Rua da passagem | Blog de Anchieta Rocha

busca | avançada
68231 visitas/dia
2,5 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Workbook de Carl Honoré é transformado em lives
>>> Experiência Quase Morte é o tema do Canal Angelini
>>> 20 anos de Bicho de Sete Cabeças: Laís Bodanzky, Rodrigo Santoro e Gullane se reúnem em bate-papo
>>> Arquivivências: literatura e pandemia
>>> Festival Mia Cara promove concurso culinário “Receitas da Nonna”
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Silêncio e grito
>>> Você é rico?
>>> Lisboa obscura
>>> Cem encontros ilustrados de Dirce Waltrick
>>> Poética e política no Pântano de Dolhnikoff
>>> A situação atual da poesia e seu possível futuro
>>> Um antigo romance de inverno
>>> O acerto de contas de Karl Ove Knausgård
>>> Assim como o desejo se acende com uma qualquer mão
>>> Faça você mesmo: a história de um livro
Colunistas
Últimos Posts
>>> Hemingway by Ken Burns
>>> Cultura ou culturas brasileiras?
>>> DevOps e o método ágil, por Pedro Doria
>>> Spectreman
>>> Contardo Calligaris e Pedro Herz
>>> Keith Haring em São Paulo
>>> Kevin Rose by Jason Calacanis
>>> Queen na pandemia
>>> Introducing Baden Powell and His Guitar
>>> Elon Musk no Clubhouse
Últimos Posts
>>> Em um tempo, sem tempo
>>> Eu, tu e eles
>>> Mãos que colhem
>>> Cia. ODU conclui apresentações de Geração#
>>> Geração#: reapresentação será neste sábado, 24
>>> Geração# terá estreia no feriado de 21 de abril
>>> Patrulheiros Campinas recebem a Geração#
>>> Curtíssimas: mostra virtual estreia sexta, 16.
>>> Estreia: Geração# terá sessões virtuais gratuitas
>>> Gota d'agua
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Influências da década de 1980
>>> 20 de Dezembro #digestivo10anos
>>> Poesia e Guerra: mundo sitiado (parte II)
>>> Notas Obsoletas sobre os Protestos
>>> Uma norma para acabar com os quadrinhos nacionais?
>>> Pode guerrear no meu território
>>> Aconselhamentos aos casais ― módulo II
>>> Diogo Salles no podcast Guide
>>> Na CDHU, o coração das trevas
>>> A Vida e o Veneno de Wilson Simonal, por Ricardo Alexandre
Mais Recentes
>>> Homem Aranha Nº 63 Marvel Millennium de Marvell pela Panini (2007)
>>> Homem Aranha Nº 74 Marvel Millennium de Marvell pela Panini (2008)
>>> La Razon de Mi Vida de Eva Peron pela Peuser (1953)
>>> mem Aranha Nº 67 Marvel Millennium de Marvell pela Panini (2007)
>>> Homem Aranha Nº 44 Marvel Millennium - 5G de Marvell pela Panini (2005)
>>> Nw de Zadie Smith pela Penguin Books (2013)
>>> Homem Aranha Nº 59 Marvel Millennium de Marvell pela Panini (2006)
>>> Oi, Gente: Histórias para Você Ler de Evanildo Bechara pela Edicoes Consultor (2008)
>>> Homem Aranha Nº 58 Marvel Millennium de Marvell pela Panini (2006)
>>> Homem Aranha Nº 69 Marvel Millennium de Marvell pela Panini (2007)
>>> Box - A Segunda Guerra Mundial - 3 Volumes de Martin Gilbert pela Leya (2019)
>>> Pato Donald - Perdidos nos Andes de Carl Barks - Walt Disney pela Abril (2016)
>>> A Língua de fora de Carlos Eduardo Novaes pela Nordica (1979)
>>> Psicologia aplicada à administração de empresas de Cecília Whitaker Bergamini pela Atlas (1988)
>>> Vacas, Porcos, Guerras e Bruxas: Os enigmas da Cultura de Marvin Harris pela Civilização Brasileira (1978)
>>> Nordeste Alternativas da Agricultura de Manuel C. de Andrade pela Papirus (1988)
>>> O Distante Eufrates de Aryeh Lev Stollman pela Bertrand Brasil (2000)
>>> Homem Aranha Nº 25 Marvel Millennium de Marvell pela Panini (2021)
>>> Maravilhas do Conto Francês de Diaulas Riedel (org.) pela Cultrix
>>> O Erotismo: Fantasias e Realidades do Amor e da Sedução de Francesco Alberoni pela Círculo do Livro (1992)
>>> Administração de Marketing: Análise, Planejamento, Implementação e Controle de Philip Kotler pela Atlas (1994)
>>> Ensino Fundamental - 3º Ano, 2ª Série - 1ª Volume de Patrícia Waltiach pela Positivo (2009)
>>> Estudo Geral dos Metais de Bernardo Samu e Chinya Assahina pela Grêmio Politécnico (1953)
>>> Maigret et les Braves Gens de Georges Simenon pela Uge Poche (1996)
>>> Walt Disney World de Walt Disney Company pela Walt Disney Company (1986)
BLOGS >>> Posts

Terça-feira, 28/2/2017
Rua da passagem
Anchieta Rocha

+ de 2100 Acessos

Com tantos enterros passando em frente de sua casa, Ferreira já não estranhava mais a morte.

A rua, afunilando na subida íngreme, terminava no portão de entrada do cemitério. Percebia-se o alívio dos que acompanhavam os mortos, tão logo os caixões eram apoiados nas beiras dos túmulos.

Menino ainda, o pai comprou a casa. No início a mãe dizia que não ia aguentar, os enterros passando debaixo da janela o tempo todo. Fez o marido jurar que mudariam pra outra casa longe dali. Acabaram ficando a vida inteira.

Ferreira cresceu, estudou, trabalhou, casou, os filhos nasceram, os mortos não paravam de passar.

Um dia, houve tantos, um povaréu sem parar, as pessoas se embolando, gente seguindo caixão errado. Se o tempo não ajudava, se um parente do morto de cidade distante demorava a chegar, os sepultamentos iam até o anoitecer, pouca gente acompanhava, povo medroso igual não tinha.

Pelo tamanho do cortejos e dos tipos de caixões, dava pra perceber quem ia dentro. Os dos pobres, poucos seguiam, um bolinho de gente de cabeça baixa, uma vez ou outra um choro cortando a reza. Nos dos ricos e importantes, tanta gente, os que ficavam pra trás iam conversando sobre negócios, sobre acontecimentos e até riam. Havia também os que levavam junto alguns de seus pertences: uma bandeira de um clube de futebol, um vestido de noiva, e até certa vez um pandeiro, quebrando o silêncio com os solavancos do caixão.

No dia de finados, a rua era uma festa. As barracas de flores, de velas, de bebidas, guloseimas e salgados ocupavam os passeios.

A rua também tinha suas histórias engraçadas como as dos bêbados perdidos de noite entre os túmulos amedrontando a vizinhança. Estranhas também, como a da viuvinha, casada de pouco, que todos os sábados levava flores pro marido morto na explosão da pedreira e que um dia não mais foi vista fazendo o caminho de volta.

Os moradores davam conta da vida de todos os que eram levados pro cemitério. Se os que iam ser enterrados passassem sem deixar uma história, pequena que fosse, ficava um grande vazio. Nada sabendo de quem ia no caixão, entravam para suas casas acabrunhados.

Foram anos e anos e as mortes passando. Morte de todos os tipos: por acidentes, paixões, rixas de família, homens lavando honra, suicídios, por amor e desamor. E mesmo que irresignáveis, as incontáveis naturais. Vez por outra os caixões lacrados — temor de doenças contagiosas, os lenços nos nariz. E os das crianças, alguns de tão pequenos levados junto ao peito pelos pais, embalando-as pela última vez.

As mulheres eram as que mais visitavam os túmulos. Subiam com as mãos segurando flores, terços, velas, o olhar enterrado no chão. Na volta os rostos erguidos, desencurvadas, confortadas.

Com o passar dos anos, a mulher do Ferreira também acabou se acostumando, até sentindo falta da rua quando viajava ou tinha que passar uns dias com as filhas. Tão logo voltava, corria pra casa dos vizinhos em busca de novidades.

O Ferreira não saía pra lugar nenhum. Uma vez ou outra ia na casa do Nicanor para uma partida de dama. No mais ficava o tempo todo na varanda, varrendo a rua com o olhar pra cima e pra baixo. Nunca pôs os pés no cemitério. Iria lá só num único dia, dizia. E quando esse dia chegasse, que chegasse, completava.

Foi então que tudo acabou. De uma hora pra outra, os enterros pararam de passar, as pessoas já não mais eram vistas, não mais se encontravam nas portas das casas.

A tristeza tomou conta dos passeios, das varandas, das janelas. Ninguém sabia explicar o que estava acontecendo.

A ordem tinha sido dada. Os cortejos não mais iam poder transitar pelas ruas da cidade. Para facilitar o acesso dos veículos, uma entrada tinha sido construída do outro lado do cemitério. Chorar os mortos daquele dia em diante só no velório.

As histórias foram rareando, a rua nunca mais foi a mesma. O Ferreira foi o primeiro a morrer.  


Postado por Anchieta Rocha
Em 28/2/2017 às 23h19


Mais Blog de Anchieta Rocha
Mais Digestivo Blogs
Ative seu Blog no Digestivo Cultural!

* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Twentieth Century Sculpture
E H Ramsden
Pleiades Books (londres)
(1949)



Introdução aos Recursos Cíveis e á Ação Rescisória
Bernardo Pimentel Souza
Saraiva
(2007)



Noções de Literatura Portuguêsa
Y. Fujyama
Ática
(1969)



Macromedia Flashmx 2004
Anielle Damasceno
Visual Books
(2004)



Emancipação, Emancipações: a Libertação dos Judeus no Ocidente
Edgard Leite
Walprint
(2012)



Como Falar Corretamente e sem Inibições - Contém um Cd
Reinaldo Polito
Saraiva
(1999)



Era uma Vez no Instituto de Educação
Zilá Simas Enéas
Autora (rj)
(1998)



Ira Implacável: Indícios de uma Conspiração.
Luis Eduardo Matta
Razão Cultural
(2002)



O Século Dourado
S. Squirra
Summus
(1995)



Planejamento do Controle Administrativo
Ian Holden Peter K. Mcilroy
Ao Livro Técnico
(1972)





busca | avançada
68231 visitas/dia
2,5 milhões/mês