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Sexta-feira, 3/3/2006
O Gmail (e o E-mail)
Julio Daio Borges

Profissionalmente, o e-mail é tão parte do meu dia-a-dia que eu não conceberia sem ele o Digestivo Cultural. O e-mail foi uma das coisas que possibilitou a existência do site. Os Colaboradores quase nunca estiveram perto fisicamente — sempre estiveram em diferentes cidades, em diferentes países... Se a nossa Redação não fosse virtual, ela não existiria. E isso se estende até a nossa relação com os Leitores. Poucos enviam correspondência postal ou ligam. E isso se estende, claro, até os nossos Parceiros e Anunciantes. Hoje, acho que mais da metade dos nossos trabalhos e projetos surge através do e-mail.

Desde antes do Digestivo, eu faço back-up dos meus e-mails. Antes do ano 2000, eu usava o e-mail também para escrever longas cartas e, enquanto era "colunista independente", trocar idéias com jornalistas, como o Daniel Piza. No episódio "A Poli como Ela é...", eu me lembro que nem era colunista ainda, mas que mantive uma volumosa correspondência com todo tipo de gente (colegas, professores, jornalistas). Depois, montei um compêndio com as mensagens que havia recebido. Eu já era editor e nem sabia.

Eu distribuía newsletters para uma porção de endereços eletrônicos, que foram desembocar no Digestivo. E eu não queria perder aquilo: queria guardar aquela experiência em algum lugar. E a minha correspondência pessoal, também. Assim, de ano em ano, eu procurava as pastas de e-mails dentro do Outlook e salvava, inicialmente, em Zip disks (alguém ainda se lembra do Zip Drive?), e, posteriormente, em CDs virgens.

Com o crescimento do Digestivo, os arquivos anuais de e-mails foram aumentando de tamanho. As assessorias de imprensa, como eu já contei, começaram a despachar muito material eletrônico e, por mais que eu limpasse, os folders transbordavam com arquivos anexados de mais de 1 Mb (principalmente fotos), e o processamento sofria de lentidão. Mormente na pasta Itens Enviados. A busca, então, por mensagens antigas, era um sofrimento longo e, algumas vezes, inútil.

O meu back-up anual, de arquivos de todo tipo (não só e-mail), de repente, não cabia mais num único CD. Eu tinha de dividir: um CD para as minhas coisas pessoais, outro só para o Digestivo. Da última vez, porém, que formatei o computador, não fiz back-up — foi impossível. A soma de documentos (falo não só de .DOCs, mas de maneira genérica) ultrapassava a ordem dos gigabytes, por mais que eu tentasse "quebrar". Sorte que o técnico de minha confiança trouxe um outro HD e guardou lá as minhas coisas, enquanto formatava o computador.

Toda essa conversa técnica para contar que eu praticamente abandonei meu back-up anual. Teria de apelar para um gravador de DVD, que não tenho como adquirir agora. E que resolveria por alguns anos, até eu acumular mais dados e estourar, novamente, seu limite. Não é à toa que, hoje em dia, uma das grandes discussões sobre a Web 2.0 (um dia eu prometo que falo sobre ela e só sobre ela) trata do fenômeno do armazenamento virtual de dados, na própria internet. De repente, por essas questões de back-up e de limitação física (ou de pessoa física), vai se tornar mais fácil, e mais barato, contratar uma empresa e guardar lá as suas "coisas".

O Gmail é um pouco essa história toda e só agora eu entro no meu assunto principal. Eu nunca fui um grande entusiasta do Hotmail, embora reconheça que o princípio seja o mesmo: ter um e-mail virtual, que você pode acessar de qualquer lugar, de qualquer computador, sem que ele seja necessariamente o seu (físico), e sem que você precise de softwares como o Outlook. Eu sempre usei tão pouco o Hotmail que o meu primeiro endereço lá ([email protected]) até perdi por falta de uso. Criei outro mais por causa do MSN do que por qualquer coisa. O MSN é tão difundido no Brasil que se você quiser encontrar as pessoas on-line, tem obrigatoriamente de instalá-lo através de uma conta no Hotmail. Enfim...

O Gmail também surgiu num momento em que eu precisava dar acesso ao e-mail principal do Digestivo ([email protected]) ao meu Editor-assistente, Fabio Silvestre Cardoso. Se eu estivesse fora, se algum Leitor, ou Parceiro — ou "potencial" —, escrevesse para nós, o Fabio mesmo poderia adiantar. E checar o material das assessorias de imprensa, e tirar as dúvidas dos Colaboradores, e descadastrar quem pedisse para sair do mailing, etc. Uma solução seria deixar o Fabio receber todas as mensagens do Digestivo no seu computador, mas e se eu viesse — e ele não estivesse —, e quisesse ainda assim acessar? Eu queria continuar tendo acesso ao e-mail principal do Digestivo junto com o Fabio, entende?

O Gmail resolveu essa questão e, por tabela, resolveu outras. É meio esquisito escrever uma Coluna inteira sobre um serviço de e-mail, mas eu acho o Gmail tão revolucionário — tão revolucionário, ao menos, para mim (para a minha histórica relação com o e-mail) — que eu resolvi me arriscar a escrever esta peça mesmo que soasse como propaganda. Aos acusadores, desde já respondo: o Gmail não precisa de mim. Muito menos, o Google. O seu approach ao e-mail, independentemente do nosso apoio, é o que vai prevalecer. O Yahoo, ouço dizer, também está adotando-o; e a Microsoft prepara uma nova versão do Hotmail para a Web 2.0 (ela, de novo).

O Gmail acaba que é mais conhecido pela sua fantástica capacidade de armazenar mensagens: hoje mais de 2,5 Gb grátis. Foi um golpe quase mortal na concorrência. Vejamos por quê... Lembra do início da internet? Até agora há pouco, você pagava, digamos, o UOL para ter acesso à internet, por linha discada, e também para ter uma conta de e-mail (ou várias) com terminação "@uol.com.br". Era o grande serviço deles. E de outros, como o Terra. O iG tentou acabar com a festa, aqui no Brasil, fornecendo acesso e e-mail gratuitos, mas quase quebrou e teve de voltar atrás. Hoje, de qualquer modo, você paga, ainda, a uma empresa para obter acesso "banda larga" (nem sempre o UOL ou o Terra), mas cada vez menos precisa de um portal para ter o seu próprio e-mail...

A justificativa para você pagar para um UOL ou para um Terra da vida era a de que, basicamente, enquanto você não "baixava", eles tinham de "estocar" as suas mensagens em algum lugar. No servidor deles, no caso. Iam chegando e-mails para você, mas enquanto você não checava — guardava ou apagava no seu computador —, eles te davam um limite de espaço no seu servidor (no servidor deles, de alguns megabytes). O Google acabou com isso. Com o negocio da busca, eles têm o maior exército de servidores do mundo (como eu já contei, em outra ocasião). Ou seja: por que não aproveitar essa megainfra-estrutura e implementar outros serviços além da conhecida busca, como o Orkut e o Gmail — o e-mail virtual do Google?

Por conseqüência, pela supercapacidade de processamento e armazenamento, eles puderam oferecer um e-mail que praticamente não tem limitação de espaço. E é gratuito. A explicação, econômico-financeira, é que eles preenchem o lado direito da tela, enquanto você checa as suas mensagens, no Gmail, com anúncios. O que é um pouco bizarro para algumas pessoas... Você manda um e-mail para alguém dizendo que vai viajar e logo à direita, no Gmail, aparece uma série de anúncios te oferecendo transporte e hospedagem... O Google diz que esses anúncios pagam a conta do e-mail gigante e gratuito.

E como otimizar a exibição de anúncios? Fazendo com que as pessoas não "baixem" mais as suas mensagens no computador, via Outlook por exemplo, guardando o máximo possível no Gmail. Quanto mais o Gmail, e o Google, tecnicamente, souberem sobre você, melhores anúncios eles vão te mostrar (e você vai clicar e comprar etc.). Aí, entramos num outro assunto: privacidade. É um pouco assustador pensar que caminhamos para um ponto em que toda a nossa vida por e-mail — profissional e pessoal — vai estar disponível na internet. E as pessoas, no Brasil, ainda se preocupam com os scraps no Orkut...

Eu tive de adotar a seguinte política, o seguinte raciocínio, para usar o Gmail: o UOL, ou o Terra, também podem saber tudo sobre o meu trabalho e a minha vida, via e-mail. Eles também têm acesso às minhas mensagens. Eu só não as gravo lá. Mas eles podem gravar (antes de eu apagar); e eu nem sequer saber. Pior, ainda, o Hotmail: o Hotmail não te dá nem a opção de baixar para o seu computador — coisa que o Gmail, por exemplo, dá. Em resumo: a privacidade, em matéria de e-mail, já não existia antes do advento do webmail, antes de você deixar suas mensagens na Rede Mundial de Computadores. Afinal, o e-mail, em seu trajeto, sempre passou por Ela...

Claro, o "trade-off" maior do Gmail é que está tudo lá, do jeitinho que você deixou. E se a luz acaba? E se o Gmail sai do ar? Eu já passei por apertos devidos a essa situação. É, mais ou menos, como quando o Digestivo cai: você, geralmente, não tem outra opção a não ser ligar para a empresa que te hospeda e exigir, depois implorar, e por último rezar, para eles consertarem logo. Mesmo as melhores empresas; mesmo os melhores serviços — ninguém está totalmente imune a falhas. Ocorre que o Gmail é um serviço gratuito e você vai reclamar com quem, com o bispo? Eu penso muito nisso quando o Gmail trava e eu tenho de responder àquela mensagem, e eu tenho de enviar aquela proposta...

Mas todo o resto vale. Todo o resto compensa. Vamos ver se eu consigo te fazer acreditar...

Por exemplo, a busca. Você sabia que, dentro do Gmail, você conta com a busca do Google (a melhor busca do mundo)? Só eu sei quanto tempo eu perdi tentando encontrar aquele e-mail, de tal pessoa, que me mandou no ano passado — ou seria retrasado? —, sobre não sei que assunto... mas eu precisava tanto do seu endereço, eu precisava tanto de determinada informação — que estava lá dentro! E agora, meu Deus?

Quem já procurou um documento através do Windows, sabe o que é. É lento e infrutífero. Geralmente, antes de começar, eu desisto. Já usei, entretanto, a busca do Outlook muitas vezes. Não havia, antes, a opção do Google. Você procurava por data, por autor, por assunto e pelo conteúdo da mensagem em si. Demorava, demorava e nem sempre você achava. Agora com o Gmail, é pá-pum! E com o Google Desktop, você resolve o mesmo problema até dentro do Windows.

Outra vantagem do Gmail é o antispam embutido. Lembra quando falavam que o spam iria acabar com a internet? Pois iria mesmo. Felizmente, as ferramentas antispam evoluíram... Meu dia era assim: eu chegava e antes de abrir o Outlook, tinha de entrar no Mailwasher e separar o que fosse spam e o que fosse vírus, antes de baixar as mensagens no meu computador. Demorava... Era clique a clique a coisa. E, algumas vezes, eu apagava coisas que não era para apagar, eu marcava como "spam" mensagens de amigos meus... Porque, no meio de tanto clique, você errava, de repente, a mira.

Com o Gmail, não tem disso: ele mesmo faz a separação e joga numa pasta chamada Spam. Eu sei que você vai dizer que é a mesma coisa do "lixo eletrônico" do Hotmail, mas não é, não. Claro que o Gmail, às vezes, se confunde e marca alguma coisa que não era para marcar como "spam". Mas você mesmo desmarca e ele aprende com você. Ele aprende com toda a sua rede de usuários, na verdade, e essa é a grande diferença. Chega daquelas listas de "e-mails proibidos" (no Mailwasher, "blacklists") — no Gmail, as "listas negras de spammers" de todas as pessoas estão interligadas. Já pensou?

Outra vantagem, na minha opinião, é a própria interface do Gmail. Não é à toa que o Gmail é o exemplo de Web 2.0. Porque ele não é lento como o Hotmail ou como outro webmail do Brasil (UOL, Terra...). O Gmail opera na velocidade do Google. E nem sempre ele precisa dar um "refresh" na página inteira (recarregar todo o seu conteúdo) para realizar uma simples operação. Por exemplo: não há folders ou pastas no Gmail, você cria "tags" ou "labels" (rótulos) e simplesmente "marca" ("carimba") as mensagens que vão chegando. Ou seja: quando você diz que uma mensagem é de um amigo seu e que ela tem de estar no arquivo de "Amigos", sei lá, você marca essa mensagem imediatamente com a tag "Amigos", sem que o Gmail precise montar, de novo, a tela inteira.

Outro exemplo que é uma mão na roda... Quando você pensava em mandar um e-mail para determinada pessoa, se não tivesse esse contato no seu "address book", tinha de caçar seu endereço eletrônico no Outlook, na internet ou onde quer que fosse. No Gmail, você apenas digita algumas letras e os possíveis nomes já aparecem para você escolher. O Gmail guarda todos os contatos a quem você destinou ou de quem você recebeu mensagens. Todos. E não importa: você digita nome, sobrenome, nome do meio ou qualquer parte do e-mail da pessoa e o Gmail encontra. Se não encontrar, você usa a busca... do Google!

Fora que a interface é a mesma em qualquer lugar. E os seus contatos estão lá, e as suas mensagens, também... em qualquer lugar. Eu sei que é perigoso mas as vantagens disso, em princípio, são muito maiores. Quando eu, por exemplo, viajo ou acesso fora do escritório, sinto como se estivesse na minha mesa — porque é exatamente a mesma coisa. Direto do Gmail, dou os "forwards" que tinha de dar (do escritório), envio as respostas, procuro mensagens atrasadas, levanto contatos para outras pessoas... E a velocidade é a mesma em qualquer computador; porque eu estou usando o processamento do Google — o melhor processamento do mundo!

Bem, é por essas e por outras que eu abandonei o Outlook logo no começo do ano e estou usando só o Gmail. Desvio todas as minhas mensagens do Terra e do UOL para o Gmail. Também todas as mensagens "@digestivocultural.com". Está tudo centralizado no Gmail do Digestivo e no meu Gmail pessoal — eu não misturo (coisa que nunca consegui fazer, por exemplo, no Outlook). Às vezes acesso ainda o Hotmail por causa do MSN (algumas pessoas me enviam e-mails através do MSN...), pois o Hotmail não deixa você dar "forward" para outro endereço. Se deixasse, eu não entrava mais nem no Hotmail...

Não é querer fazer propaganda para o Google, porque, como eu disse, o Google não precisa de nós. Acontece que eu ganhei tanto, em tempo e em praticidade, desde que passei a usar o Gmail e só o Gmail, que eu quis, honestamente, ajudar as pessoas... que perdem horas separando spam, depois baixando mensagens, depois respondendo, depois enviando... — como eu mesmo passei anos fazendo. Acredito que todo mundo depende bastante do e-mail hoje em dia. Em qualquer profissão. No meu caso, com o tempo extra, eu voltei, por exemplo, a ler feeds, e talvez até escreva mais sobre isso... Enfim, experimente o Gmail — é de graça! E, se você quiser, eu mesmo te convido.

Julio Daio Borges
São Paulo, 3/3/2006

 

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