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Sexta-feira, 22/7/2022
Ponto de fuga
Raul Almeida

+ de 500 Acessos

Aprender a desenhar foi uma das mais agradáveis atividades em toda a minha vida. E já se vão algumas dezenas de anos.
Até onde a memória alcança, o ato de rabiscar, buscando formar representações das coisas imaginadas ou à minha volta, sempre foi facilitado por meu avô, amigo desde as horas mais remotas do meu lembrar, ali pelos seis anos.
Ainda tenho guardadas garatujas daquela época. Foram colecionadas e deixadas em meio a outros papéis muito mais importantes, organizados em pastas e envelopes.
Um barco, uma "paisagem", um automóvel. Um perfil de um índio com o cocar foi repetido diversas vezes, assim como um veleiro, copiado de uma estampa.
O lápis comum, os lápis de cor, os blocos e folhas de papel sempre andaram por perto. Mais tarde e mais habilidoso, fui apresentado a caneta de desenho com tinta nanquim. Aí a coisa demorou bastante.
Um amigo muito próximo do vovô era desenhista profissional. Trabalhava no Ministério da Guerra, ali do lado da Central do Brasil. Era o chefe da seção da cartografia. Dele ganhei o meu primeiro lápis Turquoise HB. Que presentaço. Era sextavado, tinha cor azul, um "lamborguini" enquanto material de desenho. Só profissionais usavam aquele instrumento sagrado.
A primeira vez que o visitamos, fiquei maravilhado. As pranchetas tal como púlpitos sagrados, os bancos altos, a luz natural inundando tudo. Voltamos lá várias vezes, com intervalos muito maiores do que eu gostaria que fosse, mas era um lugar de trabalho. Também o visitávamos em sua casa. Aí fiquei sabendo que ele era professor. Em seu atelier e escritório mais uma novidade ao alcance das mãos: cavaletes de pintura. Um, grande e outro menor, com o banquinho em frente. E como tinha coisa! Paletas, tubos de tinta,uma prancheta encostada e de frente para a janela, um jaleco pendurado num cabide, por sua vez enganchado numa estante de livros… Tudo meio arrumado, meio tumultuado, meio sei lá o que… Nunca parei de desenhar. Sempre garatujando, rabiscando, tentando fazer melhor.
A vida foi acelerando e dispersando bons focos, agrupando quimeras e idéias, distraindo o olhar com borboletas imaginadas em fantásticas aventuras e perigosas experiências. Assim fui, tocando, literalmente, num conjunto musical de pós adolescentes poucos adultos, onde eu tinha quinze anos e o segundo mais velho dezenove… Toda semana tinha baile. Rendia um troco muito bem vindo. Semanas com dois bailes, um sábado e uma domingueira. E na segunda feira, o colégio, o ginasial e suas matérias, inclusive música, latim, desenho…
E voltamos para o desenho. Aquilo era muito aborrecido. O professor estava cumprindo a tabela da própria vida. Era desinteressado, sem carisma, sem pulso para segurar um magote de moleques patifes, que não prestavam atenção aos desenhos geométricos ou decorativos,a fazer em cadernos quadriculados, imitando ladrilhos de banheiro.Não aprendi nada. Mas, fazia a minha parte e sempre tirei boas notas na matéria, apesar do comportamento menos que recomendável.
Adulto, casado e com filhos, trabalhando em Banco, descobri uma associação de Artistas, onde eram oferecidos cursos de desenho e pintura artística. Conversei com a minha inspiração maior, meu anjo da guarda, minha luz até hoje e contei do meu interesse em frequentar as aulas daquela sociedade. Ela concordou imediatamente. Incentivou com entusiasmo.
Duas vezes por semana, após o trabalho de verdade. Fui apresentado aos modelos em gesso, para copiar sob a orientação de um artista experimentado, paciente e competente. Fiquei entusiasmado. Demorou até que aprendesse a usar o carvão no lugar do lápis. O esfuminho, a escovinha, no lugar da borracha.
A minha pretensa habilidade se descobria grosseira, primitiva, desarrumada, insolente. Eu precisava aprender a ver! a enxergar, a sentir os espaços, as proporções, a luz! Estava tudo ali na minha frente. Era só prestar a atenção.
O primeiro desenho estufou o meu peito de alegria e orgulho. Estava muito parecido com o busto de gesso que a turma estava copiando, retocando, aperfeiçoando, escovando e esfumando o carvão sobre o papel.
Finalmente, chegou o dia que eu esperava em total silêncio. Depois de estar mais ou menos enturmado com os frequentadores da sociedade, todos boêmios, cervejeiros, um tanto bregueiros e bem mais velhos, fui convidado a "encontrar o pessoal", num domingo, numa esquina do centro antigo da cidade do Rio de Janeiro. Eram uns quatro pintores de verdade, fazendo perspectivas com fachadas das igrejas históricas.
Você pinta?
Quero aprender, respondi.
Tem material?
Naquela altura, imagine só um cavalete de campo, uma caixa completa, com a paleta, as tintas, o solvente e os trapos. Nem pensar.
Material?
Uma risada coletiva e simpática, liberou a minha pergunta de uma resposta.
-Tudo bem, não deixa de aparecer lá.
E eu fui, ainda sem o tal material, no fim da rua do Ouvidor, quase na Praça XV. Cheguei pouco depois deles, mas a tempo de perceber a responsabilidade com o que estavam fazendo. Fui cumprimentando todo mundo e olhando com atenção quase que alucinada, para o que estava acontecendo. Um para lá, outro para ali, um terceiro mais para trás, enfim, todos buscando o melhor ângulo para começar o trabalho. A primeira lição estava começando.
O traçado, o horizonte, o ponto de fuga. Assim começou. No dia seguinte eu tinha uma caixa pequena, de estudante. Pincéis, uma espátula, uma paleta,tubos de tinta, os potes para o óleo e o solvente. Os trapos, peguei em casa. O cavalete, até hoje segue conservado, baleado, meio jururu, mas firme.
Comecei a acompanhar aqueles mestres amigos. Fui aprendendo a ver as ruas, as casas, as fachadas, os monumentos, as árvores, as calçadas. Depois fui aprender a pintar mato, florestas, lagoas, praias, Nunca deixei que a mediocridade me abandonasse. Nunca atingi a maioridade em desenho, pintura, música…
Sigo tentando achar o verdadeiro ponto de fuga para estabelecer a melhor perspectiva, o melhor ângulo da mais tranquila paisagem, da natureza mais gentil.
As fachadas sempre aparecem para ocupar um espaço de destaque. Os caminhos têm curvas e elevações para atrapalhar a minha incipiente técnica. A melhor descoberta foi aquela do horizonte duplo para se colocar algum corpo ou objeto flutuando no espaço.
Acho que a morte tem dois horizontes, mas somente um ponto de fuga.


Postado por Raul Almeida
Em 22/7/2022 às 12h51


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