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Terça-feira, 5/4/2011
Hiperbóreo nos trópicos: a poesia de Oleg Almeida
Jardel Dias Cavalcanti

"Seule une succession d´images peut nous en restituer la vie."
Alberto Cavalcanti (1926)

O poeta Oleg Andréev Almeida nasceu na antiga União Soviética (Bielorrússia) em 1971. Adotou o Brasil em 2005, morando em Brasília desde que chegou ao nosso país, onde trabalha como tradutor do vernáculo russo. Tem traduzido literatos como Baudelaire (Pequenos Poemas em Prosa, editado pela Martin Claret), Turguêniev, Górki, Kuzmin, Khlébnikov, Pierre Lou˙s. Oleg tem um site, para quem quiser aprofundar a relação com seu trabalho de tradução.

Memórias dum Hiperbóreo, lançado pela editora 7Letras, pesa pela sua insone memória. Desde a pergunta filosófica básica "quem sou eu?", primeiro verso do livro, até a consciência de sua natureza de desconhecido, estrangeiro, estranho (não porque se deslocou de uma pátria para outra, mas por ser poeta), o livro refaz percursos existenciais, temporais, geográficos e míticos, agora transmutados para o reino da palavra poética.

De acordo com a tradição da mitologia grega, os Hiperbóreos eram um povo mítico vivendo no extremo norte da Grécia. Hiperbórea seria uma região, uma das muitas terrae incognitae nos mundos grego e romano antigos, onde Plínio e Heródoto, bem como Virgílio e Cícero, relataram ser uma espécie de lugar utópico, onde as pessoas atingiam idades de mil anos e gozavam de vidas permeadas de completa felicidade. No sentido moderno, o termo "hiperbóreo" é usado para indicar qualquer um que viva em clima frio. As duas coisas se aplicam ao poeta bielorrusso, descendente das terras geladas e escritor dos mundos imaginários.

Mistura de lugar ideal, onde se conjugam passado e presente, história e mito, e ancoradouro de uma possível identidade, a poesia de Oleg refaz lembranças como quem as observa em estado de atenção e de crença de que ela pode ser apenas a possibilidade para se erigir uma fantasia poética (este "país extraordinário, dado a brincadeiras e cheio de desespero?").

Reunindo o vazio contemporâneo de um "quarto semivazio" às "cores do meu passado", Oleg alinhava no presente mitologias novas e velhas. Decepções com o tempo azul, magia infantil que rápido passou, as incostâncias do coração sonhador no verde juvenil, o amarelo árido do adulto, o desgaste dos sonhos em vermelho/ferrugem e, finalmente, as negras sombras do inesperado/inusitado dark side da existência. O que lhe resta no fim da jornada é apenas o "branco da solitude, do tédio e do deserto". As memórias são todas passadas a limpo no estrondoso capítulo V do livro, cujas imagens são impressionantes.

Sentenciosa, a poesia de Oleg fala dos degredos, das insanas atitudes humanas e da terribilidade do tempo: "não há quem aos males do tempo seja imune".

Mas também sua poesia erotiza as lembranças, carregando-as de um veludo baudelairiano: "sedutora nos mínimos movimentos,/ um minuto apenas esteve ao meu alçance;/ com uma tânagra impecável se parecia/ o corpo trigueiro dela,/ e os cabelos soltos e cacheados/ cheiravam a menta". Espécie de puta, também, baudelairiana, da qual não se pode escapar nem da lembrança: "só enxergo seu rosto/ no fundo do tempos irreversíveis".

Mergulhado na "senda da perdição", sua memória restitui o tempo da fraqueza da carne, o desejo onipotente: "o desejo/ torna ridícula a maior parte dos homens,/ por mais sabidos que eles se considerem:/ não há remédio!". Entregue à imperativa força da paixão carnal "pelos feitiços de Circe/ os mares crespos se atravessam!", pois, diz o poeta "sempre nos ludibria a carne inquieta/ não há remédio!".

Farrapos que sejam essas lembranças de um hiperbóreo, que morta estivesse a felicidade, a vida se restitui na palavra inventiva do poeta.

A "morte do meu velho" não parou o mundo, conscientiza-se o poeta, mas criou o encontro, como diz Chico Buarque numa canção, "no tempo da delicadeza". E ao restituir a natureza distraída com essa morte, acorda para o leitor aquilo que é indiferença para aquele que partiu. E toda a história de um afeto deságua nas páginas dessa poesia, mais que desolação, sensação de um tempo reencontrado no passado do inconsciente, do afeto reservado: "Lembras como fazias barquinhos de casca arbórea/ e velas, de folhas caídas ou pedacinhos de pano?(...) Lembras, meu velho,/ como me lias Homero em voz solene,/ sentado num tamborete...?".

Nômade, o poeta separava-se de todos e de tudo: em busca de uma ensolarada terrae incognitae? Viajante geográfico e da imaginação guarda sua terra e o temps perdu nas palavras que escreverá no futuro como poeta: "Adeus, minha pátria bela:/ cidade, onde passei a infância feliz/ e da áurea juventude colhi as primícias;/ casa em que moraram/ três gerações da minha família;/ pedras e árvores/ de que nem no leito de morte me esquecerei."

Uma riqueza deixada no passado do tempo do alto saber, hoje história esquecida, deixada nas mãos dos poucos aficcionados, que importância tem? Não faz outra coisa que isolar mais ainda o poeta na autoconsciência do vazio do mundo presente: "Quem se interessa pela beleza da minha cidade extinta,/ pela sabedoria da velha Atenas/ pelo rigor espartano,/ pelas inúmeras faces da Grécia-mãe milenária?/ Uma dezena, no máximo, de pessoas bem educadas./ Quem dá valor às estátuas dos sumos mestres,/ as obras dos verdadeiros poetas quem aprecia?/ Tanto o barbeiro quanto teu áulico me perguntam, por via de regra,/ se as mulheres daqui superam as forasteiras em safadeza".

A ilha do sonho, a ilha de Circe, perdendo seu ideal romântico de paraíso imaginário, vê-se substituída na descrição da poesia de Oleg por um mundo mecânico, onde o tempo encurta-se em "prosaica luxúria precipitada". Só lhe resta dizer: "Sinto-me oco...", ressoando a poesia de Waste Land de T.S. Eliot.

Dessa vacuidade espera-se o silêncio, mas o poeta se cala melhor construindo seus versos, sua elegia, que, por pouco que seja "uma gota de tinta lilás que balança na ponta da pena", não deixa de ser, como toda poesia deseja ser, um pequeno lugar que "contém em si toda a sabedoria do mundo", como diz o verso de Oleg .

Para ir além





Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 5/4/2011

 

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