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Quarta-feira, 4/5/2005
Vivo
Julio Daio Borges

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Digestivo nº 225 >>> Lenine andava meio sumido. Depois da controvérsia com Chico Buarque e Edu Lobo, em torno de Cambaio (2001), quando transformou a obra dos compositores numa gritaria e numa barulheira infernal, achou por bem debandar para a Europa. Falange Canibal (2002), uma espécie de disco, uma espécie de manifesto, que trazia no bojo a participação do Living Colour (que, depois, se tornou banal), não foi bem compreendido — no limite, sequer assimilado. Muito longe da penetração de Na Pressão (1999), muito mais longe ainda da consagração de O dia em que faremos contato (1997) e há 20 mil léguas submarinas da obra-prima Olho de Peixe (1993), com Marcos Suzano. Mas o Brasil foi injusto com Lenine; embora o mundo não tenha sido nesse período. Mormente a França que, inclusive, o chamou para compor a música tema da tal mostra de 2005... Foi nesse país, mais especificamente em Paris, que Lenine registrou seu primeiro ao vivo: In Cité (2004), divulgado em show por aqui em março. Lá está um Lenine sóbrio, o melhor Lenine: longe do eletrônico, longe do cânone da MPB impositiva; acústico, lírico, intimista. Ainda que poluído e distorcido em alguns momentos. E ainda que tenha se apresentado num abarrotado Tom Brasil. Mas, felizmente, distante do alvoroço desumano de Cambaio e afins. Nelson Motta confirmou, em abril, na Casa do Saber, que Lenine é um artista poderoso e que precisou de alguns dias para digerir seu show, no Rio. Com razão. Está tocando melhor (aquele violão que lhe é tão característico); está com uma banda mais afinada; está, evidentemente, mais maduro depois das reviravoltas todas. Mesmo não sendo uma obra completamente inédita, é um alívio que, em In Cité, Lenine tenha recuperado seu eixo. Afinal, ele sobreviveu à mídia; ele sobreviveu à consagração. Mantendo-se fértil. Quantos podem afirmar a mesma coisa? Hoje, entre os artistas, quase nenhum — ou nenhum. Que ele permaneça então nessa fase low-profile. Está em seu domínio; está em seu território. Em tempos de tanto obscurantismo e de tanta empulhação, ninguém precisa ver seu nome em letras de neon pra saber que Lenine é bom.
>>> In Cité (ouça as faixas) | Lenine
 
Julio Daio Borges
Editor

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05. Prólogo, com um Prólogo dos Prólogos, de Jorge Luis Borges (Literatura)


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