A inexistente Idade das Trevas | Digestivo Cultural

busca | avançada
29126 visitas/dia
1,1 milhão/mês
Mais Recentes
>>> SESC BELENZINHO RECEBE SHOW DE ZÉ GUILHERME QUE LANÇA QUARTO DISCO E COMEMORA 20 ANOS DE CARREIRA
>>> MOSTRA CENA SUL, DO SESC BELENZINHO, TRAZ ESPETÁCULO DO COLETIVO ERRÁTICA (RS)
>>> SESC BELENZINHO RECEBE MARIÂNGELA ZAN E JULIANA ANDRADE NO PROJETO MÚSICA DE RAIZ
>>> WANDER WILDNER FAZ SHOW DE SEU MAIS RECENTE ÁLBUM NO SESC BELENZINHO
>>> CCBB reabre teatro com espetáculo 'Vigiar e Punir'
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> K 466
>>> 2 leituras despretensiosas de 2 livros possíveis
>>> Minimundos, exposição de Ronald Polito
>>> Famílias terríveis - um texto talvez indigesto
>>> O Carnaval que passava embaixo da minha janela
>>> A menos-valia na poesia de André Luiz Pinto
>>> Lançamentos de literatura fantástica (1)
>>> Cidadão Samba: Sílvio Pereira da Silva
>>> No palco da vida, o feitiço do escritor
>>> Um olhar sobre Múcio Teixeira
Colunistas
Últimos Posts
>>> Por que ler poesia?
>>> O Livro e o Mercado Editorial
>>> Mon coeur s'ouvre à ta voix
>>> Palestra e lançamento em BH
>>> Eleições 2018 - Afif na JP
>>> Lançamentos em BH
>>> Lançamento paulistano do Álbum
>>> Pensar Edição, Fazer Livro 2
>>> Ana Elisa Ribeiro lança Álbum
>>> Arte da Palavra em Pernambuco
Últimos Posts
>>> Melodia
>>> Osmose Vital
>>> Dégradé
>>> Na rama
>>> Domingos de Oliveira (1936-2019)
>>> Latitudes & Longitudes
>>> Renovação
>>> Prefácio
>>> Descendências
>>> Nem mais nem menos
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Como eu escrevo
>>> Arte da Palavra em Pernambuco
>>> A profecia de Os Demônios
>>> Fotógrafa da Amazônia é destaque na Europa
>>> Sim, é possível ser feliz sozinho
>>> Eu sei o que é melhor pra você
>>> O fim da revista Bravo!, na editora Abril
>>> Generaciones de blogueros
>>> Os ombros suportam o mundo
>>> Lançamentos de literatura fantástica (1)
Mais Recentes
>>> No vai e vem da vida de Pedro Santiago/Dizzi Akibah pela Eme (2017)
>>> Brasil-Menino de Fátima Miguez pela DCL Difusão Cultural do Livro (2006)
>>> Sete Histórias de Pescaria do Seu Vivinho - Cordel em Quadrinhos de Fábio Sombra & João Marcos pela Abacatte (2011)
>>> Marilu de Eva Furnari pela Moderna (2012)
>>> Coligações e disputas eleitorais na Nova República de Silvana Krause, Carlos Machado, Luis Felipe Miguel orgs. pela Konrad Adenauer Stiftung (2017)
>>> Peças e engrenagens dos jogos políticos no Brasil de Adnré Marenco dos Santos, Igor Gastal Grill, Ernesto Seidl, Carlos Souza orgs. pela Oikos (2012)
>>> Mitos Gregos de Eric A. Kimmel pela WMF Martins Fontes (2017)
>>> Stay There - You Move - Completo de Vários Autores pela Klinos (2011)
>>> Fundaciones en el tiempo de Elsa Elida von Fehleisen pela Amalevi (1995)
>>> Em nome do amor de Lourdes Marconato/Maria Cecilia pela Correio Fraterno (2016)
>>> A Origem das Espécies de Charles Darwin pela Hemus (1994)
>>> O Noviço de Martins Pena pela Klick (1997)
>>> Poemas - Antologia comentada de Fernando Pessoa pela Leitura XXI (2015)
>>> As loucuras do rei de Jean Plaidy pela Record (1994)
>>> Anna de Assis: História de um Trágico Amor de Judith Ribeiro de Assis e Jefferson de Andrade pela Codecri (1987)
>>> A Muralha da China de Franz Kafka pela Clube do Livro (1968)
>>> A Princesa Leal de Philippa Gregory pela Record (2007)
>>> Teatro, Mujer y Latinoamérica de Maria Julieta Ambrosoni pela Editorial Tablado UberoAmericano (2000)
>>> Se Me Deixam Falar de Moema Viezzer pela Freitas Bastos (1981)
>>> Literatura Infantil: Estudos de Bárbara Vasconcelos de Carvalho pela Lotus
>>> A Vida de Disraeli de André Maurois pela Nacional (1957)
>>> Histoires dàmour de l´histoire de france de Guy breton pela Noir et blanc (1957)
>>> Pérola ao Sol: Apontamentos pra uma História de Guarujá - Dedicatória da Autora de Monica de Barros Damasceno e Paulo Mota pela P.m.g - D.e.c
>>> El agua en la industria textil de Juan b puig pela Jose monteso (1948)
>>> Fronteira Brasil/Venezuela encontros e desencontros de Aimbere freitas ms pela Corprint (1998)
>>> Dios nunca parpadea de Regina brett pela Planeta
>>> A Irmã de Ana Bolena de Philippa Gregory pela Record (2010)
>>> Memórias de um doente dos nervos de Daniel paul schereber pela Paz e terra (1995)
>>> Uma farmácia para a alma de Osho pela Sextante (2006)
>>> Xadrez sem mestre para principiantes de J carvalho pela O livreiro
>>> A Herança de Ana Bolena de Philippa Gregory pela Record (2010)
>>> Concepto rosacruz del cosmos la fraternidad rosacruz de Max heindel pela Kier (1987)
>>> O clube dos anjos - Gula de Luis Fernando Veríssimo pela Objetiva (1998)
>>> Cristo em cadeias comunistas de Richard wurmbrand pela Cpad (1980)
>>> O jogo do bicho como jogar e ganhar de Gehisa saldanha pela Ediouro (1986)
>>> O Bobo da Rainha de Philippa Gregory pela Record (2010)
>>> Vinho sem segredos de Patricia tapia pela Planeta (2004)
>>> Justificação estética do cinema de Gonçalves Lavrador pela Colecção movimento (1974)
>>> A velhinha de Taubaté de Luis Fernando Veríssimo pela L&PM (1983)
>>> Adelia bastos krefta de Minha alma gemea pela Santa monica (1999)
>>> Sinfonia da alma de Ana cristina vargas pela Vida e consciencia (2014)
>>> O Amante da Virgem de Philippa Gregory pela Record (2007)
>>> Reencarnação e imortalidade de Alexandra david-neel pela Ibrasa (1989)
>>> Introdução ao tarot e cabala de Samael aun weor pela Aef (2015)
>>> A morte é uma farsa por jose antonio de Ana cristina vargas pela Vida e consciencia (2011)
>>> Kit Atelier do Chocolate - Série Especial de Trish Deseine pela CookLovers (2019)
>>> Uma flor do nosso jardim pelo espirito nina arueira de Alceu costa filho pela Petit (2005)
>>> Celebrando com uma Princesa Judia de Georgie Tarn /Tracey Fine pela Senac (2012)
>>> The Fragility of Goodness: Luck and Ethics in Greek Tragedy and Philosophy de Martha C. Nussbaum pela Cambridge UP (2001)
>>> O diário de sofia pelo espirito nina arueira de Alceu costa filho pela Petit (2002)
BLOG >>> Posts

Sexta-feira, 29/6/2012
A inexistente Idade das Trevas

+ de 6200 Acessos

No ensaio "História do Humanismo e das Renascenças", Otto Maria Carpeaux prova, por A mais B, que considerar a Idade Média como uma "Idade das Trevas" não passa de preconceito caipira. (T.S. Eliot chamaria isto de "provincianismo temporal", coisa de quem se isola em seu próprio tempo e se torna cego para outras épocas.)

Leia trecho do referido ensaio:

O aspecto sentimental das ruínas romanas levou os humanistas a criarem o esquema tripartido da História Universal: Antiguidade, "séculos escuros" da Idade Média, Época Moderna, começando com o renascimento das letras clássicas pelos próprios humanistas. O êxito completo deste conceito historiográfico explica-se, em parte, pela admiração que já os eruditos medievais tinham à civilização romana: já o abade Servantus Lupus de Ferrières (+ 862) se congratula com o renascimento dos estudos latinos em sua época; o cluniacense Bernardus de Morlas, no seu poema didático De contemptu mundi (c. 1140), lamenta a falta de cultura do seu tempo, lembrando a civilização dos antigos romanos; entre muitos outros, Johannes de Garlandia (+ 1258) reconhece a superioridade intelectual dos pagãos da Antiguidade. Daí vai só um passo para o grito de júbilo do humanista: "O saeculum! o litterae! Iuvat vivere etsi quiescere nondum iuvat, Billlibalde, vigent studia, florent ingenia! Heu tu accipe laqueum barbaries, exilium prospice!" (Ulricus de Hutten, em carta a Willibald Pirkheimer, de 25 de outubro de 1518); essa consciência de ter saído enfim de um período de trevas decidiu o êxito do esquema tripartido da História Universal. Ao orgulho dos intelectuais juntaram-se outros motivos, de origem emocional: durante toda a "Idade Média", a forte reação contra a corrupção moral do clero levou a comparações menos lisonjeiras com a pureza da Igreja primitiva e às esperanças heréticas de uma "renovatio", de uma "Terceira Igreja", puramente espiritual: assim aconteceu com os franciscanos espiritualistas e joaquimistas dos séculos XIII e XIV. Enquanto os humanistas, buscando sempre as "fontes", estiveram interessados em questões religiosas, aprofundaram a comparação com a Igreja primitiva, de Poggio Bracciolini, no seu De miseria humanae conditionis, até Erasmo, com as suas edições do Novo Testamento e dos Padres da Igreja. A Reforma pensou ter vencido a "noite do Papado" (expressão de Lutero), e o esquema tripartido, com o seu duplo fundamento literário e religioso, sobreviveu ao humanismo e zelo reformador, gerando ainda no século XVIII a expressão "Dark Ages" (William Robertson), e dominando até hoje os manuais e a linguagem. Até no abismo absoluto que Oswald Spengler cavou entre a Antiguidade e a civilização moderna, reconhecem-se os vestígios da velha retórica.

A historiografia atual já não admite esse conceito; não existe cisão absoluta entre a Antiguidade e os séculos seguintes, e sim uma evolução contínua. Os historiadores dos séculos passados fixaram o "Fim da Antiguidade" em datas diferentes: em 375, pretenso começo das grandes migrações dos bárbaros, que, no entanto, haviam começado já muito antes; ou então em 476, ano do pretenso fim do Império Romano, que, no entanto, continuava no seu novo centro, Bizâncio. A análise imparcial dos fatos revela, ao contrário, uma solidificação das instituições e resíduos culturais da Antiguidade, no século VI. Com efeito, um cataclismo, uma catástrofe, nunca pode servir de data para o começo de uma nova era. A época pós-antiga do mundo cristão-ocidental começa com uma data de valor positivo: com a elaboração, no século VI, dos três grandes Códigos, nos quais a herança se cristalizou.

O século VI é a época das grandes codificações. Até mesmo o judaísmo termina então o imenso trabalho da codificação das suas leis pós-mosaicas tradicionais: o Talmude. A igreja ocidental, possuindo já um texto latino autêntico da Bíblia, a Vulgata de São Jerônimo, começa a organizar um corpo de escritos autentificados dos chamados Padres da Igreja: em 496 (a data não é certa), o Papa Gelásio I promulga a Epistola decretalis de recipiendis libris, na qual autentifica os opuscula de Cipriano, Gregório Nazianzeno, Basílio, Hilário de Poitiers, Ambrósio, Agostinho, Jerônimo e Próspero Aquitanense, constituindo assim o corpo patrístico que significa o aproveitamento da filosofia e da literatura greco-romanas a serviço da teologia cristã. Já por volta de 400, sob a influência de Ambrósio, conceitos cristãos tinham penetrado no direito romano (Collatio legum mosaicarum et romanarum); agora, o imperador Justiniano termina esse processo com a grande codificação que é principalmente obra do seu conselheiro jurídico Triboniano: o Corpus Juris é de 529 e a segunda edição, que inclui as Instituiones e os Digesta seu Pandectae, de 534; o conjunto é a criação literária mais poderosa do espírito romano - é o fundamento institucional do humanismo europeu.

Essas codificações marcam uma data e, ao mesmo tempo, uma delimitação. Religião judaico-cristã, ciência grega, direito romano: eis a herança da Antiguidade, lançando os fundamentos da civilização ocidental. As regiões e nações que não receberam aquela herança ficaram excluídas da comunidade ocidental, entrando nela somente século depois e em circunstâncias bem diferentes. E todas as outras influências alheias, que o Ocidente recebeu mais tarde, já não se incorporaram bem na nossa civilização; tornaram-se influências "exóticas". Nem os elementos de pintura chinesa que, trazidos pelos viajantes do século XIII, influíram em Giotto; nem as riquezas ornamentais da Índia que a arquitetura da época dos descobrimentos imitou; nem a abundância fantástica das Mil e uma Noites arábicas nem a pacífica sabedoria chinesa de que o Rococó gostava; nem o budismo que os pessimistas do século XIX apregoaram - nada disso entrou realmente em nossa civilização; continuou sempre "exotismo". A sorte dos documentos literários do Ocidente entre nós confirma a distinção entre o "exotismo" greco-romano, que faz parte da nossa cultura, e o "exotismo" oriental, que ficou fora dela. Há certas obras da Antiguidade clássica que ninguém conseguiu traduzir bem para as línguas modernas, como as de Píndaro; contudo Píndaro é uma das maiores e mais persistentes influências nas nossas literaturas. Das literaturas orientais recebemos e conservamos definitivamente apenas algumas poucas obras, traduzidas (se é lícita a expressão) de maneira antes inexata, razão por que se tornaram obras nossas. Hafiz é, para nós, um nome; as traduções exatas apenas servem de ajuda de leitura ao especialista; mas o Westoestlicher Diwan, de Goethe, só ligeiramente inspirado no poeta persa, é uma das grande obras líricas da literatura ocidental. Omar Khajjam é, para nós, menos do que um nome; as traduções literais só constituem a delícia dos bibliófilos; mas a tradução libérrima de Edward Fitzgerald, quase obra independente, é obra "clássica" da língua inglesa. E que mais? As grande coleções orientais de fábulas e contos, das quais as literaturas medieval e renascentista se aproveitaram, forneceram apenas matéria-prima novelística. As traduções de Li Tai Po que d'Hervey-Saint-Denys e Hans Bethge popularizaram, na França e na Alemanha, são belas poesias neo-românticas, nas quais os sinólogos são incapazes de reconhecer os originais. O que não provém daquela herança antiga, continua inassimilável; e com isso o conceito "Literatura do Ocidente" está justificado.

(...)

Renascença como marco decisivo da civilização ocidental: este conceito enquadra-se bem no esquema tripartido da História Universal, na qual deveria haver duas cesuras, a queda do Império Romano e a renascença de Atenas e Roma pelo esforço dos humanistas. Mas, que é a Renascença? O uso da expressão pelos historiadores foi inaugurado por Michelet e Burckhardt; o conceito, porém, é mais antigo. Os historiadores das artes plásticas no século XVIII tinham em consideração especial aqueles poucos artistas modernos - Leonardo, Miguel Ângelo, Rafael, Correggio, Ticiano - que pareciam dignos de participar das glórias da Antiguidade clássica. Os românticos gostavam de acrescentar o nome de Dürer, e até de alguns artistas posteriores, como Rubens, Van Dyck, e Claude Lorrain. São estes, mais ou menos, os nomes que definem o gosto artístico de Goethe. Segundo a opinião dos classicistas ortodoxos, a humanidade moderna é, em geral, incapaz de atingir o esplendor da arte antiga; contudo, a imitação assídua das obras de arte greco-romanas, durante o século XVI, teria produzido aqueles poucos artistas sobremaneira geniais, dignos de ser venerados no Panteão da arte clássica. Ao mesmo tempo, a historiografia literária dos românticos fez renascer as "literatures du Midi de l'Europe" (Sismondi): Ariosto e Tasso, Camões e Cervantes. Fortaleceu-se a opinião segundo a qual o século XVI teria sido época de uma prosperidade excepcional da civilização humana, já liberta das cadeias medievais pelo heroísmo geográfico de Colombo, pelo heroísmo religioso de Lutero e pelo heroísmo científico dos Copérnicos e Galileus; e tudo isto se devia ao estudo da Antiguidade pelos humanistas! No famoso livro de Jacob Burckhardt, porém a ênfase já é dada ao século XV. Com efeito, o trabalho principal dos humanistas pertencem a este século; e os italianizantes ingleses da época, os pré-rafaelistas, já tinham descoberto o esplendor maior das artes plásticas "antes de Rafael": Brunelleschi, Ghiberti, Donatello, Masaccio, Fra Filippo Lippi, Bellini, Mantegna, Botticelli e Perugino. O "Cinquecento" foi substituído, na admiração geral, pelo "Quattrocento". Mas o recuo do conceito historiográfico não parou aqui. Já na exposição de Burckhardt aparece, como "primeiro homem moderno", Francesco Petrarca, que nasceu em 1304: e começaram a celebrar, como pai da arte moderna, o grande Giotto, que nasceu em 1267, dois anos depois de Dante, considerado até então como o maior espírito da Idade Média, ser nomeado inaugurador da Renascença. O único obstáculo foi a questão religiosa: os homens da Renascença passaram por libertadores, enquanto que Dante foi o poeta máximo do cristianismo medieval, o poeta do tomismo; e a aversão à escolástica era muito forte. Mas já se havia chamado a atenção para as energias religiosas no movimento renascentista, mesmo em Erasmo; Thode explicou os elementos de espírito novo em Dante e Giotto pela influência da reforma religiosa de São Francisco; e Burdach construiu uma nova linha de evolução: "Humanismo - Renascença - Reforma", com o apogeu do humanismo no século XIV, em Petrarca e Cola di Rienzo, e com as raízes do movimento inteiro na religiosidade franciscana. Quase ao mesmo tempo, Duhem fez a descoberta surpreendente de que os conceitos da astronomia e da física modernas já se encontravam em nominalistas como Johannes Buridanus, Nicolaus Oresmius e outros escolásticos menos ortodoxos do século XIV. Desde então, o conceito "renascença medieval" já não parecia paradoxo. Afinal, Aristóteles é um dos espíritos mais poderosos da Antiguidade grega - e a assimilação da sua filosofia, no século XIII, por São Tomás e a sua escola, não teria sido uma renascença? A palavra já aparece com o artigo indefinido e no plural. Até uma época bem anterior revela ao estudioso conhecimentos tão amplos da Antiguidade clássica, que se fala de uma "renascença do século XII". A "Idade Média", considerada antigamente como época estática de ortodoxia petrificada, perdeu esse aspecto: apresenta-se com a nova característica de época de intensas lutas espirituais, com renovações periódicas, das quais a primeira foi a renovação dos estudos clássicos na corte de Carlos Magno: a "renascença carolíngia" do século IX. É possível continuar essa série de renascenças, para trás e para frente. A renovação do espírito romano no século VI, pela atividade legislativa do Imperador Justiniano, pela regra dos monges de São Bento, pelo governo autenticamente romano do Papa Gregório, o Grande, é uma renascença. Até na Roma do imperador Augusto, a revivificação da poesia grega por Horácio, Virgílio, e pelos poetas elegíacos, é uma renascença. São renascenças, posteriormente, o classicismo francês do "siècle de Louis le Grand", o classicismo alemão de Weimar, e até a ressurreição da "Antiguidade dionisíaca", em Nietzsche. Agora, já não é possível confundir atuação do espírito greco-romano no Ocidente com a conservação estática da herança antiga no islamismo: a história espiritual do Ocidente, segundo Mandonnet, é uma seqüência de renascenças.

Essas renascenças consecutivas constituem um fenômeno inquietante: tentativas sempre repetidas de apoderar-se da substância da civilização antiga; sempre repetidas, porque talvez sempre malogradas. Afirma-se a influência imensa das letras greco-romanas nas literaturas medievais e modernas. Parece, porém, que todas as épocas souberam escolher na Antiguidade apenas o que lhes era afim: cada época logrou somente criar uma imagem da Antiguidade segundo a sua própria imagem, de modo que já a época seguinte ficava na obrigação de abandonar o erro e incidir em novo erro. "Erros férteis", no sentido do pragmatismo. No fundo, a Antiguidade não influiu realmente nas literaturas modernas; só agiu como medida, como critério, e fato de, durante treze séculos, o critério da nossa civilização não ser imanente, mas encontrar-se fora, numa outra civilização, alheia e já passada, é a marca mais característica da cultura ocidental.



Postado por Yuri Vieira
Em 29/6/2012 às 18h08


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Ed Catmull por Jason Calacanis de Julio Daio Borges
02. Poesia em Xadrez, BH de Ana Elisa Ribeiro
03. Dostoiévski de Yuri Vieira
04. Umas Palavras: Diogo Mainardi de Julio Daio Borges
05. Ivan Lessa no Digestivo de Julio Daio Borges


Mais Yuri Vieira no Blog
* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




GUIA- EUROPE - LONELY PLANET (500)
SARAH JOHNSTONE E OUTROS
LONELY PLANET
(2007)
R$ 40,00



PAISAGENS DE SONHO E VERDADE
VALÉRIA SALGUEIRO
FRAIHA (RJ)
(1998)
R$ 20,82



O TOBOGÃ DE ARCO ÍRIS
ISABEL MACIEL
JOTANESI
(1989)
R$ 21,82



ATRIBUTOS DO SOLO E COMPOSIÇÃO BROMATOLÓGICA DE ESPÉCIES DA CAATINGA
JUSSARA TELMA DOS SANTOS, ALBERÍCIO P. DE ANDRADE UND IVANDRO DE F.DA SILVA
NOVAS EDIÇÕES ACADÊMICAS
R$ 454,00



SKANK AO VIVO OURO PRETO
SKANK
DVD VIDEO
R$ 20,00



O MAIS ESTRANHO DOS PAÍSES
PAULO MENDES CAMPOS
COMPANHIA DAS LETRAS
(2013)
R$ 30,00



AVALIAÇÃO ECONÔMICA DE PROJETOS AMBIENTAIS
ANA MILENA PLATA FAJARDO UND MÔNICA JOELMA ANATER
NOVAS EDIÇÕES ACADÊMICAS
R$ 251,00



MARTÍRIOS NA CADEIA SÃO JOSÉ
MAYARA ROBERTA SILVA ARAUJO
NOVAS EDIÇÕES ACADÊMICAS
R$ 349,00



THATS ALL ABOUT FAME - BOOK 02
SÉRGIO BARRETO
WISE UP
(2006)
R$ 17,28



O QUE A VIDA ME ENSINOU
WASHINGTON OLIVETTO
SARAIVA
(2011)
R$ 8,00





busca | avançada
29126 visitas/dia
1,1 milhão/mês