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Quinta-feira, 30/12/2010
A clepsidra e os livros de areia
Daniela Kahn

O final de ano se aproxima. E esta é uma época em que o fluir do tempo se torna mais presente.

Isso me faz lembrar o relógio de areia, que torna a sua passagem próxima e palpável. Constituído por dois cones unidos pelo ápice, a clepsidra permite que visualizemos a migração continua dos grãos de areia do funil superior para o inferior. Quando este último está repleto a posição do dispositivo é invertida e inicia-se nova contagem.

Em 1975 Jorge Luis Borges publicou um volume de contos denominado O livro de areia. O conto título trata de um misterioso livro, cujas páginas proliferam desordenadamente, jamais repetindo o mesmo conteúdo. Ele é conhecido como o Livro de Areia, porque, como esta, é infinito. Depois de adquirir a obra, o protagonista do conto torna-se prisioneiro do fascínio algo sinistro de suas páginas mutantes. Até que um dia, num gesto de libertação, o descarta num canto esquecido da Biblioteca Nacional de Buenos Aires.

Borges faleceu em 1986, quando a internet começava a se internacionalizar. Provavelmente não chegou a saber que seu livro imaginário abandonara o seu obscuro esconderijo para invadir o quotidiano das pessoas do mundo inteiro. Em sua nova versão digital, a capacidade de sedução do livro se multiplicou pela imensa quantidade dos leitores que diariamente sucumbiam e ainda sucumbem a ela.

Quanto a suas faculdades ocultas, essas se tornaram mais evidentes e mais poderosas do que antes, como provam, entre tantos outros, os incidentes recentes protagonizados pelo polêmico site WikiLeaks. A diferença é que a fantasmagoria agora é tecnológica. Os seus agentes secretos invisíveis são os hackers; suas armas de combate os vírus e os cavalos de tróia; seus dossiês confidenciais os cadastros completos sobre cada um de nós. Talvez o mais assustador de seus poderes seja o de devassar redutos antes inexpugnáveis, abolindo privacidades, rompendo lacres de segurança, expondo a todos e a tudo, desde o mais humilde cidadão de alguma aldeia esquecida até a maior potência internacional.

A internet é o arauto e a mídia preferencial de um mundo em vertiginosa transformação. Como se sabe, ela eliminou fronteiras, agilizou e democratizou a distribuição de conteúdos, multiplicou formatos, pluralizou modos de comunicação e interação, padronizou meios de expressão, criou, enfim, modernos estilos de vida e novos modos de convivência. Com relação a estes últimos, o seu espaço se converteu no imenso quintal da vizinhança (evoco aqui outro conto precursor, o belo "O pátio da vizinhança", de Miguel Delibes) onde cada um mitiga a sua solidão.

À sua imensa capacidade de expansão e mobilidade se contrapõe a natureza epidérmica e volátil dos seus conteúdos. Se antes o jornal de hoje embrulhava o peixe de amanhã, nos tempos atuais as notícias se atropelam.

Voltada intensamente para o aqui e agora, a rede traduz a fragilidade do viver contemporâneo. O homem atual é, antes de tudo, um equilibrista que busca sobreviver dentro da precariedade de um presente que se alimenta sofregamente dos entulhos de um passado mal resolvido.

Neste século, que ainda engatinha, tudo, absolutamente tudo, é reciclável. A sua alma é o espetáculo e, seu porta voz, a publicidade. Sua resistência está paradoxalmente na celebração rumorosa da sua própria fugacidade. A ele não mais interessa a vida (e nem a morte) como ela é, apenas enquanto conteúdo do show da mídia que não pode parar.

Nesse contexto, em que todas as delimitações convencionais estão borradas e em que a distância entre o real e sua representação se encurtou perigosamente, cabe a pergunta: qual é o espaço reservado à obra de arte? E, dentro dele, ao livro e à literatura (que, afinal das contas, são o ponto de partida dessa reflexão)? Num mundo em que, seguindo o modelo da internet e do velho Livro de Areia, tudo tende ao efêmero, quais são os critérios de valor que ultrapassam os quinze minutos de fama proporcionados pelos meios de comunicação social?

É bom lembrar que cada obra de arte autêntica, não só a literária, é uma síntese visceral da época e da sociedade que a produziu. Dessa forma, ela traduz a sua contemporaneidade em profundidade não só aos que participam dela, mas, principalmente, à posteridade. Mais que isso, ela atrai apreciadores de épocas distintas, estabelece diálogos com outras obras e diferentes linguagens, constituindo-se eventualmente numa referência para as gerações vindouras.

Nesse sentido, por menos oportuno que seja falar em permanência numa época tão instável, um dos parâmetros para avaliar a perenidade de um livro seria o critério irônico do próprio Borges: uma obra literária aspirante à imortalidade teria que sobreviver ao seu autor, por, pelo menos, 50 anos.

Enquanto 2010 se despede de nós, gostaria de encerrar esse texto fazendo uma referência àquele outro livro que cada um de nós escreve involuntariamente e ao qual cada dia que vivemos se incorpora como uma nova página: o livro das nossas vidas.

Mais uma vez invoco Borges, que via não apenas nos livros, mas, sobretudo, nos leitores, uma fonte de infinitas transformações.

Somos todos atores e decodificadores do mundo que nos cerca e autores dos nossos próprios livros de areia. Na medida em que a nossa vida avança, nossa leitura do universo não só se torna mais depurada, como também reinterpretamos as nossas próprias vivências. Nisso somos auxiliados por um editor bastante infiel, ainda que decisivo: trata-se da nossa memória, que formata, do seu modo, os "textos" que compõem a nossa experiência diária, registrando, alterando, deletando, agregando, condensando, corrigindo, deformando e, ás vezes, até mesmo copiando conteúdos de fontes alheias.

Mas, questões de edição à parte, desejo que, no escoar dos últimos momentos de 2010, todos tenhamos um ano novo repleto de momentos enriquecedores que acrescentem belas páginas ao livro da vida de cada um de nós.

Daniela Kahn
São Paulo, 30/12/2010

 

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