Jim Clark e a Netscape | Adam Penenberg

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ENSAIOS

Segunda-feira, 16/8/2010
Jim Clark e a Netscape
Adam Penenberg

+ de 7400 Acessos

(Começa aqui...)

O carrasco do Mosaic
No Vale do Silício, outro visionário em tecnologia sentia-se usado e abusado. James H. Clark, na época com 49 anos, estava deixando a Silicon Graphics, a empresa que ajudou a fundar 12 anos antes. Clark havia elaborado um método para tirar proveito do desempenho dos supercomputadores a partir de desktops em rede e, no processo, transformou a computação gráfica tridimensional, reinventando o modo como tudo era feito, de carros a jatos, passando por edifícios, pontes suspensas e filmes de Hollywood, ao produzir efeitos especiais para filmes como Jurassic Park ― O Parque dos Dinossauros, de Steven Spielberg.

Entretanto, quando decidiu continuar por conta própria, Clark era um neófito em negócios. Para que a SGI decolasse, ele vendeu uma participação de 40% para Glenn Mueller, do Mayfield Fund, por $800 mil, dando a sua empresa uma avaliação ridiculamente baixa de $2 milhões. Menos de um ano depois Clark voltou para pedir mais dinheiro, vendendo outra fração da SGI por $17 milhões. Uma terceira negociação exigiu que ele e seus engenheiros diluíssem o controle acionário ainda mais. Ao mesmo tempo, a empresa apresentava taxa anual de crescimento de mais de 40%, com as receitas pulando de milhões para bilhões. Quando o capital foi aberto, em 1986, o preço das ações pulou de $3 para $30.

Embora Clark fosse o presidente, o diretor executivo da SGI, Ed McCracken, trazido pelos investidores de capital de risco da empresa, era responsável pelas operações. Em 1994, afastado das funções decisórias, Clark saiu da empresa com uma indenização de $15 milhões, uma fração daquilo que Ed McCracken e outros executivos valiam. Revoltado, Clark tramou uma vingança digna de Nêmese, querendo mais do que tudo iniciar um novo empreendimento que faria a SGI parecer um mero passatempo de garagem. Mas ele não podia fazer isso sozinho. Em seu último dia de trabalho na empresa, ele perguntou a Bill Foss, um jovem colega na SGI que muitas vezes funcionava para Clark como faz-tudo no que diz respeito a negócios digitais, se ele poderia recomendar algum engenheiro de software brilhante. Foss disse o primeiro nome que lhe veio à mente.

Clark nunca havia ouvido falar de Marc Andreessen. Preocupado com seus negócios com McCracken e com o conselho diretor da SGI, ele não estava prestando atenção à nova onda do navegador que varria o mundo tecnológico. Foss baixou o Mosaic no computador de Clark e disse a ele: "Você vai entender". Ao sair da sala, Foss ainda notou o olhar embasbacado de Clark diante da tela, tentando clicar aqui e ali. Alguns minutos mais tarde, Clark acessou a homepage de Andreessen, onde o ex-programador na University of Illinois postou seu currículo. Clark maravilhou-se com a simplicidade do navegador e veio à sua mente que a primeira vez em que utilizava o Mosaic era para entrar em contato com seu criador.

Ele escreveu um e-mail agora famoso:

"Marc,
Talvez você não me conheça, mas sou o fundador e ex-presidente da Silicon Graphics. Como talvez você tenha lido na imprensa ultimamente, estou deixando a SGI. Planejo formar uma nova empresa. Gostaria de discutir a possibilidade de você se juntar a mim.
Jim Clark"

Então, voltou a empacotar suas coisas. Do outro lado da internet, Andreessen só precisou de dez minutos para responder. Ele sabia quem era Clark. Na universidade ele tinha passado muitas horas felizes em máquinas da SGI. Na manhã seguinte, eles se encontraram às 7h30 para o café da manhã em Palo Alto, a fim de traçar o futuro deles ― exceto pelo fato de não terem a menor ideia do que queriam fazer. Fosse o que fosse, Clark sabia que queria fazer com Andreessen. Debaixo da fachada de um rapaz de 22 anos gloriosamente desgrenhado e com olhar vago, havia uma vasta experiência em programação com todo tipo de máquina e uma visão que harmonizava com a de Clark. Ambos procuravam modos de simplificar a tecnologia, a fim de adaptá-la às necessidades de um mercado de massa. Os dois achavam que haviam sido trapaceados por outras pessoas que se apoderaram de suas criações e, no processo, lucraram muito com seu suor e sua inspiração. Ambos foram capazes de ver a realidade mais ampla e tinham o desejo interno de uma doce vingança. Clark queria saber como aprimorar o navegador, mas Andreessen foi resoluto: "Dei um basta a toda aquela coisa do Mosaic", ele disse.

O navegador
Ao longo dos poucos meses seguintes eles exploraram ideias. O primeiro plano de Clark envolvia televisão interativa, mas, sem hardware, não havia um mercado para o software. O segundo envolvia uma rede de jogos on-line para o Nintendo 64, mas havia muitos riscos em ser dependente de um único fabricante; isso ficou especialmente claro depois do atraso no lançamento do console do jogo. Além disso, não havia um número suficiente de jogadores on-line, embora ficasse claro que a Web e a internet compatível com o Mosaic estivessem se tornando parte do dia a dia das pessoas. Clark viu que no futuro próximo a lei dos números grandes se consolidaria. Se ele e Andreessen pudessem descobrir um modo de ganhar algum dinheiro com um número suficiente de usuários, poderiam ter um negócio bem lucrativo. Mas como? Agitado com sua inconfundível impaciência, Clark estava cansado de conversas que não levavam a nada.

Uma noite, em março de 1994, depois do jantar e de uma segunda garrafa de burgundy na casa de Clark, Andreessen mudou de opinião, sugerindo que eles criassem "um carrasco do Mosaic". A universidade estava lucrando com a ideia que ele concebeu e codificou com seus amigos. Tudo o que eles precisariam fazer era lançar uma versão melhor do navegador e deixar que ela se disseminasse. Andreessen tinha certeza de que poderia contar com a equipe do Mosaic original.

Enviou um e-mail a seus antigos companheiros que trabalharam no código, falando para fazerem as malas porque ele e Jim Clark ― o Jim Clark ― estavam chegando. Desde que Andreessen havia deixado a ensolarada Califórnia, a vida de seus amigos tinha se tornado completamente sombria. Antes do Mosaic, os administradores jamais haviam policiado os jovens programadores como agora. Agora eles eram chamados para reuniões com 40 pessoas e todo mundo, aparentemente, tinha uma posição hierárquica superior. Foi necessário muito pouco para convencê-los a se associar a Andreessen.

Clark criou a Mosaic Communications em Mountain View, Califórnia, investindo $3 milhões, cerca de 20% de seu valor líquido, e alugando um espaço comercial. Os programadores foram separados em três equipes ― uma para cada sistema, Unix, Mac e Windows ― e começaram a trabalhar. Uma das diferenças chave entre o Mosaic e o novo navegador era o tipo de equipamento em que seria executado. Com o Mosaic, tanto os criadores quanto a maioria dos usuários utilizava computadores poderosos em que as informações viajavam por longos canais, linhas T1 e T3 de alta velocidade financiadas pelo governo, universidades e corporações. Para tornar-se um produto de mercado de massa, o novo navegador teria um caminho a percorrer entre linhas telefônicas e PCs com lentos modems de 14,4Kbps, que Clark comparava a "canudinhos de refrigerante". A velocidade e a economia seriam cruciais, e cada equipe competia para ver qual poderia apresentar o programa mais rápido, utilizando um cronômetro para medir qual versão descarregava uma página mais rapidamente. Mesmo o mais lento dava um banho no Mosaic do NCSA.

Eles perderam a conta do número de horas que ficavam à frente dos computadores, só de camiseta e cueca, discutindo tudo, de política a esportes. Em outras palavras, era uma típica empresa recém-criada na área de tecnologia do Vale do Silício. Andreessen foi apontado "vice-presidente responsável por tomar a iniciativa" e praticamente nunca deixava o edifício, exortando seus engenheiros a se apressarem. O verão transformou-se gradualmente no outono e a empresa continuou a expandir não apenas o número de funcionários, mas também o número de produtos que ofereceria ― servidor e software de segurança, um aplicativo de comércio eletrônico e, naturalmente, o navegador, que era a peça central.

A discussão mais importante era sobre preços. O chefe do departamento de marketing vindo da Apple propôs cobrar $99 pelo navegador, mas Andreessen queria oferecê-lo gratuitamente, para que se disseminasse de uma maneira viral e criasse uma base instalada enorme. "Onipresença", ele defendia, era fundamental para dar impulso à empresa e eliminar o Mosaic da face da Web. Para inspiração, ele recorreu à Microsoft, a dominatrix dos desktops, que tinha tirado proveito de uma liderança inicial nos sistemas operacionais DOS e Windows e a transformou em hegemonia no mercado de PCs. Isso levou fornecedores de aplicativos a criar programas para o sistema operacional da Microsoft e ignorar os demais, que, carentes de softwares compatíveis, definharam até desaparecer. Andreessen via isso como uma equação simples: domínio do mercado hoje significa receitas no futuro; sem dominar o mercado, não é possível gerar receitas, mas quem conseguir e aguentar vencerá.

Embora fosse senso comum na época que ninguém conseguiria fazer dinheiro com a internet, isso não o incomodava. Alguém vendeu o primeiro trem, o primeiro telefone, o primeiro carro, ele argumentava. Uma rede tem que começar de algum lugar. Só assim se garantiria um ambiente propício para oportunidades de negócios formidáveis. Ele tinha certeza de que a mesma coisa aconteceria com a Web, que havia alcançado uma força autossustentada que estava se transformando rapidamente em uma profecia de autorrealização. No final, Andreessen apresentou a ideia "free but not free" ("gratuito, mas não para todo mundo"). Eles forneceriam gratuitamente o navegador para estudantes e educadores e cobrariam de todos os outros $39 (que passou para $49 um ano depois). Mesmo assim, eles ofereciam uma versão de teste gratuita por 90 dias, cuja exigência de compra ao final do teste nunca foi realmente cobrada, de tal modo que as empresas seriam quem realmente deveriam pagar.

Os engenheiros foram em frente e o navegador começou a tomar forma e tornou-se um aprimoramento significativo em relação ao Mosaic original. Não apenas a versão deles era dez vezes mais rápida (segundo testes na empresa), mais segura e menos propensa a travamentos, mas também os usuários poderiam criar layouts de página muito mais complexos e criptografar números de cartão de crédito, o que era necessário para o comércio florescer na Web. Tudo isso serviria como combustível à viralidade do navegador. Assim como a inclusão de fotos foi fundamental para o sucesso do Mosaic original, transformando um mundo cinza de texto em uma extravagância multicolorida, promover a individualidade e expressão para as páginas Web dos usuários estimulou os desenvolvedores a marcar seus sites com botões que diziam: "Melhor visualizado com o Netscape", junto com um link para download.

"A faísca que desencadeou a explosão da internet"
Em 13 de outubro de 1994, os engenheiros postaram a versão beta do navegador on-line. Alguns ansiosos minutos mais tarde alguém no Japão o baixou. Uma goteira transformou-se em corrente e depois em um gêiser. De brincadeira, alguém incorporou um sistema de alarme exótico para monitorar o número de downloads ― um sino para Macs, um mugido para PCs, uma explosão para indicar Unix. Isso rapidamente transformou-se em uma brincadeira de competição estudantil, com o mugido abafando os demais à medida que a versão para PC assumia a liderança. Ao mesmo tempo, seu arqui-inimigo Mosaic continuava a se disseminar, sendo responsável por 60% de todo o tráfego Web, e a universidade continuava licenciando-o para empresas por $100 mil, com Fujitsu e SpyGlass baseando seus próprios aplicativos nele.

Contudo o NCSA não parou aí, pois contratou advogados para processar Andreessen e Clark por violação de propriedade intelectual, o que significava que Andreessen era acusado de roubar o software que ele mesmo havia criado, e exigia $0,50 em direitos autorais por cópia para cada download. Clark contratou um perito forense em software para analisar o código e compará-lo ao Mosaic original. Depois que o perito afirmou não ter encontrado "nenhuma semelhança na forma, apenas em função" entre os dois, Clark os ignorou. Tornava-se claro, porém, que o nome da empresa, Mosaic Communications Corp. poderia ser passível de questionamento judicial, e brigar por isso só desviaria a atenção dele do grande prêmio: uma IPO (Initial Public Offering ― Oferta Pública Inicial), isto é, a abertura do capital para investimentos na bolsa de valores. A última coisa que a jovem empresa de Clark poderia suportar era uma ação judicial pesando sobre ela. Esta ofereceu mudar o nome Mosaic e pagar ao NCSA $3 milhões ou 50 mil ações em títulos. O NCSA aceitou o dinheiro e sossegou.

Dois meses depois, a recém-nomeada Netscape Corporation lançou oficialmente a versão 1.0 do Navigator. Por volta da meia-noite de 15 de dezembro de 1994, os engenheiros se reuniram novamente, desta vez ajustando os servidores para que um canhão disparasse toda vez que um navegador fosse baixado. No início, praticamente toda a atividade ocorria no Japão e na Austrália, uma vez que era horário comercial nesses países. Em questão de horas, 10 mil cópias do navegador foram baixadas. Sem praticamente nenhuma publicidade ou marketing, mais de 6 milhões de cópias do Netscape Navigator estavam em uso na primavera americana de 1995, e 10 milhões no verão. O "navegador", como observou o autor de Dot.Con: How America Lost Its Mind and Money in the Internet Era, "disseminava-se como uma das piadas obscenas que Clark gostava de contar" ― no momento em que mais da metade dos americanos sequer tinha ouvido falar da World Wide Web.

À medida que aumentava a participação de mercado do Netscape, a do Mosaic caía vertiginosamente para 5%. Empresas inundavam a Netscape com solicitações de licenciamento e compras do software de servidor e, em março de 1995, a empresa gerou $7 milhões em receitas. Com o CEO Jim Barksdale recém-contratado, um ex-executivo na AT&T, cuidando das operações diárias, Clark passou para o próximo passo na agenda: uma IPO no mercado de ações. Era senso comum na época que uma empresa precisava ter três quartos de um sólido crescimento em receitas antes de abrir o capital, mas Clark, que via uma IPO como um evento de mídia, tinha pressa. A SpyGlass, que adquiriu licença do código do Mosaic para seu navegador, deu entrada na documentação para abrir o capital em maio de 1995, o que fez Clark antecipar a reunião do conselho diretor de junho com uma sugestão que a Netscape seguiu. Para John Doerr, o momento era perfeito: "Coloque o champanhe para gelar!", ele disse. Mas Barksdale achava que poderia ser muito cedo. Ao deliberar, eles concordaram que o grande risco era a Microsoft, que planejava distribuir um navegador na próxima atualização do sistema operacional Windows. Competir com a Microsoft exigiria muitos recursos. Eles precisariam abrir o capital ou captar mais capital de risco, o que diluiria ainda mais suas ações. Eles decidiram pelo lançamento de ações.

Em 9 de agosto de 1995, o interesse pelo Netscape era tão grande no primeiro dia do lançamento das ações que Charles Schwab mudou a saudação de boas-vindas de seu telefone: "Bem-vindos a Charles Schwab. Se você estiver interessado na IPO da Netscape, pressione 1". Morgan Stanley adicionou uma linha extra para tratar o imenso volume de chamadas. A demanda pelas ações foi tão grande ― inicialmente vendidas a $28 ― que a bolsa abriu tarde para que o mercado pudesse definir um preço, o que, por fim, aconteceu: $71 por ação. Depois de atingir uma cotação de $75, no final do dia elas foram vendidas por $58. Quase instantaneamente, Clark e Andreessen criaram dezenas de milionários. Todos os responsáveis pelo código do Mosaic original de Illinois ganharam vários milhões. A participação de Clark valia mais de $663 milhões no primeiro dia. Andreessen, que trabalhara até tarde na noite anterior, acordou, conectou-se para verificar o preço das ações e, então, entendeu que ganhara $70 milhões em ações, e imediatamente voltou a dormir. "É provavelmente um tipo de coisa do Meio-Oeste", ele disse mais tarde.

Os editores da Fortune rememorariam esse momento e chamariam a IPO da Netscape de "a faísca que desencadeou a explosão da internet". Eles não estavam sozinhos. A valorização da IPO da Netscape foi amplamente creditada à instigação do fascínio pela tecnologia. Uma empresa criada há 16 meses com receitas insignificantes e poucos produtos repentinamente valia quase $1 bilhão. Isso deixou banqueiros, analistas de mercado financeiro e a mídia chocados.

(Continua aqui...)

Nota do Editor
Texto integrante do segundo capítulo do livro Viral Loop, de Adam Penenberg, e reproduzido aqui com autorização da editora Campus. Esta é a segunda parte da reprodução. Leia também a primeira, "Marc Andreessen e o Mosaic".

Para ir além


Adam Penenberg
Nova York, 16/8/2010

Quem leu este, também leu esse(s):
01. Por que somos piratas musicais de Guilherme Werneck
02. Rosa e o romance fundador de Luís Antônio Giron


Mais Adam Penenberg
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