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Quarta-feira, 23/11/2011
Mini-cartografia do prazer gastronômico paulistano
Adriana Baggio

É dia de passeio à pé pelo centro de São Paulo. Pego o trem na Barra Funda e vou até a Estação da Luz. Os paulistanos que eu conheço não gostam muito do trem. Ele é feinho mesmo, na hora do rush deve ser insuportável - nessa hora, tudo é. Sábado pela manhã é tranquilo. O caminho é curto, mesmo sacolejando devagar ele chega rapidinho. Passa por trás de prédios degradados e cortiços. Protegido por muros, o espaço dos trilhos é quase um oásis. Faz silêncio, chega a ter flor e jardim nos arredores da estação.

Da Luz, sigo até a Galeria do Rock e percorro todos os pisos. Depois, passo pelo Teatro Municipal. Dali, para o Museu de Anchieta no Pateo do Colégio. A ideia é almoçar na Liberdade, então viro em direção à Sé. Faz calor, estou cansada e com fome. Os pés doem. A praça tem uma ligeira inclinação, que parece mais acentuada naquelas condições. Já passei algumas vezes por ali e nunca entrei na Catedral. Ela vai se aproximando, imponente. Penso que deveria visitá-la, mas a fome aperta. Contorno a igreja e sou invadida por ela: de uma porta lateral vem o ar fresco e o cheiro bom de incenso. Os vitrais estão lindos, coloridos pela luz de início de tarde. Como toda boa católica, mesmo que desgarrada do rebanho, sinto culpa. "Estou cansada para visitar a igreja, mas não para comer". Antecipo as iguarias orientais que me esperam, ainda mais apetitosas quando o estômago está vazio, e me pergunto se a comida também não é um alimento para o espírito.

Claro que a igreja ficou para outro dia, mas a desculpa não foi tão esfarrapada assim. De fato, acredito que a comida alimenta o espírito. Não no sentido religioso, mas pelas sensações que provoca. Vai além do sabor. Tem a ver com a cultura, com o ambiente, com as pessoas, com a surpresa de conhecer algo novo. É como a gente estuda na semiótica de Greimas e Landowski: a inteligência do sensível. E tem uns lugares de São Paulo que fazem eu me sentir assim: extasiada, feliz, sabendo um pouco mais do mundo e de mim mesma.

Vou compartilhar minhas dicas e alguns podem se decepcionar por não ter nada caro ou sofisticado. Meu roteiro está mais para Baixa Gastronomia (veja aqui a de Curitiba, é excelente) do que para Michelin. Não que eu renegue os restaurantes estrelados: estou sempre à disposição para experimentá-los, apesar da falta de dinheiro tempo.

A primeira iguaria é relativamente comum no centro das grandes cidades. É algo que passei anos sonhando em comer, mas nunca dava certo. Não sei se língua tem imaginação, ou se podemos sentir o gosto de algo que nunca provamos, mas já havia provado essa comida milhares de vezes em pensamento. Trata-se daquele pouco confiável churrasco de grego, que fica girando tentadoramente em um espeto vertical. Fatias e mais fatias de carne (e sabe Deus o que além disso) formam uma grande pilha. O churrasqueiro passa a faca bem afiada, tirando lascas que caem em um pãozinho francês. No Presença Grego, logo na saída da Estação da Luz (assim como em outros naquela rua), o sanduíche custa dois dinheiros e dá direito a refresco - um tang genérico e meio aguado - à vontade.

Churrasco grego, delícia trash!

Sabores exóticos para surpreender nosso paladar ocidental é o que não falta na Liberdade. Minha escolha ali, porém, é o Itidai, um restaurante japonês simplezinho, com tanque de carpas na entrada. O cardápio oferece uma espécie de prato executivo onde os acompanhamentos são fixos e a gente escolhe o principal. A parte mais bacana é justamente essa guarnição: tirando o missô (com conchinhas que deixam o uso do hashi muito mais emocionante) e o arroz, o resto é uma surpresa. Nunca sabemos qual será a entrada do dia, quais as verduras que virão em conserva. Adoro isso de ter uma parte de inesperado em uma refeição conhecida.

No Itidai, o lance é ir no meio da semana: além de ser mais tranquilo, um prato que custa R$ 18,50 de segunda a sexta passa para R$ 30,00 no sábado e domingo. Na volta, no caminho para o metrô, vale uma passadinha nos mercadinhos da Liberdade para comprar cogumelo bem barato, guiozas (R$ 5,20 a bandeja com 12 - as de vegetais são minhas preferidas), biscoitos de gergelim e todo tipo de comida esquisita que vendem por lá.

A próxima parada é para a sobremesa, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. Estar ali já é uma experiência incrível e ir ao café é essencial para curtir verdadeiramente a atmosfera. Primeiro desafio: conseguir lugar. Segundo: laçar uma garçonete para fazer o pedido. Depois disso, é só alegria. Em meio a coisas meio caras e porções não muito generosas, algo se salva com louvor: o sorvete. Um bola, com calda e cobertura à sua escolha, sai uns R$ 4,80. A combinação que me faz ver estrelas é o sorvete de creme com calda de frutas vermelhas e cobertura de chantilly. A primeira vez que pedi achei que era uma calda dessas de garrafa plástica. Mas nããão: é de frutas mesmo, uma delícia.

Na mesma região, para almoçar bem e se fartar, tem o BH. Quartas e sábados é dia de feijoada. E terças e sextas na janta também! - nada se perde, tudo se aproveita. Esse boteco na Augusta é apertadinho, o pessoal se espreme nas mesinhas ou no balcão. O balcão reserva uma atração especial: enormes pernis de pele tostada e dourada, ao lado da versão deles já desfiada e temperada para fazer sanduíche. É lindo de ver. No domingo tem pratos estilo casa da mamma, como carne assada com nhoque. Uma nota de 20 paga tudo, duas pessoas comem muito bem e ainda sobra troco.

Para finalizar, uma dica meio óbvia, porque já saiu em jornal, em revista e até na TV: o afamado Mocotó, na Vila Guilherme, zona norte da cidade. Uma das coisas bacanas dele é que é longe. Ok, tudo em São Paulo é longe, mas esse ganha. Tenho pra mim que seria menos badalado não fosse a onipresença do GPS. No caminho passamos por uma São Paulo diferente, de mais casas e menos prédios. Em volta, nada de restaurantes chiques e badalados. Outros como ele, no entanto, começam a surgir.

O Mocotó serve comida nordestina, um pouco estilizada e bastante caprichada. Você olha o cardápio e vê que os pratos não são caros. Mas como tem fila de espera, pede um petisco - dadinho de tapioca e queijo coalho! - e uma caipirinha de fruta - essa é bem cara. Na mesa, se empolga com as delícias e quer experimentar de tudo. E dá-lhe cerveja para regar o bate-papo. No final da refeição, de tão feliz e satisfeita, a gente nem liga pro tamanho da conta e paga com satisfação.

Depois de tudo isso, fico me perguntando como as pessoas conseguem fazer dieta. A não ser em caso de real necessidade, diria que a desfeita aos prazeres da mesa é que é um verdadeiro pecado.


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*Mapa com os locais mencionados. Em azul, os pontos do passeio à pé. Em vermelho, os lugares que servem as iguarias.

Adriana Baggio
São Paulo, 23/11/2011

 

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