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Segunda-feira, 28/9/2009
Nelson ao vivo, como num palco
Ruy Castro

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Nelson Rodrigues por Diogo Salles

Em 1977, Nelson Rodrigues foi convidado a fazer uma noite de autógrafos de seu novo livro, O reacionário, numa livraria de Florianópolis. Era um convite que poderia ter facilmente recusado. A viagem era longa, ele estava com 65 anos e com a saúde em pandarecos ― vivia entrando e saindo de hospitais, passara havia pouco por graves cirurgias e estivera perto de bater as botas. Além disso, Nelson, que morava no Rio, não viajava de avião ― até então só voara uma vez, em 1970, para ver um jogo da seleção em São Paulo, e voltara de carro. Sair do Rio sempre fora, para ele, um sacrifício: achava que o ser humano nunca devia se afastar de sua cidade, de seu bairro, nem mesmo da rua onde morava, e exemplificava dizendo que, quando passava do Maracanã, já começava a sentir saudade do Brasil.

Mas, enfim, convidaram-no a ir a Florianópolis autografar seu livro e, para surpresa dos próprios familiares, Nelson aceitou. Recusou o avião e ofereceu-se para ir no seu próprio carro (um Opala, daqueles enormes) com o motorista e, servindo de médica e enfermeira, sua irmã Stella. No dia marcado, pegaram a estrada. Fizeram escalas, mas, mesmo que tivessem ido direto, sem parar, eram dezessete horas de viagem do Rio a Florianópolis ― um sacrifício para qualquer pessoa, quanto mais para um homem da sua idade e no seu estado.

Chegaram no dia seguinte e, apesar do cansaço, poucas horas depois, Nelson sentou-se a uma mesinha na entrada da livraria, à espera de seus admiradores. Pois sabe quantas pessoas acorreram para que ele autografasse O reacionário? Nenhuma.

Fico imaginando o que não se terá passado na cabeça de Nelson (a decepção, a amargura, a dor) nas longas horas em que ficou ali sentado, com uma caneta cheia de tinta, uma pilha de livros sobre a mesa e ninguém chegando para falar com ele. E nem quero pensar na tremenda sensação de solidão que terá sofrido na viagem de volta ao Rio.

O próprio Nelson deveria imaginar que algo do gênero aconteceria (e a culpa não era de Florianópolis, porque poderia ter acontecido em qualquer lugar). Em 1977, ainda eram visíveis as cicatrizes das lutas políticas dos anos 60, quando, ao defender o regime militar, ele brigara com toda a esquerda brasileira. Na segunda metade dos anos 70, as coisas já estavam mais calmas, mas não faltava quem ainda o visse como o "reacionário" oficial do Brasil (e Nelson, que não perdia uma piada, assumiu a pecha e a usou como título de seu livro).

De parte a parte, aqueles eram tempos duros e rancorosos. Ninguém seria louco de diminuir o valor de Nelson como dramaturgo, autor de Boca de ouro, O beijo no asfalto, Vestido de noiva e tantas obras-primas. Mas, por causa da política, até muitos de seus mais fanáticos e antigos admiradores estavam querendo distância dele. Nelson pode ter aceitado o convite para aquela noite de autógrafos justamente por isto: por estar se sentindo tão à margem. E, de repente, viu-se diante do desprezo geral, numa livraria vazia.

Quando me contaram essa história, em 1993, não havia mais tempo para incluí-la em meu livro O anjo pornográfico ― A vida de Nelson Rodrigues. O livro saíra no fim do ano anterior e já começara a galopante ressurreição de Nelson como dramaturgo, romancista, contista, cronista, memorialista e frasista ― uma ressurreição que se traduziu, quase imediatamente, na publicação de sua obra fora do teatro pela Companhia das Letras, em montagens e mais montagens de suas peças e na saraivada de teses universitárias, debates e conferências a seu respeito. Hoje, ao ver como a obra e o pensamento de Nelson estão incorporados à cultura brasileira, os mais jovens devem achar difícil de acreditar que, um dia, em 1977, ele já foi deixado sozinho numa noite de autógrafos.

Sempre me perguntam se conheci Nelson Rodrigues. Claro que conheci ― eu e todos os jornalistas do Rio, e ponha aí várias gerações de jornalistas. De 1925 (quando ele tinha treze anos e começou no jornal de seu pai, como repórter de polícia) até 1980 (quando morreu, antes de completar 68), foram raros os dias em que deixou de ir a uma redação. Era um homem de jornal, mais que um homem de teatro ― e, mais que tudo, um homem da rua. Por esta, entenda-se a rua propriamente dita, a calçada, a esquina. Sem falar no Maracanã e, mesmo quando celebérrimo, nos anos 50, podia ser visto sentado num bonde ou pendurado a uma argola no lotação, de volta para a Aldeia Campista, onde morava.

Nessa época, Nelson trabalhava na Última Hora. Era lido por toda a cidade e, dia após dia, seu ritual era inalterável. Chegava muito cedo (antes de sete da manhã) à redação do jornal, na av. Presidente Vargas, quase em frente ao edifício Balança Mas Não Cai. Tirava o paletó, exibindo a gravata troncha, o colarinho de pontas reviradas e os suspensórios (daqueles vagabundos, fininhos, de plástico, comprados no camelô), dos quais ele fingia ter vergonha. Tomava um café, acendia um Caporal Douradinho (mata-rato sem filtro) e sentava-se para escrever, debaixo do maior barulho.

No seu tempo, as redações se pareciam com redações, não com UTIs de hospital, como hoje. As ferramentas eram as máquinas de escrever e os telefones, dois instrumentos nada silenciosos. Os jornalistas também não eram instrumentos dos mais silenciosos ― viviam se dirigindo aos berros uns aos outros, cada qual de um lado do salão. E havia as visitas, os desocupados que gostavam de frequentar jornais. Não se exigiam crachás para visitantes, o que significava que qualquer pessoa que passasse pela rua, e resolvesse subir, subia. Com isso, em certos momentos podia-se ver, zanzando por entre as mesas, gente que pouco ou nada tinha a ver com o jornal: camelôs, bicheiros, vendedores de bilhetes de loteria, sambistas, detetives, talvez até batedores de carteiras. Pois era em meio a essa balbúrdia de máquinas, telefones e gente, entre miríades de cigarros e cafezinhos, que Nelson Rodrigues escrevia A vida como ela é....

Os ficcionistas que fingem se levar a sério precisam de toda uma aura de mistério para criar. Nelson dispensava esse mistério. Todo dia, com uma paciência chinesa e uma imaginação demoníaca, ele criava uma história diferente. E quase sempre sobre o mesmo assunto: adultério.

Daniel Filho, que ia adaptar A vida como ela é... para a TV Globo (o que fez com grande brilho), me perguntou como eu definiria geograficamente o universo de Nelson. Respondi que seus personagens moravam na Zona Norte (em palacetes e casarões, onde o marido e a mulher dividiam o mesmo teto com os sogros, os irmãos e as cunhadas, numa permanente volúpia incestuosa), trabalhavam no Centro da cidade (onde patrões e colegas se vigiavam e flertavam desesperadamente) e só iam à Zona Sul para prevaricar (onde, por falta de motéis, a solução era a garçonnière ou o apartamento emprestado de um amigo). A culpa campeava e o prazer devia ser indescritível. Mas toda essa geografia podia ser resumida a um cenário: o território do pecado. Nele, a vida sexual, para se realizar, exigia o vestido de noiva, a noite de núpcias e a lua-de-mel. E o casal típico de Nelson ― e, de certa forma, perfeito ― consistia no marido, na mulher e no amante.

Nelson escrevia a máquina em espaço um, o menor que havia, com as linhas grudadas umas nas outras. Como acontecia então com quase todo mundo, seus textos precisavam ser "penteados" ― o que, em jornalês, significava que alguém tinha de lê-los, para corrigir os cochilos de datilografia e um ou outro erro, antes que fossem mandados para a oficina. Pois tente corrigir um texto em espaço um, em meio ao tumulto das velhas redações. Mas Nelson não se preocupava em facilitar a vida dos copidesques, porque ainda pegara o tempo em que muitos jornalistas escreviam à mão, com garranchos indecifráveis. São aqueles textos de Nelson, datilografados em espaço um, que saíram primeiro nos jornais e hoje compõem boa parte de sua obra fora do teatro (os livros de crônicas, memórias, frases etc.).

Muitos já me disseram que adorariam ter conhecido Nelson Rodrigues e falado com ele. Pois, em seu apogeu, nos anos 50 e 60, e mesmo depois, não havia nada mais fácil. Nelson frequentava os botequins que ficavam perto dos jornais, para tomar café em pé (não bebia nada de álcool), e era abordado por todo tipo de populares. Eles o reconheciam por sua participação nos programas esportivos da televisão e perguntavam: "E o Fluminense, Nelson?" Nelson respondia: "Está caprichando." Batia papo, tratava todo mundo por "doce figura" e, ao se despedir, soltava um indefectível "Deus te abençoe".

Alguns com quem conversava na rua não sabiam que ele era um escritor, que transitava entre os vários gêneros literários com impressionante desembaraço e metia-se em polêmicas que o faziam quase ser tomado por Belzebu. Eles o viam apenas como um cronista esportivo e torcedor do Fluminense. Ironicamente, os estudiosos estrangeiros, que hoje se debruçam sobre sua obra, acham que o contrário é que é espantoso: como um escritor tão importante, capaz de dizer coisas tão profundas sobre o amor e o sexo, a vida e a morte, podia também se dedicar tanto ao futebol?

Quando tais estudiosos me perguntam sobre isso, respondo, meio de brincadeira, que, no Brasil, mais exatamente no Rio, esse trânsito entre o erudito e o popular é café pequeno, não espanta ninguém. Mas sei que não é bem assim. Nelson Rodrigues é que eliminava essas barreiras. Ao escrever sobre a tragédia de uma família, o drama de um casal ou sobre um simples Fla-Flu, ele estava falando apenas do ser humano. É por isso que tantas mulheres liam (e leem, agora nos livros) suas crônicas esportivas: porque, ao falar de futebol, Nelson ― que, míope, não enxergava nada do que se passava no gramado ― estava, como sempre, fazendo grande teatro ou literatura.

Não cheguei a ser seu amigo, mas estive com ele muitas vezes, em reuniões na casa de um amigo comum, o jornalista e escritor José Lino Grünewald, no Corte de Cantagalo, em Copacabana. Nelson era assim: ao ser convidado para uma reunião em casa de amigos, bastava-lhe adentrar o recinto para que a festa se transferisse para ele. Não importava quem estivesse ali: um cantor de ópera, um cineasta alemão ou a rainha de Sabá ― todos só queriam saber dele. As rodinhas se dispersavam e se reagrupavam ao seu redor.

Entre 1969 e 1972, fui testemunha disso algumas vezes no apartamento de José Lino. Naquele tempo, Grünewald e sua mulher, Ecila, eram pródigos em receber amigos nas noites de sábado, quase todos gente importante e/ou interessante da área cultural. O uísque, servido em galões, era velho de pelo menos 12 anos e a trilha sonora, saindo de uma vitrola de época, mais velha ainda, de gravações pré-1940.

Nelson chegava ― paletó sem gravata, alto, surpreendentemente ágil ―, soltava um cumprimento geral e despejava uma frase de efeito para algum dos presentes. Sempre em voz alta, como se num palco, fazia um comentário sobre o disco que estivesse tocando (invariavelmente um 78 rpm com Orlando Silva, Carmen Miranda ou Carlos Gardel) ― "Que maravilha, José Lino!" ― ou pedia-lhe que tocasse "Farolito", com Francisco Canaro. E só então se instalava num sofá Chesterfield preto, que ficava numa sala menor, debaixo de um enorme Volpi (de quem Nelson, fã de Portinari, não gostava). Os outros convidados engoliam seus coquetéis de camarão, pegavam os uísques, mudavam-se para a saleta e o cercavam, à espera de que ele dissesse suas imagens e expressões.

E Nelson nunca desapontava. De repente, daquela voz quase bovina, que às vezes lembrava mesmo um mugido, lá vinham o "óbvio ululante", o "padre de passeata", o "sol de derreter catedrais", o "quadrúpede de 28 patas", o "subindo pelas paredes como uma lagartixa profissional". Ele já as dizia rindo.

Tenho a impressão de que Nelson repetia essas expressões porque sabia que as pessoas contavam com elas ― porque queriam que ele se parecesse ao vivo com o Nelson da palavra escrita. O que era apenas inevitável porque, mais do que todos, ele não tinha como não ser igual a si mesmo. Mas, ao ouvi-lo dizer seus clássicos, nós sabíamos que estávamos diante de Nelson Rodrigues fazendo ali o seu teatro particular, do qual não nos incomodávamos de ser coadjuvantes.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado na revista Alphaville, em junho de 2001, o texto foi ampliado para a Revista do Fantástico e recentemente incluído no livro O leitor apaixonado, coletânea de textos sobre literatura de Ruy Castro.


Ruy Castro
Rio de Janeiro, 28/9/2009

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