Uma certa inocência | José Saramago

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Segunda-feira, 15/12/2008
Uma certa inocência
José Saramago

+ de 6600 Acessos
+ 2 Comentário(s)

Durante muitos anos Jorge Amado quis e soube ser a voz, o sentido e a alegria do Brasil. Poucas vezes um escritor terá conseguido tornar-se, tanto como ele, o espelho e o retrato de um povo inteiro. Uma parte importante do mundo leitor estrangeiro começou a conhecer o Brasil quando começou a ler Jorge Amado. E para muita gente foi uma surpresa descobrir nos livros de Jorge Amado, com a mais transparente das evidências, a complexa heterogeneidade, não só racial, mas cultural da sociedade brasileira.

A generalizada e estereotipada visão de que o Brasil seria reduzível à soma mecânica das populações brancas, negras, mulatas e índias, perspectiva essa que, em todo o caso, já vinha sendo progressivamente corrigida, ainda de que de maneira desigual, pelas dinâmicas do desenvolvimento nos múltiplos sectores e actividades sociais do país, recebeu, com a obra de Jorge Amado, o mais solene e ao mesmo tempo aprazível desmentido. Não ignorávamos a emigração portuguesa histórica nem, em diferente escala e em épocas diferentes, a alemã e a italiana, mas foi Jorge Amado quem veio pôr-nos diante dos olhos o pouco que sabíamos sobre a matéria.

O leque étnico que refrescava a terra brasileira era muito mais rico e diversificado do que as percepções europeias, sempre contaminadas pelos hábitos selectivos do colonialismo, pretendiam dar a entender: afinal, havia também que contar com a multidão de turcos, sírios, libaneses e tutti quanti que, a partir do século XIX e durante o século XX, praticamente até aos tempos actuais, tinham deixado os seus países de origem para entregar-se, em corpo e alma, às seduções, mas também aos perigos, do eldorado brasileiro. E também para que Jorge Amado lhes abrisse de par em par as portas dos seus livros.

Tomo como exemplo do que venho dizendo um pequeno e delicioso livro cujo título - A descoberta da América pelos turcos - é capaz de mobilizar de imediato a atenção do mais apático dos leitores. Aí se vai contar, em princípio, a história de dois turcos, que não eram turcos, diz Jorge Amado, mas árabes, Raduan Murad e Jamil Bichara, que decidiram emigrar para a América à conquista de dinheiro e mulheres. Não tardou muito, porém, que a história, que parecia prometer unidade, se subdividisse em outras histórias em que entram dezenas de personagens, homens violentos, putanheiros e beberrões, mulheres tão sedentas de sexo como de felicidade doméstica, tudo isto no quadro distrital de Itabuna (Bahia), onde Jorge Amado (coincidência?) precisamente veio a nascer.

Esta picaresca terra brasileira não é menos violenta que a ibérica. Estamos em terra de jagunços, de roças de cacau que eram minas de ouro, de brigas resolvidas a golpes de facão, de coronéis que exercem sem lei um poder que ninguém é capaz de compreender como foi que lhes chegou, de prostíbulos onde as prostitutas são disputadas como as mais puras das esposas. Esta gente não pensa mais que em fornicar, acumular dinheiro, amantes e bebedeiras. São carne para o Juízo Final, para a condenação eterna. E contudo.

E, contudo, ao longo desta história turbulenta e de mau conselho, respira-se (perante o desconcerto do leitor) uma espécie de inocência, tão natural como o vento que sopra ou a água que corre, tão espontânea como a erva que nasceu depois da chuvada. Prodígio da arte de narrar, A descoberta da América pelos turcos, não obstante a sua brevidade quase esquemática e a sua aparente singeleza, merece ocupar um lugar ao lado dos grandes murais romanescos, como Jubiabá, A tenda dos milagres ou Terras do sem fim. Diz-se que pelo dedo se conhece o gigante. Aí está, pois, o dedo do gigante, o dedo de Jorge Amado.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado como parte do material de relançamento da obra de Jorge Amado pela editora Companhia das Letras. Por desejo do autor, foi mantida a ortografia vigente em Portugal. Leia também "O making-off da Navegação" e "Saudades de Jorge Amado".


José Saramago
Lisboa, 15/12/2008

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01. Jim Clark e a Netscape de Adam Penenberg
02. Marina candidata de Milton Hatoum
03. Monterroso e a microliteratura de Sérgio Augusto
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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
7/1/2009
19h33min
Conheci Jorge Amado aos 12 anos, quando precisei ler "Gabriela" para apresentar uma resenha na escola. Lembro-me muito bem do personagem Nacib e de seu amor por Gabriela. Gabriela representava, para mim, um sonho de menina. Uma mulher bonita, exalando sensualidade... e livre! Completamente livre!
[Leia outros Comentários de Edileusa]
7/1/2009
22h56min
Uma parte do Brasil deve a Jorge Amado a liberdade de culto, outra parte do Brasil deve a Jorge Amado a discussão sobre a cultura do negro. Na Faculdade, havia professor que torcia o nariz, ao falar de Amado, e já ouvi até essa frase: "ele fazia uma baixa literatura, se formos pensar na roda de Virgílio", porem foi só ele morrer que esse mesmo professor iniciou uma pesquisa, e até apresentou um trabalho, sobre esse autor.
[Leia outros Comentários de Manoel Messias Perei]
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