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Quarta-feira, 22/6/2011
Abraços Partidos, de Pedro Almodóvar

Julio Daio Borges




Digestivo nº 480 >>> Se Quentin Tarantino dá um passo maior que a perna como realizador, Pedro Almodóvar continua em sua trilha de obras-primas. Abraços Partidos, como A Má Educação, é um "filme dentro do filme". E Abraços Partidos, como Volver, é um acerto de contas com o passado, até então relegado ao esquecimento. Se Pedro Almodóvar inicialmente colecionava mulheres feias, como Rossy de Palma, depois apostava em mulheres loucas, como Victoria Abril, agora reconfirma sua musa ― também musa de Woody Allen ―, Penélope Cruz. Ao contrário da voluptuosidade da atriz em Volver, Almodóvar realça sua fragilidade, sua submissão, sua rebeldia e sua fatalidade. Personagem num acidente, que igualmente cega seu amante, Almodóvar talvez quisesse evocar, mais uma vez (sem querer), o nosso Nélson Rodrigues ― para quem "é impossível amar e ser feliz ao mesmo tempo"... Garota de programa que deseja pagar o tratamento de seu pai convalescente num hospital, Lena se submete aos caprichos de Martel, um cliente milionário ― que, além de custear tudo, acaba casando-se com ela. Dona de casa enfastiada anos depois, procura se realizar como atriz e conhece o diretor de cinema Mateo Blanco, por quem se apaixona. Martel, o marido, financia o longa de ambos, mas, desconfiado da traição, encomenda um making-of a seu filho, enquanto contrata uma "leitora labial" para reconstituir todos os diálogos da produção... Confrontada pelo traído, Lena foge com Mateo, para um idílio em Lanzarote, que termina em tragédia, num acidente automobilístico... O espectador médio de Pedro Almodóvar se espantou com o final dramático, que não tem válvula de escape. Não percebeu, talvez, que o realizador espanhol vem se fazendo cada vez mais grave, cada vez menos engraçado, e cada vez mais mestre de sua arte. Desde Carne Trêmula, na verdade, que Almodóvar vem, progressivamente, apostando na tragédia sem, necessariamente, redenção. Quem foi ao cinema para rir de um travesti desbocado, de uma velha senil ou de tiradas engraçadas proferidas em tom sóbrio, se decepcionou. Abraços Partidos só consegue ser divertido nos "extras" que, justamente, foram deixados "de fora" (para não contaminar a atmosfera do longa). A caracterização de Penelope Cruz como Audrey Hepburn, no "filme dentro do filme", a evocação do clima noir (ou neo-noir), ainda que as cores sejam "de Almodóvar", e a reconstituição de Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (novamente "o filme dentro do filme") são um prazer à parte. Como Tarantino, Almodóvar tem uma vastíssima cultura cinematográfica, mas, melhor que o diretor de Jackie Brown, sabe dialogar com a tradição da sétima arte, ora rendendo-lhe homenagens, ora plasmando estéticas, ora humilhando o que restou do cinema "adulto" contemporâneo. Almodóvar sabe que cabe a ele, e só a ele, levar a história do cinema europeu adiante. E cabe a nós, cinéfilos, apoiar sua empreitada.
>>> Los Abrazos Rotos
 
>>> Julio Daio Borges
Editor
 

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