Entrevista com Chico Pinheiro | Digestivo Cultural

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ENTREVISTAS

Segunda-feira, 2/5/2011
Chico Pinheiro
Rafael Fernandes

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Chico Pinheiro em foto de Fáustulo Machado

Chico Pinheiro começou sua carreira solo quando os anos 2000 nasciam. Seu ótimo disco de estréia, Meia Noite Meio Dia (de 2002, relançado em 2010 pelo selo Buriti), despertou a atenção de muitos por honrar a tradição de Moacir Santos, Tom Jobim, Edu Lobo e tantos outros de unir grandes canções a arranjos envolventes, ao mesmo tempo combinando sofisticação com simplicidade. Muitos tentam seguir essa linhagem, mas poucos conseguem acertar o ponto exato. Pinheiro tem obtido sucesso, mas, felizmente, sem imitar ninguém. E, mais importante: tem se estabelecido pelo trabalho e pela qualidade de seu material, sem nenhum tipo de manobra de mercado ou de mídia. O músico também é reconhecido, em nível nacional e internacional, como um grande instrumentista. Transita com tranquilidade entre o violão e a guitarra unindo com inteligência a linguagem do jazz ao sabor brasileiro. Esse lado pode ser mais apreciado no disco Nova (Buriti, 2007), ao lado de Anthony Wilson ― este mais conhecido por ser músico acompanhante de Diana Krall.

Desde seu disco de canções anterior,
Chico Pinheiro (Biscoito Fino, 2005), o músico tem se aventurado num novo ofício: o de cantor, com resultados seguros. No fim de 2010 colocou no mercado mais um excelente trabalho: Flor de Fogo (CT Music/ Sunnyside/ Atração Fonográfica, 2010) ― o título nacional, ou There's a storm inside fora do país. O álbum nasceu de um convite de uma gravadora japonesa e foi lançado primeiro no exterior para só no fim do ano passado chegar ao Brasil. O disco evidencia seu amadurecimento como compositor. As canções são elegantes e bem elaboradas. E cada vez mais bem acabadas: dão ao ouvinte aquilo que é preciso para passar a mensagem, sem excessos. Bons exemplos são "Um filme", a faixa-título, "Boca-de-siri" e a soberba "Ao sul do teu olhar". A inclusão de uma regravação de Stevie Wonder, "As", pode sinalizar que o músico está cada vez mais à procura da canção "perfeita", daquela que nos atinge em cheio e fica em nossa memória. Por outro lado, os arranjos das músicas mostram que a complexidade e o capricho não vão ser esquecidos. O disco tem participações especiais de Dianne Reeves, Bob Mintzer e Luciana Alves, além de contar com uma banda afiadíssima. ― RF

1. Conte como se interessou pelo violão. Veio de família? Desde sempre você foi um estudioso? Quando começou a perceber que seria algo mais que um mero hobby? Quais foram (e são) suas principais influências e referências no instrumento? Que violonistas tem te interessado ultimamente (podem ser brasileiros ou não)? E como anda sua rotina de estudo?

Meu interesse pelo instrumento começou por volta dos seis, sete anos. Minha mãe tocava violão e piano de forma amadora e, com frequência, promovia saraus em casa. Tinha de tudo: choro, Hendrix, Jobim, Mutantes, serestas, valsas...Enfim, meu contato com a música veio desde muito cedo. Certa vez meus pais estavam fora e acabei pegando o violão para tirar de ouvido "Dear Prudence", dos Beatles. Foi uma espécie de "senha" para ganhar o primeiro violão e algumas aulas particulares semanais. Aos quatorze anos, por intermédio de um tio, Luiz Botelho, tive a oportunidade de fazer uma audição no estúdio Vice-Versa, onde passei a gravar trilhas (até hoje guardo o primeiro recibo como instrumentista profissional). Acho que desde que me entendo por gente queria ser músico.

Quanto às influências, foram muitas, desde sempre. Chopin, Pixinguinha, Debussy, SteppenWolf, Miles Davis, Coltrane, Beatles, Carmen Miranda, Cat Stevens, Thelonious Monk, Steely Dan, Yes, Led Zeppelin, Weather Report. E, claro, também diversos colegas de instrumento como Baden Powell, Garoto, João Gilberto, Wes Montgomery, Hendrix, Jim Hall, Raphael Rabello, Leo Brouwer, John Williams, Pat Metheny, Helio Delmiro, Dori Caymmi, Peter Bernstein, George Benson. Ultimamente tenho ouvido violonistas e guitarristas como Kurt Rosenwinkel, Lage Lund, Nelson Veras, Mike Moreno, Adam Rogers, Sylvain Luc, Ben Monder, Lionel Loueke, Jonathan Kreisberg, Quarteto Maogani. A lista aqui também é extensa.

Em relação a rotina de estudo, posso praticar por mais ou menos horas, dependendo da disponibilidade de tempo, mas definitivamente todos os dias. Procuro manter uma rotina mínima de 3, 4 horas diárias, apenas para manutenção técnica. Sempre que tenho mais tempo disponível esse período costuma se prolongar bastante e aí pesquiso, procuro experimentar novos caminhos e possibilidades. Tinha um professor na Berklee que sempre dizia: "não é porque é sério que não pode ser divertido, e não é porque é divertido que não pode ser sério!". Toda vida gostei de estudar ― e sempre procurei me divertir com isso, por mais desafiador ou complexo que fosse meu objeto de estudo.

2. Vamos voltar um pouco ao começo de sua carreira como compositor. Você tinha se formado na Berklee e estava acompanhando vários artistas, como Pedro Mariano, com sucesso e elogios. Mas optou por seguir na composição. Essa opção veio desde sempre? Já era uma coisa que estava em sua cabeça e você só estava esperando o momento certo? Ou houve alguma reviravolta? E como foi o começo, o trabalho de conseguir firmar seu nome como compositor?

Na realidade, a composição apareceu de forma casual, por uma conjunção de fatores e coincidências, como 80% dos eventos significativos na minha carreira, onde a casualidade foi sempre um ingrediente determinante. Quando voltei de Boston em 1998/99, já graduado e disposto a trabalhar, queria mesmo era acompanhar artistas bacanas e me envolver em atividades que fossem musicalmente interessantes pra mim. Ainda não havia a pretensão de ser "band leader". Isso não me passava pela cabeça, pelo menos não naquele momento. Minhas aspirações eram mais "terrenas", queria viver de música e se possível envolvido em projetos cada vez mais desafiadores, estimulantes.

Logo que cheguei, comecei a tocar e gravar com o pessoal da Trama: Jair Oliveira (que conheci em Boston), Luciana Mello, Jair Rodrigues, Pedro Mariano, etc. Ao lado disso também tocava e gravava com Zé Miguel Wisnik, às vezes com Chico César, começava também a fazer alguns shows com a cantora Rosa Passos, no Brasil e exterior, e a produzir trilhas para comerciais como freelancer. Enfim, estava me estabelecendo como sideman no Brasil, "reaparecendo" no mapa após quase três anos de ausência. Enfim, as ofertas de trabalho se multiplicam rapidamente.

Só que, em 2000, veio a primeira grande reviravolta, quando meu amigo e parceiro de canções Guile Wisnik enviou uma fita de composições nossas para um concurso chamado "Prêmio Visa". Já tínhamos conquistado o 1º lugar em um concurso de composição, anos atrás, ainda como alunos da USP (ele de arquitetura e eu, de Física). O fato é que fomos enfim classificados para a final, mas, como eu ainda não tinha uma produção regular e até então só compunha ocasionalmente, não tinha temas suficientes no "baú" ( o concurso julgava não uma música apenas, mas o "conjunto da obra"). Resultado: à medida que avançávamos, fase após fase, tínhamos de compor mais e mais, sempre às pressas, sempre às vésperas da próxima fase. Até o final foi assim, uma aventura! Hoje vejo que o mais importante daquilo tudo foi de repente ter me caído uma ficha gigante: "gosto de compor!". E foi ali que passei a me dedicar a essa faceta até então adormecida.

Algum tempo depois do Prêmio Visa, já de volta às minhas atividades como sideman, conheci Cesar Camargo Mariano, durante as gravações de um CD com seu filho, Pedro Mariano (em 2001). Cesar era o produtor musical deste projeto e na mesma época estava com show solo em cartaz no Supremo Musical (nota do entrevistador: o Supremo foi uma das mais importantes casas de música independente em São Paulo no começo dos anos 2000). Um dia, durante o período de gravações, recebi um telefonema dele me convidando para participar de suas apresentações, tocando alguns temas em duo. Não preciso dizer a tremenda emoção daquele telefonema e o que viria depois. Logo depois dos shows, a gerente veio me fazer um convite ― o que desencadeou uma segunda grande reviravolta: me oferecia um mês na casa (toda Segunda-Feira) para apresentar meu meu trabalho solo. Confesso que na hora fiquei em dúvida, pois teria de levantar um show com banda, composições e arranjos próprios em uma semana. Mas acabei aceitando.

Por fim, a temporada no Supremo revelou-se um outro "divisor de águas", sendo estendida por mais de um ano, e tornando-se a gênese do meu primeiro álbum ― Meia Noite Meio Dia (2002, relançado em 2010 pela Buriti). Depois disso, pude ver claramente que o meu caminho estava traçado, não tinha mais volta.

3. Falando na Berklee, como foi sua experiência lá, tanto em termos musicais quanto pessoais? É, realmente, uma escola diferenciada? Você viveu e respirou música 24x7? Como foi lidar com um país diferente, numa escola com tanta diversidade de pessoas? A escola te ajudou a definir seu estilo e a achar seus diferenciais? O que mais te marcou dessa época? Acha que, hoje, ainda é altamente recomendável ter uma experiência dessa ou no Brasil já é possível ter uma educação musical completa e qualificada?

A experiência na Berklee foi fantástica, sob diversos aspectos. Representou uma época muito rica e intensa pra mim, onde "respirava" música 24 horas por dia. A minha sede de aprender e evoluir era tão grande que me graduei em menos de dois anos (normalmente seria de quatro a cinco, como qualquer universidade). Além das diversas aulas durante todo o dia (algumas delas incríveis, geniais), sempre adentrávamos pela noite com intermináveis jam sessions, ou mesmo gigs em clubes locais. A convivência direta com culturas, músicos e amigos de todo lugar foi outro fator muito importante ― nunca me senti tão brasileiro! Talvez isso tenha sido algo que me marcou muito dessa época: o respeito que todos tinham pela música brasileira e a consciência de meu lugar no mundo que isso trouxe.

Acho que nosso país tem hoje uma estrutura bem razoável em relação a escolas de música, mas nada substitui a vivência do contato direto com outras culturas. No fim, o que me levou a morar fora não foi a possível deficiência do ensino musical no Brasil, mas sim a possibilidade de vivenciar um intercâmbio direto, real e diário com outras tantas culturas e, assim, poder melhor compreender, assimilar e finalmente combinar essa experiência às minhas raízes.

4. Você segue a linha de Tom Jobim, Edu Lobo e outros que procuram, através do uso de melodias e harmonias complexas, se expressar de forma simples ― por mais paradoxal que isso possa soar. É saber usar o virtuosismo em prol de uma canção bem acabada e inesquecível. Como você vem trabalhando esse ideal de juntar dificuldade com simplicidade? É algo que te preocupa? Ou você simplesmente "segue o fluxo criativo"? E te incomoda a disseminação de tantas canções pobres musicalmente vagando por aí?

Há uma máxima, com a qual concordo plenamente, que diz que "a simplicidade é o auge da sofisticação". O pianista Danilo Perez certa vez escreveu: "é fácil fazer algo mediano ou às vezes até medíocre soar algo complicado ou virtuoso. Por outro lado, é necessário um grande artista para se fazer algo extremamente complexo e virtuoso soar simples". É verdade. Mas não creio que tais capacidades simplesmente se aprendam, tipo: "Ah! Então era assim que Jobim fazia!". Isso não existe e é aí que reside a beleza da arte: ela tem os seus mistérios, caprichos, seus códigos, suas "entrelinhas". Schoenberg dizia: "a arte pertence ao inconsciente, é a expressão máxima de nós mesmos. Ela vai além da educação, gosto, crença ou inteligência. Apesar de ser uma combinação de todos esses elementos, e justamente por isso transcende a tudo, de forma absoluta e imponderável."

Enfim, todos os grandes criadores musicais que admiro e sempre admirei, não por coincidência, foram mestres absolutos dos fundamentos técnicos que lhes permitiam criar da música mais simples à mais complexa. Mas, embora virtuoses, nunca sobrepuseram seus conhecimentos ou habilidades musicais às suas manifestações emocionais mais profundas, por mais rústicas ou simplórias que essas pudessem ser. Eles sempre souberam que o grande desafio artístico é o de conseguir, utilizando-se do auxílio de todos os conhecimentos e habilidades disponíveis, criar uma música capaz de expressar emoções e sentimentos comuns a todo ser humano. Ainda que isso pareça óbvio, não é. Pelo contrário, é extremamente difícil e uma das qualidades que define os grandes (seja como instrumentistas, arranjadores ou compositores).

Quanto à outra questão ― se me incomoda a disseminação de tanta música pobre por aí? Creio que não ― sempre houve diversas qualidades de música coexistindo no mundo. No entanto, tenho de concordar que hoje há uma grande diferença, que é a imensa facilidade em se produzir e divulgar qualquer tipo de música, não importando nem mesmo sua qualidade ou relevância. De repente ficou muito barato e simples ser músico/ "artista"'. Mas creio que talvez sejam apenas os "filtros da seleção natural" que mudarão de lugar. Antigamente, o mais difícil era produzir o disco, caríssimo e um privilégio dos poucos contratados das grandes gravadoras. Hoje, não: qualquer um pode gravar até dois, três CDs... O que não quer dizer que você vá se estabelecer e viver de sua música. Continua existindo uma diferença brutal entre gravar um, dois discos, e estabelecer-se como artista ― com uma carreira real. Existe um abismo entre essas duas realidades.

5. Falando em "fluxo criativo", você tem um método de criação? Compõe sempre? Com os mesmo "rituais"? Acredita mais no trabalho ou em arroubos de inspiração? Em que você tem procurado melhorar em suas composições? Quem são seus compositores preferidos? E que novos compositores tem chamado sua atenção nos últimos tempos?

Não sigo muito uma rotina. Componho sempre, tanto no violão quanto no piano, mas sem um ritual específico. Muitas vezes as idéias surgem, e as gravo em fitas analógicas, daquelas pequeninas de repórter. Há provavelmente centenas destas na gaveta. Mas quando decido terminar uma determinada composição, fico às vezes até dias burilando sem parar. Mas, uma vez que as dou por "terminadas", não mexo mais.

Alguns de meus compositores prediletos são Chopin, Moacir Santos, Ravel, Jobim, Edu Lobo, John Williams, Lennon & McCartney, Chico Buarque, Wayne Shorter, Thelonious Monk, George Gershwin, Gilberto Gil, Dori e Dorival Caymmi, Bach, Stevie Wonder, Paulinho da Viola, Nelson Cavaquinho, os russos (Shostakovich, Rachmaninov, Scriabin, Glazunov, Prokofiev), etc.

Nos últimos anos, alguns dos compositores que têm me chamado mais a atenção são Alexandre Desplat, Danny Elfman, Terence Blanchard, Gabriel Yared, Brad Mehldau, John Mayer, Sergio Santos, André Mehmari, Swami Jr. e outros. Cada um à sua maneira.

6. Desde seu disco anterior você tem cantado. É a questão do "cantautor", do compositor que precisa se expressar para "defender" suas canções. Como foi essa questão para você? Por que começou? Foi uma vontade ou uma necessidade de mercado? Como tem sido seu treinamento e como sente sua evolução? Tem gostado do novo ofício? Quais cantores que você gosta e acabam influenciando no seu jeito de cantar?

Sim, considero-me sobretudo um instrumentista/compositor que canta sua própria obra. Nunca tive a pretensão de me tornar um intérprete "de ofício", como João Gilberto, Orlando Silva, Frank Sinatra, ou Johnny Hartman. Essa coisa de cantar começou mais forte quando gravei meu segundo álbum, Chico Pinheiro (Biscoito Fino, 2005). Na época, o pessoal da gravadora ― Olivia Hime, Kati de Almeida Braga e Francis Hime ― me dizia que, como um autêntico compositor de canções, seria bacana cantar a própria obra, pois a "voz do autor" sempre traria uma visão diferente. E o argumento final (até hoje brinco que foi um "golpe baixo") foi citarem cantautores que adoro ― Jobim, Edu Lobo, Chico Buarque, Guinga.

Enfim, embora não me considerasse um cantor, acabei topando e curtindo o desafio. Com o tempo, fui ficando mais à vontade, mas não sem antes me preparar um tanto. Tive aulas com a querida professora Regina Machado (na época de Chico Pinheiro) e, mais recentemente, com o professor Juvenal de Moura, mais erudito, um excelente profissional. Cantores que admiro, independente do estilo: João Gilberto, Johnny Alf, Chet Baker, Caetano Veloso, Gil, Rosa Passos, Luciana Alves, Mel Tormé, Billy Preston, John Mayer, Sting, Ray Charles, Stevie Wonder, Dianne Reeves, Dominguinhos, Jackson do Pandeiro, James Brown, Waltraud Meier, Lenine, Dori Caymmi e outros.

7. Vamos falar um pouco do disco novo, Flor de Fogo. A concepção começou quando? Desde o fim do Chico Pinheiro (2005)? A partir de quando ele começou a tomar uma forma mais acabada? Como se deram as escolhas das versões dos Gershwin e do Stevie Wonder, além da regravação de "Buritizais"? E como aconteceram as escolhas da banda e das participações? Por fim, como você vê esse disco dentro da sua discografia solo? É um disco de afirmação? De evolução? De novos horizontes? De fincar o pé no mercado internacional?

Flor de Fogo surgiu do convite de uma gravadora japonesa, em 2009. Eu havia gravado o disco instrumental Nova, com Anthony Wilson (Buriti, 2007), e já burilava a idéia de um próximo de canções. Foi quando o convite apareceu e, por pura coincidência, justamente quando nos movimentávamos para viabilizar o novo projeto. E assim que fechamos ― eu estava inclusive em Paris no meio de uma turnê, de lá mesmo comecei a trabalhar na concepção: forma, repertório, arranjos, instrumentação, enfim, pensar o CD mais seriamente.

A escalação se deu de forma natural. Decidi como banda base incluir Fabio Torres, Edu Ribeiro, Armando Marçal, Paulo Paulelli e Marcelo Mariano por serem músicos fantásticos e, sobretudo, meus colegas de palco desde o primeiro disco. Em um CD aberto e "jazzístico" como esse a cumplicidade e confiança são fundamentais, especialmente para poder se arriscar em novos experimentos sem nenhum medo. Além deles, à medida em que os arranjos foram elaborados, outros grandes parceiros vieram à mente: Proveta e Gilson Peranzzetta. Já Paulo Calasans e Oscar Castro Neves apareceram depois, para completar o time (piano e arranjo de cordas, respectivamente).

Por fim os japoneses sugeriram incluir uma ou duas releituras, onde eu pudesse me mostrar também como arranjador, e achei bem interessante. Sou um apaixonado por Gershwin e escolhi logo "Our love is here to stay". Stevie Wonder apareceu depois, e acabamos definindo "As", para ser incluida também.

Mas, sobretudo, queria algo bem diferente de todos os CDs anteriores para esse novo projeto, e essa busca se refletiu desde as escolhas dos parceiros letristas (não abri mão de Paulinho Pinheiro, mas chamei à bordo Pedro Luis, Tiago Torres da Silva e Jessie Harris), até em uma instrumentação bastante experimental: gravamos algumas músicas com dois baixos ― elétrico e acústico, e o resultado foi incrível.

E, claro, também nas próprias composições e arranjos, mais intrincados do que em todos os CDs anteriores. Chegamos a gravar uma banda de forró no meio da rua e uma feira, com dois microfones, L-R. E, por fim, nos convidados: incluí Bob Mintzer e Dianne Reeves, dois mestres em seus ofícios, que reforçaram ainda mais o crossover entre Brasil e o jazz em interpretações lindíssimas. Além da insubstituível Luciana Alves, para mim uma das maiores cantoras da atualidade.

Enfim, é um disco que tem um pouco disso tudo: a afirmação, a evolução, os novos horizontes, a abertura para um mercado internacional. É um disco extremamente verdadeiro, como sempre faço, que registra meu momento atual, e o que vai para bolacha traz sempre os ângulos e aspectos musicais relevantes de um momento específico. Já o próximo... Só Deus sabe!

8. Você faz um tipo de música que ainda faz bom uso do conceito de "álbum", do conjunto de canções num só "pacote". Além disso, seu público e o mercado em que atua parecem ainda viver baseados no conceito lançamento do disco ―divulgação ― turnê ― lançamento do próximo disco. Como vê o formato álbum nesse mercado cada vez mais ramificado? Acha que continuará fazendo sentido para você como artista? E como ouvinte? Você continua ouvindo álbuns completos? Já pensou em mudar a forma como lança seus trabalhos?

Creio que para todos é muito claro que o momento atual é de transformação e que nesse processo o CD fatalmente deve sentir o golpe, perdendo seu lugar e importância. Isso já está acontecendo e por diversas razões. Hoje a imagem está em alta, o artista não pode ignorar esse fato. Sim, os ipods continuarão (por ora) a povoar o mundo com seus playlists personalizados, e isso é ótimo. Mas youtubes, iTunes, facebooks, myspaces, weblogs (alguns inclusive que se prestam a disponibilizar CDs de graça), tudo isso, mais do que nunca, vem revolucionando não só a arte, mas a forma de nos entendermos como indivíduos.

Eu, particularmente, adoro o conceito de álbum, não por ser apegado ao passado, nada disso, mas porque simplesmente me agrada o conceito de contar uma história com começo, meio e fim através de um conjunto de temas, ou canções, ou movimentos. Mas por outro lado também estou "up to date" quanto às novidades, não quero me alienar à elas. E, afinal, acho-as interessantíssimas, portanto não rejeito as novas formas de divulgação, especialmente se preservam a integridade artística daquilo que difundem, acho sempre válido. O mais importante é que, no fim, há algo que me conforta bastante em meio a esse turbilhão de transformações "midiáticas", pois uma coisa continuará sendo insubstituível: a imaginação do artista, sua capacidade de criar.

Nem tudo que é "uploadado", "postado", ou disponibilizado na Net é arte ou tem qualidade. Sim, pode-se criar inúmeras formas incríveis de conectar todo mundo à tudo e a todos. Mas isso jamais substituirá a própria criação ou a imaginação de um Jobim, um Chopin, um Chico Buarque, um Calder, um Machado de Assis, um Picasso. Pelo contrário: não há como prescindir das "centelhas de talento" que cria(ra)m os objetos de arte que possam ser difundidos pela Net. Resta-nos agora é descobrir como organizar tudo isso ― todo esse universo novo, imenso e extraordinário que se abre com as novas tecnologias e a internet, em prol dos artistas. E isso é possível!

9. Você tem passado um bom tempo no exterior e trabalhado com estrangeiros. Participou de um disco da Fleurine (que, inclusive, gravou músicas suas), gravou em duo com o Anthony Wilson (guitarrista da Diana Krall), tem feito todo ano turnês na Europa e nos EUA, além de ter participado do California Brazil Camp. Seu mais recente disco foi lançado primeiro no Japão. O exterior entende melhor seu trabalho? Apesar de ser aclamado por músicos e críticos nacionais, o espaço em geral ainda parece ser pouco? Há, de fato, menos interesse aqui? Lá fora o mercado é mais bem estruturado? A melhor saída para músicos como você continua sendo o aeroporto?

Acho que existe, sim, uma diferença ainda considerável. Os espaços, a estrutura, o profissionalismo e o público para o tipo de música que fazemos lá fora, em geral, ainda é maior. O fato é que Brasil, infelizmente, há anos não tem se esforçado muito em estimular o "ouvinte plural" ― fora algumas poucas iniciativas como a dos SESCs, mas que são pontuais e localizadas. Sou absolutamente a favor da pluralidade, sempre. Não digo que não houve melhora alguma, pois houve, sim. Mas enquanto não tivermos uma forma efetiva de colocar e manter esse público em potencial, que é abundante no Brasil (afinal, são quase 200 milhões de pessoas vivendo em um país ultra musical) em contato com a diversidade de manifestações culturais que acontecem por aí ― seja no rádio, nas TVs, nos teatros, etc. ― permitindo assim que este faça suas próprias escolhas, não se formará o tal mercado de nicho, que é interessantíssimo e super importante. A internet nesse sentido poderá assumir um papel ainda maior, e fundamental no futuro. O fato de ser cada vez mais requisitado para tocar e gravar no exterior denota uma característica universal de minha música, e fico contente com isso, afinal a música é um código universal.

10. Muito se fala de "crise da música", "novos modelos de negócios" e afins, mas você tem conseguido viver da sua música há alguns anos. Seja com sua carreira de compositor, participando de shows e discos de outros artistas, entre outros trabalhos ligados à música. Muitos poderiam perguntar qual o "segredo". Não seria tão ingênuo de chegar a esse ponto, mas queria que você explicasse um pouco como tem sido esse trabalho com um público restrito e uma música taxada como "difícil". Como tratar esse público e como conquistar novos? Essas mudanças no mercado te preocupam? Como tem achado seu lugar no mercado? Ainda há espaço para quem trabalha direito e corre atrás? E existe algum "conselho" que você poderia dar para os novos músicos?

Em poucas palavras, para não depender de "sorte", ame seu ofício e desempenhe-o da melhor forma que puder. As oportunidades aparecerem de forma natural, sempre de acordo com o que está reservado a você ― acredite na casualidade. Certamente mais rápido do que imagina, e sem que perceba, já estará rodeado por seus iguais. Basta que siga o seu caminho fazendo o que melhor sabe e gosta de fazer ― não tem muito segredo (risos).


Rafael Fernandes
Araçoiaba da Serra, 2/5/2011


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