Da vitrola ao microchip | Rodolfo Felipe Neder | Digestivo Cultural

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Segunda-feira, 2/1/2006
Da vitrola ao microchip
Rodolfo Felipe Neder

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Farmacêutico de uma pequena cidade com uma vocação nata de bom ouvinte musical, ele não tocava instrumento algum, mas ouvia música como ninguém. Com ele, conheci Begnamino Gigli, Renata Tebaldi e Arturo Toscanini. Verdi e Puccini. Ele ouvia com reverência e concentração a música clássica e sentia um verdadeiro fastio e desagrado por músicas popularescas ou da moda. Conheci com ele, também, meu primeiro aparelho de som. De lá até hoje não parei de viajar pelo mundo dos diversos modelos e sistemas de som.

Um dia, quando o inverno se aproximava, lá pelo final dos anos 40, meu pai comprou um aparelho RCA Victor à manivela que se ligava por dois fios ao rádio da família. Na época, era um modelo modesto, pois já existia o que se chamava combinado, um móvel enorme e do qual faziam parte um rádio, um toca-discos e um som. Nosso rádio, um Philips à válvula com olho mágico, era um luxo, e eu podia, com meus dez anos, ter o direito ao comando e a troca de emissoras - claro, quando meu pai não estava em casa.

Junto com o aparelho RCA Victor, vieram os primeiros discos de pasta e de 78 rpm - Cuidado, dizia ele, podem quebrar. Foi nesse dia de 1948 que ouvi pela primeira vez a "Marcha Triunfal", de Aída. É muito difícil alguém imaginar o que significou para mim. Nesse dia, abriram-se as portas da minha curiosidade infinita pela música e comecei a bombardear com perguntas encadeadas. Arturo Toscanini regia a Orquestra Sinfônica da NBC, de Nova York, Renata Tebaldi era Aída, Gigli era o Radamés. Contou-me a história da Aída, de Verdi, e que foi uma ópera escrita por encomenda pelo governo Egípcio para a inauguração do Canal de Suez e que Reis, Príncipes e Governantes assistiram a estréia em Alexandria, me contou pacientemente a história de Radamés e Aída, uma história de amor e de guerra do povo escravo, nesse dia também conheci, pelo seu relato uma biografia de Verdi e que, mas tarde, confirmei e a enriqueci no famoso Tesouro da Juventude. Contou-me, também, da magnitude dos teatros líricos como o Metropolitam de NY, a Escala de Milão e o Colón.

Meu pai sentia um enorme respeito pela música que ouvia e exigia silêncio de todos. Sua paixão era a ópera Italiana.

Essa noite fui a dormir com um acúmulo de informações e conhecimentos fora do comum. Tudo era novo para mim: música, ópera, Verdi, cantantes e as histórias dos teatros líricos, há também a vitrola a manivela. Esse dia nunca esqueci. Foi maravilhoso, foi o ponto de partida do longo caminho do meu gosto musical.

Uma, entre as tantas curiosidades que ficaram sem satisfazer, foi saber o que o cachorro fazia aí no rótulo da RCA Victor, sentado atento ao lado da vitrola. Como era um novo dia de trabalho e não havia mais tempo para a longas histórias, acompanhei meu pai até a farmácia. Ele andava a passos rápidos e eu, a seu lado, tinha que dar pequenas corridas para ir ouvindo a história do atento cachorro que reconhecia a voz de seu patrão gravada num disco pela primeira vez. Era a voz de Thomas Edison, que tinha inventado o aparelho de reprodução conhecido com o nome de "vitrola" da marca RCA VICTOR.

Meu Deus, como foram tempos felizes esses dias, nem parecia que o inverno tinha chegado. A vitrola à manivela, que estava na sala, durou pouco dias, ela não quebrou, não.

A música tinha crescido em nossas vidas e ocupava um espaço na família e exigia um aparelho melhor. O rádio Philips voltou para seu lugar original na cozinha. Essa foi a primeira troca. Veio um aparelho maior e mais potente e que não precisava mais do auxílio do rádio nem da manivela, era totalmente elétrico, mas como todo aparelho da época requeria a troca da agulha que percorria os sulcos, a cada dois discos. Ouvir música exigia muita atenção e uma boa mão-de-obra.

O inverno estava no fim. Senti isso não porque o frio tinha diminuído, e, sim, pelos pessegueiros que via da minha janela do meu quarto, que começavam a brotar flores. Nunca deram um pêssego que valesse a pena, mas as flores eram muito bonitas e marcavam a entrada primavera na minha casa. Quanta coisa tinha aprendido e gostado nesse inverno, quanta coisa meu pai tinha me ensinado, até a história do cachorro e a voz do seu patrão. Foi assim que junto com Gigli, Tebaldi, Toscanini e Verdi, descobri, também, a primeira logomarca com uma história.

Um ano mais tarde, creio, demos as boas-vindas ao primeiro "combinado" montado especialmente para nossa família, era enorme e ocupava um grande espaço na sala, foi montado por dois engenheiros eletrônicos com o que havia de melhor na época: válvulas enormes de marca RCA, alto-falantes pesados de 14 polegadas e o toca-discos automático marca Webster. A sensação era um circuito especial que permitia ouvir em outros rádios da casa a música que saia do "combinado". Esse aparelho ficou muitos anos na minha casa e cresci a seu lado.

Por esses tempos o disco long play (LP) já era uma realidade e me tornei rapidamente um colecionador, formando a minha própria coleção musical. Nunca mais parei.

Hoje, depois de muitas décadas e de muitas historias passadas, passeio, pelas manhãs de São Paulo, acompanhado por Haydn, Beethoven, Villa-Lobos, Benny Goodman, Nelson Freire, a Cultura FM levando comigo a música e as recordações e todo o que mais deseje armazenar no meu pequeno aparelho de MP3, um belo presente, que penduro no meu pescoço enquanto a ciência não me permite, ainda, um microchip que possa inserir embaixo da minha pele com as duzentas melhores músicas da minha vida. Em matéria musical não preciso mais que isso.

Nota do Editor
Rodolfo Felipe Neder é diretor do site Millôr Online.


Rodolfo Felipe Neder
São Paulo, 2/1/2006


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