busca | avançada
47877 visitas/dia
1,6 milhão/mês
Segunda-feira, 4/7/2011
Por um jornalismo mais crítico
André Forastieri

O jornalismo cultural que eu tento exercer desde 1988 é o jornalismo crítico. Ele tem uma única premissa: compromisso total com o leitor e nenhum com a criação ou seu criador. Fã é fã, jornalista é jornalista. Fã perdoa tudo. Jornalista não perdoa nada, ou não deveria.

As perguntas que o jornalista cultural têm de responder são só duas: primeiro, o objetivo da obra tem algum mérito? Segundo, o objetivo foi alcançado? Só. O resto é perfumaria. Vale para o impresso, vale mais ainda para a Web.

Até porque na rede, não é preciso descrever a música; qualquer um baixa. Não é preciso listar a filmografia do diretor, ou sua história, etc. Basta lincar para as melhores fontes de informação. E contribuir com o que interessa: uma visão pessoal, única, e implacável. Jornalismo crítico do século XXI: sem fronteiras, sem piedade.

É uma atitude radical. Exemplo: implica arrasar com a mais recente (e ruim) obra de um artista velhinho, respeitado e amado. Não interessa seu currículo. Interessa a obra.

O jornalismo crítico pode ser exercido na grande imprensa ou num blog lido por cinco pessoas. Não requer muito mais que saber escrever, curiosidade, uma cultura geral razoável. Não precisa saber tocar piano para escrever sobre música. É uma maneira de ver as coisas e se posicionar.

Copiar o que a assessoria de imprensa mandou não é jornalismo. Ecoar o consenso que compensa não é jornalismo. Se esconder no que pega bem não é jornalismo. Copy-paste não é jornalismo.

Álvaro Pereira Jr., comentando o livro Pós-Tudo (uma espécie de almanaque sobre a história da "Ilustrada", da Folha de S. Paulo, o mais influente caderno cultural da história da imprensa nacional, que cresci lendo e onde trabalhei entre 88 e 90), cutuca a preponderância do "jornalismo amigo e construtivo, participante de cena que cobre."

Este mestiço jornalista-fã frequentemente tem papel catalisador em novos movimentos culturais. O problema é que esta postura se tornou a característica dominante do nosso jornalismo cultural. Em outros países não é assim.

O que me fez querer ser jornalista é o jornalismo crítico. Ele estava presente na "Ilustrada" nas entrelinhas do "jornalismo amigo e construtivo" da fase Matinas Suzuki Jr./ Marcos Augusto Gonçalves (que queriam construir a obra junto com o artista, construir a política cultural junto com o governo etc.; "você era crítico e participante ao mesmo tempo", Matinas, pág. 118 de Pós-Tudo) e sua continuação, que veio dos anos 90 pra frente.

A não-"Ilustrada" era, em uma palavra, crítica. Uma meia dúzia de gatos pingados por década. Às vezes fazia barulho suficiente para estourar os tímpanos de quem estivesse de ouvidos abertos. Na minha adolescência, Paulo Francis e Pepe Escobar.

Mas a imprensa cultural dominante é e sempre foi a dos jornalistas artistas, ou jornalistas que são amigos de artistas ou sonham ser. Alguns poucos são brilhantes e catalisadores.

No mesmo texto, Álvaro cita Erika Palomino, cronista da noite e da moda, uma militante engajada na construção da cena, dos personagens e do negócio. Lúcio Ribeiro é o outro grande exemplo desta abordagem, em música, e muito forte na internet, com seu Popload.

Nossas cenas de moda e música seriam menos interessantes sem estes dois, que considero amigos. São certamente os jornalistas mais influentes da geração 90 da "Ilustrada". É uma pena que em vez de se espelhar no talento admirável de Lúcio e Erika, muita gente ignore a parte "jornalismo" de "jornalismo amigo e construtivo". Muitos blogs estão cheios de posts pagos, o crítico ganha uma grana extra como curador, a editora faz frila para a assessoria, todo mundo pega o seu com o governo, todo mundo se virando etc.

O Brasil precisa de mais jornalismo crítico, e não só na área cultural. Tem gente boa pintando, principalmente na internet, e tenho esperança que apareça mais.

Torço por uma explosão de seguidores de Kenneth Tynan, que Paulo Francis me apresentou na "Ilustrada". Tynan uma vez esculhambou um filme de Michelangelo Antonioni assim: "Nove décimos do trabalho do crítico é demolir o ruim para abrir caminho para o bom. Antonioni está bloqueando a rua".

Nada a acrescentar.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado na revista Continente Multicultural e no blog de André Forastieri (atualmente no portal R7), em maio de 2009. (Leia também "Por que a crítica, hoje, não é bem-vinda" e "A crítica e o custo Brasil".)

André Forastieri
São Paulo, 4/7/2011

 

busca | avançada
47877 visitas/dia
1,6 milhão/mês