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Quinta-feira, 7/2/2013
Para viver de literatura
Marta Barcellos

Minha amiga tem um sonho. Nova ainda, ela é cheia de sonhos. No entanto, já passou da idade de revelá-los - teme parecer ingênua. Pois minha amiga me faz perguntas sobre o mestrado em literatura que estou cursando, o que pretendo com ele, se minha carreira no jornalismo ajudou... Ajudou a quê? Ah, ela acha bacana hoje eu viver de escrever. Respondo que não é bem assim, que continuo sendo jornalista, e devo muito desse "ganhar a vida" ao jornalismo econômico. Minha amiga, claro, é poeta, e acha economia uma chatice.

O que ela quer saber, depois de ter começado e largado a faculdade errada, é como se faz para viver de literatura. No fundo, este é o maior de seus sonhos. Também tem o da pousada na praia - e quem não passou por este...

Achei que talvez pudesse ajudá-la. Nos últimos anos venho formando uma imagem do tal sistema literário: fiz algumas matérias, conheci escritores e pessoas ligadas ao mercado, passei a frequentar (poucos) eventos literários e ando pesquisando questões para o mestrado. Às vezes encontro alguém e penso: veja só, este vive de literatura. Como sonha minha amiga. Depois descubro que não é bem assim. O sustento vem de outra fonte.

Minha amiga, é verdade, tem algum apoio da família (em troca do quê?). Mas não é rica, do tipo herdeira. Em outros tempos, nos tempos em que eu tinha a idade dela, eu diria que deixasse de besteira e escolhesse uma profissão/trabalho para garantir sua independência financeira (e existe outra?).

Ah, a independência. Este sim, o meu sonho da juventude. Que os interesses culturais e artísticos se tornassem hobby, e somente quando houvesse tempo e condições para tal - era o que eu pensava. Importante mesmo era sair da casa dos pais (para quê, agora?), ter um salário, pagar as contas. Sobrando, compravam-se livros e discos. Um dia, quem sabe, uma casa de campo. Nela habitaria o sonho de escrever um livro, ou uma peça teatral - na aposentadoria...

Este Brasil onde não eram permitidos sonhos, vale ressaltar, era outro. Não tinha dado certo, jamais daria. Éramos todos sobreviventes da Ditadura e da inflação, e se estabilidade e futuro existissem, eles estariam num bom emprego no Banco do Brasil, como ainda pensa Felipão. Aliás, o técnico da seleção brasileira nem estava tão desatualizado assim em sua gafe - basta olhar em volta quanta gente ainda estuda para concurso público sem pensar em prazer ou vocação.

Mas minha amiga, como eu ia dizendo, é sonhadora, e nasceu neste Brasil em transição (para onde?), portanto não cogita desperdiçar sua criatividade e sua força de trabalho olhando o relógio de uma repartição. Observo a realidade à minha volta, as últimas notícias e indicadores econômicos, e acredito que ela tenha motivos para pensar assim. Se algo chamado Vale Cultura foi aprovado pelo governo federal e a economia criativa floresce no Rio de Janeiro, por que não daria para viver de arte hoje? Ou isso ainda seria exceção?

Foi assim que me flagrei pesquisando e pensando em conselhos para minha amiga, e para pessoas com o perfil e a idade dela. Observei e conversei com escritores, professores, gente que vive, se não da literatura, em torno dela. Gente, porém, que, quando indagada, prefere desaconselhar o seu caminho. Ah, um caminho difícil, dizem. Para persistentes. Para sofredores. Mas eu já ouvi esse papo no jornalismo, e dou um desconto. Há uma necessidade de valorizar o que se conquistou - no fundo, uma vaidade.

Mesmo assim, algumas respostas foram surgindo. Com doses esparsas de cinismo e amargura, é verdade, mas caminhos foram apontados. Vamos a eles:

1) Além de escrever, assuma como bandeira a promoção da literatura nacional, crie programas de leitura ou outras formas de incentivo capazes de atrair patrocínios e, principalmente, verbas públicas.

2) Depois de publicar alguns livros, ministre oficinas para aspirantes a escritores que sonham viver de literatura.

3) Migre para a literatura infanto-juvenil.

4) Seja experimental, ganhe prêmios, aprimore sua performance em público e passe a ser remunerado para participar de eventos literários.

5) Deixe a implicância e a preguiça de lado, invista numa carreira acadêmica na área de letras e concilie escrever literatura com a tarefa de preencher o currículo Lattes.

6) Seja flexível em relação a gêneros. Deixar os contos e os poemas de lado para escrever para televisão não significa que você se vendeu.

7) Deixe a implicância e a preguiça de lado, estude contabilidade e encare um concurso público. Não é de hoje que bons escritores são também funcionários com estabilidade e salário garantidos pelo estado.

8) Tenha uma editora, voltada para o mercado ou para a autopublicação de escritores que sonham um dia viver de literatura.

9) Além de escritor, seja crítico literário, depois de desenvolver uma boa argumentação sobre como é possível conciliar as duas funções eticamente.

10) Tenha outra profissão, uma "pra valer". Moacyr Scliar, 80 livros publicados, na hora de preencher o formulário do hotel, declarava como profissão: médico. Era verdade.


Marta Barcellos
Rio de Janeiro, 7/2/2013

 

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