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Segunda-feira, 11/6/2018
Flávio Sanso
Flávio Sanso

 
Honra ao mérito

A novidade é que uma feira de livros irrompeu no meio do itinerário dos passantes. Primeiro foi instalada num espaço amplo da praça, mas aí veio a feira da casa própria e a empurrou para perto das barraquinhas dos hippies. A praça ficou pequena demais com a chegada do feirão do automóvel, e então a feira de livros passou a ocupar metade de uma rua estreita onde também aos domingos são expostos produtos hortifrutigranjeiros orgânicos. Estes são tempos de muitas exibições.

Os livros já foram usados, mas, por estarem embalados por plásticos transparentes, aparentam ser zero bala. Varal de desenhos e cores, há também muitos gibis à mostra numa tela comprida e é para eles que de baixo dois olhinhos apontam. A garotinha se interessa especialmente pela capa puída em que Chico Bento e Rosinha namoram sob a cobertura de muitos corações que os protegem da chuva. Logo se vê que a garotinha tem o pescoço envolvido por uma faixa azul na qual está pendurada uma medalha, qual terá sido o mérito ensejador desta honra? E é uma desproporção graciosa a medalha ultrapassar a região do peito e pender na altura da barriga.

A mãe se aproxima dela trazendo um livro infantil. Ao compreender a situação, a garotinha se opõe ao que lhe é oferecido, quer porque quer o gibi e isso parece ser inegociável, as duas começam a se desentender, a mãe insiste, a iminência de uma pirraça paira no ar. Subitamente a garotinha se aquieta, reprime toda a sua energia postulatória, e a careta que faz denuncia a peleja travada contra alguma perturbação interior. Não demora e ela então divulga o veredito do que a tem incomodado:

Quero fazer cocô.

Desinibida, sem o mínimo traço de constrangimento, ela repete muitas vezes a frase que dá conta de sua necessidade. De vez em quando é preciso que uma criança nos alerte sobre o fato de que somos o que somos e nada somos mais do que somos. Mãe e filha atravessam a rua e seguem de mãos dadas a correnteza de gente. Guiadas por uma urgência, somem de vista.

Pouco tempo depois estão de volta. Enquanto reexaminam o acervo, a mãe percebe um lapso. Com um movimento rápido, retira da bolsa a medalha, sorri um sorriso de mãe-coruja e a devolve ao pescoço da garotinha que, bracinhos pra trás, faz pose de laureada triunfante. É chegada a hora de irem embora. Nesta altura, é como se nada estivesse pendurado em seu pescoço, a garotinha já não dá bola para a medalha que balança e reluz a cada uma de suas traquinagens. Nem mesmo haveria de se importar se o que leva nas mãos é a revistinha do Chico Bento.



Texto originalmente publicado no site flaviosanso.com
flavio.sanso@gmail.com

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Postado por Flávio Sanso
11/6/2018 às 09h34

 
O embate e o embuste

O embate tem dia, local e horário certos para acontecer. Todos os domingos pela manhã, quem passa por um dos acessos à feira livre assiste a um conflito que já perdura por meses, é bate-boca pesado, duelo de impropérios, arranca rabo digno das óperas-bufa mais estridentes.

Um dos oponentes tem porte atarracado e é comum ser visto portando um pedaço de pano que não aparenta maior utilidade senão a de um símbolo. O outro nunca está sem seu boné vermelho e maltrapilho, também é atarracado, mesmo tamanho, mesmo peso, não há dúvida de que os dois pertenceriam à mesma categoria de qualquer modalidade de luta. Nunca é possível precisar de quem é a iniciativa do imbróglio, mas a coisa sempre começa mais ou menos assim:

– Você sabe que eu preciso trabalhar, tenho uma família pra sustentar, não sou moleque – ao que o outro retruca:

– Então faz o seu trabalho direito, eu também tô trabalhando.

São palavras ditas em exaltação, em tom suficientemente escandaloso para atrair atenções, e a partir disso uma pequena plateia se junta na expectativa de presenciar as vias de fato, nunca há de morrer em cada um de nós o aluno de ginásio useiro e vezeiro em incitar a briga dos colegas no final da aula.

As pessoas dentro de seus carros também são acometidas pela curiosidade irresistível de querer se atualizar sobre as querelas urbanas, diminuem a marcha, passam devagar quase parando, e é aí que os dois criadores de caso deixam de lado a encrenca e partem para abordar os motoristas, oferecendo-lhes as vagas de estacionamento pertencentes aos respectivos territórios que a cada um deles cabe administrar, pedem contribuições, fazem boa grana, exercitam uma dessas invenções a que se deve homenagens pelo contorcionismo mirabolante, alugar pedaços da rua é um jeito muito nosso de empreender com a coisa pública.

Não foi tão surpreendente assim, já havia no ar razões para a suspeita, um trejeito performático aqui, um exagero inverossímil acolá, pois então quem quiser conhecer a verdade é só chegar à feira livre mais cedo do que o de costume, e então, com a rua ainda vazia, lá presenciará o flagrante, os dois flanelinhas estarão absortos numa conversa animada, trocarão gargalhadas desopilantes, coisa de parceiros mesmo, e isso momentos antes de começar a costumeira discussão.

A revolta não é tanto por estar revelado o artifício utilizado para fisgar bisbilhotices. Também não é o caso de se decepcionar com o fogo brando, quase fátuo, que incendeia o circo. O problema é que daqui para diante nem a repugnância, até então essencialmente indisfarçável, está isenta de ser dissimulada.



Texto originalmente publicado no site flaviosanso.com
flavio.sanso@gmail.com

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Postado por Flávio Sanso
19/3/2018 às 09h26

 
Filipeta invulgar

A calçada é mundo de percursos caóticos, trajetos que se cruzam e é toda hora que alguém desvia de um encontrão, a calçada é território invadido por um andar destoante, na verdade não é propriamente um andar, é um desfile vagaroso que ziguezagueia entre a confusão de gente. Sandálias, short curto, dedos entrelaçando repetidas vezes os cabelos tingidos de loiro, os trejeitos voluptuosos compõem uma personagem de si mesma. Como se afagasse um hamster de estimação, ela acomoda nas mãos a pilha de filipetas, tem uma missão a cumprir.

Ela é meticulosa em distribuir os panfletos, a seletividade recai sobre homens e necessariamente homens que não se façam acompanhar por alguma presença feminina. Tem preferência pelos ambulantes de gêneros alimentícios, alvo fixo, provisão certa, o moço da banca de churros é gentil, tenta entabular diálogo, mas ela evita maiores aproximações, mantém o profissionalismo, já fez a divulgação e vai se afastando para retomar seu intento. Aliás, que fique bem claro que há nela um traço de timidez, nunca é dada a conferir as reações causadas pelo conteúdo dos panfletos.

O vendedor de água de coco, disperso em seu intervalo de ociosidade, nem imagina o que daqui a alguns segundos reterá a atenção de seus olhos, a filipeta lhe é entregue, e é curioso assistir aos vários músculos do seu rosto se contraírem no que de início parece ser espanto, mas agora já é contentamento, passando pela expressão de quem alimentou fartamente o imaginário. Dois rapazes esperam a mulher loira se distanciar para então cair numa gargalhada ginasial, para eles é inusitado receber esse tipo de oferta à luz do dia, à vista de todos, e vão zombando da situação enquanto afundam os papéis nos bolsos das respectivas calças.

Nesta altura, a jornada publicitária está em evidência, já são muitos olhares acumulados na direção da figura dela, e isso parece ser sinal de missão cumprida. Ela então se encaminha para onde encontra outras duas mulheres também munidas do que sobrou de suas filipetas. Certas de que a propaganda é a alma, e no caso, a carne de seus negócios, elas desaparecem, deixando o legado de ter espalhado rebuliço num perímetro em que costuma reinar a mais insossa das rotinas. Pelas próximas horas, por aqui não faltará assunto.

A distribuição de propaganda impressa é eficaz em fazer do chão vitrine rebaixada. Olha-se para baixo e lá estão o encarte de preços, o sorriso do candidato à presidência do sindicato dos aposentados, vote chapa um, o anúncio de dentistas populares, de videntes que são uma espécie de Sedex Dez do amor, de compradores de ouro. Mas hoje não: no chão nem sequer uma filipeta descartada.



Texto originalmente publicado no site flaviosanso.com
flavio.sanso@gmail.com

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Postado por Flávio Sanso
23/10/2017 às 08h24

 
Apocalipse agora

Luz verde. Duas mulheres olham apreensivas para o semáforo, a troca das luzes lhes impõe uma missão. Luz amarela. É hora de se prepararem. Enfim, agora que o círculo vermelho acende, não perdem tempo em ocupar a avenida, postam-se à frente dos carros, segurando cada qual a ponta de uma faixa. Fazem isso sem qualquer entusiasmo, há no entorno delas uma evidente aura de constrangimento, ombros caídos, languidez nos olhos. Se ainda anunciassem o sonho da casa própria, algum saldão de ofertas ou as trinta e seis prestações que possibilitem a aquisição do mais arrojado dos automóveis SUV, mas o fato é que carregam o fardo pesado de terem que alertar a todos sobre questões apocalípticas.

Você está preparado para o apocalipse? É o que está escrito na faixa. Os motoristas e os pedestres leem a interrogação e inicialmente são tomados pela reação de quem se põe a refletir, cada um vai formulando sua resposta interna, mas isso dura pouco e logo se vê que os semblantes já estão novamente tomados pela impaciência, pela pressa, pela ansiedade, não é difícil imaginar a enorme figura do relógio mental que os assombra ao piscar incessantemente avisos sobre o horário da consulta médica, sobre o horário da escola dos filhos. Antes do apocalipse, há ainda muitos compromissos e preocupações com os quais é preciso lidar.

Chinelos de dedo, calça social, camisa de linho, um senhor pedala sua bicicleta pelo canto da avenida, deixa de girar os pedais e vai diminuindo a velocidade até parar junto ao meio-fio, já faz tempo que observa o teor da faixa estendida à sua frente. Agora olha para a calçada e procura alguém que possa esclarecer uma curiosidade: vocês acreditam nisso? Sem se importar com o fato de ter sido ignorado, ele retoma as pedaladas não sem antes emitir uma declaração para se for o caso de alguém querer saber: já passei tanta coisa na vida que tudo o que vier é lucro.

Num cruzamento movimentado, o maior dos pecados é a lentidão. Por mínima que seja a percepção de que algum veículo atrasou o arranque, tem-se aí motivo para a aplicação de um castigo cruel, que é o berro uníssono de muitas trombetas infernais, se a buzina estridente é o grito dos perturbados, dos irascíveis, a cidade se tornou a orquestra da insensatez. E é em meio a esse som ambiente que as duas mulheres continuam estendendo a faixa, juntam-se a isso o calor, a poluição, a exposição, o desconforto de serem alvo de olhares zombeteiros. Pelo que tudo indica, já estão tratando de se preparar.



Texto originalmente publicado no site flaviosanso.com
flavio.sanso@gmail.com

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Postado por Flávio Sanso
12/9/2017 às 17h29

 
Escolta

A feira acontece ao rés do chão. Ao longo da calçada estendem-se toalhas, sobre as quais as mercadorias estão expostas. É um comércio rasteiro (na acepção literal da palavra).

Pulseiras e cordões com referência à Jamaica, brincos artesanais, pedras coloridas, porta-incensos, estatuetas de corujas, gatos, elefantes, gnomos simpáticos, tudo isso está à venda, mas o fato é que os mesmos produtos repetem-se em todas as toalhas, não há variedade que diferencie umas das outras. É talvez por esse motivo que um dos vendedores tenha inventado maneira de ganhar destaque.

Sentado em posição de Meio Lótus, ele equilibra na cabeça uma bola azul de plástico, é impossível não lhe dedicar alguma atenção, nem tanto pela habilidade matreira, mas em especial porque as gargalhadas lhe saem fácil, vão sendo despejadas num ambiente inóspito ao entusiasmo, são vibrações sonoras deslocadas no domínio das expressões emburradas que vão e vêm. Qualquer coisa é razão para um sorriso, qualquer coisa mesmo, inclusive as duas armas que, pela esquerda e pela direita, passam rente a cada uma das orelhas.

A cabeça mantém-se imóvel, é preciso preservar o equilíbrio da bola azul, já os olhos, como se entretidos numa partida de tênis, vão de um lado ao outro, acompanham a movimentação ao redor. E ainda que um pouco menos extravagante, lá está o sorriso, ele agora assume a forma de ironia ao poderio dos instrumentos letais que chegam impondo presença ameaçadora, um hippie não se curva às truculências do mundo.

Coturnos, trajes escuros, armas na cintura. Quando surgem os vigilantes de carro-forte, é inevitável que se instaure no ar uma tensão. Repare os dedos no gatilho, as mãos preparadas para o saque da arma, não é momento de esboçar qualquer atitude brusca, a prudência recomenda cabeça baixa, distância, se possível convém deixar claro: sou pessoa comportada. Mas nem poderia ser diferente, está em jogo o mais perseguido dos anseios, não é com flores ou gentilezas que se defende o objeto de obsessões seculares.

Estão de volta, vindos do shopping ou talvez de algum banco, alguma rede de fast food. As bolsas parecem pesadas, dia de boa produtividade. Sem dúvida, o trabalho é feito com diligência, é como se o dinheiro recebesse tratamento de monarca bem protegido, de celebridade a salvo da histeria. O cortejo vem trazendo a carga preciosa até o carro-forte estacionado logo ali atrás de onde o hippie, sentado, ainda equilibra a bola azul sobre a cabeça, eis aí o sorriso infalível, o hippie observa a cena, continua a sorrir, acha muita graça de tudo isso, afinal o patrimônio que lhe é mais caro, a alegria, não requer escolta.



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Postado por Flávio Sanso
8/4/2017 às 10h27

 
O mapa da África

Eles estão vestidos da mesma forma, mas, todos sabem, a juventude é hábil em burlar padrões. O garoto usa uma touca certamente inapropriada para o calor do meio-dia, uma das garotas tem a lateral da cabeça raspada, a outra garota combina o vermelho do aparelho com o vermelho da armação dos óculos. Os três carregam mochilas muito gordas, não há precisão se aquilo é só material escolar ou se ali dentro também estão guardados os sonhos de cada um deles. É coisa fácil de comprovar por aí: nas sextas-feiras os colegiais falam mais alto, os sorrisos saem soltos, às cambalhotas. O garoto de touca e a garota da cabeça raspada fazem um resumo descontraído da semana, debocham, riem, relembram peraltices, voltam a rir. Enquanto isso, a garota dos óculos de aro vermelho está em silêncio, mantém a concentração, examina o pilar que sustenta o telhado do ponto de ônibus. Ela é paciente, espera os outros dois se aquietarem para anunciar uma descoberta:

– Olha só, o mapa da África.

O garoto de touca e a garota da cabeça raspada não dão tanta bola, voltam ao assunto de antes e agora estão ainda mais efusivos. O ônibus vem chegando, a garota do óculos de aro vermelho faz sinal, se despede. Quando então restam só os dois, o garoto de touca e a garota da cabeça raspada vão depressa até o pilar de ferro, conferem com apuro o formato de uma mancha de ferrugem, um deles lança uma interrogação:

– Como é que ela nota essas coisas?



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Postado por Flávio Sanso
3/9/2016 às 09h28

 
Preservativo para a inconveniência

Xarope em promoção, aparador de cutículas, descongestionante nasal, odorizador de ambientes, balas de gengibre para a garganta, lixas de unha, álcool em gel e uma barriga.

Barriga espremida contra o balcão de vidro, o homem aponta para o varal de embalagens multicoloridas, quer informações pormenorizadas. De pronto, a atendente esclarece dúvidas sobre quantidade, preço e até sobre cheiros e sabores. O homem não está satisfeito, sua intenção agora é apalpar a mercadoria. As cartelas, então, são trazidas até o balcão. A atendente as espalha como se lidasse com peças de roupas. Não deixa escapar qualquer indício de constrangimento, o que, aliás, distingue o seu bom profissionalismo, mas o problema é que ela acumula a função de atendente com a de caixa, e isso quer dizer que a fila de pagamentos já se estende quase para além da saída.

Indiferente ao comprimento da fila, o homem ainda não fez sua escolha, continua a tomar de assalto a atenção da atendente, ele examina medidas, concentra-se na leitura das especificações técnicas, repete perguntas, em especial sobre a quantidade, ao que parece quer deixar claro que costuma fazer uso constante do produto. As pessoas na fila começam a demonstrar suas impaciências, atravessam o grau de insatisfação em que olham com cara feia para diferentes pontos, como que pedindo providências.

Outra atendente, a responsável pelas receitas médicas, percebe a gravidade da situação e assume o caixa. Crédito, débito, via do cliente, a fila vai diminuindo até não restar quem tenha que pagar pelo que comprou. Enquanto retorna ao seu posto, a atendente das receitas médicas observa a cena em que o homem ainda se demora em investigações. Meio indignada, meio sarcástica, ela resmunga:

– Só falta ele querer experimentar.


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Postado por Flávio Sanso
24/7/2016 às 20h28

 
O que brota no meio da música

Quando entrou no salão, não imaginava que o aperto no peito a desconcertasse tanto. Já fazia muito tempo. Depois de décadas, o lugar agora parecia menor, é como se as paredes tivessem dado passos para frente. Olhou apressada para o canto onde ela e as amigas gostavam de ficar, chegavam cedo para conquistar território, chegavam quando ainda não havia quase ninguém. E era exatamente só naquele canto que agora uma montanha de entulho se acumulava. Ela gostava de chegar cedo também porque era no início, sempre no início, que tocava a sua música favorita. Jump they say, do David Bowie, era um privilégio para os adiantados. Ouvia a música alta, fechava os olhos e dançava em hipnose. Durante a semana, esperava ansiosa por aquela noite que era o intervalo entre o tédio do domingo e as preocupações da segunda. As preocupações daquela época eram tão ingênuas! Só não ia, e isso com grande pesar, nas semanas de prova. No alto já não há vestígio do equipamento de luz que testemunhava olhares furtivos, cochichos, conversas de fazer o coração palpitar. Não tem mais contato com aquelas amigas, saudade delas, cada qual seguiu um rumo na vida, certa vez soube por alto que uma delas inclusive havia morrido. O que vê à frente é decadência de navio naufragado. É triste estar ali sem as músicas, sem as amigas, sem a juventude da época, a sensação é a de que ela, ali parada e sozinha, tenha ficado para trás. O silêncio e a poeira querem dizer que tudo passou, a cada dia está mais longe e desbotado. Mas às vezes ainda resta um recurso, toda vez que ouve Jump they say, ali no meio da música as memórias resistem, se achegam e ganham algum colorido.



Texto originalmente publicado no site flaviosanso.com
flavio.sanso@gmail.com

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Postado por Flávio Sanso
7/6/2016 às 13h07

 
Depois do cinza

Ali estava uma tela impossível, mas alguém conseguia desenhar na superfície irregular, eram traços, cores, efeitos, técnicas que venciam chapiscos e infiltrações. Isabela, garota sempre ocupada com fones minúsculos que lhe invadiam os ouvidos, era a única a se impressionar com aqueles desenhos, afinal um muro de cemitério não é dado a receber olhares que demorem tanto. Na verdade, nem era a única. Todas as vezes antes de fazer subir e descer o rolo ensopado de tinta cinzenta, o zelador da prefeitura se demorava em contemplar o desenho, reparava cada detalhe como se se despedisse. Isabela não se importava quando dava de cara com o muro pintado de cinza, sabia que em breve haveria de se encantar com um novo desenho. Até gostava que fosse assim, a espera tinha sabor que alegrava parte do dia. Depois, Isabela sentiu crescer uma força que lhe exigia invadir aquele mistério. Arriscando-se entre as artimanhas da madrugada, passou a fazer vigília em frente ao cemitério e eis que o flagrante se deu na terceira vez. Lá estava ele a tratar o muro como relíquia. Isabela reconheceu as galochas, os cabelos cheios, a postura torta. E o jeito de contemplar o desenho. Um artista que vivia de renovar sua obra. O zelador da prefeitura era assim.



Texto originalmente publicado no site flaviosanso.com
flavio.sanso@gmail.com

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Postado por Flávio Sanso
19/4/2016 às 22h35

 
Os frutos

Na subida da Alameda Isaac Newton, os braços dela envolviam o pacote pardo de compras, um abraço forte feito os de saudade. Dentro do pacote, agitação. Uma maçã foi expulsa pelo rebuliço das frutas, quicou, rolou, desceu ligeiro, a velocidade em aceleração exponencial até encontrar freio na lateral de uma bota. A devolução foi feita entre sorrisos acanhados e olhares intermitentes. Vieram os filhos, os netos, já há inclusive bisnetos. É a árvore genealógica que nunca existiria não fosse o declive da Alameda Isaac Newton.



Texto originalmente publicado no site reticencia.com
flavio.sanso@gmail.com

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Postado por Flávio Sanso
29/3/2016 às 13h25

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