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Terça-feira, 2/10/2012
Diário de Rato, Chocolate em Pó e Cal Virgem
Duanne Ribeiro

Erguemos as barricadas: é preciso isolá-lo. Uma placa de madeira serve de bloqueio para a saída da cozinha à sala. Um tijolo tampa o buraco no canto direito inferior da porta fechada do banheiro. Onde ele pode estar? No fogão. No balcão da pia. Debaixo da geladeira. Levo uma luminária arrastando a extensão até lá. Ilumino cada canto como o holofote das prisões de filme americano, mas a mancha de luz não o denuncia. Não está em lugar nenhum. Você tem certeza de que viu? O rato põe o cotidiano entre parenteses, e nem precisa existir pra isso.

De repente a casa está povoada de sinestesia e perigo. Não pode andar descalço, sob risco de morte. Não pode comer nada que caiu no chão - nem se pegar assim muito rápido! Sou atento ao mínimo som como nunca. Tec. É o rato!? Orelha levantada como um cão de caça. Quais são os barulhos comuns e quais os barulhos incomuns de uma residência? Até ontem só possuíamos esse silêncio chapado indistinto. Pracs. Termina que um roedor é um objeto estético semelhante a 4'33'', de John Cage. Schwiss: algo à minha esquerda. Paraliso. Viro o rosto. A cortina se mexeu. A cortina se mexeu? A cortina se mexeu! Levanto ninjamente. A cadeira do computador ignora meu esforço e range. Me convenço de que ele não percebeu. Subo no sofá, que também range, escandaloso. Olho o pano branco até o piso. Esse volume - será? Sacudo o pano. Não está lá.

Mas a situação é crítica. Atrás do sofá também estão minhas caixas de revista. Eu ameaço o rato em voz alta (sim, você leu: eu ameaço o rato em voz alta): se roer revista minha, mato ele no dente. Como pode ter passado da barreira? Só pode estar ali embaixo. Vassoura na mão, me preparo para passar o cabo no vão do móvel. Tenho no rosto o olhar abnegado do homem que cumpre seu destino. Primeira investida. Nada. Segunda investida - ele dispara feito um foguete, só se vê o rastro cinza rasgar o espaço numa linha diagonal e sem hesitar saltar nossa placa de madeira (ah! então foi assim que passou da barreira...). O rato, desta vez como fato; é preciso fazer alguma coisa.

E sabemos o que fazer. Não é o primeiro. Aliás: o anterior se foi e de saída trouxe o diabo.

O Senhor das Moscas
O penúltimo rato invadiu a casa vindo do telhado, pela janela ao lado da pia do banheiro, já tarde da noite. Derrubou pente desodorante pasta de dente conforme entrou. Pequeno, preto, tivemos um momento de confronto, nossos rostos contrapostos como em um videogame de luta, pensei em assustá-lo para fora, porém minha avó não abriu a porta e se precipitou para matá-lo na pancada mesmo, como um Nelson Rodrigues prenhe. Fugiu e se encastelou atrás do armário em frente à privada, ou no espaço atrás do bidê que ninguém usa mais - como saber? Trancamos o rato lá, com o tijolo na frente do buraco da porta e tudo.

Diariamente, colocávamos as luvas de plástico, pegávamos aquela sacola detrás da máquina de lavar com a caixa de veneno, preparávamos uma porção de cristais azuis mortíferos com um tantinho de queijo ralado por cima e deixávamos entre privada e bidê. Em três ou cinco dias parou de ter bosta de rato e ele parou de comer. No entanto sem corpo da vítima. Esses ratos não se dão o luxo de darem certezas. Não obstante uma mosca varejeira pesadona veio passear por aqui; ela sente o que não sinto, no seu mundo minha casa era um chamariz feito de cheiro, do calor pressentido dos vermes atuando. Não sei para onde foi, o que encontrou. Alguns dias depois, sucedeu sua carapaça azul brilhante a visita do próprio Belzebu.

Primeiro foram as moscas molengas no chão do banheiro, suas asas junto ao corpinho; logo a revoada. Trinta, quarenta, sei lá quantas, praticamente uma praga do Egito particular, e no instante seguinte contra-ataco feito Al Pacino na cena final de Scarface - you wanna fuck with me? you wanna play rough? - disparando inceticida como se não houvesse amanhã. Tombam aos montes. É você, Satanás? Baal-Zebute, Senhor das Moscas, o simbolismo que suponho na hora, por livre associação, me assusta um tanto. O mais provável: o rato morreu entocado no oco do bidê, e a varejeira prenha botou sua centena de ovos ali. Quanta vida se intrometendo e roendo a rotina por dentro, apenas por uma janela deixada aberta.

Com Carinho, o Assassino
Julinho (eventualmente demos um nome a esse rato do começo da história) foi mais difícil. Não comeu um único cristal azul (pelo que parece, antes de morrer os ratos urinam, e assim deixam, na urina, um aviso para os outros de qual substância os matou; a partir daí, eles não ingerem aquele veneno específico). Compramos uma ratoeira de alumínio, mas era pequena demais ou inútil demais. Julinho a arrastou por debaixo da pia, tirou o pedaço de queijo e se refastelou no onde quer que ele se enfiava, largando para trás a armadilha humilhada. Fiz o que se faz em momentos de tensão e desespero: entrei no Google. Com regojizo maligno, a nova arma foi descoberta, a receita fatal: Nescau com Cimento.

Não tendo cimento e não encontrando Nescau na hora, procurei por alternativas. Gesso com farinha de trigo - não tinha gesso, mas podia ser cal virgem em vez de. Cal virgem, então. Luva de plástico, um pouco de água no prato, enrolo bolinhos me preocupando no que pode ser grande demais para Julinho, como é que ele vai pegar na mão, etc. São quatro no fim, eu distribuo em locais variados da cozinha. A ideia é que ele coma aquilo, lhe dê sede, procure por água, beba, a água reaja com a cal e o mate por dentro. Deixo por conta disso um cantil apropriado, para seu conforto. Penso: engraçado que o procedimento para um assassinato se pareça em algum sentido estrutural com os cuidados do carinho. Me sinto o Dexter. Porém não adianta. Noutro dia vemos que o rato deu somente uma mordiscada, e só em um deles.

Repito o método com chocolate em pó (que encontrei enfiado nas profundezas do armário, já vencido) e a cal. Dessa vez, nem mordiscada. Chega de caseirice. Compro novo veneno, suficientemente ameaçador: três pacotes de sementes negras. Mantenho a dedicação e vario a mistura: uma vez ponho junto queijo, outra pedaços de pão. Julinho se delicia. Come o primeiro pacote todo. O segundo também. Estou na terceira dose do último dos pacotes, nove dias (?) após o início da ofensiva. Aparentemente um só bastaria para exterminar mais de um roedor - mas estavámos lidando com algo especial. Estou fazendo esse último ataque, pondo uma folha dessas revistas de supermercado no chão, em cima as sementes do mal, espalhados os pedaços de pão. Mais uma vez, vinte minutos depois todos os grãos estão descascados, não há nem farelo sobre o papel.

E então, quando pensamos que a batalha se estenderia indefinidamente, ele desaparece. Se morreu ou se fugiu, não sabemos. Não me deixou nem ao menos o alento de um bom final para esta crônica, que começou a ser escrita antes dele atacar a fruteira e emular Machado de Assis ("ao roedor, as batatas") e continuou ao longo e depois dos dias que tentei ficar no escuro quieto como um gato (tudo indica que os gatos ficam mais quietos) para vê-lo com o próprio olho. Julinho veio e viu. Então, se foi, absolutamente nada literário.

Duanne Ribeiro
São Paulo, 2/10/2012

 

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