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Segunda-feira, 17/6/2013
Dias de Luta, de Ricardo Alexandre

Julio Daio Borges




Digestivo nº 492 >>> Os anos da bossa nova mereceram um livro de Ruy Castro. Já as memórias de Nelson Motta, que atravessam desde a bossa nova até os anos 90, de Marisa Monte, se consagraram como Noites Tropicais. Ruy Castro pensa como Paulo Francis, que ouvinte de rock é "animal invertebrado" (quanto mais de rock brasileiro). E Nelson Motta fala en passant do rock brasileiro dos anos 80 ― mas o foco de suas memórias é, naturalmente, ele mesmo, e seus empreendimentos musicais. Faltava um livro que se consagrasse como "a biografia" do rock brasileiro dos anos 80. Mas Ruy Castro jamais iria escrevê-lo. Fernando Morais, outro dos nossos grandes biógrafos, prefere historicamente temas políticos, a não ser quando o assunto é Paulo Coelho. E Nelson Motta ― aparentemente ― já havia esgotado o que tinha a dizer sobre o tema. Acontece que, para surpresa geral da Nação, a biografia do rock brasileiro dos anos 80 já foi escrita. E, publicada ― em 2002. Sim, há mais de uma década. Guilherme Bryan e seu alentado volume pela Record que nos perdoem, mas estamos falando de Dias de Luta ― O Rock e o Brasil dos Anos 80, de Ricardo Alexandre. Sim, o mesmo autor de Nem vem que não tem ― A Vida e o Veneno de Wilson Simonal (2009).Um clássico instantâneo sobre um "elo perdido" entre a bossa nova, a jovem guarda, o tropicalismo e a MPB. A biografia definitiva sobre o maior cantor brasileiro desde João Gilberto. Mas voltemos a Dias de Luta... No bojo de tantos lançamentos, no início dos anos 2000, entre blogueiros-escritores (e escritores-blogueiros), o livro de Ricardo Alexandre terminou eclisado. Foi publicado pela DBA e Alexandre, circunstancialmente, misturou-se com outros "autores iniciantes". Acabou confundido com ficcionistas muito barulhentos e pouco representativos (da propalada Geração 90 e depois). Ocorre que Dias de Luta é um grande livro. E sua reedição, agora pela Arquipélago Editorial, é a chance que temos, como leitores, para nos redimir. Para quem não egole o tema do rock, e menos ainda o rock brasileiro, Dias de Luta não é apenas sobre música. Tem um escopo cultural mais amplo, desde teatro e cinema até rádio e televisão. E tem um escopo social, desde a "abertura", a chamada redemocratização, até a primeira eleição direta e a era Collor. Dias de Luta tem o cuidado jornalístico de um Ruy Castro e tem ― ora, vejam ― os depoimentos de Nelson Motta (!). Além de contar a melhor história dos anos 80 até agora, Ricardo Alexandre juntou os méritos de Chega de Saudade e de Noites Tropicais. Desde a vanguarda do Lira Paulistana e Rita Lee como fenômeno pop, Dias de Luta parte do Vímana, e do rock brasileiro progressivo (sim), até os mesmos anos 90, de Marisa Monte e Sepultura. Passando, evidentemente, pela Gang 90, por Lulu Santos, a Blitz, os Paralamas, João Penca e seus Miquinhos, Kid Abelha, Magazine, Ira!, Barão Vermelho, Ultraje a Rigor, Titãs, Legião Urbana e RPM. Entre outros. Ricardo Alexandre tem a paciência de esmiuçar o movimento punk de São Paulo (do primeiro Ratos de Porão), o rock gaúcho (de Engenheiros do Hawaii) e até o hip-hop (de Thaíde e DJ Hum). E para a música em si, Alexandre tem o olhar generoso de quem não julga peremptoriamente, levantando o papel de cada um na construção da cena, sem esquecer das "armações", das "máfias", das "panelinhas" e dos excessos típicos do rock'n'roll em qualquer época. O texto é informativo, guardando uma ironia "na medida". A divisão em "primórdios", "ascensão", "auge" e "queda", digamos assim, transforma o livro num verdadeiro ensaio de interpretação. E os capítulos, no tamanho certo, encadeiam a leitura até o final. Para quem viveu, os anos 80 foram mitológicos. Mesmo que discutíveis, esteticamente falando. Dias de Luta é o melhor esforço no sentido de reviver essa época, apresentá-la às novas gerações e entender o passado recente, com desdobramentos até hoje. E, em termos autorais, os livros de Ricardo Alexandre são tão importantes quanto os romances de Daniel Galera.
>>> Dias de Luta ― O Rock e o Brasil dos Anos 80
 
>>> Julio Daio Borges
Editor
 

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