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Terça-feira, 22/11/2022
Home sweet... O retorno, de Dulce Maria Cardoso
Renato Alessandro dos Santos

Ninguém mais parece tão interessado em ler romances. Ninguém? É impressão, decerto, apesar do tempo desperdiçado nas telas do Whatsapp, do Facebook ou de plataformas digitais aonde têm escoado nossa parcela de leitura diária.

Diante disso, há horas em que parece mesmo não fazer o sentido que antes fazia ao engatar mais um romance às costas, como aquelas figuras de gibis com uma vareta sobre o ombro e, na ponta dela, algum mantimento. Esse mantimento seriam os romances, acrescidos ali, sucessivamente, como iguaria para desanuviar a cabeça dos problemas do dia – problemas do dia a dia que o Whatsapp, o Facebook e outras plataformas trazem.

Mas é óbvio que o romance não morreu, como vem sobrevivendo desde que, no início do século XVII, recebeu aquele upgrade feito por Cervantes, aquele rapaz da TI.

Àqueles que ainda leem romances, considerem este aqui: O retorno, de Dulce Maria Cardoso. São tempos difíceis para os personagens. O cordão umbilical de cinco séculos, que manteve Portugal alimentado pelas colônias africanas, foi, finalmente, rompido ― e os portugueses que foram para lá começaram a retornar à mãe-pátria (para desespero de quem regressa e de quem estava lá a fim de recebê-los).

No filme O mágico de Oz, de 1939, a menina Dorothy percebe que não existe lugar melhor do que a própria casa, e, a esses "retornados" do romance, a casa deles não é mais a Lusitânia, mas a Angola repleta de memórias deixadas para trás. Poderia ser outro país, como Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau, mas é Angola, mesma terra de Mayombe.

É um drama gigantesco, e os que por ele passam sabem bem a dor da separação. Eis o problema: a casa de portas abertas, invadida por pessoas cujos pés estão sobre o sofá. Que direito têm elas de agirem assim? Quem as convidou para dentro da casa? Por que elas têm de sair do lar delas, para tomar a casa dos outros?

Por trás de questões como essas, eis a colonização portuguesa (ou de qualquer outra procedência eurocêntrica).

Perguntas semelhantes foram feitas por quem viu-se expulso de casa. E, no romance, a ideia de casa como o lugar onde se vive o tempo alheio às coisas parece escapar entre os dedos.

É uma ideia pertinente, porque os retornados do romance (a família de Rui, o narrador, um adolescente) vivem em um hotel cinco estrelas, onde moram outros retornados também. As estrelinhas do lugar não devem confundir o leitor: nenhum dos retornados recebe tratamento VIP; pelo contrário, habitam - amontoados - os quartos, recebendo comida nem um pouco gourmet, roupas com alguns números acima etc.

A casa é aquele lugar onde nos refugiamos do mundo, ciosos apenas de – se quisermos – ficar olhando para a parede, sem ninguém por perto, perdidos em pensamentos soturnos, se assim for o desejo de alguém – desejo que aos retornados torna-se impossível, e é por aí que o romance ganha o leitor, porque - ao mostrar o quão difícil a supressão de algo tão simples (viver, deliberadamente, onde se vive) tem sobre as pessoas – a narrativa vai fazendo pensar em tudo isto: o ódio de quem se viu humilhado ou tratado de forma similar por europeus-loirinhos-de-olhos-azuis (o estereótipo da família de Rui); a malfadada conquista do além-mar por essas famílias que, lá, deixaram tudo, sem nada que pudessem fazer, ou seja, o que pensar ao fim de uma vida de tanta luta e esforço, quando a recompensa inexiste? Nenhum dinheiro no banco, nenhum fundo de garantia, nenhum bem capaz de matar a fome que a falta de dinheiro traz. Coisas assim são vividas pelas famílias dos retornados, e é triste vê-los passar por isso.

O núcleo familiar do romance não é o de pessoas maldosas, que em África causaram danos irreversíveis aos que lá viviam; elas são pessoas boas, e agem com o mínimo de respeito que se espera, mas não é dessa forma que pensam os que lá em Portugal, seus patrícios, vivem: para eles, os retornados foram ao continente africano “roubar dos pretos”, explorá-los e, agora, bem feito, eis o preço a ser pago pela ousadia.

Tudo tem dois pesos, duas medidas, e há mesmo aqueles que merecem o lado mais tóxico do inferno, com aquelas labaredas ardendo eternidade adentro ― mas esses personagens não mereciam passar por isso... Fica a experiência do outro, como parâmetro a nós, leitores, que, vivendo a vida dos outros em um romance, aprendemos alguma coisa com isso.

Tudo é aprendizado, e há muitos, especialmente, em relação à forma como se expressa a autora, Dulce Maria Cardoso, que, com esse romance, ganhou prêmios mundo afora. O uso que ela faz do discurso direto é um ponto a seu favor. Ecoando aquela maneira que Saramago tanto gostou de usar em seus romances, Dulce faz o mesmo com vírgulas que, como travessões, anunciam o discurso direto.

O futuro da literatura, decerto, encontrará outros exemplos como esses, porque é bem mais coerente, com a correria de nosso tempo, inserir a fala de uma personagem dessa forma. Pode haver dúvidas, claro, mas a recompensa chega, via a satisfação que leitores têm durante a leitura. Porém, sem atenção, confusões por causa desse recurso podem surgir, também ― mas nada que vá deixar a alma de Dulce pelejando no mesmo inferno onde tantos foram expiar, como os cidadãos ignóbeis sugeridos no parágrafo anterior.

Além desse recurso, Dulce também faz uso da polifonia: logo que os retornados chegam ao hotel, o leitor “ouve” o que tem a dizer a gerente do hotel, que assume o relato – falando a eles e, ao mesmo tempo, a nós, leitores – mostrando a governança do lugar, isto é, o que pode e o que não pode ser feito no hotel (nada de cozinhar dentro dos quartos, queimar os maples com beatas de cigarro, rasgar com estilete de cima até embaixo a tapeçaria gigante do lobby representando a primeira missa no Brasil).

Uma vantagem de “ouvir” a gerente do hotel, nessa passagem, é dar aos leitores uma ideia do que foi a acolhida dos retornados em Lisboa: é terrível, desumano e lamentável. Há também a utilização de gêneros textuais diversos. Como exemplo, em outro capítulo, o uso da carta como opção narrativa dá pontos a favor da estratégia: Rui escreve a seu tio militar, homossexual e rebelde, perguntando pelo pai, que, em Angola, ficou aprisionado por guerrilheiros; ler o que esse menino pede ao tio, e a confissão sincera que lhe faz – por conta de nunca ter entendido a homossexualidade do irmão de sua mãe – é tocante, sensível e bastante significativa.

Em tempos tão peculiares como o nosso, quando uma pandemia veio acelerar ainda mais a vida que já se levava digitalmente, ter um livro como esse em mãos é uma experiência reveladora e capaz de explicar a qualquer um porque o romance nunca vai deixar a literatura morrer, suplantada por outros meios de conhecimento que a internet é pródiga em oferecer.

Por sua vez, vale lembrar que a leitura em e-book deste livro está disponível, e ela – sem dúvida – vai ensinar mais do que horas e horas perdidas em telas como as do Whatsapp, do Facebook ou mesmo do Instagram. É uma forma de pensar e ver as coisas. Tomara que meus onze seguidores concordem comigo.

Nota do Editor
Leia também "A literatura de ficção morreu?".

Renato Alessandro dos Santos
Batatais, 22/11/2022

 

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