O elogio da narrativa | Luis Eduardo Matta | Digestivo Cultural

busca | avançada
63467 visitas/dia
1,8 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Douglas Germano apresenta 'Umas e Outras'
>>> Mostra de Cinemas Africanos acontece em São Paulo e Curitiba a partir de 6 julho
>>> Iecine abre inscrições para a Oficina de Crítica e Fruição Cinematográfica
>>> CLUBE DO CONTO APRESENTA 'UNIDADE BÁSICA DE SAÚDE' COM A ESCRITORA AVE TERRENA
>>> NO SESC SANTO AMARO, FABIANA COZZA APRESENTA ‘DOS SANTOS’, SHOW HOMÔNIMO DE SEU OITAVO DISCO
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> 80 anos do Paul McCartney
>>> Gramática da reprodução sexual: uma crônica
>>> Sexo, cinema-verdade e Pasolini
>>> O canteiro de poesia de Adriano Menezes
>>> As maravilhas do modo avião
>>> A suíte melancólica de Joan Brossa
>>> Lá onde brotam grandes autores da literatura
>>> Ser e fenecer: poesia de Maurício Arruda Mendonça
>>> A compra do Twitter por Elon Musk
>>> Epitáfio do que não partiu
Colunistas
Últimos Posts
>>> Oye Como Va com Carlos e Cindy Blackman Santana
>>> Villa candidato a deputado federal (2022)
>>> A história do Meli, por Stelleo Tolda (2022)
>>> Fabio Massari sobre Um Álbum Italiano
>>> The Number of the Beast by Sophie Burrell
>>> Terra... Luna... E o Bitcoin?
>>> 500 Maiores Álbuns Brasileiros
>>> Albert King e Stevie Ray Vaughan (1983)
>>> Rush (1984)
>>> Luiz Maurício da Silva, autor de Mercado de Opções
Últimos Posts
>>> Armas da Primeira Guerra Mundial.
>>> Você está em um loop e não pode escapar
>>> O Apocalipse segundo Seu Tião
>>> A vida depende do ambiente, o ambiente depende de
>>> Para não dizer que eu não disse
>>> Espírito criança
>>> Poeta é aquele que cala
>>> A dor
>>> Parei de fumar
>>> Asas de Ícaro
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Café com crítica cultural
>>> Por Tutatis!
>>> Macunaíma, de Mário de Andrade
>>> História da leitura (II): o códice medieval
>>> As Pérolas Que Eram Teus Olhos
>>> O livro digital Toy Story para iPad: revolução?
>>> Banana Republic
>>> Saudosismo
>>> 7 coisas que aprendi
>>> Paths of Glory
Mais Recentes
>>> Psicologia e Povos Indígenas de Vários Autores pela Crp/sp (2010)
>>> O Livro do Destino de Brad Meltzer pela Planeta (2007)
>>> Os Grandes Lideres: Juscelino / Capa Dura - Confira !!! de Geraldo Mayrink pela Nova Cultural (1988)
>>> O Conceito Zero - uma Trama Internacional para a Independência Da... de A J Barros pela Edilux (2008)
>>> 365 Dias, 365 Histórias de Clóvis Bovo pela Santuário (1989)
>>> A Lebre Com Olhos de âmbar - Confira !!! de Edmund de Waal; Alexandre Barbosa pela Intrínseca (2011)
>>> Power of the Soul de John Holland pela Hay House Inc (2007)
>>> Bandeiras Pálidas de Michael Ondaatje pela Companhia das Letras (2000)
>>> Fenômenos Psicossomáticos de Howard R.; Martha e Lewis pela José Olympio (1988)
>>> Volume 4 - História da Civilização Eduardo Garcia / Capa Dura de Prof Eduardo Garcia pela Egéria (1978)
>>> Terra - Cotta Warriors & Horses At the Tomb of Qin Shi Huang de Diversos Autores pela China International Book (1986)
>>> O Manipulador de John Grisham pela Rocco (2013)
>>> 2 Ou + Corpos no Mesmo Espaço (confira!!) de Arnaldo Antunes pela Perspectiva (1998)
>>> Vestibular 100% - Método de Estudo de Fábio Ribeiro Mendes pela Literalis (2006)
>>> Dom Quixote Tradução e Adaptação Orígenes Lessa de Miguel de Cervantes pela Ediouro (2005)
>>> Macbeth - (coleção Shakespeare) de William Shakespeare pela Objetiva (2003)
>>> Throne of Jade: 02 de Naomi Novik pela Del Rey Books (2006)
>>> O Coletivo Aleatório de Luis Marra pela Hedra (2001)
>>> A Corrente de Fraternidade de Rizzardo da Camino pela Ícone (1993)
>>> A Queda de Tróia de Peter Ackroyd pela Teorema (2006)
>>> Dos Delitos e das Penas de Cesare Beccaria pela Jose Bushatsky Editor (1978)
>>> O Senhor dos Ladrões de Cornelia Funke pela Cia das Letras (2004)
>>> A Semente da Vitória - 7ª Edição - Confira! de Nuno Cobra pela Senac Sp (2002)
>>> A Auto-estima: um Bem Essencial - Confira! de Rosette Poletti, Barbara Dobbs pela Vozes (2007)
>>> Danico Pé-de-vento - 3ª Impressão de Isabel Vieira pela Moderna (1997)
COLUNAS

Segunda-feira, 23/8/2010
O elogio da narrativa
Luis Eduardo Matta

+ de 7200 Acessos


LIANA TIMM© (http://timm.art.br/)

Em 2003, publiquei o primeiro de uma série de artigos defendendo a consolidação de uma literatura de entretenimento feita por escritores brasileiros, que causou certo rebuliço e me tornou, ainda que por alguns poucos dias, alvo de toda sorte de impropérios. Na época, eu apelidei essa literatura de "LPB ― Literatura Popular Brasileira", numa analogia, feita ao acaso ao longo do texto, com a música. Minha tese era ― e continua sendo ― a de que é escassa no Brasil uma literatura menos preocupada com os rigores estéticos, com a experimentação e com a abordagem aprofundada de temas existenciais ou sociológicos e mais voltada para a narrativa despretensiosa. Isto é: uma literatura sem ambições intelectuais, cujo principal objetivo seja o de contar uma história interessante e bem construída de começo, meio e fim, em linguagem direta e acessível, capaz de emocionar leitores de diversos estratos sociais e culturais. Muita gente pensou erroneamente que a LPB era um manifesto ou, mais ainda, um movimento literário com adeptos, signatários e metas estabelecidas. O fato é que meus artigos sobre a LPB se prestavam apenas à exposição de uma percepção muito particular a respeito da trajetória da literatura brasileira, forjada durante anos de aprendizado como leitor e como pessoa sobre a nossa cultura e o nosso país.

Felizmente, o tema também conquistou simpatizantes ― pessoas com inquietações semelhantes, mas que, por uma razão ou outra, não haviam tido, ainda, a oportunidade de se manifestar, ou encontrado a maneira certa de fazê-lo. O tema, afinal, soa polêmico, sobretudo para os que não admitem mudanças ou vivem enclausurados nas suas certezas, recusando-se a ouvir ou dialogar. Na verdade, uma análise mais detida e objetiva mostra que não se trata de uma proposta tão polêmica. Ainda porque a ideia de uma literatura de entretenimento brasileira ― pelo menos da forma como expus nos artigos ― não passa por uma denúncia da tradição literária brasileira. Tampouco pela literatura que se produz atualmente no Brasil. Sempre defendi o princípio da convivência. A literatura de entretenimento, desta maneira, abriria um caminho a mais dentro das nossas letras, sem sequer cogitar a extinção dos já consolidados ou condenar o surgimento de outros.

A ficção brasileira vive, hoje, um extraordinário momento criativo. Nunca se escreveu tanto e de tantas maneiras por aqui como agora e, do mesmo modo, nunca foi tão simples publicar e ser lido. Autores de várias vertentes estão emergindo com trabalhos originais, muitos dos quais bem feitos, de nítida voz própria e com uma assumida influência pop ― uma característica comum entre aqueles que cresceram a partir da década de 1980. Nossa ficção de terror, por exemplo, já é uma realidade. Com amplo público leitor cativo e protagonizando uma infinidade de eventos alternativos, ela possui, hoje, um reconhecimento que seria improvável, digamos, há vinte ou trinta anos. O mesmo ocorre com a ficção científica e o romance policial, durante décadas desprezados no meio literário, e hoje em curva ascendente. Esses e outros gêneros, historicamente marginalizados, vêm ganhando força, muito graças à internet, que conectou escritores e leitores de todo o país, revelando a existência de pontos em comum entre pessoas que viviam isoladas e que não imaginavam haver milhões de outras com anseios e opiniões convergentes sobre literatura. A comunicação propiciada pela internet e seu caráter interativo e agregador têm sido fundamentais para essa aparente distensão do cânone literário. Aos poucos, vamos percebendo que há um amplo espaço no Brasil para todo tipo de ficção e que para figurar no panteão da literatura brasileira, uma obra não precisa, necessariamente, estar em absoluta conformidade com os critérios do meio acadêmico e nem a ele prestar contas, já que não depende do seu reconhecimento para ser legitimada.

Foi nesse clima que na Bienal do Livro de 2009, alguns profissionais do meio literário ― escritores, editores e jornalistas ― se conheceram e, unidos por pontos de vista e objetivos similares em relação à causa da literatura de entretenimento, decidiram abrir um canal de comunicação com a sociedade para divulgar suas ideias. Nascia, então, o Manifesto Silvestre, este, sim, um movimento, ao contrário da LPB. A meta fundamental do manifesto é estimular os escritores brasileiros de entretenimento a assumir, sem receio de ser desautorizados, que, sim, o que eles fazem é literatura. É acabar com a noção de que entretenimento não passa de um passatempo vazio e superficial, de algo "menor", e propor aos autores uma espécie de retorno à narrativa, à arte de contar histórias, sempre observando a qualidade e tendo em conta que a criação de uma obra de entretenimento exige o mesmo rigor e apuro de qualquer obra literária que almeje ser levada a sério. Eu, pessoalmente, não me preocupo muito com os humores da crítica acadêmica, mas é chegada a hora de a universidade flexibilizar seus conceitos e se abrir, como, ao que parece, já está acontecendo. A literatura brasileira, afinal, está mudando de fisionomia, ampliando seus horizontes, agregando novas tendências e todos que a estudam e se preocupam com ela precisam acompanhar esse processo, sob pena de ficarem alijados da realidade e cada vez mais distantes do já rarefeito diálogo com o conjunto da sociedade.

A própria palavra "entretenimento", vista com desprezo, deveria ser repensada e tratada com mais respeito. Pois a literatura que trilha esse caminho com responsabilidade é muito difícil de ser concebida. Exige planejamento, pesquisa, precisão linguística (até para ser inteligível) e um olhar atento sobre a multiplicidade da realidade, já que o seu propósito, em geral, é recriar na ficção não o umbigo do escritor, mas situações que não estão necessariamente presentes no seu cotidiano. A crença de que um texto para ter valor precisa ser complicado e prolixo é equivocada. Toda literatura é capaz de transmitir ideias e levar pessoas a refletir. Quantas histórias interessantes não se perderam nas mãos de autores atrapalhados que, no afã de serem levados a sério, se forçaram a adotar uma verborragia rebuscada e cansativa, e, com isso, acabaram não conseguindo passar adequadamente o seu recado?

Do mesmo modo que a culinária de uma família não pode ser composta apenas de lagosta, caviar, trufas e açafrão, a cultura de um país não se faz somente com gênios. Se na língua inglesa a literatura conta com o talento de nomes como Ian McEwan e Ken Follett (no Reino Unido) e Philip Roth e Dan Brown (nos Estados Unidos) ― cada qual brilhando à sua maneira e sem competir entre si ― nada impede que criemos um ambiente parecido por aqui. Como declarou o célebre crítico José Paulo Paes, um dos primeiros intelectuais que, até onde sei, se debruçou com seriedade sobre a questão da literatura entretenimento no Brasil: "(...) Numa cultura de literatos como a nossa, todos sonham ser Gustave Flaubert ou James Joyce, ninguém se contentaria em ser Alexandre Dumas ou Agatha Christie. Trata-se obviamente de um erro de perspectiva: da massa de leitores destes últimos autores é que surge a elite dos leitores daqueles, e nenhuma cultura realmente integrada pode se dispensar de ter, ao lado de uma vigorosa literatura de proposta, uma não menos vigorosa literatura de entretenimento (...)". O trecho foi extraído do ensaio "Por uma literatura brasileira de entretenimento (ou: o mordomo não é o único culpado)", que integra a coletânea A aventura literária (Companhia das Letras) cuja leitura recomendo com vigor.

Nota do autor
Texto originalmente publicado na revista Machado, em agosto de 2010. Leia também "Literatura de entretenimento e leitura no Brasil".


Luis Eduardo Matta
Rio de Janeiro, 23/8/2010


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Ser e fenecer: poesia de Maurício Arruda Mendonça de Jardel Dias Cavalcanti
02. Mãos de veludo: Toda terça, de Carola Saavedra de Renato Alessandro dos Santos
03. Fechado para balanço, a poesia de André Luiz Pinto de Jardel Dias Cavalcanti
04. Rinoceronte, poemas em prosa de Ronald Polito de Jardel Dias Cavalcanti
05. Escola (e escolinha) de Julio Daio Borges


Mais Luis Eduardo Matta
Mais Acessadas de Luis Eduardo Matta
01. Sim, é possível ser feliz sozinho - 19/9/2006
02. Os desafios de publicar o primeiro livro - 23/3/2004
03. A difícil arte de viver em sociedade - 2/11/2004
04. A favor do voto obrigatório - 24/10/2006
05. Literatura de entretenimento e leitura no Brasil - 21/11/2006


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




A Boa Terra - Grandes Sucessos
Pearl S. Buck
Abril Cultural
(1980)



Memorias da Minha Aldeia Bairrada Ou Barrada Proença a Nova Portugal
Isaias Dias
Do Autor
(2008)



O verão antes da queda
Doris Lessing
Abril Cultural
(1983)



Os Signos da Opressão - História e Violência nas Prisões Brasileiras
Regina Célia Pedroso
Imprensa Oficial
(2002)



Esportes de Quadra
Rogério Silva de Mello
Sprint
(1999)



Angelo e Anjo
Pedro Karp Vasquez
Larousse
(2008)



The Walking Dead Declínio
Robert Kirkman
Galera Record
(2015)



Les Hommes Fossiles
Marcellin Boule
Masson
(1952)



Uma ética para o Novo Milênio - Dalai Lama
Dalai Lama
Sextante
(2000)



Guia Unicard Unibanco Brasil
Vários Autores
Bei
(2004)





busca | avançada
63467 visitas/dia
1,8 milhão/mês