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Segunda-feira, 30/6/2003
Um brasileiro no Uzbequistão (I)
Arcano9

+ de 6200 Acessos

Tashkent, 31.05

Estou muito, muito nervoso com esta viagem. Agora há pouco, chegando a Tashkent, olhei pela janela do avião e me veio de novo aquela sensação de insegurança por não saber falar a língua local, por estar sozinho. Mas, ao mesmo tempo, sinto que esse medo está fundido com o desafio, com a vontade de domar este lugar tão difícil de conhecer, sem a companhia de ninguém. Sabendo que, provavelmente, meus amigos nunca virão para cá.

"Você vai para o Uzbequistão, de férias? Por quê?", muitos deles me perguntaram. "Tem alguma coisa para fazer lá?", refraseou, no mesmo espírito, meu irmão. Para quase todos, é a mesma reação que vem à tona: se há tantos lugares para se visitar, por que ir para o centro da Ásia, para um país que faz fronteira com o Afeganistão, onde há suspeita de atividade de extremistas islâmicos, onde a natureza foi destruída pela ânsia industrial dos tempos soviéticos? A resposta vem desde os tempos de Marco Polo, o mercador italiano que, tendo sido o primeiro ocidental a realizar a jornada à China e voltar, escreveu em seu diário sobre as belezas secretas de uma certa cidade chamada Samarkand. Enfrentar a rota da seda, antes do avanço das navegações no final do século 15, era a única forma de difundir nos ricos mercados europeus as especiarias e todo o exotismo daqueles mundos cheirosos, coloridos, que povoavam o imaginários de espanhóis, ingleses e vênetos. Um mundo distante, perdido em meio a desertos desconhecidos, em meio a mares sem mapas, em meio a povos e clãs que nunca ouviram falar de nosso universo.

A viagem foi sem problemas. Em Londres, fazia muito sol, mas foi só o avião entrar no leste da Europa para começar a só sobrevoar nuvens. Vim de Aeroflot, a temível empresa aérea russa que, numa incomum manifestação de anacronismo, mantém a foice e o martelo em seu logotipo. Contudo, tudo foi bem mais tranqüilo do que pensei. Os atendentes de bordo foram simpáticos - algo realmente estranho, vindo de russos. Pena que a comida não me agradou muito. Tanto na viagem Londres/Moscou como no trecho Moscou/Tashkent, o prato principal foi peixe, sem nenhuma opção disponível. E peixe não é, exatamente, minha carne favorita.

No impronunciável aeroporto de Moscou, senti um pouco do gostinho do drama da língua. Tive um probleminha na transferência de um vôo para outro, algo meio inevitável. Na hora de falar com alguém e pedir informações, até me senti confiante, mas foi só a pessoa responder para eu perceber que o grande problema é entender o que as pessoas falam. Ninguém, obviamente, fala devagar. Principalmente se você é um estrangeiro, e ainda mais se você deixa claro que sabe um pouco, bem pouquinho, de russo. E conhecimento de inglês na Rússia, mesmo num aeroporto internacional, é ainda pior do que no Brasil: alguns falam sim, mas falam mal, muito mal. Ao chegar a Tashkent, a coisa piorou. Uma daquelas heranças ridículas dos tempos soviéticos é a necessidade de preencher um formulário, ao chegar ao país, dizendo exatamente quanto dinheiro você tem. Mas, ao chegar ao aeroporto da capital uzbeque, não encontrei formulários em inglês - só em uzbeque, alemão e russo. Tentei encarar o russo, só para depois de dois minutos largar a toalha e pedir para um funcionário procurar, pelo amor de Deus, o tal do formulário em inglês no almoxarifado. O pedido, aliás, foi em russo. O russo que, mais do que nunca, percebi que só me ajudaria em caso de desespero.

Fui apresentado a Tashkent em 2001. Fiquei na cidade por três dias para fazer uma reportagem sobre os dez anos do final da União Soviética. Já naquela época, a grande motivação da minha visita foi literária. Eu havia proposto a reportagem, e a visita ao Uzbequistão, após ler o divino Imperium, um livro de memórias do polonês Ryszard Kapuscinsky, publicado no Brasil pela Companhia das Letras. No livro, Kapuscinsky, considerado por muitos o maior correspondente de guerra vivo, descreve uma viagem que fez por vários países soviéticos do centro da Ásia no auge da União Soviética, e depois narra uma viagem parecida que fez em 1989, quando a colossal estrutura do politburo moscovita começou a ruir, vítima do reformismo de Mikhail Gorbachov. As descrições das mesquitas de Bukhara e as reflexões sobre a beleza sobrenatural dos monumentos de Samarkand se mesclaram à visão de Marco Polo. E, na minha cabeça, todo o patrimônio persa, turco e grego da região se tornou ainda mais atraente, imaginando que o Uzbequistão foi um dos locais mais distantes onde ecoou a revolução bolchevique. Até que ponto aquela cultura secular havia sido afetada pelo ideal comunista? Até que ponto o povo havia mudado? Isso o que fui investigar.

O que descobri foi uma sociedade dividida: cidades com partes claramente russas e partes claramente uzbeques; comunidades tadjiques e originárias de outras partes da ex-União Soviética deslocadas de seu território pela infame política de miscigenação imposta por Stalin. Descobri um governo que lembrava muito o poder isolado do Kremlim, e também um povo simpático, às vezes inocente, às vezes maculado pela febre do capitalismo ainda fresco, vindo como um vento forte, encarnado nos turistas cada vez mais numerosos.

Tashkent, vindo para cá para o hotel, me passou a mesma impressão da primeira vez. Me sinto, de alguma forma que não sei explicar direito, em uma cidade do interior de São Paulo. As árvores e o mato nas calçadas, a cor da luz dos postes, o vazio das ruas à noite, até o cheiro da brisa... Parece que, a qualquer momento, vou cruzar com um ônibus da viação Mantiqueira, fazendo o trajeto de alguma cidade do Vale do Paraíba para a rodoviária do Tietê. Sou tomado por um ar interiorano, no meio da noite; mas, ao mesmo tempo, as avenidas imensas e os detalhes dos prédios, mosaicos e pinturas geométricas, me dão a certeza de que estou numa terra muito, muito distante.

Estou cansado. Cheguei às 2h30 e amanhã tenho que levantar antes das 10h30 para arrumar minhas coisas e pegar o café da manhã, que só é servido até as 11h. Faz calor. Espero que não tenha mosquito no quarto. Parece que tem.

(Continua aqui)


Arcano9
Londres, 30/6/2003


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