O mundo como ele realmente é | Cris Ambrósio | Digestivo Cultural

busca | avançada
54332 visitas/dia
2,0 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Inspirado nas Living Dolls, espetáculo de Dan Nakagawa tem Helena Ignez como atriz convidada
>>> As Caracutás apresentam temporada online de Tecendo Diálogos com bate-papo e oficina
>>> Obra de referência em nutrição de plantas ganha segunda edição revista e ampliada
>>> FAAP promove bate-papo com as atrizes Djin Sganzerla, Zezita Matos e com o diretor Allan Deberton
>>> Elísio Lopes Jr comanda oficina gratuita de dramaturgia nesta sexta-feira (27)
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> O fim dos livros físicos?
>>> A sujeira embaixo do tapete
>>> Moro no Morumbi, mas voto em Moema
>>> É breve a rosa alvorada
>>> Alameda de água e lava
>>> Entrevista: o músico-compositor Livio Tragtenberg
>>> Cabelo, cabeleira
>>> A redoma de vidro de Sylvia Plath
>>> Mas se não é um coração vivo essa linha
>>> Zuza Homem de Mello (1933-2020)
Colunistas
Últimos Posts
>>> A profissão de fé de um Livreiro
>>> O ar de uma teimosia
>>> Zuza Homem de Mello no Supertônica
>>> Para Ouvir Sylvia Telles
>>> Van Halen ao vivo em 1991
>>> Metallica tocando Van Halen
>>> Van Halen ao vivo em 2015
>>> Van Halen ao vivo em 1984
>>> Chico Buarque em bate-papo com o MPB4
>>> Como elas publicavam?
Últimos Posts
>>> O poder da história
>>> Caraminholas
>>> ETC. E TAL
>>> Acalanto para a alma
>>> Desde que o mundo é mundo
>>> O velho suborno
>>> Normal!
>>> Os bons companheiros, 30 anos
>>> Briga de foice no escuro
>>> Alma nua
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Um tweet que virou charge
>>> Lugar de mulher é...
>>> 27 de Março #digestivo10anos
>>> Remix Narrativo
>>> Asia de volta ao mapa
>>> A Era do Gelo
>>> As cartas de Dostoiévski
>>> Robinson Shiba do China in Box
>>> 9 de Abril #digestivo10anos
>>> Solidão Moderna
Mais Recentes
>>> More - Os Pensadores de Thomas More pela Nova Cultural (2004)
>>> Aprendendo coreano (segundo tradução do Google) de Diversos AutoresKo pela Korean (1994)
>>> Bons Fluidos 23 - Abril 2001 - Dia de Festa: celebrar aniversários de Alda Palma pela Abril (2001)
>>> The Da Vinci Code de Dan Brown pela Harlan Coben (1990)
>>> Coronelismo, enxada e votos. O município e o regime representativo no Brasil de Victor Nunes Leal pela Nova Fronteira (1997)
>>> Coronelismo, enxada e votos. O município e o regime representativo no Brasil de Victor Nunes Leal pela Nova Fronteira (1997)
>>> Coronelismo, enxada e votos. O município e o regime representativo no Brasil de Victor Nunes Leal pela Nova Fronteira (1997)
>>> Jogos de Cintura de Fernanda de M. S. Macruz e Outros Autores pela Vozes (2000)
>>> Direito Penal - Parte Geral Esquematizado - Volume 1 de Cleber Masson pela Método (2020)
>>> O teatro dos vícios. Transgressão e transigência na sociedade urbana colonial de Emanuel Araújo pela José Olympio (1993)
>>> Mulheres Inteligentes Jogam Para Ganhar de Ivanka Trump pela Lua de Papel (2010)
>>> O Fascínio do Stress de Rodrigo Pires do Rio pela Del Rey (1995)
>>> A história da família de James Casey pela Ática (1992)
>>> O Sucesso Não Ocorre Por Acaso de Dr. Lair Ribeiro pela Rosa dos Tempos (1992)
>>> De Onde vêm os Bebês de Andrew C. Andry e Steven Schepp pela José Olympio (2013)
>>> Água Mole Em Pedra Dura Tanto Bate Até Que... de Clóvis Tavares pela Gente (2001)
>>> seu Rubens - Histórias do Binho da Barra Funda e do Rubão de Maresia de José Rubens de Cenço pela Primavera (2010)
>>> ... e o Amor Continua de Francisco Candido Xavier / Divaldo Pereira Franco pela Livraria Espirita Alvorada (1983)
>>> ... quando Florescem os Ipês. de Ganymédes José pela Brasiliense (1984)
>>> ... Quando Florescem os Ipês. de Ganymédes José pela Brasiliense (1981)
>>> ...E as Vozes Falaram de Fernando do Ó pela Feb (1987)
>>> ...E as Vozes Falaram de Fernando do Ó pela Feb (1984)
>>> ...E Se Falta a Palavra, Qual Comunicação, Qual Linguagem? de Tania Maria Tupy / Don Giancarlo Pravettoni (orgs) pela Menmon (1999)
>>> ...Homem Novo - Tomo 1/ Vol. 2 de Escola de Aprendizes do Evangelho pela Feesp (1981)
>>> ...Longe da Terra - 4ª Ed. de José Mauro de Vasconcelos pela Melhoramentos (1969)
>>> ´novo´ Paisagens do Brasil de Instituto Brasileiro de Geografia pela Fundacao Ibge: Rio de Janeiro (1972)
>>> 0 de Nelly Martins Ferreira Candeias pela Escrituras (2013)
>>> 10 Conselhos para Quem Tem uma Chefe Mulher de Gabrielle Rolland pela Scipione (1994)
>>> 10 Mandamentos para Fracassar nos Negócios de Donald R. Keough pela Sextante (2010)
>>> 10 Razões para Ser Espírita de José Carlos Leal pela Novo Ser (2014)
>>> 100 Anos da Doença de Alzheimer de Paulo Caramelli / Angela H. Viel pela Segmento Farma (2006)
>>> 100 Anos de Amor de Francisco Candido Xavier / Autores Diversos pela Grupo Espírita da Prece de Fr (2010)
>>> 100 Anos de Amor - Homenagem a Chico Xavier de Grupo de Ideal Espírita André Luiz pela Ideal (2010)
>>> 100 Anos de Amor - Homenagem a Chico Xavier de Grupo de Ideal Espírita André Luiz pela Ideal (2010)
>>> 100 Coisas de Fernando Bonassi pela Angra (2000)
>>> 100 Crônicas de Mario Prata pela Cartaz (1997)
>>> 100 Crônicas de Mario Prata pela Cartaz (1997)
>>> 100 Crônicas de Mario Prata pela Cartaz (1997)
>>> 100 Crônicas Escolhidas de Rubem Braga pela José Olympio (1958)
>>> 100 Jogos de Bolso - Número 1 de Autor Girassol pela Girassol
>>> 100 Piores Ideias da História de Michael N. Smith / Eric Kasum pela Valentina (2016)
>>> 100 Viagens Que Toda Mulher Precisa Fazer de Stephanie Elizondo Griest pela Novo Conceito (2011)
>>> 100 Viagens Que Toda Mulher Precisa Fazer de Stephanie Elizondo Griest pela Novo Conceito (2011)
>>> 1000 Erros de Português da Atualidade de Luiz Antonio Sacconi pela Nossa (1990)
>>> 1000 Perguntas: Direito do Menor de Alyrio Cavallieri pela Rio (1983)
>>> 101 Bichanos - por Amor aos Gatos de Rachael Hale pela Alles Trade (2005)
>>> 101 Segredos dos Casais Felizes de Anna Saslow pela Original (2003)
>>> 108 Jogos para Jardim de Infância de Ethel Bauzer Medeiros / Edvete R. da Cruz Machado pela Agir (1960)
>>> 12 Postais D Iracema de Sérgio Pinheiro pela Fundação Demócrito Rocha
>>> 123 Atitudes Positivas Em Vendas de Robert F. Taylor pela Nobel (1991)
COLUNAS

Segunda-feira, 9/3/2009
O mundo como ele realmente é
Cris Ambrósio

+ de 5500 Acessos

Nada mais perigoso do que generalizações, mas talvez seja possível dizer que a maioria esmagadora dos ratos de bibliotecas, frequentadores de sebos, leitores da McSweeney's e da Granta, enfim, dos obcecados por livros em geral, devem esse amor ao contato constante com a literatura desde quando eram crianças. Com essa relação que nada diz respeito ao clima de obrigatoriedade dos anos escolares ainda por vir, o hábito da leitura evolui e torna-se parte da pessoa.

Eventualmente, essa pessoa provavelmente irá se acostumar com enredos metafóricos, parabólicos e difíceis. E também estará perfeitamente habituada a criar as mais diversas interpretações para esses livros tão complicados, tão adultos. Quem sabe o consolo para tanta intelectualidade cansativa seja a memória de tempos inocentes nos quais se lia coisas com figuras coloridas de traços delicados, palavras fáceis e histórias simples.

É de se imaginar o choque em saber que a inocência que deveria estar presente nesses livros, ou pelo menos em alguns deles, não existia. Eu senti um exemplo disso recentemente, em razão de uma exposição montada no Morgan Library & Museum, em Nova York, sobre a confecção dos desenhos da famosa série Babar, criada por Jean e Cecile de Brunhoff. Várias matérias foram publicadas e a ficha acidentalmente caiu.

Para quem nunca ouviu falar, Babar é um elefante que sai da selva depois que a mãe é assassinada por caçadores e vai morar em Paris. Lá, conhece Senhora, uma fina mulher francesa, e aprende a cultura dos homens, como o uso do terno. Quando volta para a selva, elegante e bípede, é coroado rei e funda uma cidade, Celesteville, onde os demais animais adotam o mesmo comportamento. Além das belas publicações, a história também estava na televisão: uma animação canadense era transmitida pela TV Cultura e atualmente vai ao ar pelo canal a cabo HBO Family.

Em todos esses anos que se passaram jamais percebi as óbvias referências aos países colonizados por europeus, sobretudo na África. Era o "fardo do homem branco" ensinar sua cultura superior aos nativos subdesenvolvidos e, dessa maneira, "ajudá-los" e torná-los civilizados.

O romance Coração das Trevas do inglês Joseph Conrad é um bom instrumento para se ter uma ideia do pensamento mais comum da época ― foi publicado em 1902 ― sobre a colonização. Há controvérsias sobre as opiniões do autor sobre o tema: se ele é ou não contra o ensino de hábitos europeus aos africanos e a exploração dos recursos do continente. Independentemente desses debates que dependem mais da interpretação que se tem do livro, ler a obra é uma maneira de saber um pouco mais sobre o assunto que ainda hoje é polêmico.

Aqueles que passavam a comportar-se ao modo europeu eram chamados de "assimilados". Eram ensinados a eles a língua, a etiqueta, o modo de vestir-se e qualquer outro hábito exigido pela sociedade, exatamente da mesma maneira que acontece com Babar e companhia. A assimilação significava ascensão social, era um modo de negar a própria origem em uma terra dominada por estrangeiros. Os empregos conseguidos por estes eram melhores, assim como moradia. Embora no desenho animado e no livro tudo funcionasse muito bem, essas pessoas eram mal vistas por ambos extremos da sociedade: os africanos e os europeus. Para um dos lados, eles não passavam de traidores de uma causa nobre (o fim da colonização e expulsão dos europeus) que se submetiam ao ridículo pelo benefício próprio. Para o outro lado, não adianta o quanto se esforçassem, ainda seriam inferiores; melhores, talvez, mas ainda inferiores. Por essa razão o autor pode estar querendo estimular e elogiar "assimilação", mostrando apenas um fictício ponto positivo e omitindo todo o resto.

O processo de assimilação e o impacto dele são abordados pelo ótimo livro de contos do angolano José Luandino Vieira, chamado Luuanda, publicado em 1963. O livro não é de fácil entendimento, mesmo vindo de um país lusófono: além do estilo de Luandino ser fortemente influenciado pelo de João Guimarães Rosa, que já não é nada simples, o vocabulário popular angolano e diversas palavras de dialetos locais são recorrentes. Saber uma ou outra coisa da turbulenta História recente de Angola também ajuda um pouco na leitura.

Os três contos que compõem Luuanda retratam aspectos da sociedade angolana que certamente não se limitavam apenas a esse país. As rachaduras estão por toda parte: a colonização se mostra como um labirinto sem saída para todos os africanos. Aqueles que mantêm distância dos brancos sofrem com a miséria e a marginalização, e os que tentam uma aproximação dos colonizadores, apesar de obterem uma realidade um pouco melhor, ainda são forçados a carregar o estigma da cor da pele.

É difícil negar que embora os animais das historinhas de Babar, ainda que fiquem bem simpáticos de pé e vestidos (em razão da alta qualidade dos desenhos), não perdem o ridículo por estarem nessa situação. Tratando-se de um livro infantil, a inverossimilhança seria ignorada, no entanto Babar se mostrou menos inocente do que as demais histórias. O auge do absurdo está no conselheiro do Rei Babar, o personagem chamado Pompadour. Um elefante de peruca branca, monóculo e vestes no estilo europeu do século XVIII, remetendo à Versalhes. Ao mesmo tempo em que faz referências a um mundo que realmente existiu, o elefante enjoadinho e burocrático traz em si enorme comicidade e provoca risos toda vez que aparece. Quem sabe exatamente da mesma maneira que negros vestindo elegantes casacas e chapéus coco provocavam risos em certos europeus.

Se tudo isso não for um comentário social, é no mínimo uma inspiração inapropriadamente explícita. As crianças obviamente não sabem muito sobre um assunto árido como a colonização européia na África, ao menos por enquanto. A princípio tudo pode parecer apenas uma criação bem elaborada, consequente de uma bela imaginação, porém, não é totalmente paranóico dizer que a história, publicada a partir de 1931, pode ter sido manipulada para favorecer interesses de outras pessoas em uma situação qualquer. É tão inocente acreditar que não há referências quanto acreditar que ninguém tirou proveito delas.

E ainda, se as referências forem realmente intencionais, Brunhoff se mostra como mais um daqueles adultos que não levam a inteligência de crianças a sério e tiram proveito da sua temporária falta de informação para o divertimento próprio. Afinal, como elas ainda estão ocupadas em correr e brincar, não tiveram a preocupação em estudar História, portanto não entenderão o que está acontecendo nas entrelinhas. É praticamente como contar uma piada pornográfica para alguém de seis anos: ele pode achar graça de uma ou outra palavra, mas para por aí.

A literatura infantil é de uma importância absurda na vida das pessoas, não só para os obcecados por livros. Só pelo fato de ajudar na alfabetização ela já é extremamente importante. E por essa razão ela deve ser honesta, expor informações que uma criança é capaz de absorver (é bom lembrar que elas não são nada bobas), aumentar os conhecimentos e ajudar seu público alvo no processo de amadurecimento. Duvido muito que a inclusão de comentários sócio-políticos faça parte do papel desse tipo de literatura.

Babar continua fazendo parte da minha vida, de muitos outros e continuará cativando crianças mundo afora. Os livros da série são de uma beleza ímpar; coloridos, bem ilustrados, boas histórias. Um belo primeiro capítulo na história de uma pessoa com a literatura. E nada ― nem a mais poderosa das alienações ― pode apagar uma mancha profunda como essa.


Cris Ambrósio
São Paulo, 9/3/2009


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Crônica de Aniversário de Julio Daio Borges
02. Não olhe para trás (ou melhor, olhe sim) de Cassionei Niches Petry
03. O palhaço, de Selton Mello de Wellington Machado
04. Mia Couto revisitado de Elisa Andrade Buzzo
05. A importância do nome das coisas de Adriana Baggio


Mais Cris Ambrósio
* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




DICIONÁRIO ESCOLAR - INGLÊS PORTUGUÊS - PORTUGUÊS INGLÊS
EDITORA MARTINS FONTES
MARTINS FONTES
(2005)
R$ 18,75



A MÁQUINA DE LAMA
ROBERTO SAVIANO
COMPANHIA DAS LETRAS
(2012)
R$ 20,00



EU SOU A FONTE DA CONSCIÊNCIA CÓSMICA
RODRIGO ROMO
MADRAS
(1999)
R$ 220,00



BRINCANDO COM O PERIGO
LAÍS CARR RIBEIRO
MODERNA
(1994)
R$ 16,50



O JORNAL DE ONTEM
HENRIQUE NICOLINI
PH
(2006)
R$ 12,00



SYMPOSIUMCIBA TOMO 11 Nª 2
CIBA
CIBA
(1963)
R$ 11,22



OS KAMA SUTRA DE VATSYAYANA
TRADUÇAO DE MARCOS SANTARRITA
BRASILIA
(1974)
R$ 20,00



MERCADO DE CAPITAIS
LAMEIRA
FORENSE UNIVERSITÁRIA
(2003)
R$ 199,00



UM DOMINGO PARA SEMPRE
SÉBASTIEN JAPRISOT
RELUME DUMARÁ
(2005)
R$ 5,00



O JOGO DA TRANSIÇÃO
MARIÁ GIULIESE
ÉVORA
(2011)
R$ 39,00





busca | avançada
54332 visitas/dia
2,0 milhões/mês