O Paulinho da Viola de Meu Tempo é Hoje | Alexandre Petillo | Digestivo Cultural

busca | avançada
74889 visitas/dia
2,4 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Festival Halleluya em São Paulo realizará ação solidária para auxiliar as famílias no RS
>>> Povo Fulni-ô Encontra Ponto BR
>>> QUEÑUAL
>>> Amilton Godoy Show 70 anos. Participação especial de Proveta
>>> Baccos promove evento ao ar livre na Lagoa dos Ingleses, em Alphaville
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> A pulsão Oblómov
>>> O Big Brother e a legião de Trumans
>>> Garganta profunda_Dusty Springfield
>>> Susan Sontag em carne e osso
>>> Todas as artes: Jardel Dias Cavalcanti
>>> Soco no saco
>>> Xingando semáforos inocentes
>>> Os autômatos de Agnaldo Pinho
>>> Esporte de risco
>>> Tito Leite atravessa o deserto com poesia
Colunistas
Últimos Posts
>>> Rodrigão Campos e a dura realidade do mercado
>>> Comfortably Numb por Jéssica di Falchi
>>> Scott Galloway e as Previsões para 2024
>>> O novo GPT-4o
>>> Scott Galloway sobre o futuro dos jovens (2024)
>>> Fernando Ulrich e O Economista Sincero (2024)
>>> The Piper's Call de David Gilmour (2024)
>>> Glenn Greenwald sobre a censura no Brasil de hoje
>>> Fernando Schüler sobre o crime de opinião
>>> Folha:'Censura promovida por Moraes tem de acabar'
Últimos Posts
>>> A ESTAGIÁRIA
>>> A insanidade tem regras
>>> Uma coisa não é a outra
>>> AUSÊNCIA
>>> Mestres do ar, a esperança nos céus da II Guerra
>>> O Mal necessário
>>> Guerra. Estupidez e desvario.
>>> Calourada
>>> Apagão
>>> Napoleão, de Ridley de Scott: nem todo poder basta
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Florbela Espanca, poeta
>>> Mamãe falhei
>>> À procura de barranco
>>> As armas e os barões
>>> 11 de Setembro e a Era do Terror
>>> Sobre as ilusões perdidas
>>> Mistérios Literários
>>> Vendem-se explicações do Planeta dos Macacos
>>> Caminho para a Saúde
>>> Romance breve
Mais Recentes
>>> O Herói Perdido de Rick Riordan pela IntrÍnseca (2011)
>>> Sem Folego de Brian Selznick pela Sm (2012)
>>> Manual De Metodos E Tecnicas De Pesquisa Cientifica de Izequias Estevam Dos Santos pela Impetus (2016)
>>> A Droga Da Obediência de Pedro Bandeira pela Moderna (2014)
>>> Compliance: Como Implementar de Marcos Assi pela Trevisan (2018)
>>> Nate Está Na Área de Lincoln Peirce pela Sextante (2014)
>>> Nós de Mauricio Negro pela Companhia Das Letrinhas (2019)
>>> Análise Técnica Clássica de Flávio Lemos, Celso Cardoso pela Saraiva (2010)
>>> Zumbizito: Descubra Seu Segredo de Kevin Bolger pela Novo Século (2012)
>>> Entrevista de Clarice Lispector pela Rocco (2007)
>>> Drogas: sua Liberdade Por um Fio de Denise Ortega pela Nova (2008)
>>> A Droga Do Amor de Pedro Bandeira pela Moderna (2014)
>>> O pulo da Carpa! de André Gravatá pela Sm (2022)
>>> Desmontando A Arara de Renata Bueno pela Ftd (2010)
>>> É Possível Superar A Violência Na Escola? de Luciene Regina Paulino Tognetta pela Do Brasil (2012)
>>> Sentidos De Milicia: Entre A Lei E O Crime de Greciely Cristina Da Costa pela Unicamp (2014)
>>> Odisseia Em Quadrinhos de Silvana Salerno pela Ftd (2022)
>>> Passaro Amarelo de Olga de Dios pela Boitatá (2016)
>>> Implantação De Inovações Curriculares Na Escola: A Perspectiva Da Gestão de Esther Carvalho pela Cla (2019)
>>> Metodologia OPEE: 20 Anos Inspirando Projetos de Vida de Leo Fraiman pela Ftd (2023)
>>> A Mala Maluca de Donaldo Buchweitz pela Ciranda Cultural (2021)
>>> O Sangue Do Olimpo: Os Herois Do Olimpo de Rick Riordan pela Intrínseca (2014)
>>> O Sonho Transdisciplinar E As Razões Da Filosofia de Hilton Japiassu pela Imago (2006)
>>> A Importância De Ser Prudente, Um Marido Ideal E Outras Peças de Oscar Wilde pela Veríssimo (2024)
>>> O Sucesso Jamais Será Perdoado - A Autobiografia Do Barão De Mauá de Irineu Evangelista De Souza pela Avis Rara (2024)
COLUNAS

Segunda-feira, 29/3/2004
O Paulinho da Viola de Meu Tempo é Hoje
Alexandre Petillo
+ de 8000 Acessos
+ 4 Comentário(s)

Você escuta um estalo. Algo quebrou dentro do peito. Na tela grande, um close na boca gigantesca. A voz é conhecida, a música ainda mais. Marisa Monte entoa "Carinhoso", de Pixinguinha. Sim, é aquela, "meu coração/não sei por que...". É batida, já tocou milhares de vezes, mas não dá para evitar o nó na garganta e a taquicardia. A câmera só mostra a boca de Marisa durante quase toda a canção. Os olhos marejam. A voz de Marisa e o violão de Paulinho da Viola. Só.

E isso acontece lá pelo meio do filme. O coração já tinha ameaçado deixar o peito algumas vezes, mas você não está preparado. Nunca está. Meu Tempo é Hoje, documentário sobre a carreira e o cotidiano de Paulinho da Viola. É a intimidade de um astro tímido, as idiossincrasias de um gênio. É um dos mais belos filmes brasileiros já vistos e certamente o melhor filme de música produzido no Brasil.

Dirigido magistralmente por Izabel Jaguaribe - com roteiro e entrevistas de Zuenir Ventura - Meu Tempo é Hoje é poesia a cada polegada da película. Revela manias, joga sinuca, constrói alguma coisa em sua marcenaria, compra um livro raro. Coisas simples, prosaicas, mas que se transformam em poesia nas mãos de um homem que só sabe fazer bonito.

Paulinho atravessa a rua e entra em uma livraria. Lá, contente, recebe do livreiro o encomendado: o título do livro, "Saudade Brasileira". Paulinho se queixa: ele não sente saudade. Saudade e os efeitos do tempo são assuntos recorrentes no filme - assim como na obra musical de seu protagonista.

As teorias de Paulinho reinventam o tempo. Ele não sente saudades porque não vive no passado, mas sim o passado vive nele. "Meu tempo é hoje, vivo o agora", insiste Paulinho o tempo todo. Antes de tudo, é uma ode ao momento presente, à capacidade e à vontade que se deve ter em aprender a moldar, utilizar, viver o dia que se apresenta. Mas como seu chorinho, o filme de Paulinho não é melancólico. Passeia pela tristeza, pela alegria. É o mesmo homem que compôs "Sinal Fechado" e "Foi Um Rio Que Passou Em Minha Vida".

A leveza e a suave presença de Paulinho nos levam a um passeio pelo Rio, por histórias do samba, por telas maravilhosas de nossa música. Desse modo, transitamos da Barra da Tijuca ao bairro de Oswaldo Cruz. Passamos, de uma sessão refinada entre Marisa Monte e Raphael Rabello, para uma tarde rasgada, em Xerém, com Zeca Pagodinho, passando por uma peixada com samba com a Velha Guarda da Portela.

Os momentos, inclusive, que Paulinho passa com a Velha Guarda da Portela estão entre os mais emocionantes. Gênios da história da música popular brasileira, como Monarco, Argemiro do Patrocínio, Jair do Cavaquinho, entre outros, prestam reverência a Paulinho. Ele chega como um líder, como o escolhido. Mesmo sendo muito mais jovem, Paulinho é tratado como mestre entre os mestres. Quando cantam juntos, é de arrepiar. Monarco, inclusive, tem algumas das tiradas mais divertidas do filme, como quando explica que o samba afastou o amor da sua vida ("trabalhava na feira, depois ia beber e tocar, chegava em casa todos os dias depois das dez. Ela não aguentou") e da falta que faz a mulher no batuque ("samba sem mulher não tem graça. Vira só um bando de negão cantando").

Passam ainda pela tela, Sérgio Cabral, Marina Lima, Elton Medeiros, entre outros. Elton Medeiros faz milagres com uma caixinha de fósforo. Toca muito mais do que muitas bandas completas juntas. Meu Tempo é Hoje também relembra, em imagens preciosas, Pixinguinha, Cartola, Noel Rosa e Jacob do Bandolim.

A notória timidez de Paulinho é pouco notada. À vontade, ele nos apresenta a seus amigos de sinuca, a sua família. Fala de seus carros antigos que, ele mesmo, há de reformar. A pequena marcenaria é o xodó. A intimidade é tanta, que em alguns momentos você esquece que está no cinema e chega a se sentir na sala de estar de Paulinho. Você precisa se conter para não levantar a voz e fazer algum pergunta pra ele. É como se ele estivesse na sua frente. E está. Um exemplo vivo disso acontece quando, no aniversário de Paulinho, mulher e filhos estão sentados na sala, revelando manias esquisitas do homem. Como a vontade inesgotável de consertar tudo que encontra pela frente. É o gênio com jeito de homem comum.

A direção primorosa de Izabel comove. Ela capta as emoções instantâneas, os planos mais profundos. Mostra as cores do samba, as cores do Rio de Janeiro. O azul da Portela, o terno branco em silenciosa contraposição. Não há espaços vazios no filme.

"Só no cinema", como diz Zeca Pagodinho durante um samba na sua casa, em Xerém. Só no cinema. Cinema. Pelas mãos geniais de Paulinho da Viola, pela suavidade de seu ser, pela música espetacular, pela câmera de Izabel, Meu Tempo é Hoje é cinema, como não se vê há tempos. É cinema de verdade. Te faz sentir saudades, mesmo que Paulinho da Viola não aprove isso.

O melhor filme de música já feito em terras brasileiras.

Nota do Editor
Texto originalmente publicado no recém-inaugurado site Laboratório Pop. (Reproduzido aqui com a devida autorização do autor.)

Para ir além






Alexandre Petillo
São Paulo, 29/3/2004

Mais Alexandre Petillo
* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
6/4/2004
09h35min
Parabens Alexandre, ótimo texto. Assisti o filme e realmente, na minha opinião, é "o melhor filme de música já feito em terras brasileiras".
[Leia outros Comentários de Anita Schwarzwalder]
7/4/2004
19h27min
Realmente é um dos melhores filmes que assisti nos últimos anos. Ainda não entendi pq não foi lançado em DVD, pois é certamente um filme para se ter em casa.
[Leia outros Comentários de Felipe Addor]
28/4/2004
09h56min
Adorei o filme e a sua matéria. E realmente concordo que deveria ter saído em DVD, gostaria de mostrar aos meus amigos e parentes toda essa maravilha que é o Paulinho da Viola.
[Leia outros Comentários de Lucimara Bispo]
14/5/2004
10h49min
Ainda não assisti o filme, mas depois de ler o texto do Petillo me identifiquei ainda mais com o estilo "Paulinho da Viola" e agora vou assistir e indicar a todos meus amigos. Parabéns pela matéria!!!
[Leia outros Comentários de André Luiz]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Psia
Arnaldo Antunes
Iluminuras
(2013)



The Mathematics of Financial Derivatives
Paul Wilmott e Outros
Cambridge University Press
(1995)



Meditations For Busy People
Stephen Bowkett
Thorsons
(1996)



Elucidações Psicológicas Luz Do Espiritismo + Luz nas Trevas
Divaldo Franco; Joanna de Ângelis
Leal
(2018)



Venha o Teu Reino
Sociedade Torre de Vigia
Sociedade Torre de Vigia
(1981)



A Sala de Âmbar
Catherine Scott-clark; Adrian Levy
Record
(2006)



Revista Auto Esporte n 231
Editora Fc
Fc
(1983)



Não há mais tempo 415
Agnaldo Paviani
Sem



Crimes Passionais e Outros Temas
Sergio Nogueira Ribeiro
Mandarino



As Mil e uma Noites
Paulo Sérgio de Vasconcelos
Sol





busca | avançada
74889 visitas/dia
2,4 milhões/mês