A Carmen Miranda de Ruy Castro | Julio Daio Borges | Digestivo Cultural

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COLUNAS

Sexta-feira, 16/6/2006
A Carmen Miranda de Ruy Castro
Julio Daio Borges

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+ 2 Comentário(s)


Carmen Miranda colorizada no PixelAddiction

"A coisa mais importante para um artista é ser digno de um bom desempenho. Nunca tive diretor para os meus shows. Faço tudo como sinto."
Carmen Miranda

"Aparecera com a violência de uma explosão atômica, lançada por Joubert de Carvalho, na sua famosa marchinha 'Taí'. Possuia uma beleza estranha, toda errada, incompatível com os cânones clássicos, mas cheia da graça, da vivacidade e do 'sex-appeal' das moreninhas cariocas do povo - um riso brejeiro, um andar ondulante, uma gíria de subúrbio, uma simpatia espontânea de menina simples e ainda um pouco fascinada pela popularidade súbita e embriagadora. (...) Qualquer disco que gravasse, era um êxito seguro. Ela introduzia na música pequenas e sutis modificações, interrompia o texto da letra para intercalá-la com exclamações inesperadas, tinha inflexões graciosas, tiques pessoais, e cantava com uma voz em que se sentia a sua juventude, a sua felicidade, o seu deslumbramento adolescente diante da vida. Foi muito imitada, mas, a meu ver, nenhuma de suas imitadoras possuiu jamais a sua espontaneidade, a sua originalidade, a sua autenticidade. Sempre achei que Carmen Miranda era a artista de mais forte personalidade da nossa música popular."
Luís Martins

É, no mínimo, confusa a imagem que normalmente carregamos de Carmen Miranda. Caetano Veloso conta que, na sua infância, ela era tão "grande" quando, sei lá, Charles Chaplin. A primeira imagem que nos vem talvez seja a do cinema americano, a do ícone tão colorido e esfuziante que plasticamente confundimos com desenho animado, com... Mickey Mouse? Aquela mulher linda e elétrica, com uma fantasia absurda e um gestual único, cantando uma mistura de português e inglês - com sotaque espanhol -, no auge do technicolor... mas cercada por cenários e situações que, com ela, aparentemente não têm nada a ver. Para nós, Carmen Miranda é essa figura "deslocada" no tempo e no espaço. Alienígena. Para o mundo, também. E o esforço de Ruy Castro, em sua nova biografia, Carmen (Companhia das Letras, 2005, 597 págs.), é, mais do que tudo, o de tentar entender o fenômeno.

Carmen Miranda, além de ser esse acontecimento complexo que colocou o Brasil da primeira metade do outro século no mapa, é, para completar, uma eterna crise de identidade. Quando estava no Brasil, Carmen era acusada de ser "portuguesa" - pois, de fato, nasceu em Portugal. Quando estava nos Estados Unidos, era acusada por David Nasser d'O Cruzeiro - "no auge da canalhice", segundo Ruy - de não saber mais falar português. Quando de seu primeiro retorno ao Brasil, desembarcou para um show no Cassino da Urca e não teve dúvida, cumprimentou o público: "Hello people". Para tascar, logo em seguida, "South American Way". Depois, para consertar ou rebater as críticas, gravou "Disseram que voltei americanizada". Para os americanos, era mais uma "latina" (entre tantas) que, no seu circo étnico, associavam às mexicanas cantadoras de rumba. Para ela própria, não era nada disso: era a mãe frustrada, que realizou um aborto, teve outro espontâneo, casou-se mal e morreu em conseqüência desse arranjo.

O problema, para quem insiste em entender Carmen Miranda, é que ela foi também, e positivamente, um estrondo. Estourou, com menos de 20 anos, já na primeira gravação, "Taí". Pegou a explosão do rádio nos anos 30, com o início da sua era comercial, e não demorou muito para ter seu próprio programa semanal na Mayrink Veiga. E para puxar sua irmã, Aurora Miranda. E depois apenas de Francisco Alves e Mário Reis - os dois maiores cantores da época (o primeiro tendo gravado, em um ano, mais que Bing Crosby) -, conquistar a Argentina sozinha (conquistar Evita, então uma "atrizinha"), e reconquistá-la em duo, com Aurora... Las Hermanas Miranda. "Cantores do rádio", e as duas lá de cartola, é o pouco que resta de Alô, alô, Carnaval - musical dos primórdios do cinema brasileiro. Carmen ainda pegou a explosão de compositores de sambas, um em cada esquina da Lapa carioca, na chamada (não à toa) Época de Ouro: "Teu cabelo não nega", "Fita amarela", "Formosa", "Cai, cai, balão", "Na batucada da vida", "Pierrô Apaixonado", "Minha embaixada chegou", "O que é que a baiana tem?", "Cidade maravilhosa", "Mamãe, eu quero", "Touradas de Madri"...

E, sob as atenções de Dorival Caymmi, Carmen forjou a baiana. Uma mistura das baianas clássicas do Carnaval do Rio - parentes das vendedoras de rua de acarajé -, com o sapato plataforma - que ela já inventara por ser baixinha -, com um figurino a seu cargo - era costureira e vendedora de chapéus -, com aquela dança maluca, dirigida pelo mesmo autor de "O que é que a baiana tem?" em pessoa, com o repertório dele, mais das marchinhas, e do genial compositor de "Aquarela do Brasil", o mineiro Ary Barroso. Essa salada cultural desembarcou em plena Broadway no final dos anos 30, depois de uma temporada de furor nos cassinos do Rio de Janeiro - onde foi descoberta pelo empresário norte-americano Lee Schubert -, numa revista musical cujo título era... Streets of Paris (!). Como Schubert faturava 50% de tudo o que Carmen levava - acompanhada pelo Bando da Lua com Aloysio Oliveira -, Miss Miranda se revezava entre as apresentações no teatro com hotéis e restaurantes. Em picos de mais de dois shows por dia num determinado ano (contando todos os dias do ano)... Tinha menos de 30 anos. Logo foi descoberta pelo cinema, por Hollywood, e - menos de dois filmes depois (um deles ainda por lançar) - gravava seu nome na calçada da fama.

A ascensão de Carmen Miranda é fascinante. Mesmo que não a consideremos "cantora"; afinal, ela mesma não se reconhecia como tal: "Não, eu não tenho voz nenhuma. O que eu tenho é bossa". Nem Noel Rosa, aliás, a considerava cantora: "Isso é samba ou é aquela outra coisa que Carmen Miranda canta?". E nem Ary Barroso (antes de ir para os EUA, às suas custas, e ser reconhecido como compositor em todo canto...): "Quem está vencendo na América não é o samba. É Carmen Miranda". E Carmen Miranda não era, obviamente, atriz. Seus filmes hoje parecem meras desculpas para que ela entre, "estrelíssima", com aquela indumentária intergaláctica, numa coreografia contagiante, imitada, historicamente, mas sem nenhuma explicação. Ainda que não encontremos, em suas realizações, méritos altamente artísticos (em matéria de "grande arte")... como ela foi, em matéria de popularidade, tão longe? Chegou a ser a mulher mais bem paga dos Estados Unidos - e possivelmente do mundo -, declarando mais rendimentos e arrecadando mais impostos em 1944 que, por exemplo, Bob Hope, Cary Grant e Humphrey Bogart.

A mais fácil explicação, claro, está na política de boa vizinhança, no tempo da Segunda Guerra Mundial, sob o comando de David Rockefeller. Ruy Castro mostra, no entanto, que Carmen Miranda era, desde o início, um vulcão em erupção, batendo recordes e alcançando marcas que - a seu ver - justificaram a (e não resultaram da) política de boa vizinhança. É bem verdade, também, que, com o fim da guerra, com a decadência do cinema e o surgimento da televisão, Carmen Miranda ficou presa à fantasia, à baiana, ao portunhol (e ao inglês macarrônico) - aos estimulantes e soníferos (no fim, ao álcool também) - até morrer de um ataque do coração. No livro, a política de Rockefeller não se explica apenas por ser um arranjo político, mas, junto aos estúdios de cinema (e às gravadoras), por uma estratégia de mercado: a Europa estava fechada para o consumo, restava a América Latina. (Embora Carmen também provocasse alívio em europeus - a ponto de Wittgenstein descrever seus filmes como "duchas", que ele gostava de "tomar", depois de ensinar filosofia...)

Da mistura de "bolo de casamento com árvore de Natal e exposição de flores" - como Daily Mail de Londres classificou Carmen Miranda nos últimos anos -, fica a sua influência na cultura, por mais questionáveis que sejam a sua vida pessoal e o seu sucesso no exterior. Ruy Castro, ultimamente no Roda Vida, traçou a genealogia de "cantores de bossa" e afirmou que João Gilberto - o pai da bossa nova e virtualmente de tudo que se ouve em MPB até hoje - descende da Pequena Notável. Se parecer meio distante a conexão, basta lembrar da admiração de João Gilberto por Lúcio Alves, cujo primeiro conjunto, o Garotos da Lua, é uma derivação do Namorados da Lua que, por sua vez, é uma homenagem ao Bandos da Lua - o mesmo que mais constantemente acompanhou Carmen Miranda. Sem contar a participação de Aloysio de Oliveira, espécie de bandleader e "namorido" de Carmen, na gênese da bossa nova: como produtor da Odeon, tecnicamente salvando o mesmo João do anonimato, ao permitir que deflagrasse o movimento com o compacto "Chega de Saudade"; como dono de gravadora, a Elenco, desovando uma geração de bossa-novistas; e como compositor, legando para a eternidade, em parceria com Antonio Carlos Jobim, "Dindi", "Só tinha de ser com você" e "Inútil paisagem", entre outras.

Carmen Miranda, mesmo não sendo uma intérprete unânime entre nossos compositores, pavimentou definitivamente a estrada para a música brasileira no exterior. Muito provavelmente o jazz americano não teria gravado "Na Baixa do Sapateiro" em tantas versões, se ela não a tivesse feito conhecer nas décadas anteriores. Nem o mesmo Tom Jobim - the composer of Desafinado... - teria a recepção que teve, com Frank Sinatra, num raro momento de concessão, quando The Voice o convidou para gravar um disco inteiro em duo. Tom possivelmente sabia que Carmen, Aloysio e o Bando da Lua haviam praticamente assistido à estréia de Sinatra, ainda como um crooner na banda de Harry James, em Nova York, e que haviam lhe solicitado um autógrafo mais por condescendência do que por consideração... E o Carnaval, o inevitável Carnaval, não teria, evidentemente, a mesma longevidade e a mesma projeção (para o bem e para o mal), não fosse o impulso de Carmen na consolidação do cancioneiro popular da década de 30 - literalmente tudo o que cantamos até hoje -, e na elaboração plástica que conferiu uma "cara" à festa e que reflete, anualmente, grande parte da sua exuberância.

Apesar das críticas aos seus vieses interpretativos, Ruy Castro confirma, mais uma vez, sua posição como principal biógrafo de cultura popular no Brasil. Se Chega de Saudade, a história da bossa nova, agora encontra um antecessor cronológico em Carmen - que conta muito da história do samba -, Anjo Pornográfico, a vida de Nélson Rodrigues, fecha um panorama do teatro e do jornalismo, enquanto que Estrela Solitária, a biografia de Garrincha, completa o quadro com a radiografia de uma das maiores manifestações da alma do nosso povo, o futebol. Ruy, no fim das contas, mais do que pelo Brasil, reafirma sua opção preferencial pelo Rio de Janeiro (ou pelo ponto em que ambos coincidem) - até em outros livros, como Ela é carioca, seu dicionário de Ipanema, e como Carnaval no fogo, sua história compacta da cidade. O fato é que - ainda que muita gente não se conforme por ele, por exemplo, não ver no Rio nenhum defeito - Ruy Castro continua nos convencendo de que vale a pena ler sobre os assuntos que o interessam. Essa Carmen Miranda que, atualmente, desponta, em novíssima edição, tem muito de verdade mas tem muito também da sua construção.

"Numa ocasião, o Vinicius de Moraes me disse que eu tinha a essência da verve de uma artista. Eu não sabia o significado e fui olhar no dicionário. 'Verve' quer dizer 'calor da imaginação que anima o artista'. Gostei!"
Carmen Miranda

"Conheci Carmen. Era 'macaca' dela. Quando ela esteve a última vez no Brasil, quis me conhecer. Fiquei espantada quando soube que ela tinha todos os meus discos em Hollywood.(...) Fizeram uma festa para ela, na boate Vogue, a rigor. O Vogue, que pegou fogo, era considerada a boate quente da Zona Sul. Quando eu via Carmen Miranda no cinema eu chorava. Nunca pensei que um dia fosse conhecê-la. E havia o Clube dos Artistas, em cima da boate, do qual fui fundadora. Um ponto de encontro dos artistas, onde a gente ia descansar. Quando ela chegou foi aquela fechação total, com aquele vestido de renda transparente, o colo quase de fora, rabo de cavalo, polícia, mil gentes. Eu cheguei na janela do clube para ver. Senti um frio que vinha do dedão até a cabeça e comecei a tremer. Eu estava de calças compridas.(...) Depois de uma hora mais ou menos subiu o dono da boate. Carmen Miranda queria me conhecer. Não acreditei. O Barão, dono da boate, dizia que era impossíveI eu estar nervosa, que eu era famosa. Carmen havia sabido que eu estava lá em cima da boate, no Clube dos Artistas. Desci e quando Carmen me abraçou eu comecei a chorar. Sentamos à mesa: ela, Ary Barroso, Antônio Maria, Murilinho de Almeida e Silvio Caldas. Eu não falava nada."
Ângela Maria

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Julio Daio Borges
São Paulo, 16/6/2006


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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
14/6/2006
15h09min
Julio, seus textos são de um primor... Vale a pena, me debruço com muito prazer para lê-los. Sobre Carmem, sinceramente não morria de amores por ela, justamente por ser deslocada e uma série de preconceitos que se tem sobre os EEUU (no meu caso)... Acontece que Carmem praticamente foi a única brasileira(portuguesa) que estourou por lá (de que se tem conhecimento...). Abraços, Clara
[Leia outros Comentários de Cleo]
20/6/2006
14h38min
Querido Jalio, excelente texto. Desmistificar certos conceitos ou pré-conceitos com tanta classe, só pessoas de personalidade tão admirável, como a sua. Digo, característica forte da sua equipe, sou uma apaixonada pelo Digestivo. Carmem passa a ser, a partir do texto, uma figura da conhecida - brasileirinha. Abraços à equipe toda. Shirleia
[Leia outros Comentários de Shirleia Jaime]
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