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Quinta-feira, 9/9/2010
Tempo vida poesia 3/5
Elisa Andrade Buzzo

Todo es húmedo acá y en el camino
El paisaje se transforma. (Laura Lobov)

One-two-three-four Uno-do'-tres-cuatro Tiro as cebolas do hambúrguer e observo a incrível habilidade que os garçons têm de paquerar e servir ao mesmo tempo. I know you want me you know I want cha I know you want me you know I want cha Pitbull toca nas alturas e o som sobe direto para as finas janelas de madeira dos quartos, transformando cada um dos cubículos numa danceteria em potencial. O saguão é um entra e sai de gringos validando seu cartão na porta interna, sob o olhar atento dos seguranças engravatados. Passam das 22h e o som é inacreditavelmente ensurdecedor para uma noite de sono; para uma noite de qualquer outra coisa, talvez não. Instalado num edifício antigo e baixo a alguns passos do Zócalo, ou Plaza de la Constituición, o Hostel Catedral tem uma interessante estrutura, com lanchonete e recepção no térreo e, como num fosso que se dirige para cima, sobem os quartos com plantas suspensas à la Jardins da Babilônia. E sobe de tudo, das gargalhadas juvenis ao vozerio estridente do tiozão americano bêbado. Às 7h, as colheradas retiradas de um grande pote com alças entoam nas tigelas de plástico um ritmo matinal. Anteontem morango, ontem pêssego, hoje pêssego, amanhã morango. Srulup! Não há tempo a perder na Cidade do México, por isso os festivalentos dormem tarde, mas acordam cedo para sua ração diária de iogurte, pão, feijão e omelete.

A dinâmica é a de uma cidade grande, muito grande, mas não da mesma forma que São Paulo. A comparação com nossas próprias referências é inevitável, ainda mais se tratando das maiores cidades da América Latina. Grande e caótica como São Paulo, sim, mas à sua maneira de capital federal, mais espalhada e sem o nosso contínuo arranha-céu cinzento. O que faz muita diferença. Sentir-se engolfado pelo Zócalo, a bandeira mexicana ao centro borbulhando em rajadas de vento, contornada pela catedral e pela sede do governo, sem esquecer seu marco primevo, o Templo Maior, é como se fosse possível ter a Praça da Sé e o Palácio do Planalto unidos naturalmente em europeia arquitetura. Mas em História se sabe que nada se constrói com o que não existe, embora a imaginação busque algo para comparar, para compreender outros mundos a partir de seu próprio umbigo macilento, de sua língua interpretar os sabores das frutas exóticas.

Que nada irrumpa tan excelso instante, que nada evite
el contacto de la gasa sobre el cuerpo. (Rocío Cerón)

Os flanes que vejo pelas vitrines das pastelarias são tão coloridos quanto a tradição mexicana: pedaços de gelatinas azul, verde, vermelho, rosa, amarelo imersos numa base bege. Como o Dia dos Mortos se aproxima, elas também anunciam "el mejor pan del muerto" das redondezas, com caveiras sorridentes de chapéu de palha ornado com flores como garotas-propaganda. No calor de quase trinta graus, as guardas de trânsito estão impecáveis em seus fardões azuis e maquiagem carregada, as mãos de luvas brancas e o apito frenético puxando o tráfego. Elas estão nos principais cruzamentos que levam ao Centro Histórico, frágeis e fortes como a poesia. E dividem espaço com os siloneros ― homens e mulheres fardados que, ao rodar a manivela de uma caixa de música, inebriam o ar com seu doce som metalizado em troca de moedas. Saímos do centro em direção ao badalado bairro Colonia Roma, respirando a cafés, galerias e árvores centenárias. Reencontro María Eugenia e Javier na livraria da Casa Lamm, chique reduto intelectualizado, e vamos à derradeira leitura para apresentar nossos livros, desta vez na Casa del Poeta. Lá havia marcado o reencontro com o poeta mexicano Rodrigo Flores, que eu conhecera em festivais paulistanos, e fazia questão de que ele, autor da apresentação do Noticias de ninguna parte, lesse a versão em castelhano de meus textos. Assim, instalados na mesa, um outro público ansioso pela expectativa do que virá, ele me aponta, "Este":

Confabulando ferozmente lo que diría, atento a las sílabas que aletean y que envío en un mover de labios, tú, como un animal latente, también presientes mis movimientos, paseas a mi alrededor roncando en voz baja, que língua sonífera é essa, palavreado de amantes em que até o pior poema é ouro precioso, a sonoridade doce, língua ligeira em movimentos fluidos, puedo verlo con una hechicería en la bola de cristal donde, borrosos, nos palpamos largamente, ovillados, en juego sordomudo, en ninguna parte, enmarañados en los hilos de sudor de la noche, nos mantenemos bravamente, flechada em meus ouvidos, soco desferido em cheio no peito, metaforizar o castelhano, essa língua sibilina e rotunda, seria tirar seu encanto como de um sacrificado se arranca o coração? a essência se mantém interina, é certo, mas ela nos roça, sobrepõe-se como beleza iminente, y, al contacto del enchufe, a altas horas, somos reiniciados ― robots que regresan a su vida de vieja hojalata.

Além de poeta, Rodrigo é editor, mas está cansado do processo de edição, brinca no seu jeito cativante de falar rindo consigo mesmo e para os outros, quando toco no assunto publicações literárias. Pudera, foram nove anos à frente da revista Oráculo, de projeto gráfico e impressão apurada. Uma semana depois de meu retorno a São Paulo seria a festa de encerramento do último número da publicação dedicada à poesia. Enquanto vamos para a casa-galeria Conejo Blanco ― com um bom acervo de publicações mexicanas alternativas, dentre elas a própria Oráculo ―, folheio seus livros no carro, uma pequena biblioteca ambulante onde encontro o "Poema sujo", de Ferreira Gullar, de que diz, com aquele sorriso sonoro, gostar muito.

Na livraria ele procura publicações para mim, percorrendo com desenvoltura as prateleiras de poesia da Conejo e, antes, as da livraria do Fondo de Cultura Económica. No café desta última, o garçom coloca uma caneca fumegante em minha frente, mas o que me detém é o pé-direito incrivelmente alto, com aberturas transparentes. A livraria do Fondo de Cultura Económica, localizada em La Condessa ― colônia da moda repleto de bares e edifícios novos ―, tem uma amplitude e uma claridade que nos convidam a perscrutar suas prateleiras brancas e baixas. Não há tanto enfoque para a poesia, antes para publicações de ciências humanas, mas Rodrigo vai puxando delas uma sequência de livros ― dentre eles o Anuario de poesía mexicana 2004, do qual faz parte. Fora o primeiro ano do projeto que se dedica a publicar os poemas mais significativos que saíram em revistas literárias durante cada período.

Dijiste que más allá de la textura
maliciosa de estas calles
se levantaba un transmundo
de posibilidades insospechadas. (Néstor E. Rodríguez)

Naquele mesmo café, dias antes, havia marcado um encontro com a poeta Rocío Cerón. Acabamos encontrando, sentado numa das mesinhas fazendo esquemas de palavras e flechas num caderno, um poeta conhecido dela de passagem pelo México. "Dizer que a poesia não é poesia por ter imagem é dizer que um mexicano não é um mexicano se não for campesino". Cabelo raspado, uma trança pendendo nas costas lhe dava um ar tribal, contrariando a harmonia do rosto de Semana de Moda de Nova Iorque. Logan Phillips vive entre os Estados Unidos e o México e está ligado a uma corrente poética experimental e performática, mais próxima do teatro. "Essa poesia tradicional de mesa com copinho de água não existe mais nos Estados Unidos". Quando lhe perguntam "por que a poesia é vista como morta e pouco relevante", responde que a poesia é uma "arte solitária" ― assim como ele no café da livraria, absorto em seu mundo, preso ao seu interior, ainda que se transforme num ator quando sobe no palco.

Com formação em História da Arte e editora da El Billar de Lucrecia, uma editorial independente que se dedica a publicar não só autores mexicanos, como tem a generosidade de divulgar os latinos em geral ― tendo inclusive editado uma antologia de poesia brasileira contemporânea ―, Rocío começou a fazer performances poéticas nos anos 1990, embora também participe de leituras tradicionais. Mas algo simples, ler em pé, ao menos, é algo de que concordam que seja indispensável. Ambos se surpreendem que os jovens de hoje no México tenham uma visão mais tradicional da poesia e da prática de leituras.

Ousadia é o que não falta à Rocío, cuja editora tem como slogan "Leer es sexy" e cuja Lucrecia concebida por Luis Blackaller ― exuberante e convidativa ― é sua musa pós-moderna. Em poses ousadas e vestimentas mínimas ela aparece na quarta-capa dos livros: de lingerie ou vestido curto, com o taco de bilhar entre as mãos ou mascarada como os típicos lutadores mexicanos de Luta Livre. A proposta da Billar, arrojada e de projeto gráfico modernoso, é publicar exatamente escritores "que não tenham medo de não ir pelo caminho do estabelecido e das formas decorosas de uma poesia correta". Tem seu fim pré-determinado (se a poesia tem projetos que geralmente se findam, por que não determinar sua validade, então?), quinze livros, que "representam a linguagem e as possibilidades da poesia", cada um numerado por uma bola de bilhar. Se o encontro da vez era com Rocío, o acidental encontro com Logan nos deu lições de que, também no México, se faz poesia de diversas formas.

Nota do Editor
Leia também "Tempo vida poesia 1/5" e "Tempo vida poesia 2/5".

Elisa Andrade Buzzo
São Paulo, 9/9/2010

 

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