Considerações de um Rabugento | Abdalan da Gama | Digestivo Cultural

busca | avançada
71417 visitas/dia
1,9 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Teatro: Sesc Santo André traz O Ovo de Ouro, espetáculo com Duda Mamberti no elenco
>>> PianOrquestra fecha a temporada musical 2021 da Casa Museu Eva Klabin com o espetáculo online “Colet
>>> Primeira temporada da série feminina “Never Mind” já está completa no Youtube da Ursula Monteiro
>>> Peça em homenagem à Maria Clara Machado estreia em teatro de Cidade Dutra, na periferia de São Paulo
>>> Campanha Sonhar o Mundo traz diversificada programação elaborada pelos museus paulistas
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Eleições na quinta série
>>> Mãos de veludo: Toda terça, de Carola Saavedra
>>> A ostra, o Algarve e o vento
>>> O abalo sísmico de Luiz Vilela
>>> A poesia com outras palavras, Ana Martins Marques
>>> Lourival, Dorival, assim como você e eu
>>> O idiota do rebanho, romance de José Carlos Reis
>>> LSD 3 - uma entrevista com Bento Araujo
>>> Errando por Nomadland
>>> É um brinquedo inofensivo...
Colunistas
Últimos Posts
>>> A história de Claudio Galeazzi
>>> Naval, Dixon e Ferriss sobre a Web3
>>> Max Chafkin sobre Peter Thiel
>>> Jimmy Page no Brasil
>>> Michael Dell on Play Nice But Win
>>> A história de José Galló
>>> Discoteca Básica por Ricardo Alexandre
>>> Marc Andreessen em 1995
>>> Cris Correa, empreendedores e empreendedorismo
>>> Uma história do Mosaic
Últimos Posts
>>> Entre outros
>>> Entre o corpo e a alma, o tempo
>>> O tempo é imbatível
>>> Consciência
>>> A cor da tarja é de livre escolha
>>> Desigualdades
>>> Novembro está no fim...
>>> Indizível
>>> Programador - Trabalho Remoto que Paga Bem
>>> Oficinas Culturais no Fly Maria, em Campinas
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Pai e Filho
>>> Solaris, o romance do pesadelo da ciência
>>> E o Doria virou político...
>>> A ABSTRATA MARGEM
>>> Salvem os jornais de Portugal
>>> Irmãos Amâncio
>>> Chris Cornell
>>> Nosso Primeiro Periscope
>>> YouTube, lá vou eu
>>> Contra os intelectuais
Mais Recentes
>>> Circulação Global de Precedentes - Vol 1 (lacrado) de Ruitemberg Nunes Pereira pela Lumen Juris (2010)
>>> Vida Minha - Autobiografia de Domingos Oliveira pela Record (2014)
>>> Maktub de Paulo Coelho pela Rocco (2005)
>>> Sentença Cível - da Preparação para o Concurso Da.... (lacrado) de Flávio da Silva Andrade pela Lumen Juris (2014)
>>> Por um Triz - Cultura e Educação (lacrado) de Editora Paz e Terra pela Paz e Terra (2002)
>>> O Livro da Pizza de Vincenzo Buonassisi pela Círculo do Livro (1982)
>>> Na Margem do Rio Pietra Sentei e Chorei de Paulo Coelho pela Rocco (2005)
>>> Las Posturas Claves En El Hatha Yog - Vol 2 (lacrado) de Ray Long pela Blume-acanto-naturart (2009)
>>> A Agonia do Grande Planeta Terra de Hal Lindsey pela Mundo Cristão
>>> Os Eixos da Linguagem (lacrado) de Luiz Costa Lima pela Iluminuras (2015)
>>> Robinson Crusoé uma Aventura de um Náufrago numa Ilha Deserta de Daniel Defoe / Julek Heller pela Companhia das Letrinhas (2016)
>>> Novo Dicionário Básico da Língua Portuguesa Folha / Aurélio de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira pela Nova Fronteira (1988)
>>> Os Papéis de Picasso de Rosalind e Krauss pela Iluminuras (2000)
>>> Vozes e Visões de Rodrigo Garcia Lopes pela Iluminuras (2000)
>>> Rango Coisa Feia de Edgar Vasques pela L&pm (1989)
>>> Introdução à Manufatura - Série Tekne (lacrado) de Michael Fitzpatric pela Bookman (2013)
>>> Tabelas do Curso Prático de Concreto Armado 1 Volume de Aderson Moreira da Rocha pela Científica (1955)
>>> O Que Te Impede de Viver Feliz (lacrado) de José Eduardo Tófoli pela Lumen Juris (2020)
>>> Os Remédios Florais do Dr. Bach de Dr. Eduardo Bach pela Pensamento
>>> My Grandma and I de P. K. Hallinan pela Worthykids (2002)
>>> A Sábia Ingenuidade de Dr. João Pinto Grande de Yuri Vieira pela Record (2017)
>>> Marilyn de Norman Mailer pela Record (2013)
>>> A Criança Problema de Joseph Roucek pela Pegasus (2010)
>>> Amor Nunca É Demais de Helen Van Slyke pela Circulo do Livro (1985)
>>> Os Novos 52 -universo Dc Nº 37 de Dc Comics pela Panini
COLUNAS >>> Especial Machado de Assis

Quinta-feira, 3/7/2008
Considerações de um Rabugento
Abdalan da Gama

+ de 6000 Acessos
+ 4 Comentário(s)

"...tu amas a narração direta e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam, caem..."
Machado de Assis, no capítulo "O Senão Do Livro", de Memórias Póstumas de Brás Cubas

"Enquanto minha alma fazia estas reflexões, o outro ia indo por sua conta, e Deus sabe aonde ia!..."
Xavier de Maistre, em Viagem à roda do meu quarto

A destra tapa um bocejo enquanto a sinistra segura os comentários de Manuel Bandeira e Alfredo Bosi sobre Machado: "Nenhum escritor o sobrepuja na harmonia de todas as qualidades, que faz dele nosso clássico por excelência", "O ponto mais alto e mais equilibrado da prosa..." ― sempre achei os vendedores de enciclopédia geniais. Um perdigoto desequilibra e cai no caderno "Mais!" da Folha: 11 a 2 para Deus. Goleada! O embate não é novo. Machado já esteve no ringue com José de Alencar. Para não citar Tobias Barreto, esse outro pobre-diabo. Ouço Nessum Dorma e vou acordando com interrogações serpentinas: no jogo em que se disputa a posição de melhor escritor brasileiro, como se marca ponto? Quais as regras? Quem conta um conto aumenta um ponto? Quem pode ser juiz? O que se premia ao vencedor, rosas ou batatas?

O entusiasmo com que os jornais, revistas e leitores saúdam a recepção estrangeira a nossos autores não revela uma cultura literária em busca da legitimação ou apenas a tendência a genuflexão? "Woody Allen expressou sua admiração pelo autor de Dom Casmurro". Hip, hip hurra! Leu Epitaph for a Small Winner. Match point! Ora, o valor de Machado não caminha exatamente na contramão sendo ele mesmo antes leitor estrangeiro para então se tornar escritor nacional?

Machado mostra genialidade em alguns romances. Talvez três. Quatro? Certamente três. Até 1872 a obra de Machado de Assis era medíocre e de pobre conteúdo. Palavra do Senhor! A desconfiança e inquietação do autor estão reveladas no prefácio de Ressurreição (1872). Considera-se iniciante. Considera-lhe ensaio. Sua destra e sinistra seguram um coração que não sabe o que pensar da própria obra. Valendo-me de julgamento a posteriori dá para ser-lhe franco ― O romance é fraco, Machado; estilo e conteúdo desequilibrados. Faz bem em dar alguns passos para trás. Vade retro... Ei, Machado, espere! Pára! Não tanto! A Mão e a Luva (1874) e Helena (1876) saíram piores. Guiomar tem personalidade rasteira pincelada com traços trôpegos emoldurados em tela (ação) rota. Ponto sem nó. Há quem goste. Ai, ai. Iaiá. Os personagens desses dois livros são como personagens de novelas da tarde: vitoriosos embora sem trabalho, tendo futilidade como única ocupação. São imagem e semelhança das figuras típicas da época, como a luva é da mão.

Considera-se ponto os epítetos negativos atribuídos a Machado: cético, sardônico, sarcástico, pessimista. Onde está o seu valor? Não ouso desancar o pau, mas a razão pela qual se deve dar algum ponto mais alto a Machado é a mesma que, aparentemente, ofende o brio ufanista: livre apropriação da tradição literária. Esse é o meu ponto. Entesourar em sua obra, exclusivamente o que reflete do pensamento de uma casta suburbana carioca do século XIX, ou como queira, a capital do Segundo Reinado, como se fosse ele apenas o observador na porta da farmácia, era exatamente o que o ofendia então. Não é daí que vieram as críticas absurdas sobre sua alienação ou de onde fogem leitores estrangeiros? Nas palavras dele: "perguntarei mais se o Hamlet, o Otelo, o Júlio César, a Julieta e Romeu têm alguma coisa com a história inglesa nem com o território britânico, e se, entretanto, Shakespeare não é, além de um gênio universal, um poeta essencialmente inglês". Desse essencialismo biologizante e circunscrição cultural que fugia. "O que se deve exigir do escritor antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço".

No terreno comparativo eu julgaria antecipação, fontes e influências. Em sua época, não faltaram a Machado os olhares desconfiados que merece o plagiador. Claro que é exagero, a menos que a idéia de plágio se amplie além das fronteiras da sua época para o tempo de The Brazilian Othelo of Machado de Assis, Helen Caldwell ou, quem sabe, The Author as Plagiarist ― The Case of Machado de Assis. Emprego de empréstimos de textos alheios que pese a habilidade da pena do escritor, não é heresia. Intertextualidade não o rebaixa de sua posição papal ― Joaquim Nabuco viu em Machado a beatitude serena de um papa. Que texto não é uma colcha de retalhos, a transfiguração de outros? "A Revolução Francesa e Otelo estão feitos; nada impede que esta ou aquela cena seja tirada para outras peças, e assim se cometem, literariamente falando, os plágios" (Machado). Nada impede. Só o tira do primeiro dia da criação, onde está Shakespeare, o criador tinhoso. Machado é um astro: está no quarto dia da criação, mas não no fiat lux. Leio Machado com a angústia de não possuir Shakespeare (1564-1616). Faço uma viagem demaistreana à roda do meu quarto e me consolo: de qualquer sorte, "Bem-aventurados os que lêem" (Apocalipse, 1:3). (Mais?) "Bem-aventurados os que possuem, pois eles serão consolados" (Machado). Palavra do Senhor!

Machado é Moisés que ― como ele mesmo lembra por boca de Brás Cubas ― narrou a própria morte. Mas acrescento: no livro de Deuteronômio, cujo significado é "o refalar da lei". Machado é uma espécie de Rubião, o fiel escudeiro do filósofo Quincas Borba. Ele herda a fortuna do mestre e a gasta prodigamente. Mutatis mutandi, é o mesmo Rubião que sugere uma emenda em um artigo do jornal de Camacho ― o que é prontamente acatado ― e que por uma série de frases que compôs e ruminou, terminou como autor de todos os livros que leu. A realidade sinistra é que a principal contribuição de Machado foi a reescrita da tradição literária. Foi nos deixar escarafunchar sua estante e ler o que ele l(escrev)eu. Até o final do primeiro capítulo, Stendhal, Sterne, Xavier de Maistre, Moisés, Shakespeare e Auguste Chateaubriand. Não é de estranhar que seu salto quântico da mediocridade para níveis maiores de energia é exatamente quando introduz Stendhal como seu primeiro "personagem", por assim dizer, em Memórias Póstumas. No campo literário esse ávido leitor foi mais sagaz que todos os animais selváticos de então, ao adotar a "forma livre de um Sterne ou de um Xavier de Maistre", apimentada com rabugens de pessimismo.

Caminhando para o ponto final, volto ao princípio. No princípio era o verbo, e o verbo era Deus, e o verbo se fez carne. Minha proposta é que como regra, marque o ponto final quem ― para parafrasear Manoel de Barros em conversa com algum gênio ― enlouquece o verbo, adoece-o, de si, de nós, transfigura-lhe a natureza; humaniza-o... Amo Puccini. Quem, diabos, é o autor do libreto de Turandot? Não há "lugares em que o verso vai para direita e a música para esquerda". É Divino. Vincerò!, Vincerò! Vincerò!


Abdalan da Gama
São Paulo, 3/7/2008


Mais Abdalan da Gama
Mais Especial Machado de Assis
* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
3/7/2008
11h27min
Muita gente ainda defende o axioma: não gostar de Machado é não entender sua ironia etc. Essa pessoas costumam ser compreensivas com os pobres mortais que não gostam tanto de Machado. "Tudo bem", elas dizem (com um sorrisinho), "você tem todo o direito de não gostar de Machado". E o sorrisinho está dizendo: "você não entendeu a ironia do moço mas, quem sabe, você ainda chega lá..." Seria bom se essas pessoas pudessem entender o seguinte: "... a principal contribuição de Machado foi a reescrita da tradição literária". Um dia elas chegam lá, quem sabe? Ótimo texto, abçs!
[Leia outros Comentários de Guga Schultze]
3/7/2008
14h21min
Quando ouvi da boca de uma professora de pós que Machado não fora sempre brilhante, que seus escritos, numa primeira fase, não eram nada geniais e que sua notoriedade não adviera senão de Dom Casmurro e Memórias Póstumas, fiquei espantado! "Então o gênio não havia sido gênio sempre?" (como aquela imagem que fazemos de Mozart, compondo sinfonias antes mesmo de aprender a dizer "mamãe, fiz cocô"). A idéia que fazemos de Machado chega a ser a de um santo. Vemos seus milagres mas não sabemos das cachaças que tomou ou dos tombos que levou. Então pegue um disco dos Beatles... De todas as faixas, talvez você reconheça várias, mas nem todas fizeram o mesmo sucesso (esse mérito só mesmo os Mamonas tiveram!). Por via das dúvidas, iconizar Machado parece ser o melhor a fazer até que palavras de pessoas mais qualificadas venham nos resgatar. É reconfortante saber que não somos, nós, escritores iniciantes, os porta-estandartes da irrelevância. Os grandes já tiveram seus maus momentos um dia. Ufa!
[Leia outros Comentários de Albarus Andreos]
4/7/2008
16h45min
Li o "Entre Deus e o Diabo" da Folha. Também babei com o 11x2 para Deus (Machado) contra o Diabo (Guimarães) no caderno Mais! da Folha. Esse Abdalan escreve por parábolas, nas entrelinhas. Um texto que parece "guinar à direita e à esquerda", mas sua idéia é destilada com maestria. Parabéns!
[Leia outros Comentários de Luciano Murattori]
4/7/2008
20h14min
Exigem a leitura de homens irônicos, cínicos e sem esperança na humanidade para as crianças criarem o gosto pela leitura. A ironia, eu vim a entender muito além de quando estava na escola. O cinismo, quando saía da faculdade. A falta de esperança no mundo, eu pretendo adquirir ainda no doutorado.
[Leia outros Comentários de mauro judice]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




A Pedagogia do Sucesso
João Batista Araújo e Oliveira
Saraiva
(1999)



Nossos Índios Nossos Mortos
Edilson Martins
Codecri
(1978)



O Controle Judicial de políticas Públicas
Américo Bedé Freire Júnior
Revista dos Tribunais
(2005)



Brasil a Trajetória de um País Forte
Alcides Domingues Leite Júnior
Trevisan
(2009)



Riquezas da mensagem cristã
D. Cirilo Folch Gomes
Lumen Christi
(1981)



1591 - A santa Inquisição na Bahia e Outras Estórias
Nélson de Araújo
Nova Fronteira
(1991)



Luka na Casa da Biza
Lia Campos Ferreira
Do Escritor
(2004)



Trismus na Antártica Volume 2
Patrick Van God
Edições Marítimas



Maravilhas do Conto Humorístico
Mariano Torres
Cultrix
(1959)



Misterio? Misteriosos Amor
Odette de Barros Mott
Atual
(1986)





busca | avançada
71417 visitas/dia
1,9 milhão/mês