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ENSAIOS

Segunda-feira, 9/8/2004
Outsider: quem não se enquadra
Mário Bortolotto
+ de 15500 Acessos
+ 17 Comentário(s)

A figura do outsider. Do cara que não se enquadra. Do sujeito que não faz questão de pertencer a nenhuma turma. O cara que no colégio sentava na última carteira, não falava com ninguém e ia embora sozinho. Havia algo de muito maneiro em figuras desse naipe.

Numa sociedade onde qualquer babaca quer virar celebridade, a figura do "ninguém" sempre me pareceu o melhor modelo de vida. E aqui não vai nenhuma pretensão estilosa do tipo "é legal ser diferente". Porra nenhuma. O que eu penso é que simplesmente "ninguém precisa ser igual".

Cada pessoa devia andar por aí rezando pela própria Bíblia, ou seja, fazendo suas próprias leis e fazendo uso de seu livre arbítrio. Mas não é o que tem acontecido.

Assisto sem nenhum entusiasmo e com bastante perplexidade aqueles filmes americanos de turmas de universidade com aquelas indefectíveis fraternidades onde o cara passa por uma coleção inimaginável de humilhações apenas com o inacreditável intuito de ser aceito em uma fraternidade de babacas. Não é muito diferente das merdas dos trotes universitários brasileiros. Babaca não respeita geografia.

Fico imaginando o que leva uma pessoa a essa necessidade doentia de ser aceito. E com o tempo me parece que em busca de aceitação as pessoas têm se padronizado de maneira assustadora e alarmante.

Hoje em dia a rapaziada usa piercing, tatuagem (não que eu tenha exatamente nada contra o uso de piercings ou tatuagens, mas é que parece que grande parte da molecada começa a usar apenas numas de copiar outra pessoa e aí é esquisito), o mesmo corte de cabelo, gosta das mesmas músicas e das mesmas roupas e emprega as mesmas expressões ("Galera", "é dez", "é show", "baladinha" e outras que eu não consigo sequer repetir aqui sem ter o meu estômago revirado) e aí ele se sente parte de alguma coisa, é compreendido e aceito e não vira motivo de zombaria entre os demais, justamente por não ser diferente.

Então o que acontece é muito simples. Se o sujeito tá num grupo onde o lance é odiar alguém, seja quem for, pode ser negro, viado, gordo, mulher ou o Mico-Leão Dourado, então o cara vai passar a odiar, ele nem sabe o motivo, é que a turma odeia e ponto. E se a turma pinta o cabelo de azul, então o panaca pinta também. E se a turma acha que é legal praticar artes marciais pra sair dando porrada em desavisados noturnos, então o cara automaticamente se inscreve numa academia e sai de lá o mó Steven Seagal.

E acha legal sair de carro com uma piranha oxigenada (esses caras sempre andam com piranhas descerebradas que são apreciadoras de bravatas intimidatórias) e provocar o primeiro sujeito pacífico que eles cruzarem pela frente. E vai ser providencial se eles pegarem pela frente um carinha com um livro do Kafka no ponto de ônibus. Esses caras nutrem um profundo ódio por qualquer sujeito que consiga articular mais que duas frases inteligíveis. E as suas piranhas são as primeiras a aplaudir o massacre.

Não tô aqui querendo de maneira nenhuma desmerecer o trabalho de alguns professores de artes marciais que sei o quanto são sérios e dignos. Mas é que sem a devida orientação eles estão criando um exército de babacas extremamente perigosos.

E é claro que a mídia e a publicidade incentivam irresponsávelmente esse estilo de vida. Elas querem todo mundo comprando e consumindo as mesmas coisas, coisas essas que eles fabricam em larga escala para atender a demanda desenfreada.

Numa novelinha como Malhação, só pra citar um exemplo bastante óbvio, a impressão que fica é que o roteirista escreveu um monólogo e depois distribuiu as falas entre vários personagens. Não há diferenciação de personalidade. Todos falam as mesmas coisas, do mesmo jeito e usando as mesmas expressões. Em resumo: fique igual e permaneça legal.

Há um processo de idiotização total e irrestrita avançando a passos largos. E essa busca pela padronização e no conseqüente status mediano (estou sendo generoso com esse "mediano") que as pessoas têm alcançado ganhou por esses dias duas novas forças de responsa.

A MTV “onde é que estão os clipes, porra?” estreou dois programas que são verdadeiras aberrações. O primeiro deles é o tal Missão MTV onde a Modelo Fernanda Tavares totalmente destituída de qualquer coisa que possa ser chamada de carisma, apesar de bonitinha (é o mínimo que se pode esperar de uma modelo) é chamada para padronizar qualquer sujeito que não esteja seguindo as regrinhas do que eles chamam de "bom gosto". Então se uma garota não fizer o gênero patricinha afetada, então ela automaticamente está out e a missão da Fernanda é introduzir a "rebelde" ao mundo dos iguais.

E dá-lhe o que eles chamam de "banho de loja". Se o cara usa roupas largas e o cabelo sem uma preocupação fashion e ainda se diz roqueiro, então eles transformam o coitado num metrosexual glitter afetado e por aí vai. Parece que a mulher vai dar um jeito no quarto de um sujeito. Ela diz que tá tudo errado no quarto do cara. Como assim? É o quarto dele, porra. Enfim, é proibido ter estilo. Quem não se enquadra, sai de cena. Em resumo, um programa vergonhoso.

Mas o pior ainda é o outro: O inacreditável e assustador Famous Face. Sacaram qual é a desse? Uma maluca encasqueta que quer ficar parecida com a Jeniffer Lopez ou com a Britney Spears e tal estultice é incentivada. Em resumo, a transformação é filmada e testemunhamos a verdadeira frankesteinização sofrida pela pobre iludida. Ela se submete à operação plástica, lipoaspiração e o caralho. Chega a ser nojento. Eu não entendo qual é a de um programa como esse. Será que a indústria da cirurgia plástica tá precisando de uma forcinha? Eu duvido. Nunca vi se falar tanto em botox, silicone, lipo e outras merdas. Todo mundo tentando evitar o inevitável. Todo mundo querendo retardar o tempo incontrastável. Vivemos cada vez mais em uma gigantesca e apavorante Ilha do Dr. Mureau. Foda-se Dorian Gray. Eu sou bem mais as rugas de Hemingway.

Nota do Editor
Mário Bortolotto é dramaturgo. Este texto, reproduzido aqui com sua autorização, foi originalmente publicado em seu blog Atire no Dramaturgo.


Mário Bortolotto
São Paulo, 9/8/2004

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* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
21/9/2004
08h33min
Está claro que a midia incentiva os jovens para uma maldita massificação. Essa tarefa se torna ainda mais facil num ambiente em que é raro para alguns jovens terem a capacidade de questionar as informações que recebem. E isso principalmente devido ao histórico educacional a que foram expostos, já que só foram ensinados a decorar fórmulas e ganhar pontos em detrimento do raciocinio lógico e prático voltado a vida. Mas nem tudo está perdido. Pois há muito a ser piorado.
[Leia outros Comentários de Vicente Conessa]
21/9/2004
12h56min
Os "rebeldes" de hoje são uniformizados. No meu tempo (não gosto desta expressão, mas é a mais reveladora), isso se chamava "punk de boutique". Existe uma expressão que deve ser usada pelos militantes da "Missão MTV", que é "gente bonita". Tradução mais fiel para engajamento social? Não! Daí vc é gente feia...
[Leia outros Comentários de Edison]
22/9/2004
00h24min
Concordo -e lamento- sobre o processo de idiotização e padronização (aparentemente irreversível) que ataca nossos filhos. Levada pela infindável e fantasiosa esperança materna me esforço por "salvar" desta sina minhas filhas, ainda pré-adolescentes. Mas, ao mesmo tempo, essa matéria me faz refletir sobre nós, os quarentões. Até que ponto ficamos ilesos de uma padronização, ainda que de outro tipo? Até que ponto não carregamos e amargamos, também, padrões há muito em nós incutidos? Quantos de nós não vivemos sufocados numa carga de trabalho diária de 12 hrs., na busca sem fim de uma conta bancária melhorzinha, iludidos ainda que aí é que reside a felicidade de um ser humano? E quantos de nós, em nossa aparente maturidade, não abrimos mão de um amor, encaixotados ainda no velho e pasteurizado conceito de que liberdade e amor são incompatíveis? E quantos de nós, do alto de nossa cega petulância, estamos criando e educando nossos jovens filhos mas, ao nos olharmos no espelho, nos sabemos tão ou mais imaturos e perdidos do que eles? Será a idiotização um ciclo impossível de se quebrar?!
[Leia outros Comentários de Marcia Simão]
22/9/2004
17h50min
Como autêntico outsider - pior ainda, outsider individualista e um tanto arrogante - observo que essa carência toda que compele as pessoas a se esforçarem por ser aceitas parece-me uma lamentável fraqueza. Mais do que patética, considero desprezível essa atitude da pessoa que não busca sua própria afirmação individual, seu próprio crescimento peculiar e único, mas, pelo contrário, busca amoldar-se passivamente às regras, aos conceitos e às modas que lhe abram as portas da aceitação e do convívio fácil proporcionado pelo corte de asas. Nada me convém seguir as opiniões ou as posições de qualquer grupo, por maior ou por mais influente que seja. Primeiro porque não expressam a minha individualidade, a minha idiossincrasia, a minha experiência. Segundo porque acredito que devo prosseguir a minha aventura pessoal, intransferível, muito mais fascinante do que qualquer filiação a aventuras coletivas despidas do senso e do mérito da individualidade. Terceiro porque quanto mais representativa for a opinião ou o conceito de qualquer maioria, mais certamente essa opinião ou conceito se afirma como a expressão da mediocridade. Todo consenso é medíocre. As grandes correntes que transformaram o mundo nasceram na cabeça de homens privilegiados, únicos, geniais, outsiders. Aquele que segue a onda é um fraco, é um pusilânime, é um medíocre, é um descerebrado, é uma ovelha, é gado. Aquele que busca seu próprio caminho pode cometer erros terríveis, mas sua atitude sempre será a de um desbravador. E os grandes caminhos, as grandes descobertas, as grandes intuições... somente podem ser atingidas pelos aventureiros solitários. O exercício de sua própria individualidade é uma conquista para a qual poucos estão preparados. A falta de auto-apreço e de coragem física e intelectual conduz a maioria das pessoas a levar vidas sem sentido, sem identidade, sem conquistas, sem mérito. O medo da solidão parece ser forte demais. Eu afirmo: "Diz-me que segues atrás de muitos, e te direi que ninguém és. Diz-me que segues atrás de poucos, e te direi que algo és. Diz-me que a ninguém segues, e te direi que alguém és".
[Leia outros Comentários de Roberto Valderramos]
23/9/2004
10h39min
Parabéns ao autor do texto. Realmente vc conseguiu expressar num texto claro, tudo o que considero de extremo mau gosto e que a tv toma como ideal. A juventude mudou e esta mudança (pra pior é claro) reflete em vários aspectos da nossa sociedade. Ser virgem aos 14 anos é coisa de menina idiota, o negócio agora é dar (pois todas as meninas do grupo já deram). No meu tempo, 14 anos, ainda éramos crianças e brincadeiras de roda eram nossas baladas. Posso estar sendo muito moralista, mas a banalização da juventude, o consumismo e a ignorância imposta aos nossos jovens é muito triste! Acho que fugi um pouco do tema, mas precisava desabafar. Parabéns, repito, ao autor Mário Bortolotto.
[Leia outros Comentários de Janaína]
23/9/2004
12h04min
não discordo do texto, tampouco concordo com ele. a diversidade é tão necessária quanto a padronização. para que haja outsiders, é necessário haver "insiders" e a necessidade de se travestir para pertencer a algum grupo é tão antiga quanto a existência humana, só variando a forma de manifestação, e ninguém está mais certo ou mais errado por optar por uma coisa ou outra. acaso regozijar-se por não estar massificado difere em algo de regozijar-se por assim estar?
[Leia outros Comentários de Carl]
25/9/2004
17h21min
Para que a gente sempre possa ler artigos excelentes assim! Vou conhecer rapidinho seu blog... Um abraço.
[Leia outros Comentários de Gisele Lemper]
17/11/2004
13h56min
Me identifiquei de imediato, entre outros motivos, porque sempre sentei na última fila nas salas de aula e não fazia o menor esforço para ser "aceito" em qualquer grupelho de acéfalos. Eu também sinto ânsias de vômito ao ouvir o palavreado da geração malhação, sempre padronizado e sem a menor criatividade - ao contrário do que alguns apregoam. Ninguém passa impunemente pela adolescência, e eu também cometi minha cota de insanidades. A grande diferença é que eu lia muito (Victor Hugo, Kafka, Graciliano, Fernando Pessoa, Paulo Leminski, Torquato Neto), e tinha, na maioria das vezes, o discernimento necessário para distinguir o certo do errado, o bom do ruim. Hoje, neguinho perdeu essa noção e faz as merdas simplesmente porque todos estão fazendo e pronto. Não dá mesmo para esperar muita coisa de quem perde seu precioso tempo lendo calhamaços de Harry Potter.
[Leia outros Comentários de Gustavo Pravda]
21/5/2007
9. amei
01h29min
não sei nem o que acrescentar, apenas: meus parabéns!
[Leia outros Comentários de Lilian Sulzbacher]
21/5/2007
10h36min
Acredito que o posicionamento do Carl está mais adequado com a realidade. Ele é aqui o Outsider (quando deveria ser o oposto) e a partir do momento que me junto a ele, se torna menos diferente. Bom exemplo, acho. Existem muitos grupos por aí, as patricinhas, os punks, os rappers, os agroboys. Talvez o autor se tenha apegado demais ao próprio universo, que reconheço real e largo. Odeio boy, mas confesso que já tentei ser um; odeio maluco, mas sempre me senti em paz com eles; odeio quem odeia, mas um pouco de preconceito às vezes ajuda, pois é a muleta em que nos apegamos para manter a sanidade. Tudo muda com o amadurecimento, e os diferentes nos parecem tão iguais quanto todo mundo. Individualidade não é bom, também. Safado e corrupto é o exemplo mais plausível que existe dessa prática. Ser igual à força também é péssimo e então sigo o raciocínio da maioria, até aqui. Mas tudo isso vem da criação, da educação. Pais presentes na educação dos filhos são uma ajuda incomensurável nessa hora...
[Leia outros Comentários de Albarus Andreos]
21/5/2007
23h43min
Cara, você arrasou. Parece que fui eu que escrevi isso, se tivesse tal competência. Tudo isso que escreveu faz tanto sentido para mim, que acho que sou igual a você (rá, rá). Valeu. Adriana
[Leia outros Comentários de Adriana]
24/5/2007
20h02min
Adorei o texto.
[Leia outros Comentários de ringa]
12/8/2007
01h32min
Adorei o texto. Só não me encaixei na parte de me sentar na última cadeira da sala, porque sempre fui popular, mas eu não me enquadro nesse "tunning" que as pessoas vivem hoje em dia. Acho que a gente pode ser contemporâneo sem ter que seguir regras, somente sendo autêntico. Eu já fui "inside" até ver que estava sendo um babaca irreal, sendo alheio a coisas que eu não compactuava. Hoje eu ligo o foda-se para o que os outros pensam e sou muito mais feliz, possuindo aquilo que eu gosto, escutando as músicas que me deixam feliz, em resumo, sendo EU.
[Leia outros Comentários de Bud Spencer]
4/1/2008
10h58min
Nossa, Mário, você deu um "pé na bunda" dessa sociedade hipócrita com a sua opinião. Parece até que era eu que estava "chutando". Sempre estive longe dos ideais, do estilo, das opiniões desses hipócritas. Me sentia excluída durante os tempos de escola, mas hoje sinto alívio por não ter sido uma idiota como eles.
[Leia outros Comentários de Juliana Veras Guedes]
6/10/2008
17h45min
Realmente, meu caro, concordo com tudo... Infelizmente, é isso que temos vivenciado todos os dias em nossa sociedade! Eu não quero ser diferente, só não quero me contaminar!
[Leia outros Comentários de Stela]
7/1/2009
13h48min
Parabéns pelo texto, muito bom.
[Leia outros Comentários de Beatrice]
23/2/2009
07h56min
O seu texto é realmente muito bom, mas não despreze Dorian Gray, ele faz parte de um dos romances mais lindos que já tive a oportunidade de ler até agora. Sobre o seu texto, comento com a frase de um cantor italiano, Caparezza: "trovo molto interessante la mia parte intolerante che mi rende rivoltante tutta questa bella gente", que traduzido significa "acho muito interessante a minha parte intolerante, que me rende lamentável toda essa bela gente".
[Leia outros Comentários de ananda]
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