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Quarta-feira, 10/11/2010
Digestivo empreendedor
Rafael Fernandes

Escrever sobre os dez anos do Digestivo é, de maneira inevitável, elogiar. Não só pela qualidade e variedade dos textos, mas pelo empreendimento em si. Qualquer coisa que dure dez anos mantendo o nível já é um marco. Uma empresa que tenha esse tempo neste país é quase um milagre. Um site que se mantenha por tanto tempo, passando por todas as "novas tendências revolucionárias" da internet é um achado. Um lugar dedicado à cultura, no Brasil, que sobreviva por uma década beira o inexplicável.

Antes de mais nada, é necessário dizer que o Digestivo parece fácil de fazer. Essa é, em geral, uma qualidade das grandes coisas: parecer trivial, quando sua estrutura é exatamente o contrário. Só de pensar na quantidade de colunas cadastradas, comentários, e-mails recebidos, propagandas, newsletters, links, blog, pauta de especiais, entrevistas, códigos escritos, manutenção de banco de dados etc. já bate um cansaço... E tudo isso é arrumado e integrado para ser facilmente acessado.

Algumas pessoas podem não entender a dimensão deste site. Talvez por não terem parado para notar o quão valioso e inovador é o projeto. Ou por estarem do outro lado da equação e não poderem ver, por exemplo, como é bem sacada a interface de cadastro e controle de colunas e livros (que trocamos por colunas). Ou por nem notarem, ao ler os milhares de textos ― até por essa aparência de "fácil" ― o quanto de suor é preciso para levantar um site assim.

Dez anos não são dez dias. Algumas exceções da internet aliadas à ingenuidade de muitos vendem a mentira de que é possível estourar on-line do dia para noite. Não é assim. É, pura e simplesmente, muito trabalho (bem) feito, entre acertos e erros. Há quem só veja os defeitos, sempre. São os cínicos preguiçosos, que se escondem no conforto e impessoalidade de um comentário, um blog ou um e-mail e desvalorizam iniciativas de qualquer tamanho que alcançam algum prestígio.

O Digestivo é um produto (por que não?) de destaque que é uma lição de empreendedorismo: bem focado, construído aos poucos, quase artesanalmente, mas sem esquecer de processos (administrativos, entenda-se), padrões, organização e profissionalismo. E está sempre atento às mudanças do mercado. É pequeno de estrutura, mas grandioso de conteúdo. E, mais importante, em constante evolução ― esperamos que continue assim. O sucesso do dia para a noite demora uma década, já disseram. É uma frase que define bem qualquer iniciativa de sucesso e, claro, o Digestivo.

E para tentar contextualizar uma década, precisamos sempre lembrar que motivação é algo complicado. Como manter algo por tanto tempo? Continuar focado e empenhado em uma coisa só! Imaginemos quantas coisas tentamos fazer, ou pensamos em fazer, nos últimos dez anos. Quantos sonhos ficaram para trás, quantos planos ficaram perdidos em gavetas, quantas decepções floresceram, quantos erros cometemos ― e acertos, sucessos, e alegrias também, claro. Colocar nossa vida em perspectiva, lembrar tudo o que passamos pode nos dar uma ideia de quão complicado deve ter sido manter o Digestivo por tantos anos. Muitos devem ter sido os fatores que poderiam ter acabado com a empreitada. O encerramento de muitos sites interessantes, como o NoMínimo (que o Wellington notou neste texto), o fim de diversos jornais e revistas e a falta de exemplos brasileiros de sucesso na publicação de cultura (sem grandes editoras ou leis de incentivo) poderiam desestabilizar qualquer um. Méritos do Digestivo em achar suas saídas.

Tive o prazer de ouvir algumas histórias e pensamentos do Julio, editor-fundador do Digestivo, sobre a empreitada do site em alguns encontros entre os colunistas. E também num ótimo Tungcast que eu e o Diogo Salles fizemos com ele. É sempre uma inspiração. Vale para qualquer um, para qualquer coisa: lições de como focar, fazer escolhas, lidar com os erros e com as críticas. Saber valorizar as conquistas, mas também relativizar muitas delas, colocá-las em perspectiva e no seu devido contexto. Mas a lição principal é de que é possível conseguir viver de algo que se goste. Mas não vai ser fácil, serão muitos os sacrifícios e, repita-se, não será do dia para a noite. Muito menos do jeito que se imagina. A tal da capacidade de adaptação também surge como uma necessidade, mais do que uma qualidade. Se o Julio, sei lá, ficasse obcecado em lançar uma revista à velha maneira, muito provavelmente teria dado um tiro do pé. Apostar na internet, na colaboração e em aproveitar o que tinha no momento ― seu conhecimento de cultura e uma newsletter ― acabou sendo uma opção interessante. E talvez impensável na teoria. Se ele não tivesse começado e tentado, muito provavelmente não teria descoberto seu caminho.

Como já escrevi no especial de 2.000 colunas, comecei como um fã do Digestivo e acabei virando colunista. E continuo fã, claro. É um prazer participar dessa celebração de dez anos, contribuindo com uma coluna. É um daqueles momentos em que você para, pensa, respira fundo, sorri e tem aquela sensação de "como é bom estar aqui". Na correria do dia a dia não temos muitos desses momentos. Então, que celebremos quando os encontramos. Um brinde ao Digestivo e até a comemoração do vigésimo aniversário!

Rafael Fernandes
Araçoiaba da Serra, 10/11/2010

 

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