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Segunda-feira, 30/1/2006
Blogs: uma ficção
Furio Lonza

+ de 10200 Acessos
+ 1 Comentário(s)

Como o próprio nome diz, o blog é uma espécie de vômito, uma elucubração visceral que cava fundo e tira do mais íntimo do ser as mais recônditas idiossincrasias do jovem escritor em potencial, é um corte cirúrgico & embriônico, um mantra caseiro que ressalta no dia-a-dia a escala de valores intestina que todos nós gostaríamos de aflorar. Nesses portais para iniciados, com um teclado na mão & algumas idéias na cabeça, o autor se desnuda em textos fragmentários e quase sem enredo aparente.

Antes, essas confissões só estavam acessíveis a um pequeno e seleto grupo de membros pertencentes a enrustidas confrarias e principalmente aos vizinhos de mesas de bar; hoje, com o advento da tecnologia de ponta, que socializou essas informações via Web, todos podem se regalar com as tiradas & sacadas geniais dos autores de blogs. Enganam-se, porém, os que acham serem essas agendas cibernéticas simples altares do Ego, elas representam a mais pura democracia a serviço do comunismo de idéias e da reflexão.

Walk on the wild side

Nesses redutos individuais, podemos depreender, assim, na mais pura casualidade, que os autores são sempre outsiders: bebem, fumam, vomitam, ouvem música, dormem tarde, trepam muito, compram livros e CDs em sebos, criticam, se expõem, se abrem, citam, extrapolam, reverenciam, são transgressivos, possuem uma falta de apego crônico e ácido em relação a bens materiais. Os homens são durões & amorais; as mulheres são duronas & amorais. Não são sociáveis, fazem tábula rasa dos conceitos pré estabelecidos, adoram botecos e lambanças generalizadas, vivem nas baladas, são referenciais, detestam estereótipos, poderiam ser rotulados de neo-naturalistas pós-modernos. Mas eles detestam rótulos.

Em geral, os bloggers estabeleceram seu quartel general em São Paulo ou Rio de Janeiro, assim, na maior casualidade, não porque pretendam ganhar dinheiro ou serem reconhecidos nas ruas, pois eles não têm o menor ranço de vaidade, mas pelo simples fato de que as metrópoles ainda exercem um certo fascínio, um brilho. Em seus locais de origem, jamais poderiam ousar com tanta desenvoltura: lá, eles sempre foram vistos com certa cautela pelas hostes mais conservadoras justamente pelas idéias libertárias que brandiam nas rodinhas, pois são cidades muito provincianas, cristalizadas em preconceitos milenares.

E eles sabem o que querem: é difícil encontrar um autor de blog que não goste de Keith Harring, Tom Waits, Tarantino, Stooges, Will Eisner, Patti Smith, John Fante, Morphine. Ficamos sabendo assim, na maior casualidade, de seus gostos particulares, de suas intempéries etílicas, de suas rebordosas, de suas proezas sexuais, dia a dia, homeopaticamente, pois inclusive são feitos em forma de diário. Exemplo: “2 de agosto de 2004. Acordei com dor de cabeça. Botei um bootleg do Maluco Beleza na vitrola, pois ainda gosto de vinil. Procurei o potinho de bicarbonato na despensa, mas não encontrei. Despejei um denso suco de tomate que demorou uma eternidade para sedimentar-se no copo e não dei a menor bola para aquele bando de ovelhas que vinham da cozinha em minha direção. Aquele pôster alucinógeno da parede da sala me proporcionou a primeira ânsia de vômito do dia. Aquilo me deixou bem claro o que eu vinha imaginando: a pizza do dia anterior estava estragada”. Tipo assim.

Come as you are

Na maior calma, o autor moderno de blog se coloca de corpo inteiro, fala de suas preferências, ficamos sabendo como ele pensa, o que evita, sua filosofia de vida sempre extrapola o bom senso, pois, como se sabe, o exagero é a principal característica de uma vida nômade e ébria. Ele deixa claro que é contra alguma coisa. Ou todas as coisas. Eles são o que são. Para os bloggers, Literatura & Vida são faces da mesma moeda, se imbricam de tal maneira que fica difícil, muito difícil separá-las, como em Rimbaud. Poesia, uísque, cerveja, sexo, sarcasmo, bandas de rock, jazz, maconha, insatisfação, piadas, tequila, vagabundagem, cu, pau, porra, menstruação, boquetes, mundo pop, irreverência, comida trash, sarjetas que fedem a bourbon barato, seriados antigos de TV, minas bêbadas, fodões & bundões, quadrinhos, vizinhas peladas no chuveiro, violência, anarquia, cigarro. Tudo é mote. Tudo é motivo. Tudo é tema. Parecem cavernosos personagens saídos de um roman noir americano da década de 40.

O fascinante nos blogs reside justamente nisso: eles revitalizam os valores simples, as pequenas coisas do cotidiano, reestruturam um minimalismo perdido, criam exercícios de imaginação existencial que transcendem as parcas regras de conduta da sociedade imediatista, resgatam uma vida de ascetismo puro, genuíno e transparente. É o regresso à anima arquetípica universal.

The first cut is the deepest

Mas aí, aconteceu, todos se lembram. Foi por volta de 2000 e pouco: aquele vírus talibã atacou todos os computadores do mundo, embaralhou os sites, os e-mails, os portais & os blogs, trechos de um foram parar em outro, os nomes dos bloggers se confundiram, poemas e minicontos ficaram no limbo, textos órfãos sofreram simbioses e corruptelas, opiniões foram retalhadas e se amalgamaram; o que era crítica virou elogio, citações perderam as aspas, quem gostava de Kurt Weil passou a enaltecer Karen Carpenter, tremendas fodas transgressivas eram sublinhadas pela trilha sonora de Supertramp, quem citava John Cassavetes na maior casualidade passou a se referir com o maior respeito ao seriado Friends.

A ação dos hackers foi impiedosa. Atacaram na fonte. O tumulto se generalizou nos bunkers niilistas, não houve AntiSpam que resolvesse o fuzuê. Mas ninguém percebeu, os jornais não comentaram; leitores, curiosos, fãs e screenagers aficionados continuaram a ler os blogs como se nada tivesse acontecido. Dado o fato como consumado, os autores pararam de espernear e silenciaram sobre o fenômeno. Afinal, o importante eram as idéias e não a autoria, as opiniões nos blogs eram semelhantes, as referências, parecidas. E isso foi o mais bonito de tudo: o despojamento total, uma ode ao anonimato. Sem o menor traço de presunção ou soberba, todos passaram a escrever para os blogs dos outros e assinando coisas que não eram suas, como num ensandecido revival dadaísta.

All along the watchtower

Duas semanas depois, contudo, deu-se a segunda reviravolta: agastados pela mesmice, os autores se deram conta da ingenuidade desses textos coletivos pois, como se sabe, nada melhor do que encampar blogs dos outros para que a luz de alerta se acenda. E passaram a ler Dostoiévski e Camus para adensar a trama; procuraram em Flaubert uma maneira de aprimorar a técnica ficcional; Balzac e Stendhal vieram em auxílio no sentido de verticalizar a psicologia dos personagens. As blogueiras começaram a se interessar por Carson McCullers, Elizabeth Browning, Edith Wharton e Sylvia Plath para explorar fundo a alma feminina e sofisticar a dicotomia entre determinação & ousadia. A análise dos prazeres e desventuras da vida cotidiana alcançou um patamar jamais imaginado, alimentando um traumatismo no ambiente físico.

Novas formas romanescas criaram vertentes sólidas, o ceticismo deu lugar a críticas embasadas em conceitos e perspectivas, o prosaico ganhou tons do verdadeiro horror por trás da face atraente das coisas. Os autores dividiram-se em categorias: havia os que se embrenhavam na baixeza moral do coração humano; havia os que exploravam os símbolos da alienação do homem no universo hostil; proliferaram autores de alta sensibilidade e lirismo que derivaram em metáforas de solidariedade e humanismo; os estilos bifurcaram-se: havia desilusão & angústia, mas havia também altos momentos de virtuosismo, sonhos, esperanças e alegria.

A partir daí, a literatura brasileira, buscando inclusive suas raízes, floresceu, inundou as livrarias, novos leitores surgiram e eclodiu um novo boom. Hoje, ela voltou a ser respeitada, foi traduzida no estrangeiro e, como todos sabem, ganhamos enfim o tão sonhado Prêmio Nobel.

Good times, bad times

Só mais recentemente, por volta de 2010, no intuito de renovar a postura, revitalizar os valores simples, reestruturar o minimalismo perdido, resgatar uma vida de ascetismo puro e regressar à anima arquetípica universal, é que surgiram jovens escritores em potencial que voltaram a fazer blogs. Em textos fragmentários e quase sem enredo aparente, eles exploram o prosaico do cotidiano em diários cibernéticos, onde bebem, fumam, comem pizzas estragadas, vomitam, trepam muito. Tem uísque, tem cerveja, tem sarcasmo, bandas de rock, jazz, maconha, insatisfação, piadas, tequila, vagabundagem, cu, pau, porra, menstruação, boquetes, mundo pop, irreverência, comida trash, sarjetas que fedem a bourbon barato, seriados antigos de TV, minas bêbadas, fodões & cuzões, quadrinhos, vizinhas peladas no chuveiro, violência, anarquia, cigarro...

Nota do Editor
Ensaio gentilmente cedido pelo autor. Publicado originalmente na revista de poesia e cultura Sibila, nº 8-9, de 2005 – que traz um CD com renomados poetas recitando seus próprios versos. Texto também autorizado pelo editor, Régis Bonvicino. Furio Lonza é autor de Eric com o pé na estrada e Máquina de Fazer Doidos, entre outros.


Furio Lonza
São Paulo, 30/1/2006

Quem leu este, também leu esse(s):
01. Henry Ford de Monteiro Lobato
02. O sebo ideal de Mayrant Gallo
03. A arte de citar de Pedro Maciel


Mais Furio Lonza
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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
30/1/2006
06h53min
Ai ai...! Mais um q parece acreditar q todo blogueiro começou a ler os clássicos ontem...
[Leia outros Comentários de Claire]
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