A Istambul de Orhan Pamuk | Roberta Resende | Digestivo Cultural

busca | avançada
46024 visitas/dia
1,1 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Banda GELPI, vencedora do concurso EDP LIVE BANDS BRASIL, lança seu primeiro álbum com a Sony
>>> Celso Sabadin e Francisco Ucha lançam livro sobre a vida de Moracy do Val amanhã na Livraria da Vila
>>> No Dia dos Pais, boa comida, lugar bacana e MPB requintada são as opções para acertar no presente
>>> Livro destaca a utilização da robótica nas salas de aula
>>> São Paulo recebe o lançamento do livro Bluebell
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> O reinado estético: Luís XV e Madame de Pompadour
>>> 7 de Setembro
>>> Outros cantos, de Maria Valéria Rezende
>>> Notas confessionais de um angustiado (VII)
>>> Eu não entendo nada de alta gastronomia - Parte 1
>>> Treliças bem trançadas
>>> Meu Telefunken
>>> Dor e Glória, de Pedro Almodóvar
>>> Leminski, estações da poesia, por R. G. Lopes
>>> Crônica em sustenido
Colunistas
Últimos Posts
>>> Banco Inter É uma BOLHA???
>>> Não Aguento Mais a Empiricus
>>> Nubank na Hotmart
>>> O recente choque do petróleo
>>> Armínio comenta Paulo Guedes
>>> Jesus não era cristão
>>> Analisando o Amazon Prime
>>> Amazon Prime no Brasil
>>> Censura na Bienal do Rio 2019
>>> Tocalivros
Últimos Posts
>>> O céu sem o azul
>>> Ofendículos
>>> Grito primal V
>>> Grito primal IV
>>> Inequações de um travesseiro
>>> Caroço
>>> Serial Killer
>>> O jardim e as flores
>>> Agradecer antes, para pedir depois
>>> Esse é o meu vovô
Blogueiros
Mais Recentes
>>> De quantos modos um menino queima?
>>> Mastigar minhas relações
>>> Vaguidão específica
>>> As pedras de Estevão Azevedo
>>> Da Poesia Na Música de Vivaldi
>>> Festa na floresta
>>> A crítica musical
>>> 26 de Julho #digestivo10anos
>>> Por que escrevo
>>> História dos Estados Unidos
Mais Recentes
>>> Coleção para gostar de ler de Varios pela Atica (1985)
>>> Grande Enciclopédia de Modelismo - Cor e Pintura de Walquir Baptista de Moura - Produção pela Século Futuro
>>> Meu pequeno fim de Fabrício Marques pela Segrac (2002)
>>> Grande Enciclopédia de Modelismo - Materiais e Ferramentas de Walquir Baptista de Moura - Produção pela Século Futuro
>>> Livro Dicionário Enciclopédico Veja Larousse - Volume 1 de Eurípedes Alcântara , Diretor Editorial pela Abril (2006)
>>> O diário de Larissa de Larissa Manoela pela Harper Collins (2016)
>>> Corpo de delito de Patricia Cornwell pela Paralela (2000)
>>> A Arte da guerra de Sun Tzu pela Pé da letra (2016)
>>> O fio do bisturi de Tess Gerritsen pela Harper Collins (2016)
>>> A garota dinamarquesa de Davdid Ebershoff pela Fabrica 231 (2000)
>>> Uma auto biografia de Rita Lee pela Globo livros (2016)
>>> Songbook Caetano Veloso Volume 2 de Almir Chediak pela Lumiar
>>> A Sentinela de Lya Luft pela Record (2005)
>>> O teorema Katherine de John Green pela Intriseca (2006)
>>> Louco por viver de Roberto Shiyashiki pela Gente (2015)
>>> A ilha dos dissidentes de Barbara Morais pela Gutemberg (2013)
>>> Sentido e intertextualidade de Emanuel Cardoso Silva pela Unimarco (1997)
>>> Mistérios do Coração de Roberto Shinyashiki pela Gente (1990)
>>> Interrelacionamento das Ciências da Linguagem de Monica Rector Toledo Silva pela Edições Gernasa (1974)
>>> Sociologia e Desenvolvimento de Costa Pinto pela Civilização Brasileira (1963)
>>> O Coronel Chabert e Um Caso Tenebroso de Honoré de Balzac pela Otto Pierre Editores (1978)
>>> O golpe de 68 no Peru: Do caudilhismo ao nacionalismo? de Major Victor Villanueva pela Civilização Brasileira (1969)
>>> Recordações da casa dos mortos de Fiodor Dostoiévski pela Nova Alexandria (2006)
>>> Elric de Melniboné: a traição ao imperador de Michael Moorcock pela Generale (2015)
>>> O Príncipe de Nicolau Maquiavel pela Vozes de Bolso (2018)
>>> Deuses Americanos de Neil Gaiman pela Conrad (2002)
>>> Deus é inocente – a imprensa, não de Carlos Dorneles pela Globo (2003)
>>> Memórias do subsolo de Fiodor Dostoiévski pela 34 (2000)
>>> Songbook - Tom Jobim, Volume 3 de Almir Chediak pela Lumiar (1990)
>>> Comunicação e contra-hegemonia de Eduardo Granja Coutinho (org.) pela EdUFRJ (2008)
>>> Caetano Veloso Songbook V. 1 de Almir Chediak pela Lumiar
>>> Origami a Milenar Arte das Dobraduras de Carlos Genova pela Escrituras (2004)
>>> O vampiro Lestat de Anne Rice pela Rocco (1999)
>>> Nova enciclopédia ilustrada Folha volume 2 de Folha de São Paulo pela Publifolha (1996)
>>> Esperança para a família de Willie e Elaine Oliver pela Cpb (2018)
>>> Leituras do presente de Valdir Prigol pela Argos (2007)
>>> Insight de Daniel C. Luz pela Dvs (2001)
>>> Política e relações internacionais de Marcus Faro de Castro pela UnB (2005)
>>> Harry Potter e a Pedra Filosofal de J. K. Rowling pela Rocco (2000)
>>> Infinite Jest de David Foster Wallace pela Back Bay Books (1996)
>>> Nine Dragons de Michael Connelly pela Hieronymus (2009)
>>> The Innocent de Taylor Stevens pela Crown Publishers (2011)
>>> The Watchman de Robert Crais pela Simon & Schuster (2007)
>>> The Watchman de Robert Crais pela Simon & Schuster (2007)
>>> Filosofia Para Crianças e Adolescentes de Maria Luiza Silveira Teles pela Vozes (2008)
>>> O Caminho da Perfeição de A. C. Bhaktivedanta Swami pela The Bhaktivedanta (2012)
>>> O Caminho da Perfeição de A. C. Bhaktivedanta Swami pela The Bhaktivedanta (2012)
>>> Vida de São Francisco de Assis de Tomás de Celano pela Vozes (2018)
>>> Apóstolo Paulo de Sarah Ruden pela Benvirá (2013)
>>> Apóstolo Paulo de Sarah Ruden pela Benvirá (2013)
COLUNAS

Terça-feira, 4/3/2008
A Istambul de Orhan Pamuk
Roberta Resende

+ de 6100 Acessos
+ 2 Comentário(s)

Acabo de ler Istambul (Companhia das Letras, 2007, 408 págs.), de Orhan Pamuk. Ávida para tomar lugar nessa leitura que tem encontrado aceitação elogiosa em nosso meio, surpreendi-me com a demora para gostar do livro. As primeiras 70 páginas foram-me custosas. São pouco atraentes; não é uma história no sentido usual, com começo, meio e fim, um romance. Tampouco se mostra como uma autobiografia tradicional. O próprio autor parece ter dificuldade para definir seu objeto, que fica, de início, embaralhado, escondido.

Para complicar ainda mais o começo, sem que tenhamos intimidade com o personagem, aos nossos olhos ainda apenas um sério senhor agraciado pelo prêmio da Academia sueca em 2006, somos colocados diante de revelações desconcertantes, íntimas, que parecem fora de lugar ― o contexto ainda não se fez.

Mas transposta a estranheza inicial, fui captada lenta e progressivamente; ambientei-me na Istambul do autor e caminhei com ele, curiosa, intrigada, interessada, até seu final. Aliás, e que final! O livro cresce colossalmente em seus últimos capítulos.

O autor entremeia suas memórias ― da infância ao início da vida adulta ― com considerações, explicações, questionamentos e narrativas sobre Istambul, sua cidade natal.

Não há um rigor lógico ou cronológico a presidir a narrativa; o livro foi escrito acompanhando o "tempo da memória". A questão principal a ordenar a escrita é saber quem é Istambul, definir seus contornos. Para a empreitada o autor vale-se de fotos, gravuras e desenhos, todos a tentar compor Istambul, a grande personagem que nomeia a obra.

Se procurarmos nos mapas e nos livros, veremos que Istambul está quase na Europa, onde, no entanto, já é Ásia; que já foi Constantinopla e Bizâncio. Que foi sede de um grande Império até 1923. Que na ânsia de se "modernizar", de fortalecer uma "identidade nacional republicana", foi palco de atos violentos contra gregos, judeus e armênios em 1955 ― conflitos abordados pelo autor.

Mas para Pamuk essas bordas são esfumaçadas, flutuantes, insuficientes. Sabe que a demarcar sua vida de escritor em um país do chamado Oriente, na periferia do mundo cultural, há o Bósforo, o Chifre de Ouro e a Ponte Gálata; a Hagia Sofia e seus minaretes; as yalis de madeira e o que sobrou delas. Mas não se sente seguro. É preciso demarcá-la com nitidez. Lança-se corajosamente na tarefa.

Como se formou a imagem que "o mundo" tem de Istambul?
Ao contar uma história absolutamente pessoal, e de maneira também radicalmente intimista, Pamuk acaba por propor questão universal, a formação do indivíduo e de seu sentimento de pertencimento a um povo, a uma cultura.

Um dos caminhos eleitos pelo autor para tentar explicar Istambul é discorrer sobre escritores e pintores antigos, suas influências, estilos, obras, recepção que tiveram. É recurso poético, pois recupera e homenageia a tradição. Ao autor interessa perguntar como a escrita e a pintura desses artistas moldaram a visão que os Istanbullus construíram de si mesmos ao longo dos anos. O rosto da cidade teria nascido do olhar dos artistas, que ao devolverem aos moradores imagens da cidade contaminadas por olhares de fora, por clichês estrangeiros sobre o exotismo oriental, acabaram por influenciá-los. São pistas que apontam para o duplo: é pelo olhar do outro que nos fazemos. Uma teia composta de ponto e contraponto, fios atravessados de uma margem a outra do Bósforo, de tal modo que o autor não sabe mais onde começa e onde termina seu "orientalismo".

A bela imagem das salas de visita ocidentalizadas a conferirem ar de museu às casas de Istambul da infância do escritor ― uma das poucas imagens inteiras que sobrevivem em meio às ruínas das primeiras 70 páginas ― ilustra bem a questão. A Istambul percebida pelo autor quer se ocidentalizar, parecer mais "civilizada" (e aqui nos reconhecemos, nós, brasileiros, sempre em busca de uma definição de nossa identidade a partir de paradigmas estrangeiros) mas teme perder suas raízes, seus traços distintivos, ficar "comum".

Outra ferramenta em que se apóia é a análise exaustiva da cidade. São páginas e mais páginas preenchidas com descrições impressionistas das ruas de Istambul e suas casas, da alma de Istambul. Pamuk tenta reconstituir o percurso discursivo que teria levado à identificação da imagem da cidade com a melancolia, a hüzün pela qual se sente assinalado.

Qual o papel de nossas origens em tudo o que nos tornamos?
Enquanto busca definir Istambul e apresentá-la ao leitor, Pamuk busca também entender em que momento teria se tornado escritor, conhecido sua verdadeira vocação. E em que medida Istambul teria contribuído para a formação dessa vocação.

Logo no início do livro há algumas linhas altamente reveladoras: "Era uma vez um tempo em que eu pintava. Ouvi dizer que nasci em Istambul, e sei que fui uma criança um tanto curiosa. E então, quando cheguei aos vinte e dois anos, parece que comecei a escrever romances sem saber por quê".

Saber por que. Eis a linha a conduzi-lo pela Istambul do passado. Pamuk caminha pela Istambul da sua memória para tentar entender em que momento deu-se o encontro com sua vocação. Crê que o encontro deu-se nas ruas da Istambul, quando vagava desesperado pela dor da perda da amada e da pintura. É curiosa essa coincidência que ele crê ter havido: quando perdeu a amada, perdeu também o interesse pela pintura. As duas tristezas se embaralham em suas recordações. E de tão grandes perdas só restou Istambul. Passou a vagar a esmo por suas ruas, a observar suas casas, e dessas andanças surgiu o amor por sua terra, por sua gente e por sua vocação. Sob o seu ponto de vista, estar em Istambul constituiu o escritor em que se tornou: "E aqui chegamos ao cerne da questão: nunca deixei Istambul, nunca deixei as casas, as ruas e os bairros da minha infância".

No início era o caos, que foi ordenado pela travessia, pelo caminhar lento, pelo conhecer-se e reconhecer-se.

O autor abre o livro contando que desde criança foi alimentado pela fantasia de que em algum lugar de Istambul havia outro Orhan, um gêmeo fantasmagórico, pelo qual ele nutria forte curiosidade. Ao final da leitura entendemos que sim, sempre houve outro Orhan. Um Orhan que dormitava dentro de si mesmo, que esperava ver definido seu caminho especial para acordar e tomá-lo. Um Orhan que se pôs de pé nas ruas de Istambul, quando se percebeu escritor.

Entendemos, por fim, que Istambul, a grande amada a acompanhá-lo vida afora, proporcionou-lhe autoconhecimento. Conhecendo-a, conheceu-se. Daí para falar de si mesmo e de sua vida, falar tanto de Istambul. Os caminhos se fizeram nas ruas de Istambul.

É sobre as marcas que nos formam que nos fala esse grande livro.

Para ir além






Roberta Resende
São Paulo, 4/3/2008


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Daumier, um caricaturista contra o poder de Jardel Dias Cavalcanti
02. Memória externalizada de Wellington Machado
03. O negócio (ainda) é rocão antigo de Luiz Rebinski Junior
04. Ascensão e queda do cinema iraniano de Wellington Machado
05. A arte da ficção política de Vicente Escudero


Mais Roberta Resende
* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
26/1/2009
20h03min
Cara Roberta Resende, sua crítica acerca dessa obra de Pamuk ficou formidável! Sem dúvida que se trata de um livro denso e inicialmente difícil, uma vez que não há uma linha a se seguir. Mas, dando continuidade à leitura, somos absorvidos pela genialidade do escritor, que nos revela sua alma em palavras. Difícil não nos identificarmos com os "istambullus" - aos poucos perdemos nossa identidade para uma outra cultura e somos levados a sentir uma melancolia parecida com o "huzun": vivendo entre realidades tão díspares, não há como ser diferente.
[Leia outros Comentários de Glaydson de oliveira]
22/10/2012
11h10min
Acabo de ler este livro. comecei a lê-lo recém chegada de Istambul. Gostei desde a primeira página; fui sendo cativada linha a linha; não queria chegar à última página. O texto de Roberta Resende resume o livro e os sentimentos que ele despertou em mim; inclusive o hüzün que Istambul nutre.
[Leia outros Comentários de Sonia Barini Pansera]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




A FORTUNA DE GASPAR (LITERATURA INFANTO-JUVENIL)
CONDESSA DE SÉGUR
DO BRASIL
R$ 10,00



CYRANO DE BERGERAC
EDMOND ROSTAND
OBJETIVO
R$ 6,00



DE OLHO NA MORTE E ANTES
FERNANDO FORTES
ATELIÊ EDITORIAL
(2012)
R$ 22,00



OXFORD ADVANCED LEARNERS DICTIONARY
A. S. HORBNY
OXFORD
(2000)
R$ 30,00



ALICE PARA SEMPRE
ELTON LICKS
BESOUROBOX
R$ 26,00



FISIOLOGIA CELULAR
DAVID LANDOWNE
MCGRAW HILL ARTMED
(2006)
R$ 67,00



NEW ENGLISH 900 BOOK 1
COLLIER MACMILLAN INTERNACIONAL
ENGLISH LANGUAGE SERVICES
(1978)
R$ 15,00



IL NUOVO DOMANI
MAEVE BINCHY
SPERLING & KUPFER
(1998)
R$ 50,00
+ frete grátis



SÓ O AMOR É REAL
BRIAN L. WEISS
ALAMANDRA
(1996)
R$ 4,00



CRIME E CASTIGO
FIÓDOR DOSTOIÉVSKI
NOVA CULTURAL
(2002)
R$ 28,00





busca | avançada
46024 visitas/dia
1,1 milhão/mês