Fernão Mendes Pinto | Digestivo Cultural

busca | avançada
97126 visitas/dia
2,6 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Dos palcos para as leituras radiofônicas
>>> Youtuber apresenta A Jornada do Herói Favelado
>>> Sesc 24 de Maio apresenta o último episódio do Música Fora da Curva
>>> Historiador Russell-Wood mergulha no mundo Atlântico português da Idade Moderna
>>> Livro ensina a lidar com os obstáculos do Transtorno do Déficit de Atenção
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Cem encontros ilustrados de Dirce Waltrick
>>> Poética e política no Pântano de Dolhnikoff
>>> A situação atual da poesia e seu possível futuro
>>> Um antigo romance de inverno
>>> O acerto de contas de Karl Ove Knausgård
>>> Assim como o desejo se acende com uma qualquer mão
>>> Faça você mesmo: a história de um livro
>>> Da fatalidade do desejo
>>> Cuba e O Direito de Amar (3)
>>> Isto é para quando você vier
Colunistas
Últimos Posts
>>> Hemingway by Ken Burns
>>> Cultura ou culturas brasileiras?
>>> DevOps e o método ágil, por Pedro Doria
>>> Spectreman
>>> Contardo Calligaris e Pedro Herz
>>> Keith Haring em São Paulo
>>> Kevin Rose by Jason Calacanis
>>> Queen na pandemia
>>> Introducing Baden Powell and His Guitar
>>> Elon Musk no Clubhouse
Últimos Posts
>>> Geração# terá estreia no feriado de 21 de abril
>>> Patrulheiros Campinas recebem a Geração#
>>> Curtíssimas: mostra virtual estreia sexta, 16.
>>> Estreia: Geração# terá sessões virtuais gratuitas
>>> Gota d'agua
>>> Forças idênticas para sentidos opostos
>>> Entristecer
>>> Na pele: relação Brasil e Portugal é tema de obra
>>> Single de Natasha Sahar retrata vida de jovem gay
>>> A melancolia dos dias (uma vida sem cinema)
Blogueiros
Mais Recentes
>>> John Lennon NYC 1972
>>> Apresentação
>>> Internet difundindo livros
>>> O marketing da mendicância
>>> Os Mutantes são demais
>>> Ser intelectual dói
>>> Jerry Lewis, um verdadeiro louco
>>> Crítica/Cinema: entrevista com José Geraldo Couto
>>> Pra entender a Lei Rouanet
>>> Uma baby boomer no Twitter
Mais Recentes
>>> O Embaixador de Morris West pela Abril Cultural (1985)
>>> Emmeline de Judith Rossner pela Nova Cultural (1986)
>>> Qualidade Em Serviços e Atenção ao Cliente de Fernando Trigueiro pela Focus (2001)
>>> Aprender a Ler: Vencendo o Fracasso de Eveline Charmeux pela Cortez (1994)
>>> Dogma e Ritual de Alta Magia de Eliphas Levi pela Madras (2016)
>>> Plantão da Noite de Irwin Shawn pela Nova Cultural (1987)
>>> America (portuguese Edition) de Luis Fernando Verissimo pela Artes e Oficios (1994)
>>> America (portuguese Edition) de Luis Fernando Verissimo pela Artes e Oficios (1994)
>>> O Jaguar no Deserto de Davino Ribeiro de Sena pela Bagaço (1997)
>>> Amar Elos Vermelhos de Marcia Meira Basto pela Fund. Cult. Cidade do Recife (2005)
>>> Revista Os 3 mosqueteiros de Varios autores pela Cedic
>>> A Mulher Que Cai de Guido Viaro pela Literal Link (2007)
>>> Adolescência e Individualidade de Judith e Gallatin pela Harbra (1978)
>>> A Garota do Espelho de Thais Leonardo pela Fundação Jk (2012)
>>> A Rebelde Apaixonada de Frank G Slaughter pela Nova Cultural (1986)
>>> Longe Demais de Jennifer Echols pela Pandorga (2011)
>>> A Mulher do Tenente Frances de John Fowles pela Nova Cultural (1987)
>>> O Ultimo Teorema de Fermat de Simon Singh pela Record (2012)
>>> Constituição da Republica Federativa do Brasil de Alexandre de Moraes Org. pela Atlas (2003)
>>> Escuridão de Elena P. Melodia pela Objetiva (2010)
>>> A Ultima Esperança de Frank G Slaughter pela Nova Cultural (1985)
>>> Uma Vez é Pouco de Jacqueline Susann pela Nova Cultural (1986)
>>> The Secret Beach de Jane Rollason pela Heinle (2011)
>>> Persuasão de Jane Austen pela Landmark
>>> O Vencedor de Betto pela Atica (2002)
BLOG >>> Posts

Sábado, 4/8/2012
Fernão Mendes Pinto

+ de 1700 Acessos

« Quando às vezes ponho diante dos olhos os muitos e grandes trabalhos e infortúnios que por mim passaram, começados no princípio da minha primeira idade e continuados pela maior parte e melhor tempo da minha vida, acho que com muita razão me posso queixar da ventura que parece que tomou por particular tenção e empresa sua perseguir-me e maltratar-me, como se isso lhe houvera de ser matéria de grande nome e de grande glória; porque vejo que, não contente de me pôr na minha Pátria logo no começo da minha mocidade em tal estado que nela vivi sempre em misérias e em pobreza, e não sem alguns sobressaltos e perigos de vida, me quis também levar às partes da Índia, onde em lugar do remédio que eu ia buscar a elas, me foram crescendo com a idade os trabalhos e os perigos. Mas por outro lado, quando vejo que do meio de todos estes perigos e trabalhos me quis Deus tirar sempre a salvo e pôr-me em segurança, acho que não tenho tanta razão de me queixar de todos os males passados, quanta tenho de lhe dar graças por este só bem presente, pois me quis conservar a vida para que eu pudesse fazer esta rude e tosca escritura que por herança deixo a meus filhos (porque só para eles é minha intenção escrevê-la) para que eles vejam nela estes meus trabalhos e perigos de vida que passei no decurso de vinte e um anos, em que fui treze vezes cativo e dezessete vendido, nas partes da Índia, Etiópia, Arábia Feliz, China, Tartária, Maçácar, Samatra e outras muitas províncias daquele oriental arquipélago dos confins da Ásia, a que os escritores chins, siameses, guéus, léquios, chamam em suas geografias a pestana do mundo, como ao adiante espero tratar muito particular e muito amplamente. Daqui por um lado tomem os homens motivo de não desanimarem com os trabalhos da vida para deixarem de fazer o que devem, porque não há nenhuns, por grandes que sejam, com que não possa a natureza humana, ajudada do favor divino, e por outro me ajudem a dar graças ao Senhor onipotente por usar comigo da sua infinita misericórdia, apesar de todos meus pecados, porque eu entendo e confesso que deles me nasceram todos os males que por mim passaram, e dela as forças e o ânimo para os poder passar e escapar deles com vida.»
Assim se inicia Peregrinação, o relato de 774 páginas (divididas em dois volumes) do aventureiro e explorador português Fernão Mendes Pinto (1510?-1583), que com uma prosa dinâmica e direta, mas de poder narrativo sempre envolvente, nos transporta através de tempestades e batalhas em alto-mar, de terras e povos estranhos, de paisagens e animais fantásticos, de reis, rainhas, mouros, piratas e assim por diante. Impressiona, por exemplo, ler sobre a preparação, em Goa, Índia, de uma armada composta por 225 navios portugueses - entre naus, caravelas, galeões, galés, fustas, etc. - para a batalha que deveria ter sido travada com 50 navios muçulmanos: foram necessários cinco dias para embarcar um total de 40 mil homens. (Taí um filme que gostaria de ver.) Com a mesma sintaxe viva, colorida, Mendes Pinto também nos faz gargalhar ao relatar seu encontro com o rei de Quedá, o qual havia - assim afirmavam seus súditos - assassinado o pai e se casado com a própria mãe, grávida do filho incestuoso. O detalhe tragicômico é que o rei mandava executar sumariamente qualquer um que comentasse o fato.

Estudiosos chamam a atenção para o fato de este livro, apesar de ser considerado "uma das obras capitais da formação do nosso idioma enquanto língua literária", não ter se tornado tão conhecido e louvado como os Lusíadas, de Camões. Talvez, especulam, porque o autor, em meio a situações fantásticas, não poupa seus compatriotas de um enfoque realista, isto é, mesmo sendo virtualmente tementes a Deus, no geral não eram nada santos...

Também é interessante notar que Machado de Assis tinha para com Fernão Mendes Pinto (e também para com Gomes Eanes Zurara) a mesma consideração que eu, há pelo menos quinze anos, tenho para com Antônio Vieira: autores aos quais recorremos para revitalizar nosso próprio uso da língua ou, como escreveu Machado, para estudar "as formas mais apuradas da linguagem, desentranhar deles [Mendes Pinto e Zurara] mil riquezas, que à força de velhas se fazem novas".

É possível ler online à versão original da Peregrinação aqui. Mas não aconselho, porque a ortografia da época, sendo muito distinta - bastante curiosa, na verdade -, impede a fluidez da leitura. O melhor é adquirir a versão adaptada à ortografia atual por Maria Alberta Menéres e publicada pela Editora Nova Fronteira.


Postado por Yuri Vieira
Em 4/8/2012 às 16h03


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Fabio Gomes de Julio Daio Borges
02. New Order 2012 de Julio Daio Borges
03. O Valhalla em São Paulo de Eugenia Zerbini
04. Back To The Primitive de Julio Daio Borges
05. Falta Política de Julio Daio Borges


Mais Yuri Vieira no Blog
* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Emprego, Salários e Pobreza
Paulo Renato Cruz
Hucitec
(1980)



A Economia do ócio
Bertrand Russell e Paul Lafargue
Sextante
(2001)



Políticas Públicas no Estado Contemporâneo e Controle Jurisdicional
Gustavo de Mendonça Gomes
Juruá
(2015)



The Classic 1000 Chinese Recipes
Wendy Hobson
Foulsham
(1993)



Quanto Vale o Meu Negócio?
Liliam Carrete
Saint Paul
(2007)



Cyrano de Bergerac (capa Dura)
Edmond Rostand
Abril Cultural
(1983)



À Sombra de Rui Barbosa
Américo Jacobina Lacombe
Fundação Casa de Rui Barb (rj)
(1984)



Dinâmicas Jogos Brincadeiras
Denize
Santos



Riscos Urbanos Decorrentes do Aquecimento Global
Ana Seroa (coletânea de Artigos)
Publit
(2014)



Got It! 3 Students Book & Workbook - Second Edition
Philippa Bowen e Denis Delaney
Oxford
(2014)





busca | avançada
97126 visitas/dia
2,6 milhões/mês