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Sexta-feira, 20/1/2006
Colunismo em 2005
Julio Daio Borges

Desde que comecei um diário, aos 17 anos, em 1991, eu tenho mania de colocar as coisas em perspectiva. Para saber pra onde estou indo; para saber se estou avançando... Para, de repente, corrigir a trajetória.

Quando eu trabalhei em banco, como eu sempre gosto de contar, as avaliações eram obrigatórias. No último em que trabalhei, você tinha de se auto-avaliar para, só depois, ser avaliado pelo seu chefe, cara a cara. (O meu chefe sempre baixava as minhas notas...)

Então, aqui no Digestivo, eu mantenho a idéia fixa de anualmente olhar pra trás. É bom? É ruim? Vocês gostam? Sei lá. Pra mim, é necessário - e, como vou fazer de qualquer forma, resolvo publicar...

Nos "Digestivos" (aqui e aqui), eu faço mais uma retrospectiva, sem tanta valoração. Tento encaixar num contexto, mas não releio tudo pra saber se foi bem feito o trabalho. Nem dá... É mais pra eu me situar (e você se situar), culturalmente, em relação ao ano.

Aqui, nas "Colunas", eu ainda estou aprendendo a lidar - porque não tem uma organização prévia, uma sistemática... Eu olho o "conjunto" do ano todo e enxergo tudo meio nebuloso. Eu tento ordenar mas - acho que - em vão. Enfim, devo, novamente, tentar...

Lá vai.

No início de 2005, eu vejo que ainda estava, naturalmente, sob a influência de 2004. Meus primeiros temas giravam em torno de literatura, de autores novos... Eu acho que ainda achava que ia ser escritor (cada dia parece que acho menos...). Assim, tentava solucionar alguns enigmas.

Mais pro meio do ano, voltei ao assunto. Por conta da Flip (para mim, o grande "momento" literário da nossa geração); e por causa daquela bobagem que (ainda) é o Movimento Literatura Urgente...

Eu não sei se ajudei ou se atrapalhei meus colegas (?) escritores. Eu vejo como tão "erradas" todas essas coisas que eles fazem... Livros, principalmente. Em 2005, eu posso dizer que li os autores da geração 90 pra cá (vide a minha retrospectiva de "Literatura"). Não fui leviano; fui justo, basicamente, com a minha opinião de leitor.

A escrita está para a nossa geração assim como - acho - a música, a MPB, estava para a geração dos 60. Qualquer idiota achava que podia fazer letras e canções; hoje, qualquer idiota acha que pode escrever poemas, contos, romances...

Mas estou tergiversando.

Da "literatura", felizmente, eu passei, em 2005, para um assunto muito mais interessante (acho hoje): internet. A internet voltou com tudo em 2005. No Brasil e no mundo. O Digestivo "voltou" com tudo em 2005.

Aliás, eu reputo a minha produção frenética no ano passado (Colunas, Releases, Posts...) ao estímulo que recebi da própria internet: seja confirmando minhas idéias de anos; seja recebendo a confirmação pelos Leitores. Os acessos ao site, todo mundo sabe, estouraram. E eu vi que tinha razão no meu projeto de 5 anos.

Isso acontece poucas vezes numa existência humana: você apostar suas fichas numa coisa e ver aquilo se concretizando... Então vocês têm de me perdoar pelos meus arroubos. Como "nada se perde, nada se cria, tudo se transforma", a internet cresceu (e está crescendo) contra o establishment, contra o resto da mídia... E eu cansei de chutar o cachorro morto da imprensa-impressa em 2005...

Tanto que não vou falar mais nada. (Tá?)

Parece que nós passamos anos gritando pras pessoas que a internet era legal, que a internet era o futuro, que a internet era o ó do borogodó... Com a adesão que eu vi, mais emblematicamente no Brasil, ao Orkut (sim, ao Orkut), parece que nós vencemos a batalha. Chega de lutar por auto-afirmação.

Quem vai ter de lutar agora é o resto da mídia - para provar que continua legal, que tem algum futuro, que um belo dia pode voltar a ser... o ó do borogodó. Eu duvido; mas desejo boa sorte. É remar contra a maré - mas nós, da internet, remamos tantos anos... (Agora, senhores da mídia, experimentem do seu próprio remédio.)

Nada mais tenho a declarar sobre o caso.

Para aqueles que não agüentam mais me ouvir falando das maravilhas da "nova mídia", aviso, no entanto, que vou continuar escrevendo sobre tecnologia... Ainda tem muita coisa pra explorar. Muita coisa. E o melhor dos mundos pra quem escreve é ter bastante assunto.

E para os detratores do meu "egocentrismo", aviso que vou continuar relatando minhas experiências à frente do Digestivo... Pois, como disse sabiamente Paul Andrews - na sua coluna de despedida, depois de dezesseis anos cobrindo tecnologia no Seattle Times -, hoje, tão importante quanto falar de tecnologia, de Web, de internet é usar tecnologia, Web, internet. Não vou poder abandonar, portanto, o viés da minha própria experiência.

Lamento.

Como desisti - pelo menos por enquanto - dos temas ligados aos jovens escritores, desisti, de certa forma, dos "grandes temas" do jornalismo, ou, mais especificamente, dos Grandes Temas do Jornalismo Cultural: crítica, pautas, assessorias...

A mim me parece que todo mundo que se aventura pelo reino do "jornalismo cultural" tem de se declarar, em algum momento, contra o atual estado de coisas, como numa "declaração de princípios", como que para dizer "eu não concordo com a cobertura que se faz"... nos cadernos de cultura dos jornais diários, nas últimas páginas das revistas semanais.

Num certo sentido, é como se eu tivesse desistido da "causa" do jornalismo cultural. Eu, realmente, acho que ele não tem salvação no papel. Mas, ao mesmo tempo, não quero assumir mais que estamos buscando "uma saída" para ele aqui, no ambiente da internet, no Digestivo. A saída que eu procuro é muito mais para o Digestivo Cultural do que para o jornalismo cultural em si.

É bom? É ruim? É como é.

Os próprios jornalistas já desistiram, há muito, da causa do jornalismo...

* * *

Teoricamente, esses foram os velhos conceitos que nortearam a minha coluna até agora; e estes são os novos conceitos que vão norteá-la daqui pra frente. Só que não me cobrem coerência depois; porque eu mesmo me canso desse arcabouço - e acabo inserindo um tema pessoal ou outro (aqui e ali)...

Falando nisso, eu constatei, em 2005, que algumas pessoas efetivamente apreciam meu trabalho como Colunista - e, às vezes, até me incluem no seu ranking de "mais mais"... (Obrigado, obrigado.) Digo isso porque, antes, quando eu escrevia exclusivamente "Digestivos", ninguém falava que me lia, a mim, Julio. Hoje alguns me param na rua e me contam: "No Digestivo, eu leio você, o Fulano e o Beltrano (ou a Fulana e a Beltrana)".

Eu não sei - de novo - se isso é bom ou se é ruim, mas é uma indicação de posso estar acertando...

Julio Daio Borges
São Paulo, 20/1/2006

 

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