Iniciantes, de Raymond Carver | Alysson Oliveira | Digestivo Cultural

busca | avançada
48579 visitas/dia
2,2 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Música: Fabiana Cozza se apresenta no Sesc Santo André com repertório que homenageia Dona Ivone Lara
>>> Nos 30 anos, Taanteatro faz reflexão com solos teatro-coreográficos
>>> ‘Salão Paulista de Arte Naïf’ será aberto neste sábado, dia 27, no Museu de Socorro
>>> Festival +DH: Debates, cinema e música para abordar os Direitos Humanos
>>> Iecine abre inscrições para a oficina Coprodução Internacional para Cinema
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Eleições na quinta série
>>> Mãos de veludo: Toda terça, de Carola Saavedra
>>> A ostra, o Algarve e o vento
>>> O abalo sísmico de Luiz Vilela
>>> A poesia com outras palavras, Ana Martins Marques
>>> Lourival, Dorival, assim como você e eu
>>> O idiota do rebanho, romance de José Carlos Reis
>>> LSD 3 - uma entrevista com Bento Araujo
>>> Errando por Nomadland
>>> É um brinquedo inofensivo...
Colunistas
Últimos Posts
>>> A história de Claudio Galeazzi
>>> Naval, Dixon e Ferriss sobre a Web3
>>> Max Chafkin sobre Peter Thiel
>>> Jimmy Page no Brasil
>>> Michael Dell on Play Nice But Win
>>> A história de José Galló
>>> Discoteca Básica por Ricardo Alexandre
>>> Marc Andreessen em 1995
>>> Cris Correa, empreendedores e empreendedorismo
>>> Uma história do Mosaic
Últimos Posts
>>> Desigualdades
>>> Novembro está no fim...
>>> Indizível
>>> Programador - Trabalho Remoto que Paga Bem
>>> Oficinas Culturais no Fly Maria, em Campinas
>>> A Lei de Murici
>>> Três apitos
>>> World Drag Show estará em Bragança Paulista
>>> Na dúvida com as palavras
>>> Fly Maria: espaço multicultural em Campinas
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Comentaristas de Seriados
>>> O NAVEGANTE DO TEMPO
>>> Meu amigo Paulo Francis
>>> Grandes Entrevistas do Milênio
>>> 15 de Novembro #digestivo10anos
>>> Agosto, mês augusto
>>> Silêncio e grito
>>> Affirmative action
>>> Cozinhando com mamãe
>>> Conheça Carácolis (parte 1)
Mais Recentes
>>> Português Cesgranrio de Antônio Carlos Alves pela Ferreira (2010)
>>> Crimes Contra a Natureza de Vladimir Passos de Freitas e Gilberto Passos de Fr pela Revista dos Tribunais (1997)
>>> The Lost Road and Other Writings - the History of a Midle-earth 5 de J. R. R. Tolkien pela Ballantine Books (1996)
>>> Como Cultivar Orquídeas - Nº 09 de Casa Dois pela Casa Dois
>>> Os Segredos do Casarão de Elizabeth Artmann pela Petit (1999)
>>> Once in a House on Fire de Andrea Ashworth pela Henry Holt and Company (1999)
>>> Meu Filho, Meu Tesouro - Volume Único de Benjamim Spock pela Record
>>> Ripleys Believe It Or Not! de N/d pela Scholastic Books (2015)
>>> Divórcio Sempre Evitado Nunca Adiado de Edson Alves de Sousa pela Do Autor (2007)
>>> História Em Curso - o Brasil e Suas Relações Com o Mundo Ocidental de Américo Freire e Marly Silva da Motta pela Fgv (2004)
>>> O Monte Cinco de Paulo Coelho pela Objetiva (1996)
>>> Na Força do Discipulado - Você Pode Ultrapassar Seus Limites de Paulo Rangel pela Missão Primícia
>>> The Red Badge of Courage de Stephen Crane pela Dover Thrift (1990)
>>> Como nos Veio a Bíblia de Edgard J. Goodspeed pela Imprensa Metodista (1968)
>>> Os Anjos Sentinelas - Enviados de Heather Terrell pela Rai (2011)
>>> Tales of Mystery - Retold Timeless Classics de L. L. Owens pela Cover to Cover (2005)
>>> Direito Constitucional Esaf de Felipe Vieira pela Elsevier (2010)
>>> Arena de Conflitos de Wellington Balbo e Orson Peter Carrara pela Mythos Books (2009)
>>> Pensar É Transgredir de Lya Luft pela Record (2011)
>>> The Third Eye de Lois Duncan pela Bantam Books (1989)
>>> Shakti Número 5 - Julho de 1992 de Sri Aurobindo e Outros pela Sociedade Sri Aurobindo Brasil
>>> Mourning the Nation de Bhaskar Sarkar pela Duke University Pres (2009)
>>> Creative Wedding Decorations You Can Make de Teresa Nelson pela Better Way Books (1998)
>>> Coleção Eles São Sete - a Gula de Angela Carneiro Ivanir Calado e Outros pela Ediouro (1995)
>>> Receitas de Alimentção Natural de Eliane Lobato pela Ediouro (1980)
COLUNAS

Segunda-feira, 15/2/2010
Iniciantes, de Raymond Carver
Alysson Oliveira

+ de 8700 Acessos

"Eu gosto quando há algum sentimento ou sensação de ameaça num conto. Acredito que é bom ter um pouco de ameaça. Por exemplo, é bom para o fluxo. Deve haver tensão, um sentimento de que algo iminente, de que algumas coisas estão incansavelmente em movimento, ou então, o que é mais comum, simplesmente não é uma história", escreveu o norte-americano Raymond Carver num ensaio publicado no New York Times Book Review, em 1981.

As ideias expressas nesse texto vão exatamente ao encontro da obra composta apenas de contos, publicada em uma carreira precocemente encerrada com sua morte aos 50 anos, em 1988. Em torno de duas décadas, Carver se tornou um mestre do conto norte-americano. Suas narrativas, personagens e paisagens se confundem com a cultura norte-americana herdeira da geração de 1968. Suas influências vão desde o escritor russo Anton Tchekhov ― tanto na forma como no conteúdo, abordando a vida das pessoas comuns ― passando pelos poetas Wordsworth e Colleridge ― que pregavam o uso da linguagem cotidiana ― até o pintor Edward Hopper e seus retratos pictóricos da desolação.

Carver não experimentou a fama, que veio apenas após sua morte. Em vida, ficou conhecido como o escritor de textos curtos, histórias simples, protagonizadas por pessoas à margem da sociedade, enfrentando problemas como alcoolismo, falta de trabalho e de perspectivas ― tudo embalado pela melancolia. O rótulo de minimalista, no entanto, ele abominava.

A publicação de Iniciantes (Companhia das Letras, 2009, 304 págs.) ― que já chegou ao Brasil, Inglaterra, entre outros, mas ainda inédito nos EUA, por questões legais ― joga uma luz diferente sobre a obra de Carver. O livro é resultado do esforço de sua viúva, a poeta Tess Gallagher, e do casal de acadêmicos William L. Stull e Maureen P. Carroll, que há anos estudam os originais de um dos livros mais famosos do contista, What we talk about when we talk about love, publicado em 1981, depois de uma revisão de seu editor, o renomado Gordon Lish.

O que vem à tona nas novas ― na verdade velhas ― versões dos contos é um trabalho assustador. Alguns dos textos sofreram perda de mais de 75% nas mãos do editor, como "Cadê todo mundo?" e "Uma coisinha muito boa". Na essência, todas as versões parecem manter a marca de Carver, mas a questão é: até que ponto essa tal marca seria realmente dele?

O conto que intitula as duas coletâneas ― o título What we talk about when we talk about love foi mudança de Lish ― pode ser visto com outras alterações no site da revista norte-americana New Yorker. São as mais variadas mudanças, desde léxicas até no desfecho das narrativas, e no nome dos personagens. A posição de Carver também é controversa. Em cartas examinadas pelos pesquisadores, com alguns trechos também disponíveis no site da revista, o escritor aprovava com entusiasmo as mudanças do editor para, mais tarde, pedir a suspensão da publicação do livro. Conforme ele explica, o motivo é que muitas pessoas ― inclusive escritores renomados e amigos seus, como Tobias Wolff, Richard Ford e sua mulher ― viram os originais e sabem que aqueles contos não foram escritos daquela forma. E isso parecia o envergonhar.

Lish ignorou o pedido e transformou Carver numa celebridade literária. Depois vieram outras coletâneas ― Cathedral é a mais famosa delas ― e um livro de contos selecionados pelo próprio autor e seu editor na época, Gary Fisketjon, no mesmo ano da morte do escritor. Essa seleção inédita no Brasil, chamada Where i'm calling from, traz alguns textos na versão editada por Lish ― ou seja, com a benção de Carver.

Apenas o início
Iniciantes é uma obra singular na literatura de Carver. Nela, enfim, encontramos o verdadeiro escritor, com suas qualidades e defeitos ― pois as de What we talk about when we talk about love são compartilhadas com Lish. É prazeroso e frustrante, ao mesmo tempo. Em "Uma coisinha muito boa", um dos contos mais celebrados do autor, há originalmente um flashback de quatro páginas no meio da história que quebra, desnecessariamente, o fluxo da narrativa. A versão do livro de 1981, porém, é 78% mais curta do que a planejada pelo autor ― que acabou publicada em uma revista em 1982, e um ano mais tarde na coletânea Catedral. Essa nova/velha versão, no entanto, não trazia o flashback.

Em Iniciantes há o mesmo Carver que busca exatamente "a tensão, um sentimento de que algo iminente, de que algumas coisas estão incansavelmente em movimento". Seus contos são habitados por personagens no limite de seus momentos. Um jovem casal encontra móveis e objetos espalhados por um jardim. Acreditam ser uma venda, testam algumas coisas ― como a cama ― e, por fim, depois de passarem um tempo com o dono da casa, compram algumas coisas. Mas nunca fica claro se ele realmente estava vendendo tudo aquilo, ou se, simplesmente, depois de ter sido abandonado pela esposa e filhos colocou, literalmente, a casa ao avesso, vivendo do lado de fora.

O final original de "Uma coisinha muito boa", tão redentor quanto doloroso e poético, acabou ficando de fora da primeira versão do conto, que é muitas páginas mais curto. É preciso muita coragem para chegar aonde ele chega com esse texto, sem cair na pieguice ou no grotesco.

Se a mão de Lish pesou nesse caso, em outros trouxe a leveza e a contenção que transformou Carver praticamente numa marca literária. A publicação de Iniciantes é, para o bem e para o mal, um evento literário. Carver sempre falou das pequenas coisas, da vida simples. Seu estilo não era tão minimalista quanto se passou a acreditar. Mas as pessoas de vida instável e ameaçada sempre estiveram lá ― tal qual seu criador gostava.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado na Revista Paradoxo. Alysson Oliveira mantém o blog Letras e fotogramas.

Para ir além






Alysson Oliveira
São Paulo, 15/2/2010


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Entrevista com a tradutora Denise Bottmann de Jardel Dias Cavalcanti
02. A confissão de Lúcio: as noites cariocas de Rangel de Renato Alessandro dos Santos
03. Escritor: jovem, bonito, simpático... de Marta Barcellos
04. O tempo de Arturo Pérez-Reverte de Celso A. Uequed Pitol
05. Margarita Paksa: Percepção e Política de Duanne Ribeiro


Mais Alysson Oliveira
* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Álbum de Baiões - Partitura Com 198 Musicas
União Brasileira de Compositores
Ubc
(1954)



A Vingança de Drácula - a Ressurreição do Dragão
Davidson Abreu
Madras
(2016)



Giri
Marc Olden
Record
(1982)



A Cidade Antiga - Vol. 1
Fustel de Coulanges
Ed. das Américas
(1961)



Kingdon Hearts II - Volume 1
Shiro Amano
Abril
(2013)



À Procura de Adão 2ª Edição
Herbert Wendt
Melhoramentos



Meu Jeito de Falar
Claire Feliz Regina
Patuá
(2014)



A Exilada - Coleção Prêmios Nobel da Literatura
Pearl Buck
Delta
(1966)



Instructor's Manual: Past in Perspective
Kenneth L. Feder
Mayfield
(1999)



Mude Seu Destino
Peggy Mccoll
Larousse
(2008)





busca | avançada
48579 visitas/dia
2,2 milhões/mês