Raspas e restos de 2005 | Mario Sergio Conti

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Segunda-feira, 27/2/2006
Raspas e restos de 2005
Mario Sergio Conti

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Escolha a alternativa: o fato de 2 Filhos de Francisco ter sido a maior bilheteria do cinema no Brasil e elogiado pela maioria dos críticos é o sinal mais espetacular de que 2005 foi: a) um ano formidável ou b) um ano horrendo para a arte e a cultura nacionais.

Os que cravaram a primeira alternativa, os integrados, dirão que 2 Filhos de Francisco marca o triunfo de um certo tipo de filme nacional (de apelo popular e de bom acabamento), capaz de suplantar os Harry Potters e King Kongs. Capaz de mostrar, no seu enredo, que o empenho e o trabalho duro compensam. Capaz de afirmar que os valores aprendidos na infância e no meio rural são as melhores armas para sobreviver e se dar bem nas metrópoles decadentes. O filme celebra, pois, a capacidade da cultura e da arte em servir de contraponto às durezas e bandalheiras da vida brasileira real.

O filme provaria que, estruturalmente, o Brasil existe, não seria apenas uma subcolônia incapaz de ter expressão própria. O País seria complexo o bastante para contrapor determinado produto ao sistema da cinematografia de massa, que tem matriz americana. Se 2 Filhos de Francisco levasse ainda o Oscar de melhor filme estrangeiro, os integrados teriam motivos de sobra para festejar a incorporação positiva do Brasil no capitalismo globalizado.

Os que escolheram a alternativa B, os apocalípticos, notarão que 2 Filhos de Francisco marca o triunfo de uma estética, de uma política e de uma concepção de mundo que podem ser resumidas numa única expressão: Rede Globo. O filme, conservador na forma e no conteúdo, não ilumina nem analisa criticamente a situação nacional. Nem sequer a reflete. Ele a comemora. O filme, afinal, adota como valor fundamental a conciliação do patriarcalismo com o sistema das celebridades (os filhos querem ser ricos, e portanto célebres) e admite a corrupção como estratégia de melhora de vida (o pai manipula um sistema de votação, no concurso promovido pela emissora de rádio, para que os filhos sejam os vencedores).

Nessa linha, o filme seria uma mercadoria cultural que celebra o que o Brasil se tornou, o País onde a ascensão social é um assunto de família, e não social, e para obtê-la vale tudo.

"Celebrar" é a palavra-chave. Ela pertence ao repertório tanto de quem elogia como de quem aponta a empulhação de 2 Filhos de Francisco. Como é difícil celebrar o presente nacional (falência do governo, corrupção e complacência em todo o sistema político, persistência da concentração de renda, crescimento econômico medíocre), a comemoração se volta para o passado. Trata-se de uma celebração especial e musical.

Desde os anos 30, a música popular é elemento decisivo da formação nacional. Modinha, marchinha carnavalesca, samba, bossa nova, tropicalismo, toada, rock, canção romântica ou de protesto, punk - a música de feição urbana comentou, satirizou e interpretou a história brasileira. Em 2 Filhos de Francisco ela está presente. Mas, numa vertente menor, aquela saltou direto da idiotia rural para a idiotia da indústria cultural: a música das duplas sertanejas. É a horrenda canção sertaneja que, no filme, serve de coração num país sem coração e faz às vezes de ópio do povo. Sua mensagem é oca e rebarbativa: "É o amor!"

Em 2005, só uma determinada música tentou se haver com o presente, o rock "Vossa Excelência", dos Titãs. Ela botava senadores, magistrados, ministros, deputados, vereadores num mesmo saco e os chamava de bandidos, corruptos, ladrões e f. da p. Em que pesem a virulência e o xingatório, o rock afundou em lago plácido, sem formar marolas. A ausência de repercussão de "Vossa Excelência" é índice da pasmaceira provocada pela política oficial. Os tempos não são de revolta. São de conformismo e adaptação.

Restou à música brasileira se voltar para o passado, por meio de veículos que lhe são exteriores ou servem de apêndice, como o cinema e o DVD. É o caso do documentário Vinicius, que foi visto por mais gente do que seus produtores imaginavam, foi aplaudido em boa parte de suas sessões e obteve um imenso sucesso de estima. O filme de Miguel Faria Jr. não pode, de maneira alguma, ser comparado a 2 Filhos de Francisco. Ele não é uma mercadoria, para começar. Seu objeto, o poeta e compositor Vinicius de Moraes, é um dos grandes artistas brasileiros do século passado. E o documentário tem um razoável grau de complexidade, oferecendo uma imagem multifacetada do poeta (refiro-me, principalmente, aos depoimentos de Antonio Candido e à parte do depoimento de Chico Buarque, na qual ele se indaga como Vinicius encararia a atual quadra da vida cultural brasileira). Ainda assim, Vinicius é um filme celebratório, satisfeito consigo mesmo e com seu assunto. O Vinicius de Moraes que surge na tela é o surrado estereótipo do artista boêmio, do bêbado simpático cuja vida foi um suceder de casos engraçados. O artista é tratado como celebridade.

No documentário de Miguel Faria Jr., Chico Buarque observa que Vinicius de Morais teria dificuldades com a vida cultural brasileira contemporânea. Ele afirma que o poeta era uma criatura livre, no sentido que não se atinha a compromissos nem planejava muito seus próximos passos. A noção de carreira lhe seria um tanto estranha. Já o que impera hoje é a noção de cálculo. Praticamente tudo, inclusive obras de arte e criações intelectuais, é feito com o intuito de atingir determinado alvo, que não é primordialmente estético. O que se quer, mesmo, é vender e enriquecer, mesmo que o artista precise, ele mesmo, se tornar uma mercadoria, uma celebridade. Esse mundo de hoje não seria o de Vinicius.

A observação tem sua razão de ser, dado o comercialismo crescente da vida artística. Mas ela é parcial. Vinicius não viveu há mil anos. O comercialismo, na sua época, tinha já os contornos definitivos e as ambigüidades que se observam hoje. Esse comercialismo, essa máquina de moer humanidades para celebrizá-las, foi tematizada pelo próprio Chico Buarque na peça Roda Viva.

Chico Buarque também lançou em 2005 uma mercadoria bem representativa da malemolência cultural do ano. Foram nada menos que duas caixas, com seis DVDs, que, a pretexto de repassar sua obra musical, na verdade festejaram sua personalidade. Os DVDs só não são absolutamente caça-níqueis porque a obra de Chico Buarque segue de pé mesmo nos esquemas mais comerciais. E também porque, no futuro, elas servirão de testemunho para sua carreira. Mas é constrangedor acompanhar as cenas, em Paris, nas quais o compositor desfila com inacreditáveis sobretudo e chapéu cinza-claro. E tome Paris, Roma e o Rio ao pôr-do-sol.

Se a música popular se calou em 2005, nem por isso seus mamutes se calaram. Caetano Veloso e Milton Nascimento encenaram aquele que foi o pior show deste e de muitos anos. Gilberto Gil, no papel de ministro da Cultura, cantou, dançou, sambou, rebolou e macaqueou a si mesmo em dezenas de shows pelo mundo afora. No falatório, quem sobressaiu foi um compositor de segunda linha, Fagner. Ele disse que os artistas brasileiros "ficam gritando Lula lá!, Lula lá! e, depois que o Lula faz essa c... toda, não aparece quase ninguém para comentar".

A frase é grossa e verdadeira. Só que a situação mudou. Os artistas não vão mais aonde o povo está. Vide o referendo sobre o uso de armas. Lá estavam as figuras carimbadas de sempre, oriundas da Globo e adjacências, embaladas no piedoso pacifismo do Viva Rio, defendendo a proibição do comércio de armas. Foram vexatoriamente derrotadas.

Aos 47 minutos do segundo tempo, consagrou-se uma cantora, Ana Carolina, cujas músicas não dá para escutar, mas que teve seus dez minutos de celebridade ao admitir sua bissexualidade com uma indagação retórica: "Sou bi, e daí?" De fato, e daí? No Brasil do mensalão, nada choca mais. A arte e a cultura deslizaram, como a política, para o terreno da irrelevância.

Da irrelevância e também da baixaria. Com argúcia afiada, o jornalista Sergio Augusto observa que Chico Buarque foi vítima do sistema de celebridades que ele próprio denunciou, numa entrevista na Europa. Aqui, deu-se mais destaque à bela morena com que o compositor apareceu, e trocou carícias, na Praia do Leblon, do que ao que disse sobre a crise política (que a crise do governo despertou os piores preconceitos, sociais e racistas, da sociedade nacional). Já Caetano Veloso, um extraordinário manipulador da mídia, viu seu casamento com a empresária Paula Lavigne explodir em praça pública, quando ela arrebentou o portão do prédio dele a golpes de BMW blindada.

Assim foi a cultura brasileira em 2005. Tão medíocre quanto o País.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Publicado, originalmente, no suplemento “Aliás”, de O Estado de S.Paulo, em 1º de janeiro de 2006. Mario Sergio Conti é jornalista e foi diretor de redação da revista Veja e do Jornal do Brasil. É autor do livro Notícias do Planalto.


Mario Sergio Conti
São Paulo, 27/2/2006

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