Prata de tolo | Eduardo Carvalho | Digestivo Cultural

busca | avançada
34499 visitas/dia
846 mil/mês
Mais Recentes
>>> Ana Salvagni e Eduardo Lobo apresentam 'Canção do Amor Distante' em Campinas
>>> Diálogos com um gênio da literatura mundial que marcaram toda a cultura ocidental
>>> 'Chet Baker, Apenas Um Sopro' com Paulo Miklos estreia dia 06/10 no CCBB/RJ
>>> Bolo de chocolate recheado de frutas com cobertura de chocolate
>>> Homenagem ao nascimento de Heidegger
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Alice in Chains, por David De Sola
>>> Simpatia pelo Demônio, de Bernardo Carvalho
>>> Afinidade, maestria e demanda
>>> O Quixote de Will Eisner
>>> Era uma vez um inverno
>>> Caindo as fichas do machismo
>>> Uma livrada na cara
>>> YouTube, lá vou eu
>>> Srta Peregrine e suas crianças peculiares
>>> Super Campeões, trocas culturais de Brasil e Japão
Colunistas
Últimos Posts
>>> Ed Catmull por Jason Calacanis
>>> Lançamento e workshop em BH
>>> Reid Hoffman por Tim Ferriss
>>> Software Programs the World
>>> Daphne Koller do Coursera
>>> The Sharing Economy
>>> Kevin Kelly por Tim Ferriss
>>> Deepak Chopra Speaker Series
>>> Nick Denton sobre Peter Thiel
>>> Bill & Melinda Gates #Code2016
Últimos Posts
>>> Etapas de uma pintura III (movie)
>>> Origâmis
>>> Eleições Municipais e o Efeito DunDum!
>>> Dente-de-leão
>>> MARINHA
>>> O que dizer depois da reunião de orientação
>>> Natureza do som
>>> Insone
>>> Sobre a Filosofia (obrigatória) no ensino médio
>>> Estátuas de areia
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Em Busca da Terra do Nunca... e Johnny Depp
>>> A mitologia original de Prometheus
>>> O retorno à cidade natal
>>> Confissões de um jornalista que virou suco
>>> Nelson Rodrigues e o Vestido
>>> O filósofo da contracultura
>>> Elegia 1938
>>> Quem é (e o que faz) Julio Daio Borges
>>> Erro imperdoável
>>> Os 35 anos do Jornal Nacional
Mais Recentes
>>> Introdução à Física do Estado Sólido
>>> Cuentos Fantásticos - Edicción Íntegra
>>> A perversão do trapezista - o romance em Cornélio Penna
>>> Literatura Brasileira - A arte da palavra e Literatura Brasileira e os vestibulares com CD
>>> Manual de Contabilidade Societária
>>> As tardes de um pintor
>>> Capitães da areia
>>> Histórias para o rei
>>> Nada na língua é por acaso
>>> O advogado do diabo
>>> Os limites do sentido
>>> A linguística e o ensino da língua portuguesa
>>> Textualidade e ensino
>>> História da escola em São Paulo e no Brasil
>>> Resenha
>>> Fundamentos empíricos para uma teoria da mudança linguística
>>> Ensino de gramática: descrição e uso
>>> Pequena gramática do português brasileiro
>>> A emoção e a regra
>>> A fórmula do texto
>>> Descobertas acidentais em ciências
>>> Gabriela cravo e canela
>>> O rei, o Rio e suas hiistórias
>>> Esboço para uma teoria das emoções
>>> Verdes vales do fim do mundo
>>> O Jogador
>>> A Humilhação do Redentor- Encarnação e Sofrimento
>>> Automotivação- ''É Fácil''- O Caminho do Sucesso
>>> As Múltiplas Faces da Velhice no Brasil
>>> Desenvolvendo Relacionamentos Familiares
>>> Manual do Auxiliar de Célula
>>> Noções Básicas de Discipulado - Para Jovens - Jumoc
>>> Manual da Escola de Oraçao
>>> Limites do Sofrimento
>>> Quero Minha Vida de Volta
>>> Quero Minha Vida de Volta
>>> Quero Meu Filho de Volta
>>> Quero Meu Filho de Volta
>>> Piranguçu: a Cidade das Garças
>>> O Noviço o Juiz de Paz na Roça - Objetivo
>>> Meu Vale Encantado
>>> Sonho de uma Noite de Verão - Objetivo
>>> Antologia Brasileira Diamantes II
>>> Mitos Gregos - Objetivo
>>> Sonho de uma Noite de Verão - Objetivo
>>> Princípios para uma Vida Feliz
>>> Um Pastorzinho Peregrino Em Busca da Paz Com Deus
>>> Filhos Brilhantes Alunos Fascinantes (Edicão De Bolso)
>>> Recados Do Corpo E Da Alma
>>> O Menino Mágico
COLUNAS

Segunda-feira, 9/12/2002
Prata de tolo
Eduardo Carvalho

+ de 7300 Acessos
+ 5 Comentário(s)

Mario Prata

Um dos piores escritores do Brasil - e, conseqüentemente, um dos mais lidos e admirados - é o Mario Prata. Seu sucesso seria um insolúvel mistério, se ele escrevesse sozinho entre miríades de cronistas competentes e talentosos. Mas não: seus companheiros de trabalho são quase sempre tão ruins quanto ele. O principal destaque de Mario Prata, na verdade, - e, talvez, o seu especial segredo - é que ele conjuga e potencializa alguns dos piores defeitos dos "melhores" cronistas do Brasil, sem agregar suas qualidades: a absurda ingenuidade política de Luis Fernando Veríssimo; a tediosa falta de assunto de João Ubaldo Ribeiro; a moleza opinativa de Ignácio de Loyola Brandão. E, de todos, a perspectiva umbigocêntrica do mundo, como se fosse capaz de transformar seus incômodos com um pernilongo em um caso engraçado e interessante. Mario Prata, camuflado por prêmios e defendido por fãs, continua sendo, para leitores atentos, um engodo evidente. Só o silêncio poderia esconder sua anemia imaginativa; mas ele decidiu ser escritor. Sua mediocridade, então, é indisfarçável.

É um recurso comum, entre cronistas que publicam regularmente, a encheção de lingüiça deslavada. Mais de dois parágrafos, muitas vezes, com reminiscências bobas e diálogos inúteis, em que fica evidente, para o leitor acostumado, a preocupação do escritor em simplesmente preencher espaço. Cony e Veríssimo, por exemplo, escrevem diariamente, e suas eventuais apelações são compreensíveis. E, mesmo assim, eles sabem controlar o estilo, que, quando o conteúdo é oco, é o que sobra. Cony e Veríssimo escrevem com facilidade e fluência, alternado com precisão, entre curtas e longas, o tamanho de suas frases, e suas palavras são adequadamente escolhidas - sabendo exatamente o efeito que pretendem e que provocam. As crônicas de Mario Prata, no entanto, saem semanalmente. São relativamente curtas, o que, no seu caso, é positivo - mas mais da metade do que escreve é completamente inútil, mesmo para justificar ou ilustrar uma situação ou sua opinião. A única sensação que seu texto pode eventualmente provocar em um leitor inteligente é a de que não é preciso ser inteligente para ser considerado escritor; basta saber enganar. E Mario Prata é um completo embuste.

Um escritor de verdade precisa cumprir, no mínimo, dois requisitos básicos, e em especial para escrever crônicas: possuir um estilo próprio e corrente; e, talvez ainda mais importante, ser um observador atento e alerta, capaz de perceber, em acontecimentos vulgares, alguma coisa de diferente, incomum. Ou seja: o escritor precisa combinar uma capacidade extraordinária de observação com uma formidável habilidade com o idioma, para colocar no papel aquilo que, para os seus leitores, não passa de impressão vaga e perdida. Ou, então, - se escrever como um jornalista apressado e observar como um mecânico ocupado - seu texto será completamente desprezível, reproduzindo opiniões convencionais e retratando a realidade comum. Não registrará, jamais, nada de novo: e a conclusão de seu texto será, com muita probabilidade, no mesmo estilo e com o mesmo conteúdo da última coluna do Mario Prata, "Doidas e doidos": "Seja doido você também! Façamos um país cheio de contentamento, feliz, encantado, com paixão, entusiasmo, incomum, extravagante, exageradamente doido e feliz."

Isso depois de, durante o início da crônica, dizer que os seus conhecidos são todos doidos, mas que ser doido, afinal, não é tão ruim assim. Porque, conforme o dicionário Houaiss, ser doido significa ser feliz - e, portanto, ele quis dizer, na verdade, que todo mundo é feliz. Não é lindo? Não - é, isso sim, extremamente chato. E escolhi sua última coluna por acaso mesmo, porque, se procurar outras, vou cair na mesma bobagem repetida: um elogio irrestrito aos Tribalistas, comparando-os, da forma mais infantil possível, com os tropicalistas; um diagnóstico estúpido, mas comum, das eleições: "Fora o voto dele (Serra) e da família, o resto votava era contra o Silva, contra o analfabeto, contra o metalúrgico, contra o homem do povo. Enfim, 30 milhões votaram contra o brasileiro natural e, portanto, contra o Brasil"; uma homenagem ao cantor Ray Conniff, que ilustra com perfeição sua incompetência arrogante: "Se você não sabe quem foi (é) Ray Conniff, me dá vontade de dizer que então você não viveu". Mario Prata está obviamente congelado no tempo: além de escrever como criança, distribui opiniões sempre baseadas numa nostalgia boêmia, alheia e pentelha ao leitor sensível. O seu assunto esgotou junto com a sua fórmula.

Não é necessariamente exigido, mas referências eruditas escapam com naturalidade de um escritor normal. Não é possível que alguém, que é ou pretenda ser escritor, desenvolva seus dotes naturais sem recorrer eventualmente a clássicos literários, ou, para apurar a sensibilidade, a música erudita, por exemplo. Citações e alusões, de vez em quando, são apropriadas, menos para exibir conhecimento do que para apontar exemplos - e Mario Prata as utiliza, às vezes até exageradamente. Mas quase sempre ridiculamente. Duas vezes, que me lembre, ele se referiu a escritores: Dostoievski e Rilke. Em relação a Dostoievski, reclamou que, depois de inúmeras tentativas, mais uma vez desistiu de ler Os irmãos Karamozovi, muito longo e muito chato. De Rilke, aproveitou seu indispensável mas manjado Cartas a um jovem poeta e, com a desculpa de ilustrar seu assunto, copiou trechos inteiros, completando metade da coluna. Houve outras, talvez - mas duvido que tenham sido diferentes: escritores, para Mario Prata, são ou o incômodo de suas férias ou a salvação de sua coluna - a não ser, é claro, que sejam seus amigos ou leitores. Em outra ocasião, aliás, e com outra desculpa esfarrapada, copiou cartas de seus leitores, preenchendo quase inteiro seu espaço no "Caderno2". Melhor assim, talvez - apesar da chatice insistente, Mario Prata conserva a virtude da brevidade.

Chatice que, por sinal, é sua preocupação recorrente. Mario Prata gosta de chamar os outros de chatos. Como se ele fosse, digamos, legal, porque alguém, há uns oitenta anos, disse a ele que escreve bem - e, diferente de outros escritores, sem ser chato. E ele acreditou. E decidiu ser escritor. E aprendeu, com dedicação, a fórmula necessária, que consiste na lembrança vazia de memórias boêmias com opiniões socialmente bacanas. Assumiu o estilo: que vai desde passagens por spas, com a intenção de largar o alcoolismo, até o descuido com os dentes, para preservar a imagem de desapego a questões estéticas. Funcionou - e agora serve, ele mesmo, como modelo. Não adianta, porém: não há sucesso profissional que mascare uma mediocridade tão óbvia. Mario Prata é, antes e mais do que tudo, justamente aquilo que ele sempre evitou ser: um escritor chato. Não vale, por cinco minutos, uma companhia na privada.


Eduardo Carvalho
São Paulo, 9/12/2002


Quem leu este, também leu esse(s):
01. O prazer da literatura em perigo de Jardel Dias Cavalcanti


Mais Eduardo Carvalho
Mais Acessadas de Eduardo Carvalho em 2002
01. Com a calcinha aparecendo - 6/5/2002
02. Festa na floresta - 9/9/2002
03. Hoje a festa é nossa - 23/9/2002
04. Todas as paixões desperdiçadas - 23/12/2002
05. Uma verdade incômoda - 4/11/2002


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
9/12/2002
10h15min
Caro Eduardo, Falar do Mario Prata também é chato, ele é um escritor que não deve lido ou lembrado com tamanha seriedade. Em seu próximo texto faça uma crítica mais bacana, como a do show Chaetando Meloso e sua trup de rebeldes sem causa ou consequência. Imaginar que um ataque de armas biológicas no Parque do Ibirapuera poderia livrar o mundo de 100.004 pessoas chatas. Vê se escreve um texto mais legal porque o Mario Prata é muito chato até quando se fala dele. Abração Otávio
[Leia outros Comentários de Otavio]
9/12/2002
11h09min
Parabéns pelo texto, Eduardo. Concordo com tudo o que foi escrito, com ponto, vírgula e tudo. E Tom Jobim é o Mário Prata da MPB.
[Leia outros Comentários de Fernando]
9/12/2002
19h43min
Concordo plenamente com o texto de Eduardo Carvalho, e acho que o Pratinha assim como Paulo Coelho, deveria ingressar na ABL, e tornar-se um chato e medíocre escritor definitivo. Apenas fazendo um adendo aos comentários acima, Caetano e sua trupe já perderam as ideologias há muito tempo, só lhes restando o insistente reconhecimento por parte de alguns ripongas saudosistas; estes deveriam estar se beneficiando dos serviços prestados pelo INPS ou SUS. Não posso concordar em chamar Tom Jobim de Mário Prata da MPB...isso sim é um absurdo; se Mário tivesse um mínimo da genialidade de Tom, certamente não estaria dependendo da bondade de "amigos e fãs". A música de Tom, é um legado, como a música de Noel e tantos outros.
[Leia outros Comentários de Jorge]
19/12/2002
11h50min
Prezado Eduardo Carvalho, Li pela primeira vez um artigo seu e gostei do português, muito raro, hoje, ver alguém escrever bem o nosso idioma. Estando distante do Brasil, moro em Montreal, nem ao menos sei quem seja este senhor Mário Prata, mas as minhas experiências de ter vivido a famigerada ditadura militar no Brasil e a de hoje viver num país que prima pela liberdade de expressão, fazem-me pensar que aquele senhor tem --aasim como o senhor o tem para criticá-lo-- o pleno direito de pensar não importa o quê, votar não importa em quem, escrever e/ou publicar seja lá o que for e, óbviamente, agradar ou não a esta minoria de brasileiros leitores que têm acesso a literatura. Achei, portanto, esse seu artigo muito positivo no especto crítico, porém agressivo demais, impondo uma tamanha chafurdação e humilhação ao senhor Prata que assim sugere o seu fim como escritor, o desincentivo dos leitores a lê-lo e, por fim, criando um clima inadequado à liberdade de expressão e de desenvolvimento da boa ou má literatura brasileira. Gostaria ainda de dizer que num dos comentários ao seu texto, alguém referiu-se ao famoso poeta Tom Jobim, que foi e é uma das maiores personalidades e genialidades brasileiras à nível internacional. Sucesso! Continuarei a lê-lo. Normando
[Leia outros Comentários de Normando Lima]
26/12/2002
19h14min
Não sou fã do texto do escritor Mário Prata. Mas sua crítica está muito contundente. Há quase algo de pessoal. Aliás achei uma crítica chata.Fui me irritando enquanto lia.Penso que o senhor fez um pequeno laboratório com seus leitores. A ferocidade foi proposital.Não por motivos mesquinhos.Mas para provocar.Teria outra explicação?
[Leia outros Comentários de Luiz Alberto Dias]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




MARAVILHAS DO CONTO FRANCÊS
DIAULAS RIEDEL
CULTRIX



PEDRO
LUIZ TAQUES
KAN
(2013)



A SEMENTE DE MOSTARDA
BHAGWAN SHREE RAJNEESH- DISCURSOS SOBRE AS PALAVRA DE JESUS SEGUNDO O EVANGELHO DE TOMÉ.
TAO
(1979)
+ frete grátis



ECONOMIA DE EMPRESAS
JAMES R. MC GUIGAN, R. CHARLES MOYER & FREDERICK H. DEB. HARRIS
THOMSON
(2007)
+ frete grátis



A RELIGIÃO DOS TUPINAMBÁS
ALFRED MÉTRAUX
NACIONAL
(1979)
+ frete grátis



O ROTEIRO DO CINEMA
MICHEL CHION
MARTINS FONTES
(1989)
+ frete grátis



JESUS, O MEU MESTRE SUPERIOR- CAPÍTULOS COMPLEMENTARES
LYDIO MACHADO BANDEIRA DE MELLO ( AUTOR NO WHO'S WHO)
DO AUTOR
(1984)
+ frete grátis



HEBREUS- INTRODUÇÃO E COMENTÁRIO
DONALD GUTHRIE
VIDA NOVA
(1984)
+ frete grátis



O CORPO TRAÍDO
ALEXANDER LOWEN
SUMMUS
(1979)
+ frete grátis



O FÍSICO - A EPOPÉIA DE UM MÉDICO MEDIEVAL
NOAH GORDON
ROCCO
(1988)
+ frete grátis





busca | avançada
34499 visitas/dia
846 mil/mês