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Segunda-feira, 16/6/2008
Machado polímata
Jacyntho Lins Brandão

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Machado no traço de Fraga

Escreveu Heráclito (segundo Diógenes Laércio): "polimatia não ensina sabedoria" (ou "inteligência"), pois, ele prossegue, "teria ensinado a Hesíodo e Pitágoras, a Xenófanes e Hecateu". Debite-se o aforisma à melancolia do filósofo (que chora) e a seu desejo de separar-se da acumulação de saberes que encontra em colegas como Hesíodo, o qual poetou desde sobre os primeiros deuses até a agricultura e a navegação, fazendo "uns dias bons e outros maus", por ignorar "como a natureza de cada dia é uma e a mesma", pois "tudo é um", "o contrário é convergente" e dos "divergentes [é que] nasce a mais bela harmonia". Não se trata, como se vê, de negar a contradição e a divergência, mas de definir uma partilha: há os que se põem do lado do um ("de todas as coisas um e de um todas as coisas"); há os que se voltam para a polimatia do múltiplo.

É neste último clube que incluo Machado de Assis, fazendo-me logo entender. Um: não quero dizer que os aliados de Heráclito também não saibam muito, apenas que se trata de pendores diferentes (uns são holistas; os outros, particularistas). Dois: não é preciso desclassificar uns para classificar os outros, pois há bons pendores de lado a lado: se o grande Machado é particularista, o não menos grande Guimarães Rosa decerto é holista. A diferença: enquanto este último dá a entender que "de todas as coisas um" etc., ao outro o um pouco interessa, basta-lhe cada coisa. Aquele busca "a" sabedoria. O outro, polimatia.

Uma passada de olhos na fortuna crítica leva a constatar que só de um polímata poderia haver leituras tão variadas. Já se escreveu sobre Machado de Assis funcionário público (Magalhães Júnior), psiquiatra (José Leme Lopes), socialista (Roberto Schwarz), religioso (Hugo Bressane), utopista (Massaud Moisés), frasista (Angela Canuto), filósofo (Nivaldo Manzano), historiador (Sidney Chaloub), cético (José Raimundo Maia), satirista (Álvaro Marins), abolicionista (Eduardo Duarte) ― e até, há pouco (com Gustavo Franco), sobre Machado economista (apenas para insistir no contra-exemplo: alguém teria como tratar da economia em Rosa?). Essa abertura um tanto exagerada que Machado dá para tanta diversidade deve ser tomada não só como casual, mas sintoma de algo que estará no cerne de seu programa de escritor, de leitor e pensador. Os indícios disso é que me proponho perseguir aqui. Não sem antes precisar três pontos.

Três precisões
A primeira, que, tratando-se de um escritor, a polimatia é irmã xifópaga da poligrafia. Não tanto no sentido de alguém que escreve muito (o que se aplica também a Machado), como que escreve sobre muitas coisas ― porque lê coisas variadas e serve ao leitor essa variedade. O polígrafo costuma ser autodidata ― como em grande parte Machado foi ― ou seja, lê sem um programa definido (muito menos de caráter escolar) e freqüenta parcelas de conhecimentos e reflexões. Daí a impressão de alguém que em nada crê nem descrê, mas toma sempre distância para ver (ler) melhor. O aforisma heraclíteo, "os olhos são testemunhas mais exatas que os ouvidos", é transportado por escritores como Machado para a esfera da leitura ― como assevera sua personagem Dona Úrsula, em Helena: "não entendo bem o que os outros me lêem; tenho os olhos mais inteligentes que os ouvidos".

Segundo ponto: Machado decerto se inclui na seqüência de polígrafos (nos dois sentidos) como Plutarco, Luciano, Aulo Gélio, Erasmo, Montaigne, Diderot e Voltaire (já em A mão e a luva ele se declarava "o Plutarco dessa dama ilustre", ou seja, trata-se de uma escolha genealógica que vem dos primeiros tempos). Mas também "descende da raça" dos aforistas, esses "caçadores", conforme Augusto Meyer, cuja paixão é "um esporte abstrato, jogado com palavras": Pascal, La Rochefoucauld, Vauvenargues, Leopardi, Schopenhauer.

Finalmente, se a polimatia esteve em outros momentos nos livros de polígrafos e aforistas, na época de Machado tinha migrado para jornais e revistas (donde depois partiu para o rádio e a televisão, como, hoje, se encontra na internet). A crônica é sua forma por excelência, mas recorde-se que as publicações seriadas acolhiam também ficção: muitos dos contos Machado publicou-os assim e foi na Revista brasileira que primeiro apareceram as Memórias póstumas de Brás Cubas. A técnica fragmentada da narrativa, que se radicaliza a partir deste livro, deverá muito à forma do folhetim, não comportando mais os extensos capítulos, por exemplo, de Iaiá Garcia.

Dois entenderes
Caso se concorde que o polímata, enquanto leitor, tem a inteligência nos olhos (é um tipo de voyeur), na medida em que se torna escritor, age como exibicionista. Daí o gosto por citações, alusões e reminiscências postas intencionalmente na superfície do texto. Essa técnica de composição, que é bastante evidente nas crônicas, comparece igualmente nas obras de ficção. Nessas, mais que premissa só do narrador (ou de narradores-personagem como Brás Cubas e o Conselheiro Aires), ela também faz parte da competência das personagens tout court: em Ressurreição, por exemplo, a anedota do "astrólogo antigo que, estando a contemplar os astros, caiu dentro de um poço" (transmitida por Esopo e aplicada a Tales por Platão), é trazida, por Félix, ao diálogo a propósito dos "livros de imaginação" (isto é, de ficção), para levar à conclusão de que a vida não é "senão uma combinação de astros e poços, enlevos e precipíos" ― e de que, agora a voz é de Lívia, "não há livros detestáveis nem ótimos. Deus os dá conforme a ciência de cada um."

Esse narrador que exibe um conhecimento um tanto difuso parece ter como objetivo fazer com que o leitor adquira, ele também, inteligência visual: "é um privilégio do romancista e do leitor ver no rosto de uma personagem aquilo que as outras não vêem, ou não podem ver", afirma-se em A mão e a luva, prosseguindo-se então: "no rosto de Guiomar podemos nós ler..." Ver e ler são operações correlatas, sendo para a percepção do que é a outros invisível (logo, ilegível) que o narrador que se expõe pretende chamar a atenção. Daí sua necessidade constante de expor igualmente o leitor, como faz Machado por toda parte, a exemplo de na mesma obra: "um leitor perspicaz, como eu suponho que há de ser o leitor deste livro, dispensa que eu lhe conte os muitos planos que ele [Estêvão] teceu, diversos e contraditórios". Ora, seja em que nível for, as citações, alusões e reminiscências têm como destinatário esse leitor cuja perspicácia de visão (e leitura) cumpre trabalhar, para que, reconhecendo que há sempre, no texto, muitos planos, diversos e contraditórios, também exiba, no reconhecimento, sua parcela de polimatia.

A "nota semanal" publicada por Machado em 1º de setembro de 1878, a propósito dos atropelos nas eleições em Paquetá, serve para mostrar como isso se processa. Começa-se com alusão à ilha dos Amores, suposta invenção de Camões até que se descobriu, agora, ser ela "nada menos que a ilha de Paquetá". Logo o autor se explica: "Entendamo-nos; não digo que em Paquetá haja Leonardos, nem que ali vá ter a caravela de nenhum Gama. Há um falar e dois entenderes. O que digo é que, no ponto de vista eleitoral, a nossa ilha vale a de Camões". Segue então a descrição invertida dos tumultuados sucessos (que elevam o lugar a um plano fictício), com cada qual votando no adversário, fraudando em benefício do outro partido, protestando contra o resultado favorável a si e elegendo candidatos de outra paróquia. Então, ele completa: "Ri-se o leitor? (...) Não sei, entretanto, se poderá explicar de outro modo o fato de (...) Paquetá dispensar a força que lhe mandaram, certa de fazer uma eleição pacífica. Este procedimento faz crer que Paquetá é o seio de Abraão".

Ora, é porque para um falar é preciso buscar pelo menos dois entenderes que se justifica não só o apelo à ilha de Camões, como, em outros lugares, à "ponta da orelha trágica de Shakespeare", às lágrimas de Xerxes, aos "mares de Homero" que, diferentemente dos de agora, "podeis sacudir Ulisses, mas não lhe dais as aflições do enjôo". Colhidas por seu valor, as remissões são contudo despidas da sacralidade que possam ter para conformarem-se à dicção machadiana e a novos entenderes, o que permite até que Paquetá possa vir a ser (ironicamente) o "seio de Abraão".

(Alg)uma sintaxe
A famosa resposta de Pedro e Paulo à pergunta sobre sua idade (um: "nasci no dia em que Sua Majestade subiu ao trono"; outro: "nasci no dia em que Pedro I caiu do trono") confirma que para tudo há mais de um entender. Com efeito, em Esaú e Jacó, romance da plena maturidade, pode-se perceber com toda clareza o programa perseguido por Machado desde o início. Nunca a polimatia foi tão ampla, abraçando toda a tradição: Ulisses e Aquiles, Esaú e Jacó, Pedro e Paulo, Castor e Pólux são nomes e epítetos aplicados aos gêmeos, a provar que nem gregos, nem judeus, nem cristãos ― nem mesmo o ovo de Leda era assim tão um quanto aparentava.

Foi isso também que aprenderam Prometeu, Aasverus e Brás Cubas, no que pareceria, à primeira vista, algum exercício holístico de abarcar princípio e fim, mas termina na dispersão do meio: "cada século trazia a sua porção de sombra e de luz, de apatia e de combate, de verdade e de erro, e o seu cortejo de sistemas, de idéias novas, de novas ilusões". Como já dizia o Sr. Antunes, em Iáiá Garcia, "debaixo do sol, nem tudo são vaidades, como quer o Eclesiastes, nem tudo são perfeições, como opina o Doutor Pangloss". Mesmo sobre um simples bacilo, "Hippocrate dit oui, et Gallien dit non".

Porque assim são os homens é que se exige um leitor (como Luís Garcia) "de boa casta, dos que casam a reflexão à impressão": "quando acabava a leitura, recompunha o livro, incrustava-o, por assim dizer, no cérebro; embora sem rigoroso método". Dessa forma, "podia colher a flor ao menos de cada coisa". Noutros termos: compor seus próprios florilégios. Ou, nos do Comendador X, proceder a "uma verdadeira digestão literária". Não é outro o método machadiano: um processo digestivo que desagrega o lido, para servir ao leitor o que foi colhido. Nesse sentido, os aforismas de Brás Cubas (postos "entre parêntesis"), são uma espécie de extrema radicalização: "Suporta-se com paciência a cólica do próximo"; "Não se compreende que um botocudo fure o beiço para enfeitá-lo com um pedaço de pau. Esta reflexão é de um joalheiro" etc. Heráclito teria razão? Pura polimatia, nenhuma sabedoria?

Uma advertência e um prefácio auxiliam-nos no esforço final de responder a essa pergunta. Este, de Páginas Recolhidas: "Montaigne ['Quelque diversité d'herbes qu'il y ayt, tout s'enveloppe sous le nom de salade'] explica pelo seu modo a variedade deste livro". Aquela: "Este título de Papéis Avulsos parece negar ao livro uma certa unidade (...). A verdade é essa, sem ser bem essa. (...) São pessoas de uma só família, que a obrigação do pai fez sentar à mesma mesa". Enfim, existe a teoria do filósofo que se dirige a Alexandria (um desses lunáticos machadianos que se entregam a uma idéia fixa como a única chave para o entendimento de tudo), teoria segundo a qual "os deuses puseram nos bichos da terra, da água e do ar a essência de todos os sentimentos e capacidades humanas. Os animais são as letras soltas do alfabeto; o homem é a sintaxe".

Agudo aforisma: a sintaxe é o homem. Machado. O leitor. Constatação que abre todas as possibilidades. Contra a melancolia do filósofo que chora o um, a polimatia do também filósofo (por que não?) a que diverte a inteligência variada de cada coisa.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado no Suplemento Literário de Minas Gerais, na edição especial em homenagem a Machado de Assis.


Jacyntho Lins Brandão
Belo Horizonte, 16/6/2008

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