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Quarta-feira, 3/11/2010
Raymond Carver, o Tchecov americano
Luiz Rebinski Junior

O que se espera de um conto? Historicamente, o conto sempre foi associado a um tipo de narrativa rápida em que o desfecho é sempre inesperado e surpreendente. Então, geralmente os leitores começam um conto esperando que seu final seja fantástico, emocionante, algo como as histórias de Edgar Allan Poe, por exemplo. Esse tipo de apelo é algo que está no cerne do gênero. Se há algum culpado por isso, são os próprios escritores. Mas nem todos os escritores incorporam esse mandamento. Raymond Carver, pelo contrário, trabalha sempre com o premeditado, com o óbvio até. Nesse sentido, Carver é o anticlímax do conto.

Pegue-se uma hipotética cena da vida real. Se um casal está jantando com outro casal, a sequência natural das coisas é que as pessoas conversem, jantem, os amigos se despeçam e os convidados tomem o caminho de casa. É claro que há milhões de opções para o final dessa ou de qualquer história. No meio do jantar, poderia haver uma briga, uma revelação bombástica ou mesmo um assassinato, o que poderia mudar o desfecho da história. Isso só depende da criatividade e habilidade do escritor. Mas o que quero dizer com isso é que, em geral, Carver sempre vai optar pela opção mais conservadora, menos espetacular. Ou seja, a força de sua literatura está calcada quase que exclusivamente na sua habilidade narrativa, e menos em sua criatividade para tramas engenhosas. Essa literatura habilidosa está disponível em 68 Contos de Raymond Carver (Companhia das Letras, 2010, 712 págs.), um volume que agrega quase a totalidade da produção do contista americano.

A cena que peguei como exemplo, não é tão hipotética assim. Está no conto "Penas", história que abre o livro Catedral, a obra mais potente de Carver. Como disse acima, "Penas" é a história de um jantar entre amigos de trabalho, que não têm outro interesse em comum além da profissão, mas que tentam manter uma dinâmica agradável durante o encontro, no sítio de um tal de Bud, amigo do narrador. As mulheres não se conhecem, e o conto é construído a partir da falta de afinidade entre os casais e a estranheza dos anfitriões, que têm um pavão como cão de guarda e um bebê que chama a atenção pela feiúra.

Há muitas histórias boas no tomo de setecentas páginas, mas achei que esse conto sintetiza bem a literatura de Carver, um escritor que nunca se desviou de sua vocação de contista. Só escreveu histórias curtas (algumas nem tão curtas assim) e poemas. O que é louvável, já que é sempre difícil encontrar um contista puro sangue, que não tenha caído na tentação do romance.

Os três melhores livros de Carver estão reunidos na coletânea: Você poderia ficar quieta, por favor?, Do que estamos falando quando falamos de amor e o já mencionado Catedral. Isso bastaria para que 68 Contos se tornasse um atrativo e tanto para os amantes do conto. Mas o livrão tem outra função: é uma espécie de inventário crítico da obra de um dos maiores contistas americanos.

As cinco histórias que abrem o livro estão reunidas em uma série chamada "Primeiras Histórias". Já havia lido os três principais livros de Carver em edições avulsas, portanto, a leitura desse livro não me pegou com as calças na mão. Mas a inclusão, neste volume, das primeiras histórias publicadas por Carver pode ter um efeito retardado no leitor que se inicia na literatura do escritor.

À primeira vista o leitor sente-se enganado. Porra, mas peraí, não é esse cara que é um dos grandes do conto americano? As histórias iniciais valem muito mais como registro histórico do que uma amostra do melhor Carver. Raymond Carver não teve uma trajetória fácil na literatura. Antes de cair nas graças de um professor, chamado John Gardner, que o ajudou, o escritor teve que penar em trabalhos pesados e mal remunerados. Paralelamente aos empregos que lhe garantiam a sobrevivência, escrevia. Essas histórias foram escritas entre 1960 e 1967 (Carver só lançaria um livro em 1976) e revelam um escritor ainda sem voz própria, sem a habilidade narrativa que o consagraria e lhe daria o título de minimalista. Já é possível perceber a predileção de Carver por temas comezinhos em detrimento dos grandes assuntos ― ainda que os pequenos assuntos também sejam grandes assuntos. Aqui Carver ainda não consegue transformar suas histórias em um evento interessante. É como se faltasse recheio no pastel. Os temas já estão ali, mas ainda sem substância, diálogos pouco interessantes e com personagens bambos.

Aliás, o rótulo de minimalista só pode ter surgido por conta dos temas escolhidos por Carver, nunca pela sua linguagem, que não tem nada de minimalista. Carver escreve de uma forma simples, que faz o leitor acreditar que aquilo ali ele poderia fazer também. Há uma discussão a respeito disso, pois, segundo alguns críticos, a forma de Carver narrar teria sido forjada pelo amigo e editor Gordon Lish, que cortava sem dó os seus originais. Mas isso é uma história muito longa, então, quem quiser saber mais, que leia o prefácio do Rodrigo Lacerda, que com certeza vai explicar melhor do que eu.

Se o leitor conseguir passar pelos contos iniciais, que devem durar umas sessenta páginas, não se arrependerá. Em Você poderia ficar quieta, por favor? encontrará o grande escritor que a crítica costuma louvar.

Contos como "Eles não são seu marido" e "Você é médico?" são ótimos exemplos do estilo Carver de narrar: o primeiro texto traz um raio x de um casamento usando como pretexto a ida do marido à lanchonete em que a mulher trabalha como garçonete; o segundo trata de um engano telefônico em que um homem, movido por uma estranha curiosidade (sexual, não se sabe), vai até a casa de uma mulher que faz a chamada. Neste texto, Carver narra praticamente só com diálogos. Nada de muito espetacular acontece nos contos, mas, mesmo assim, Carver consegue radiografar com precisão a alma de seus personagens, suas angústias e medos. Essa é a força de suas histórias. Uma simples ida à padaria vira um bom conto nas mãos desse escritor. E isso não é pouco. Afinal, escritores estão sempre atrás de grandes histórias. Carver vai na direção contrária.

O conto "Do que estamos falando quando falamos de amor" é uma obra de arte que Carver faz verter do nada. Dois casais tomam uns drinques antes de sair para jantar e apenas jogam conversa fora. O papo despretensioso começa a ficar mais complexo, é quando Carver demonstra sua habilidade para escrever diálogos interessantes que conduzem a narrativa sem que a ação faça muita diferença no conto. Os casais entram em temas espinhosos e cada um revela sua opinião a respeito do que é "amar". No bojo da discussão, surge o ressentimento entre os casais. Se não é um exímio criador de tramas, sempre consegue fazer com que o leitor se pergunte o que seus personagens estão sentido em relação a uma ou outra situação.

Carver também era craque em embaralhar o tempo narrativo, indo do passado ao presente, passando por uma divagaçãozinha aqui, outra ali, de modo tão sutil que o leitor quase nem percebe. Esse truquezinho dá um sabor especial ao texto, uma pegada sofisticada à narração. Em "Ninguém falou nada" ele faz isso com maestria. A história, como sempre, é enxuta: um menino mente que está com dor de barriga e não vai à escola. Quando sua mãe sai para trabalhar, se manda para o rio pescar. No meio do caminho encontra uma mulher que lhe dá carona, depois da carona, fantasia uma transa com a mulher.

"Me senti um babaca por ter ido tão longe à toa. Então juntei tudo quanto é tipo de linha e fiz outro arremesso. Deixei a vara de pescar presa num galho e acendi o penúltimo cigarro. Olhei para o vale e comecei a pensar na tal mulher. Fomos para sua casa porque ela queria que eu ajudasse a carregar os sacos de compras. O marido estava em outro país. Toquei nela e a mulher começou a tremer toda. Comecei a dar beijos de língua na mulher, nós dois no sofá, e aí ela pediu licença para ir ao banheiro. Fui atrás. Fiquei olhando enquanto ela baixava a calcinha e sentava no vaso. Eu estava de pau duro e ela acenou para mim com a mão. Na hora em que abri o zíper, ouvi um barulho na água do riacho. Olhei e vi a ponta da minha vara de pescar sacudindo".

Carver era alcoólatra e veio da classe média baixa americana. Em seus contos, são comuns histórias de desemprego e de degradação física e moral por conta do álcool. Mas, diferentemente de Bukowski, o álcool nas histórias de Carver nunca é um meio de redenção do anti-herói, mas sim uma consequência trágica de algum mal do cotidiano que abate o homem comum, como a desagregação familiar ― histórias de separação são constantes. O conto "De onde estou ligando", um dos últimos do livro Catedral, é uma dessas histórias de derrota. Fala sobre uma clínica de reabilitação e dois ou três alcoólatras que estão ali, além do narrador. Mas não é uma história triste, não no sentido sentimentalóide, pelo menos. Carver dá um jeito de deixar a história o mais longe possível do piegas. Não à toa Catedral foi indicado ao Pulitzer. Todos os contos ali valem à pena. É um livrão. Aliás, o conto que dá nome ao livro era um dos favoritos de Carver.

No início da última série de contos, intitulada "Contos Recolhidos", há uma epígrafe em que Carver escreve: "Anos atrás li uma carta de Tchekhov que me impressionou. Era um conselho para um de seus muitos correspondentes, e dizia mais ou menos o seguinte: Amigo, você não precisa escrever sobre gente extraordinária que realiza feitos extraordinários e memoráveis. (Entendam que na época eu estava na faculdade e lia peças sobre príncipes, duques e sobre a derrubada de reinos. Buscas do cálice sagrado e coisas do gênero, grandes façanhas com o objetivo de pôr os heróis em seus devidos lugares. Romances com heróis exagerados e fora da realidade.) Mas ler o que Tchekhov tinha a dizer naquela carta, bem como em outras cartas, e seus contos me levou a ver as coisas de modo diferente." Carver, tenha certeza, caro leitor, levou Tchecov a sério.

Nota do Editor
Leia também "Iniciantes, de Raymond Carver".

Para ir além





Luiz Rebinski Junior
Curitiba, 3/11/2010

 

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