar o que é de ganhar. Joguei esse dia triturado na pocinha azul. Você vai pensar que é céu. E o céu é isso, uma mistura de Universos... Onde cresce a massa do impossível.



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Postado por Aden Leonardo Camargos
24/12/2016 às 17h31

 
Quando algo está para acabar, chove. Foi testado.



Imagem: Adilson Nogueira


Tem poucos dias que vi sua foto, circulando. Nesses ventos que sobem pelos de gatos e fotos desavisadas. Você foi naquela festa que combinamos de ninguém ir. Onde outras fotos existem. Mulheres plastificadas, com a vida que bem sabemos. Achei que eu tinha coisa melhor para fazer.

Daí por vingança, respondi um e-mail Spam. Só para contar que tenho mais o que fazer. Descobri que tenho sixteen million (million hein, não thousand) dólares para receber de um suposto parente meu que morreu em Hong Kong - Mr. Fong, o investigador, descobriu pelo sobrenome!

E comecei a conversar.

É muito bom saber que mais gente me acha otária. O Mr. Huo Fong entendeu que revelei meu verdadeiro nome: Chris Drummond. Nunca antes da história desse país, revelei. E me chama de “dear” baby. Deeeaaarrr. Tá?

Eu, que você nem sabe, nem nunquinha vai saber, porque a felicidade da sua foto nunca vai permitir: sou toda um fake. Acho a verdade patética! E com meu sixteen million vou ver a aurora boreal... Sem salvar seu contato. E claro, você vai ver nessas fotos por aí. Que faltam sei lá, thirty days for nothing.

Ver sua foto doeu mais que raio caindo numa tarde rosa. Mais que o gelo de hotel de iglu, de uma pessoa só olhando o céu num chão de neve, que faz barulhinho quando cai.

Sua felicidade também faz. Barulhinho. Aqui dentro... Quando algo já está para acabar, chove... Essas tardes coloridas tem cheiro de fim. Chove muito por aqui.



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Postado por Aden Leonardo Camargos
7/12/2016 às 21h23

 
Musgos verdes numa vila da lembrança, sou paisagem




Foto: Jian Quing (La Bioguia)

É algum ano lá na frente. Hoje é um dia comum e mal lembro qual é. Já não conto de dia três em dia três. Tudo sempre foi impossível e da saudade, acostumei. Li mais que meu medo permitia. Precisei para fingir que te esquecia.

Sirvo café. Sou velha. O tempo é o medo da vida. Tudo que não vivemos passou. Ficou nessa xícara que olho todas as manhãs, a borra fina da lembrança seca.

Seu rosto coloquei num quadro de flores coladas. Só me tornei aquelas escolhas melhores que você fez. Ainda tenho o gosto daquele dia que era noite. Que me restava um pedaço, sempre partido e ido de você. A palavra “acabou” saiu da minha boca ou mente, fui morrendo devagarinho. De onde saem as palavras? Estou morrendo por palavras. Morrendo por fim. De acabar com aquilo que não foi. Morte é palavra certa, tem uns olhos de passado, cheiro guardado.

Chegou mais gente, pediram café. Ligo a TV, mostro o jornal de São Paulo. Viro minhas costas curvadas onde guardei um desenho da coragem que você não teve.

Viver em silêncio foi a flecha mais heroica de te ver passar de vez em quando, ali, lá onde vive o certinho. Eu e a flecha desenhada, costuramos caminho inverso, anverso, transverso... Definido, pontilhado e só por si só e só por isso, me vi no caldo do café desperto. Desses todos dias longes.

Sorri, servi... meus pratos têm frases poéticas e cada café um autor. Para esses agora, gritei como me permite:__ Quero que seja feliz também, meu bem! Com Pessoa! PLIM. Tá pronto. Só pegar no balcão.

Vendo em minha casa pequenas felicidades, faturadas no cartão. As pessoas gostam do que me nasceu: musgos verdes numa vila da lembrança.Sou paisagem.



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Postado por Aden Leonardo Camargos
15/8/2016 às 09h44

 
A Mulher-mais-ou-menos



Imagem: Google


A Mulher-mais-ou-menos
Saiu dos quadrinhos e em tudo quanto é canto
Fez sua vida
Tinha super-poderes de encalacrar seu tempo
Sem que ninguém percebesse.
Tinha botas e unhas vermelhas, abdômen conduzido
Como qualquer herói ridículo.

Cuecas por cima da roupa linda de titânio,
Deixavam sua marca:
super-vulnerabilidade.
Como todo bandido

Tentou fazer justiça, mas sua fala era de balão
Seu três D da existência vazada
(como Chaplin na feirinha)
Fez com que comprasse livros de todos que passavam
E ela mesma começou a dizer bobagens
Sem jamais ser publicada.

Um dia, quando impostou os braços em riste
suas pulseiras deram raios
De incompreensão
Ela desistiu. Entrou de novo em tudo que não existe.
Recortou suas frases acima da cabeça.
Montou como pode, e mesmo rasgando escreveu
FIM.
Bem no cantinho do si.


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Postado por Aden Leonardo Camargos
29/7/2016 às 07h04

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