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Quinta-feira, 18/1/2018
Os Doze Trabalhos de Mónika. 9. Um Cacho de Banana
Heloisa Pait

Leia a primeira aventura de Mónika, À Beira do Abismo.

A noite já caia no campus. Mónika desligou as luzes de sua sala de trabalho e percebeu assustada que lá fora estava um breu. Subiu as escadas do prédio de professores tateando as paredes e deu com um guarda acendendo as luzes do saguão.

– Que está acontecendo?

– Estou sozinho, atrasei para ligar todas as luzes.

– Sozinho por quê?

– Cortaram pessoal, eram 4, agora só 2 para o campus todo.

Ainda tinha que comprar um suco de laranja lá na cantina, antes de entrar em aula. Não tinha tendência à hipoglicemia, mas nessas aulas da noite batia um cansaço lá pelas 10 horas. Um aluno a abordou:

– Professora, eu já estava indo para a aula.

– Vou comprar um suco de laranja, já vou lá.

– Posso acompanhar a senhora?

– Claro. – Mónika preferia ir sozinha.

O aluno contava do trabalho que queria fazer para o curso. Queria investigar o estigma das pessoas canhotas.

– Mas há estigma mesmo, meu jovem?

– Ô professora. Se há. Tenho amigos canhotos que posso entrevistar.

Para Mônika, qualquer trabalho era válido. Contanto que emergisse de alguma inquietação profunda, algo incômodo mesmo. Dizia aos alunos: “Se algo der tipo uma coceira mental muito intensa em vocês, é por aí.” Essa era sua visão do saber. Sugeriu algumas leituras, observou o olhar confuso do aluno, reforçou à atendente que o suco era natural.

– Professora, se a senhora quiser, eu tenho bananas ali na ocupação. A senhora sabe, aquela sala ali – e ele apontou para uma sala iluminada no segundo andar – a gente está morando.

Mónika caiu na risada. Já tinha ouvido falar da ocupação, e visto de longe as toalhas estendidas. Mas, de alguma maneira, não ligava isso com alunos reais que viam suas aulas. O entorno havia se tornado para ela uma espécie de zona proibida, desconectada do resto do campus.

– Por que você riu, professora? – o aluno a censurou.

– Não sei. Porque é engraçado morar no campus. – Quis retornar ao papel professoral. – Você está lá por precisão ou por protesto?

– Pelos dois.

– Mas como é viver no campus? Dá pra ter uma vida normal?

O aluno se refez da risada.

– O que é uma vida normal?

Mónika foi pega de surpresa pela pergunta sagaz do aluno. Respondeu com o óbvio.

– Dá pra ir nas aulas, estudar?

– Na sala ao lado, está vendo?, tem uma sala de estudos. Numa, dormimos. Na outra, estudamos.

Fazia sentido. Numa, dormiam. Na outra estudavam. Mónika sentiu uma espécie de inveja. De vontade de ser parte do movimento. De ocupar alguma coisa, um lugar, uma sala, um espaço, um papel. O aluno parecia sentir seu interesse.

– Vamos lá em cima, eu pego as bananas?

– Não, obrigada, estou bem com o suco.

– Professora, eu preciso perguntar para o movimento, mas eu gostaria que a senhora desse a aula de hoje na ocupação.

Mónika coçou a cabeça. Detestava a ocupação. Aquilo subvertia tudo o que ela acreditava sobre a escola, aquilo privatizava a esfera pública, rompia com qualquer possibilidade de ação comum.

– Mas e a turma, esperando na sala?

– A gente avisa. Pode deixar.

Subiram. Aos poucos, os alunos chegavam, os de sua sala e os da ocupação. Acomodavam-se em cadeiras espalhadas pela sala. Mónika estava em silêncio. Daria uma palestra sobre a emergência do privado. A importância da esfera íntima. O colapso contemporâneo da intimidade. Quem quisesse, que entendesse o recado. Estava irritada e iria se vingar. Tudo estava errado. Sua fala consertaria o mundo. Os alunos pareciam, também, se preparar para uma guerra, um confronto. Só que dessa vez estavam em seu ambiente, na sala ocupada de estudos. Por que mesmo precisavam ocupar uma sala para estudar? Não era uma escola? Ocupavam. Era estranho, mas a sala parecia mais cheia que normalmente. Mais atenta.

– Sentem-se no chão – Mónika ordenou. Mas a fala saiu mais doce que o desejado, quase como um apelo açucarado.

– Professora!

– Sim?

– Na sala de dormir temos colchões e colchonetes. Podemos trazer?

– Sim.

Ela ficou aliviada com o pedido. Parecia mostrar uma deferência já esgarçada nas aulas normais.

Os alunos da ocupação saíram e voltaram carregando colchões, que espalharam pelo chão. Compartilhavam com os colegas da aula. O aluno que estudaria os canhotos ofereceu seu colchão para Mónika, que agradeceu polidamente e disse que se precisasse sentaria nele.

– Respirem fundo umas três vezes – Mónika ordenou, sentada no chão duro, com a fala novamente involuntariamente doce. – E dêem as mãos uns para os outros.

Não sabia direito o que fazer, não havia preparado nada. Um leve cheiro de maconha parecia vir dos colchões. Pediu que fechassem os olhos e se imaginassem saindo da sala, do campus, da cidade à pé ou de moto. Que viajassem por horas até entrar em outra cidade, cada vez mais densa, com mais casas, lojas, escolas. Nessa cidade estranha se deparariam com um mercado muito grande, ao ar livre, com uma infinidade de barracas, cada qual enfeitada de um jeito e vendendo alguma coisa diferente.

Nas primeiras barracas, professores da escola primária, dando brinquedos, letras, números. Que mais? Como era tudo disposto? Que cara tinham os professores? Como eles alunos recebiam o que os professores tinham para dar? Nas barracas seguintes, professores do ginásio, primos, irmãos mais velhos, sempre dando coisas, sensações, novidades, aprendizados. Pedia que notassem como os outros se aproximavam das barracas, o que pediam, o que obtinham. Como se vestiam todos, como estava o céu, que temperatura fazia. Se havia música ou silêncio.

Mónika dirigia a imaginação dos alunos, pensava consigo mesma que poderes tinha, que deuses invocava, que cordas tocava com aquelas palavras a esmo na sala de estudos da ocupação. A voz tremeu. Manteve a doçura, mas parecia tremer como se ouvisse um hino lamentoso. Tinha que tirá-los dali antes que ela perdesse a capacidade de voltar. Pois voltar era sempre preciso.

Agora eles viam uma última barraca, lá longe, e andavam firmes em direção a ela, onde havia um sujeito um pouco mais velho, que lhes pedia para cuidar da barraca um tempo, até que voltasse. Os alunos tomavam a barraca, mudavam os enfeites, guardavam algumas coisas e colocam outras à vista. O que agora ofereciam? O que serviam, o que ensinavam? Que técnicas, que malabarismos?

A feira se esvaziava, os barraqueiros se iam, a tarde chegava, o silêncio baixava. Eles também desmontavam suas barracas, voltavam à cidade, ao campus, à sala ocupada, abriam os olhos devagar e, enfim, estavam ali. Sãos e salvos, ela respirou aliviada. Todos entregues, exatamente no lugar de onde haviam partido. Sem uma escoriação. Olhou para cada um, conhecidos e desconhecidos, quis chorar mas não era o momento. Um aluno perguntou à queima-roupa:

– Professora, como a senhora vê a ocupação dos estudantes?

– A ocupação – ela falou – é a transposição para o plano real de tensões existentes na universidade, que se dão em vários eixos: o público-privado, o real e o imaginário, o pertencimento e a exclusão, o saber e a recusa em conhecer. Essa é a ocupação.

Aplaudiram. Não era comum, isso. Mas às vezes Mónika era aplaudida. Conversaram sobre os trabalhos do curso. Busquem, ela repetia, algo que dê coceira. A pesquisa acadêmica é como uma boa bucha de banho, algo que resolve momentaneamente essa coceira mental. A aula se alongava, perdia o foco. Mónika agradecia a acolhida, levantava com dificuldade. Os alunos da ocupação a convidaram para conhecer a sala-dormitório, e fumar unzinho.

Mónika era, obviamente, contra o uso de drogas no campus. Mas fazia tanto tempo que não fumava. Na juventude, detestava. A risada solta e sem motivo, a sensação de lentidão na fala, não gostava mesmo. Mas como seria agora, já adulta? Então sentou-se com os jovens e deu duas tragadas. O efeito foi fulminante. As aulas seguidas, o esforço físico, o efeito era mesmo distinto. Pediu mais bananas. Acomodou-se na parede. Depois foi escorregando para o lado. Puxou alguns livros para perto de si, e apoiou a cabeça neles. Dormiu, finalmente, depois de um dia intenso de trabalho, na ocupação dos estudantes.

Está no ar a décima aventura de Mónika, O Gerador de Luz.

Esta é uma obra de ficção; qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência

Heloisa Pait
São Paulo, 18/1/2018

 

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