10 maneiras de tentar abolir o debate | Julio Daio Borges | Digestivo Cultural

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Sexta-feira, 17/10/2014
10 maneiras de tentar abolir o debate
Julio Daio Borges

+ de 3000 Acessos

10 maneiras de tentar abolir o debate (neutralizando você):

1) "Como assim, você tem opiniões políticas?": É o velho truque do "eu preferia antes, quando os assuntos eram outros". Repare que quem se incomoda com a sua opinião é quem tem uma opinião geralmente contrária à sua (e não só uma opinião "diferente"). E quem acha que se você continuar "com essas opiniões", vai acabar convencendo alguma pessoa (!). É melhor parar por aí... Se você tivesse uma opinião que batesse com a da pessoa que te questiona, tudo bem, ela não iria reclamar, ela iria até dizer que a sua opinião "acrescenta", "enriquece o debate" etc.

2) "Você não é imparcial": Quando a pessoa percebe que você *não* se horroriza com o simples fato de ter opiniões, ela te acusa de "não ser imparcial". Bem, isso não é uma acusação. É um fato da vida. Nietzsche mostrou, pelo perspectivismo, que ninguém nunca é "neutro". Ele usou o exemplo das pessoas que escreveram a Bíblia: eram homens, como nós. Humanos, demasiadamente humanos. Ou seja: não ser neutro, ou "imparcial", é a condição existencial de qualquer ser humano. Kant nos colocou no tempo e no espaço. Não temos como fugir dessas dimensões. Cada pessoa é um ponto de vista. Não temos acesso a "absolutos".

3) "Você está abusando da sua credibilidade": A frase não é bem essa, mas vocês entenderam o sentido. Equivale a dizer que você era uma pessoa "respeitável" até começar a emitir opiniões. Bem, depois "dessas suas opiniões", ninguém sabe o que pode acontecer... "As pessoas podem não te respeitar mais", seu interlocutor parece te dizer. Vamos ver se eu entendi direito: enquanto você não tinha opiniões, você era ótimo, fazia o seu trabalho sem interferir no meu; agora que você tem opiniões, não é tão bom assim, está me atrapalhando! Quem faz propaganda política, não quer concorrência. Quem te "aconselhou" isso sempre emitiu as próprias opiniões, certo?

4) "Você pode perder amigos e até fazer alguns inimigos...": Não se assuste com essa ameaça, você *sempre* pode perder amigos e "fazer inimigos" quando se posicionar. E não é apenas em debates políticos, mas em qualquer situação da vida. Quando você reclama de um produto com defeito. Quando você não gosta de um atendimento. Quando você exige um serviço mais bem feito. Quando você não aceita uma proposta que te fazem. Quando você *faz* uma proposta que não é aceita. Quando você adere a um grupo. Quando você se desliga de um grupo. Quando você discorda de pessoas próximas. Quando você defende ideias "não convencionais". Qualquer pessoa que tenha um mínimo de personalidade está sujeita a "perder amigos" e a "fazer inimigos".

5) "Você pode estar sendo preconceituoso (sem perceber)": Uma das coisas que mais me incomoda no patrulhamento via "correção política" é o uso que se faz da palavra "preconceito". Ter preconceito, até onde eu entendo, é ter um "conceito" prévio, sem conhecer direito. Mas quando você conhece o assunto, mesmo que minimamente, você já tem um *conceito*. Assim, eu não tenho um "preconceito contra o PT", mas eu tenho um *conceito* sobre o PT. Eu não tenho um "preconceito contra os petistas", eu tenho um *conceito* sobre os petistas. Eu não tenho um "preconceito contra o Lula", eu tenho um *conceito* sobre o Lula. E eu não tenho um "preconceito contra a Dilma", eu tenho um *conceito* sobre a Dilma. Eu posso ter preconceitos, claro - como qualquer pessoa, aliás -, mas quando estou *embasando* minhas opiniões, estou emitindo meus *conceitos* e, não, "preconceitos".

6) "Você não entende de política, você não deveria opinar": Ninguém entende de política *a priori*. Ninguém nasce "sabendo" política. Porque "política" não é simplesmente um "assunto", uma matéria, que se possa dominar. Não é como saber inglês (ou não saber). Não é, assim, "binário". É um processo; uma construção. E passa, inevitavelmente, pelo debate, pela discussão. Participar das coisas da sua cidade, do seu estado, do seu país, envolve conversar sobre elas com outras pessoas. A democracia ateniense - um dos paradigmas históricos - envolvia participação ativa dos cidadãos. E parlamento, originalmente, vem de "parler": falar, em francês. E qualquer imagem que você tenha de um parlamento, você sabe que envolve "falatório", discussões acaloradas, debates etc. Assim, você *sempre* pode opinar sobre política. Você deve opinar sobre política. Porque, mesmo "não entendendo nada", é o único meio de te fazer *entender alguma coisa*.

7) "Você não deveria opinar, porque ignora tais e tais informações": E dá-lhe links, e dá-lhe fontes das quais você nunca ouviu falar e dá-lhe palavras-chave. A pessoa quer dizer, no limite, que você é ignorante e, por isso, não deveria emitir opiniões. "Fique quieto, você não sabe do que está falando." Acontece que você não precisa entender de asfalto ou de calçamento de ruas, para opinar que sua cidade está esburacada. Você não precisa ser economista para concordar que a inflação voltou, que "a economia está parada" e que o desemprego está voltando. Você não precisa ser filiado a nenhum partido político, para saber que a cúpula de um determinado partido foi condenada, multada e presa por corrupção; que esse partido, mesmo após essa condenação, manteve os mesmos expedientes de corrupção; e que esses mesmos expedientes financiaram a campanha de 2010 da atual candidata do governo à reeleição. São fatos sabidos e notórios, e emitir opiniões sobre eles não é pecado. Você não precisa ser PhD para dar sua opinião.

8) "Vou parar de te 'seguir' (ou vou deixar de ser seu 'amigo'), se você não parar com essas opiniões...": Se te consola, eu recebo "ameaças" desse tipo todos os dias. Não de amigos de verdade, claro. O mais engraçado é ver que os mesmos que ameaçam - e que até cumprem com suas ameaças - depois voltam resignados, porque não aguentam ficar longe... das nossas opiniões! É óbvio que algumas pessoas não vão concordar com você. E é óbvio que algumas pessoas não vão gostar de você - porque se identificam *tanto* com suas próprias opiniões que ser contrário a essas opiniões, é ser contrário a elas próprias (pessoas). Independente de concordar, opiniões a gente respeita ou não. Quem importa, vai respeitar as suas opiniões (quais sejam), porque respeita você. E quem não te respeita, você não precisa ter por perto - pode abrir mão da "amizade" ou do "follow"...

9) "Suas opiniões não valem porque você é isso ou aquilo": Nesse ponto, a pessoa já perdeu as estribeiras e passa a te atacar abertamente. Como não te fez desistir de opinar, nem desistir das próprias opiniões, a pessoa tenta te desmoralizar. Tem gente que se intimida com esse tipo de ataque, mas não deveria. Na verdade, o que impressiona é a violência do ataque, porque o agressor te julga, pelas *suas* opiniões, e te enquadra num grupo, que, por ter determinadas opiniões, não merece consideração. Isso não é novidade; trata-se de uma técnica antiga. Chama-se "argumentum ad hominem" (em latim, "argumento contra a pessoa"). Era como, por exemplo, Nietzsche atacando Sócrates, e seus conceitos sobre a beleza, porque Sócrates era "feio". (Leia-se: uma pessoa feia não pode entender de beleza.) É engraçado. E provoca certo efeito. Mas não deve impedir ninguém de emitir suas próprias opiniões. É apenas sinal de que seu oponente perdeu a razão, e, não encontrando outros argumentos à mão, ataca você.

10) "Vou te denunciar, vou te processar etc.": Quando a pessoa percebe que não te atinge nem te atacando pessoalmente, ela ameaça "chamar a polícia" ou te ameaça judicialmente. A maioria é bravata, claro. Para te intimidar, mais uma vez. Em geral, opiniões (quais sejam) são protegidas pela chamada "liberdade de expressão". Se a pessoa resolver te processar mesmo - e se ela quiser ganhar alguma coisa ($) com isso -, terá de provar que houve calúnia ou difamação. Você não está caluniando nem difamando ninguém só porque diz que um candidato X, ou um partido Y, não merece o seu voto. É importante ter cuidado com as redes sociais: se uma opinião sua "viralizar", e for potencialmente ofensiva, você pode ter problemas. Mas é raro. Quantos memes você criou nos últimos tempos? E na sua vida inteira?

Resumindo a ópera: não deixe de emitir suas opiniões só porque existe uma militância treinada para te neutralizar. Política é um assunto chato, eu sei, mais do que economia até. Mas quem não se interessa por política, minimamente, está condenado a ser governado por quem se interessa. Muita gente diz que não importa, que podemos eleger qualquer pessoa. Não é bem assim. Veja o que aconteceu com o Brasil nos últimos 12 anos. Esse, aliás, é mais um argumento para diminuir a sua participação. Tipo aquele que diz que "não vale a pena", que "todos os políticos não prestam", que "todos os partidos são iguais" etc. "Política" tem parentesco com "pólis": cidade, em grego. Todo mundo faz parte da cidade. Todo mundo está inserido nela. Assim como da economia, não dá para escapar da política. E para aprender, para saber, para entender melhor é preciso opinar, participar do debate, não tem outra forma.


Julio Daio Borges
São Paulo, 17/10/2014


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