Um brasileiro no Uzbequistao (III) | Arcano9 | Digestivo Cultural

busca | avançada
71136 visitas/dia
2,4 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Oficina de Objetos de Cena nas redes do Sesc 24 de Maio
>>> Lançamento: livro “A Cultura nos Livros Didáticos”, de Lara Marin
>>> Exposição coletiva 'Encorpadas - Grandes, largos, políticos: corpos gordos'
>>> Clássicos da Literatura Unesp ganha mais cinco títulos
>>> Bertolt Brecht inspira ÉPICO
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> 2021, o ano da inveja
>>> Pobre rua do Vale Formoso
>>> O que fazer com este corpo?
>>> Jogando com Cortázar
>>> Os defeitos meus
>>> Confissões pandêmicas
>>> Na translucidez à nossa frente
>>> A Velhice
>>> Casa, poemas de Mário Alex Rosa
>>> Doutor Eugênio (1949-2020)
Colunistas
Últimos Posts
>>> Gente feliz não escreve humor?
>>> A profissão de fé de um Livreiro
>>> O ar de uma teimosia
>>> Zuza Homem de Mello no Supertônica
>>> Para Ouvir Sylvia Telles
>>> Van Halen ao vivo em 1991
>>> Metallica tocando Van Halen
>>> Van Halen ao vivo em 2015
>>> Van Halen ao vivo em 1984
>>> Chico Buarque em bate-papo com o MPB4
Últimos Posts
>>> Tonus cristal
>>> Meu avô
>>> Um instante no tempo
>>> Salvem à Família
>>> Jesus de Nazaré
>>> Um ato de amor para quem fica 2020 X 2021
>>> Os preparativos para a popular Festa de Réveillon
>>> Clownstico de Antonio Ginco no YouTube
>>> A Ceia de Natal de Os Doidivanas
>>> Drag Queen Natasha Sahar interpreta Albertina
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Itinerário de leituras on-line
>>> Sobre caramujos e Omolu
>>> Partilha do Enigma: poesia de Rodrigo Garcia Lopes
>>> Comum como uma tela perfeita
>>> Revista Meio Digital
>>> Do jornalismo como performance
>>> A Nova Revista da Cultura
>>> Aos nossos olhos (e aos de Ernesto)
>>> A Teoria Hipodérmica da Mídia
>>> Os prédios mais feios de SP
Mais Recentes
>>> Dicionário Oxford Escolar Para Estudantes Brasileiros de Inglês de Oxford University pela Oxford (2009)
>>> Breve história de sete assassinatos de Marlon James pela Intrínseca (2017)
>>> Carmen Portinho - Coleção Perfis do Rio de Ana Luiz Nobre pela Relume Dumará (1999)
>>> Relações Humanas Interpessoais nas Convivências Grupais e Comunitárias de Silvino José Fritzen pela Vozes (1987)
>>> Perdas Necessárias de Judith Viorst pela Melhoramentos (1988)
>>> Acima de Qualquer Suspeita - Presumed Innocent de Scott Turow pela Record (1987)
>>> Para Gostar de Ler 27 - Histórias Sobre Ética de La Fontaine Machado de Assis e Outros pela Ática (2003)
>>> Dia dos Mortos de Marcelo Ferroni pela Globo (2004)
>>> Kota de Richar Forsithe pela Nova Cultural (1989)
>>> O que é Arte? A polemica visão do Autor de Guerra e Paz de Tolstoi pela Ediouro (2002)
>>> As Cinco Estações do Corpo de João Curvo e Walter Ms. Tuche pela Rocco (2001)
>>> Valsa Negra de Patrícia Melo pela Companhia das Letras (2003)
>>> Um Fio de Esperança de Nancy Guthrie pela Mundo Cristão (2008)
>>> Oblomov de Ivan Alexandrovitch Gotcharov pela Germinal (2001)
>>> O Apanhador no campo de centeio de Jorio Dauster; Antonio Rocha; Alvaro Alencar pela Do Autor (2012)
>>> Auto-sentimento de Norberto R. Keppe pela Proton (1977)
>>> A Nova Dieta Revolucionária do Dr. Atkins de Roberto Atkins pela Círculo do Livro (1972)
>>> Fé e Liberdade - O Pensamento Eco. da Escolástica de Alejandro A. Chafuen pela Lvm (2019)
>>> Serenidade e Paz pela Oração de Rafael Llano Cifuentes pela Do Autor (2002)
>>> Trilogia de Cinquenta tons de cinza. Vol.1 , Vol. 2 e Vol. 3 de E L James; E L James; Maria Carmelita Padua Dias pela Intrinseca (2012)
>>> Quando Tudo Não é o Bastante de Harold S. Kushner pela Nobel (1999)
>>> Febre de Enxofre de Bruno Ribeiro pela Penalux (2016)
>>> Grandes e novas Invenções de Não informado pela Knorr
>>> No Início - Contos de Adriana Griner pela Biblioteca Pública do Paraná (2014)
>>> Parâmetros Curriculares Nacionais - Vol 6 de Não informado pela Arte (1997)
>>> O Alquimista de Paulo Coelho pela Rocco (1988)
>>> Namoro blindado: O Seu Relacionamento à Prova De Coração Parido EAN: 9788578607654 de Renato & Cristiane Cardoso pela Thomas Nelson (2016)
>>> Navegar é preciso de Anaína Amado; Ledonias Franco Garcia pela Atual Didáticos (1989)
>>> Conte-me seus sonhos de Sidney Sheldon pela Record (2000)
>>> Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis pela Globo/Klick (1997)
>>> O poder das afirmações positivas - Coleção Autoestima EAN: 9788575421680 de Louise Hay pela Sextante (2005)
>>> As Melhores Histórias de Princesas de Monica Rodrigues da Costa e Lidia Chaib Adaptação pela Publifolha (2000)
>>> Obras Completas De Machado De Assis - Vol 24. Crônicas 3º Volume (1871 - 1878) de Machado de Assis pela W. M. Jackson Inc. (1957)
>>> Obras Completas De Machado De Assis - Vol 23. Crônicas 2º Volume (1864 - 1867) de Machado de Assis pela W. M. Jackson Inc. (1957)
>>> A Viola Enluarada De Zequinha Piriri EAN: 9788526231771 de Rosana Rios pela Scipione (1997)
>>> Obras Completas De Machado De Assis - Vol 22. Crônicas 1º Volume (1859 - 1863) de Machado de Assis pela W. M. Jackson Inc. (1957)
>>> Obras Completas De Machado De Assis - Vol 21. Contos Fluminenses II de Machado de Assis pela W. M. Jackson Inc. (1957)
>>> Obras Completas De Machado De Assis - Vol 20. Contos Fluminenses I de Machado de Assis pela W. M. Jackson Inc. (1957)
>>> Obras Completas De Machado De Assis - Vol 19. Teatro de Machado de Assis pela W. M. Jackson Inc. (1957)
>>> Obras Completas De Machado De Assis - Vol 18. Poesias de Machado de Assis pela W. M. Jackson Inc. (1957)
>>> Obras Completas De Machado De Assis - Vol 17. Relíquias Da Casa Velha 2º Volume de Machado de Assis pela W. M. Jackson Inc. (1957)
>>> Obras Completas De Machado De Assis - Vol 16. Relíquias Da Casa Velha 1º Volume de Machado de Assis pela W. M. Jackson Inc. (1957)
>>> Obras Completas De Machado De Assis - Vol 15. Páginas Recolhidas de Machado de Assis pela W. M. Jackson Inc. (1957)
>>> O melhor de Hagar o horrível – vol. 3: 441 EAN: 9788525412195 de Dik Browne pela L&PM Pocket (2007)
>>> Obras Completas De Machado De Assis - Vol 14. Várias Histórias de Machado de Assis pela W. M. Jackson Inc. (1957)
>>> Dicionário Ilustrado da Língua Portuguesa 7 volumes de Antenor Nascentes pela Bloch (1972)
>>> Obras Completas De Machado De Assis - Vol 13. Histórias sem Datas de Machado de Assis pela W. M. Jackson Inc. (1957)
>>> Obras Completas De Machado De Assis - Vol 12. Papeis avulsos de Machado de Assis pela W. M. Jackson Inc. (1957)
>>> Obras Completas De Machado De Assis - Vol 11. Histórias Românticas de Machado de Assis pela W. M. Jackson Inc. (1957)
>>> Obras Completas De Machado De Assis - Vol 10. Histórias da Meia Noite de Machado de Assis pela W. M. Jackson Inc. (1957)
COLUNAS

Segunda-feira, 28/7/2003
Um brasileiro no Uzbequistão (III)
Arcano9

+ de 5900 Acessos
+ 1 Comentário(s)


A fronteira entre a Tashkent "uzbeque" (esq.) e a cidade "russa"

Tashkent, 02.06

A divisão geográfica da capital uzbeque é tão clara quanto a divisão humana entre russos e centro-asiáticos.

Levantei e peguei o luxuoso metrô. Quem nunca esteve em Moscou, Kiev ou Tashkent dificilmente consegue visualizar o que é um metrô soviético. Os líderes do Kremlin tinham a idéia de criar uma espécie de museu em cada uma das estações, investindo pesadamente em pisos de granito impecáveis, candelabros imensos, mosaicos luxuosos nas paredes. Cada estação parece ter um tema diferente, e todas são iluminadas por uma luz difusa, amarela, que dá a impressão de que, na verdade, você está em uma espécie de porão de algum palácio czarista, respirando ares de eternidade imutável na companhia de sofisticados detalhes decorativos. E os trens vêm e são pontualíssimos – um relógio marca quanto tempo se passou desde que o último parou na minha estação, e exatamente após sete minutos um outro se aproxima. Em Moscou, esse tempo é de dois minutos no horário de pico, e em Kiev, às vezes de quatro. Os três sistemas gêmeos de transporte subterrâneo, mais de dez anos depois da queda do rubro lábaro com a foice e o martelo, mantêm o que de melhor os soviéticos deram ao mundo. Emocionante. Não é sem motivo que senti um grande contraste ao, depois da minha pequena jornada por esse universo, subir as escadas rolantes e botar meus pés no Tchorsu, uma grande feira livre no noroeste da cidade.

É no Tchorsu que os uzbeques de Tashkent gritam aos ventos a força de seu patrimônio cultural. Um patrimônio que tem muito de persa, muito de árabe, muito de nômades do deserto e nada de russo. Há dezenas de mercados (também chamados de bazares) como o Tchorsu na cidade, mas ele é o melhor para se encontrar as senhoras vindas do Vale de Fergana, o reduto dos muçulmanos conservadores do país. Ou vindas de mais longe, de Khoresm ou de Karakalpakstan, duas regiões administrativas uzbeques engolidas pelo Deserto do Kyzylkum e pelos restos mortais do Mar de Aral, a centenas de quilômetros de Tashkent. Os olhos puxados e os sorrisos não são parte da mercadoria à venda. O mesmo vale para os cheiros deliciosos na parte do mercado onde são vendidos as especiarias e os pães non, um dos símbolos nacionais – em forma de disco, com bordas bem grossas e com desenhos feitos com a ponta de um garfo no centro, e ainda algumas sementes de papoula para dar um gosto especial. Os aromas circundam vastos continentes de produtos industrializados, que por sua vez ocultam mais mercadores com metros e metros da mais pura e colorida seda de Margilan, um dos centros de produção do tecido do Uzbequistão, no Vale de Fergana. Vi vários grupos de mulheres com seus vestidos de seda deslumbrantes, com tons surreais de branco, vermelho, verde e azul. Sentadas, lado a lado, sorrindo e exibindo orgulhosas seus trinta dentes de ouro, preenchendo completamente suas bocas e refletindo o sol do início de tarde. Há doces, há algodão não-industrializado, vindo diretamente das plantações. Há restaurantes improvisados que vendem churrasco, e a fumaça das grelhas se espalha, criando nuvens baixas que as pessoas têm que atravessar. Algumas áreas do bazar são cobertas, mas grande parte dos vendedores tem que enfrentar o calor de 32 graus sem sombra alguma. A maioria deles não tem barracas – estendem suas toalhas no chão mesmo e lá expõem seus produtos. Não há placas com preços, e o vendedor berrando, coisa tão comum nas feiras brasileiras, é raro. Mesmo se você o encontrar, certamente ele vai estar exaltando a qualidade de sua mercadoria, não o preço dela.

As cores do mercado Tchorsu

A razão disso é que não existem preços. Como em todos os países do Oriente Médio, a pechincha é uma espécie de esporte milenar, venerado secretamente como uma verdadeira religião. Pena que não sei falar russo direito, e muito menos uzbeque. Só comprei no Tchorsu um lindo pão non, tão grande e fofo que ainda não consegui terminar de devorá-lo. 200 sums, ou cerca de 20 centavos de dólar. Poderia tê-lo conseguido pela metade do preço ou menos.


A hospitalidade é comovente. Na madrassa Kukeldash, ao lado do Tchorsu, um estudante quase me abraçou quando disse que era turista e lhe pedi para ver o jardim do pátio interno, recheado de rosas. Depois, me mostrou uma pequena sala onde os estudantes colocam à venda peças de artesanato que eles mesmo produzem. Parece que o produto mais popular é um porta-corão de madeira, que pode assumir cinco posições diferentes. Você encaixa as peças móveis e o porta-corão fica mais baixo, mais alto, maior ou menor. O estudante me mostrou como mexer as peças para colocar o objeto nas cinco posições. Depois me convidou a tentar fazer o mesmo. Respondi que, se eu conseguisse fazê-lo, comprava o porta-corão. Obviamente não consegui, mas cheguei à conclusão de que colocar o objeto nas cinco posições o transformam numa espécie de mandala. Ou seja: antes de ler o Corão, o estudante de lei islâmica pode refletir sobre o poder de Alá percebendo os sutis movimentos e angulações do porta-corão, e ser inspirado pelos seus mistérios. Sim. Uma técnica sufi de iluminação.

A madrassa e o bazar marcam o início de uma área onde não há prédios imensos soviéticos, não há estátuas soviéticas, e nem metrô soviético. O que há além do Tchorsu são casinhas que aparentam ser muito, muito humildes. Elas são feitas muitas vezes de barro misturado com palha. Outras, de alvenaria simples, deixando transparecer tijolos. Algumas aparentam ser tão pobres que me fizeram pensar que, na verdade, eu estava numa favela. Essa impressão que tive em 2001 logo se evaporou quando meu tradutor me explicou que as pessoas que lá vivem são na verdade ricas, bem de vida. Um dos grandes segredos dos uzbeques é o que eles escondem atrás dos portões de suas casas, portões que um turista só cruza se for sortudo o suficiente para ser convidado para um chá ou um jantar. Por fora, as casas são nada, mas dentro sempre há um imenso pátio com árvores frutíferas e passarinhos, muita sombra e muito carinho. Comprovei espiando na fresta de um dos portões fechados: crianças brincavam lá dentro e uma mulher cozinhava ao lado, em uma sala coberta e com grandes janelas. A doce vida secreta uzbeque na cidade velha.

Uma pequena mesquita no coração da cidade velha de TashkentDifícil navegar pelas ruas estreitas e empoeiradas. Procurando por uma antiga madrassa, finalmente me deparei com os primeiros turistas nesta parte de Tashkent. Eram dois franceses jovens, um mais baixinho e loiro e outro alto e moreno. Faziam uma dupla engraçada, e era impossível não perceber que eram visitantes de uma terra distante. Perguntei a eles se falavam inglês e responderam com empolgação que sim, brevemente interrompendo a seção de fotografias de um detalhe perdido da rua. Me indicaram o caminho de Khast Imom. Não imaginava que os veria de novo.

A indicação estava certa. O Khast Imom é um complexo que inclui uma madrassa, uma mesquita, um mausoléu e instituto de estudos islâmicos. A madrassa, chamada Barak Khan, abriga hoje o equivalente islâmico de uma arquidiocese de quatro países: Uzbequistão, Turcomenistão, Tadjiquistão e Quirguistão. Imagine uma catedral no meio da favela da Rocinha – é mais ou menos a impressão que se tem. Não que o prédio da madrassa ou da mesquita sejam grandiosos. Pelo contrário: o Khast Imom é muito mais modesto do que se espera. Nada de mosaicos grandiosos. No pátio interno da Barak Khan, entrei sem fazer barulho e vi as rosas e abelhas refletindo o sol que passava pelas sombras das amoreiras. Muito bonito. Enquanto admirava o jardim, um funcionário do local mostrou que seu radar para turistas estava bem calibrado. Chegou rápido. “Fala uzbeque? Russo? Inglês? De onde você é?” perguntou o gordinho bronzeado, aparentando ter uns 25 anos.

Respondi a suas perguntas em inglês, e ele mostrou conhecer bem a língua. “Brasil? Futebol? Ronaldo!”, sorriu. O cartão de visitas do futebol é infalível, pensei eu. Ele disse que já havia encontrado brasileiros visitando o complexo, e eu fiz uma cara de espanto. “Foi há muito tempo, umas poucas pessoas vieram”, explicou. Depois, numa ironia para um estudante de religião, me perguntou se eu tinha dólares para trocar no mercado negro, porque ele poderia me ajudar. Agradeci, disse que não, e lhe perguntei sobre o Khast Imom. “Aqui na Barak Khan ficam escritórios. Você pode olhar. Lá do outro lado da rua fica a mesquita Telyashayakh.” Eu disse que já havia dado uma olhada na madrassa e lhe perguntei sobre a mesquita e sobre o seu grande tesouro, guardado na biblioteca ao lado. O tesouro que atrai pessoas de muito longe. “Sim, ele está lá”, disse o estudante. “O velho corão. Mas você não pode ver, infelizmente. O bibliotecário está doente, e a biblioteca está fechada.”

O corão em questão é considerado o mais velho que existe. Chama-se Corão de Osman. Diz a lenda que o tomo pertenceu ao califa que lhe deu o nome, Osman, o terceiro sucessor de Maomé. No ano de 655, ele foi assassinado em Medina, e o seu sangue teria manchado as páginas do livro. Em 661, Ali, primo e genro de Maomé, foi assassinado, abrindo caminho para que os sucessores de Osman voltassem ao poder no Califado. Esses fatos estão na raiz da principal divisão na religião muçulmana. Os seguidores de Ali passariam a ser conhecidos como xiitas, e os seguidores da linha ligada a Osman, de sunitas. As lendas sobre o livro continuam: antes de morrer, Ali o teria levado para a cidade de Kufa, hoje no Iraque. Lá ele teria permanecido até o século XIV, quando Tamerlão conquistou a região e decidiu trazê-lo para sua capital, Samarkand. Em Samarkand ele teria permanecido mais alguns séculos, até que os russos chegaram. Em seguida, o livro teria sido vendido para os russos, que o transportaram para um museu em São Petersburgo. Só muito tempo depois o Corão de Osman seria devolvido e passaria a ser guardado no Khast Imom, apenas para que eu, que viajei de tão longe, não pudesse vê-lo. Que bom que outros viram.

And there it was. It resembled no other Koran I had seen. It bore no ilumination, nothing exquisite at all, but was strong and utilitarian, with the beauty of something primitive. It lay mounded on itself in separate pages: thick, deerskin leaves. The script flowed long and low over them, like a fleet of galleys going into battle. The strokes were broad and strong. They belonged to the harshness of history, not embroideries of faith.
- Colin Thubron, The Lost Heart of Asia

Com lendas e imagens que nunca testemunhei na cabeça, um tanto chateado, fui devagar tomando meu caminho de volta à Tashkent russa. Peguei o metrô novamente e, enfrentando um calor que me fez passar mal, fui ver o colossal Palácio da Amizade dos Povos – uma regalia arquitetônica, bastante evidente, dos tempos soviéticos. Vastas paredes de concreto cinza, com uns 10 metros ou mais de altura, projetadas para vencer a eternidade. Pensando bem, você não precisa de coisas tão gigantescas para vencer a eternidade. Você precisa de boas histórias.

Bebi uma Coca-cola. Adeus Tashkent, por ora, esta é minha despedida. Amanhã parto para o oeste. Para longe.


O monumental (e horrível) Palácio da Amizade dos Povos

(Continua aqui)


Arcano9
Londres, 28/7/2003


Quem leu este, também leu esse(s):
01. O amor é um jogo que ganha quem se perde de Carina Destempero
02. Só Cronista se Explica de Joca Souza Leão
03. Um Oscar para Christopher Nolan de Rafael Rodrigues
04. O fim do futebol-arte? de Humberto Pereira da Silva
05. Inhotim: arte contemporânea e natureza de Jardel Dias Cavalcanti


Mais Arcano9
Mais Acessadas de Arcano9 em 2003
01. Quem somos nós para julgar Michael Jackson? - 10/2/2003
02. Um brasileiro no Uzbequistão (V) - 8/9/2003
03. Um brasileiro no Uzbequistão (III) - 28/7/2003
04. Um brasileiro no Uzbequistão (I) - 30/6/2003
05. Um brasileiro no Uzbequistão (II) - 14/7/2003


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
25/8/2003
13h37min
Olá! Sou professora de Geografia. Meus alunos estão estudando o continente asiático. Por isso, preparei uma atividade para ser trabalhada com a reportagem 'UM BRASILEIRO NO UZBEQUISTÃO'. Gostei muito do ponto de vista do repórter, infelizmente, não consegui descobri o nome do brasileiro. Vocês poderiam me informar?
[Leia outros Comentários de Estela Moreno]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




GOOGLED A HISTÓRIA DA MAIOR EMPRESA DO MUNDO VIRTUAL - 9234
KEN AULETTA
AGIR
(2011)
R$ 10,00



LARGADA PARA O INFINITO A HISTÓRIA DE CABO CANAVERAL
WILLIAM ROY SHELTON
FUNDO DE CULTURA
(1963)
R$ 10,00



RIR AINDA É O MELHOR REMÉDIO
ROBERT HOLDEN
BUTTERFLY
(2005)
R$ 10,00



GRANDE DICIONÁRIO BRASILEIRO DE CONSULTAS E PESQUISAS ILUSTRADO VOL VI
NÃO INFORMADO
NOVO BRASIL
(1979)
R$ 10,00



HOW TO LEARN A FOREIGN LANGUAGE
GRAHAM E. FULLER
S/N
R$ 10,00



PLANTAS QUE CURAM - CUIDE DA SUA SAUDE ATRAVES DA NATUREZA
FREDERICO MOREIRA
HEMUS / LEOPARDO
(2000)
R$ 10,00



KAFKA PARA SOBRECARREGADOS
ALLAN PERCY
SEXTANTE
(2012)
R$ 10,00



CONFEITARIA DUKAN - AS SOBREMESAS DO MÉTODO DUKAN - 3188
DR. PIERRE DUKAN
BEST SELLER
(2013)
R$ 10,00



GLOBALIZAÇÃO PARA TODOS
MARCOS ANTONIO MACEDO CINTRA, GIORGIO ROMANO SCHUTTE E ANDRÉ REGO VIANA
IPEA
(2010)
R$ 10,00



MATERIALISMO HISTÓRICO E CRISE CONTEMPORÂNEA
OTTO ALCIDES OHLWEILER
MERCADO ABERTO
(1985)
R$ 10,00





busca | avançada
71136 visitas/dia
2,4 milhões/mês