Guimarães Rosa: um baiano de sangue | Ivan Bilheiro | Digestivo Cultural

busca | avançada
44062 visitas/dia
1,3 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Banda GELPI, vencedora do concurso EDP LIVE BANDS BRASIL, lança seu primeiro álbum com a Sony
>>> Celso Sabadin e Francisco Ucha lançam livro sobre a vida de Moracy do Val amanhã na Livraria da Vila
>>> No Dia dos Pais, boa comida, lugar bacana e MPB requintada são as opções para acertar no presente
>>> Livro destaca a utilização da robótica nas salas de aula
>>> São Paulo recebe o lançamento do livro Bluebell
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Rinoceronte, poemas em prosa de Ronald Polito
>>> A forca de cascavel — Angústia (FUVEST 2020)
>>> O reinado estético: Luís XV e Madame de Pompadour
>>> 7 de Setembro
>>> Outros cantos, de Maria Valéria Rezende
>>> Notas confessionais de um angustiado (VII)
>>> Eu não entendo nada de alta gastronomia - Parte 1
>>> Treliças bem trançadas
>>> Meu Telefunken
>>> Dor e Glória, de Pedro Almodóvar
Colunistas
Últimos Posts
>>> Revisores de Texto em pauta
>>> Diogo Salles no podcast Guide
>>> Uma História do Mercado Livre
>>> Washington Olivetto no Day1
>>> Robinson Shiba do China in Box
>>> Karnal, Cortella e Pondé
>>> Canal Livre com FHC
>>> A história de cada livro
>>> Guia Crowdfunding de Livros
>>> Crise da Democracia
Últimos Posts
>>> Uma crônica de Cinema
>>> Visitação ao desenho de Jair Glass
>>> Desiguais
>>> Quanto às perdas I
>>> A caminho, caminhemos nós
>>> MEMÓRIA
>>> Inesquecíveis cinco dias de Julho
>>> Primavera
>>> Quando a Juventude Te Ferra Economicamente
>>> Bens de consumo
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Ser intelectual dói
>>> O Tigrão vai te ensinar
>>> O hiperconto e a literatura digital
>>> Aberta a temporada de caça
>>> Se for viajar de navio...
>>> Incompatibilidade...
>>> Alguns Jesus em 10 anos
>>> Blogues: uma (não tão) breve história (II)
>>> Picasso e As Senhoritas de Avignon (Parte I)
>>> Asia de volta ao mapa
Mais Recentes
>>> O Livro da moda de Alexandra Black pela Publifolha (2015)
>>> Rejuvelhecer a saude como prioridade de Sergio Abramoff pela Intrinseca (2017)
>>> O livro das evidencias de John Banville Tradução Fabio Bonillo pela Biblioteca Azul - globo (2018)
>>> O futebol explica o Brasil de Marcos Guterman pela Contexto (2014)
>>> O Macaco e a Essencia de Aldous Huxley pela Globo (2017)
>>> BATISTAS, Sua Trajetória em Santo Antônio de Jesus: o fim do monopólio da fé na Terra do Padre Mateus de Jorgevan Alves da Silva pela Fonte Editorial (2018)
>>> Playboy Bárbara Borges de Diversos pela Abril (2009)
>>> Sarah de Theresa Michaels pela Nova Cultural (1999)
>>> A Bela e o Barão de Deborah Hale pela Nova Cultural (2003)
>>> O estilo na História. Gibbon & Ranke & Macaulay & Burckhardt de Peter Gay pela Companhia das Letras (1990)
>>> Playboy Simony de Diversos pela Abril (1994)
>>> Invasão no Mundo da Superfície de Mark Cheverton pela Galera Junior (2015)
>>> José Lins Do Rego- Literatura Comentada de Benjamin Abdala Jr. pela Abril Educação (1982)
>>> A modernidade vienense e as crises de identidade de Jacques Le Rider pela Civilização Brasileira (1993)
>>> Machado De Assis - Literatura Comentada de Marisa Lajolo pela Abril Educação (1980)
>>> A Viena de Wittgenstein de Allan Janik & Stephen Toulmin pela Campus (1991)
>>> O Velho e o Mar de Ernest Hemingway pela Círculo do livro (1980)
>>> Veneno de Alan Scholefield pela Abril cultural (1984)
>>> O Livreiro de Cabul de Asne Seierstad pela Record (2007)
>>> Os Dragões do Éden de Carl Sagan pela Francisco Alves (1980)
>>> O Espião que sabia demais de John Le Carré pela Abril cultural (1984)
>>> Administração de Materiais de Jorge Sequeira de Araújo pela Atlas (1981)
>>> Introdução à Programação Linear de R. Stansbury Stockton pela Atlas (1975)
>>> Como lidar com Clientes Difíceis de Dave Anderson pela Sextante (2010)
>>> As 3 Leis do Desempenho de Steve Zaffron e Dave Logan pela Primavera (2009)
>>> Curso de Educação Mediúnica 1º Ano de Vários Autores pela Feesp (1996)
>>> Recursos para uma Vida Natural de Eliza M. S. Biazzi pela Casa Publicadora Brasileira (2001)
>>> Jesus enxuga minhas Lágrimas de Elza de Almeida pela Fotograma (1999)
>>> As Aventuras de Robinson Crusoé de Daniel Defoe pela LPM Pocket (1997)
>>> Bulunga o Rei Azul de Pedro Bloch pela Moderna (1991)
>>> Menino de Engenho de José Lins do Rego pela José Olympio (1982)
>>> Terra dos Homens de Antoine de Saint-Exupéry pela Nova Fronteira (1988)
>>> O Menino de Areia de Tahar Ben Jelloun pela Nova Fronteira (1985)
>>> Aspectos Endócrinos de Interesse à Estomatologia de Janete Dias Almeida pela Unesp (1999)
>>> Nociones de Historia Linguística y Estetica Literaria de Antonio Vilanova- Nestor Lujan pela Editorial Teide/ Barcelona (1950)
>>> El Estilo: El Problema y Su Solucion de Bennison Gray pela Editorial Castalia/ Madrid (1974)
>>> El Cuento y Sus Claves de Raúl A. Piérola/ Alba Omil (profs. Univ. Tucumán pela Editorial Nova, Buenos Aires (1955)
>>> Las Fuentes de La Creacion Literaria de Carmelo M. Bonet pela Libr. del Collegio/ B. Aires (1943)
>>> As Hortaliças na Medicina Doméstica/ Encadernado de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar (1976)
>>> A Flora Nacional na Medicina Doméstica de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar
>>> Arlington Park de Rachel Cusk pela Companhia das Letras (2007)
>>> Muitas Vidas, Muitos Mestres de Brian L Weiss pela Salamandra (1991)
>>> As Frutas na Medicina Doméstica de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar
>>> Coleção Agatha Christie - Box 8 de Agatha Christie; Sonia Coutinho; Archibaldo Figueira pela HarperCollins (2019)
>>> As Irmãs Aguero de Cristina García pela Record (1998)
>>> Não Faça Tempestade Em Copo Dágua no Amor de Richard Carlson pela Rocco (2001)
>>> Um Estudo Em Vermelho - Edição De Bolso de Arthur Conan Doyle pela Zahar (2013)
>>> Eu, Dommenique de Dommenique Luxor pela Leya (2011)
>>> Os Cavaleiros da Praga Divina de Marcos Rey pela Global (2015)
>>> O Futuro da Filosofia da Práxis de Leandro Konder pela ExpressãoPopular (2018)
COLUNAS

Terça-feira, 17/7/2012
Guimarães Rosa: um baiano de sangue
Ivan Bilheiro

+ de 5600 Acessos

Que nenhum valentão (ao estilo daqueles muitos que figuram em Corpo fechado, uma das novelas de João Guimarães Rosa que compõem a obra Sagarana (Nova Fronteira, 2001, 413 págs.)) se enfeze com leitura primeira do título acima, que logo explicação terá. O Guimarães Rosa, que é que tem e que é que não tem com sangue e com a Bahia?!

Guarde ainda as armas, e 'guenta o relance, Izé (como diriam ao personagem de São Marcos, mais uma das novelas de Sagarana) porque o tranco é ainda maior: tem aí uma história de Guimarães Rosa desocupado e homossexual... Como é que pode?

Não é preciso nem a malandragem de Lalino Salãthiel (personagem d'A volta do marido pródigo) para a explicação, basta que advogue a causa o grande Jorge Amado. Aí é que a coisa parece que embola, mas não embola, que logo se explica: percorrendo as páginas de Navegação de Cabotagem: apontamentos para um livro de memórias que jamais escreverei (Record, 2006, 544 págs.) do escritor baiano, deparei-me com duas passagens interessantes em que o autor de Sagarana aparece. Delas surgiram as considerações atordoantes citadas acima.

Quando o editor norte-americano Alfred Knopf decidiu publicar a tradução em inglês de Grande Sertão: Veredas, foi solicitado a Jorge Amado que prefaciasse a obra, lá pelos idos da década de 1960. No tal prefácio, Jorge Amado defendeu duas teses que ele mesmo reconhecia como dignas de causar escândalo. A primeira tese, imediatamente explicada por ele, é a de que "[...] Guimarães Rosa não é romancista mineiro e, sim, baiano [...]. Pode parecer brincadeira mas empresto à ideia significação literária. Desejo aproximar a ficção de Rosa de Maria Dusá, de Lindolfo Rocha, escritor baiano, nascido mineiro, distanciá-la de O mameluco Boaventura, de Eduardo Frieiro, mineiro de nascimento e letras". E vem o ponto fundamental desta tese: "Quero filiar a criação de Rosa à narrativa nordestina, escrita com sangue, não com tinta" (p. 117).

E fazendo uso da mesma relação sangue-e-tinta, Jorge Amado apresenta a segunda tese, inflamável na formulação: "Ainda discuto tinta e sangue ao recusar os termos em que a crítica brasileira, em sua grande maioria, situa a grandeza do escritor. Todos os louvores, levados ao exagero do faniquito, da histeria, são dedicados à escrita do autor de Sagarana. De fato, por maiores sejam os elogios à linguagem de Rosa - a língua brasileira é uma antes dele, outra depois -, são todos justos e merecidos. Mas contesto as afirmações dos louvaminheiros que se masturbam ante a pesquisa e a fantasia lingüísticas de Rosa: não reside na escrita o fundamento de sua obra, não é ela que a faz eterna e universal" (p. 117-8).

O caráter extraordinário da escrita de Guimarães Rosa, segundo seu auto-proclamado conterrâneo (fazendo de Rosa baiano, e não se convertendo às Minas), não é contestado, mas o fato de ele se perder na mesma proporção em que a obra do escritor ganha o mundo, com diversas traduções, faz pensar melhor os referenciais do elogio. E pergunta: "O que restará dela quando a ficção de Rosa chegar ao chinês, ao coreano, ao georgiano, ao armênio, em vez do alfabeto latino, a composição em hieroglifos, signos, ideogramas? [...] Já nada restará da escrita, da linguagem, da invenção formal".

O que permanecerá, posto que é a vida das histórias de Guimarães Rosa, é o sangue com o qual foram registradas as vivências, as paisagens, os costumes, os personagens. Segundo Jorge Amado, essa característica é típica da escrita nordestina, por isso a afirmação de que Rosa é da Bahia, sua terra. E a força de sua literatura está mais no sangue, uma força nordestina, que na tinta, a escrita (embora reconhecidamente revolucionária): "[...] restarão o Brasil e o povo brasileiro, o sertão desmedido, a desmedida bravura, a ânsia e o amor, restará o sangue quando a tinta se apagar de todo".

Não é sem razão, portanto, a observação de Paulo Rónai, em excelente texto de 1946, A arte de contar em Sagarana. Ele afirmava que o regionalismo é mais um obstáculo que um recurso. Com sua riqueza léxica absolutamente particular, torna-se uma armadilha em que caem escritores que passam a falar para um nicho muito restrito (quando ainda falam alguma coisa). Mas, continua Rónai, o regionalismo foi empecilho afrontado por Guimarães Rosa que, domado o obstáculo, apresentou obra genial: "Apresenta-se como o autor regionalista de uma obra cujo conteúdo universal e humano prende o leitor desde o primeiro momento, mais ainda que a novidade do tom ou o sabor do estilo". Jorge Amado ratifica.

Mas e essa história de homossexual e desocupado? Aí é papo de em-antes, lá por volta de 1956. Jorge Amado conta que teve de ir ao Palácio do Catete falar com o então presidente Juscelino Kubitschek. Lá, à espera do atendimento, começou a conversar com o mineiro e também escritor Cyro dos Anjos. Segundo relata o baiano, aquela era época em que exaltava Guimarães Rosa com toda a sua força. Assim, achou boa pedida colocar em pauta o assunto, e cobriu Rosa de elogios. Cyro ouviu tudo atentamente, e aí veio o choque. Após dizer que os elogios eram "possivelmente certos", o interlocutor de Jorge Amado disse: "[...] mas repare, se detenha a examinar e verá que a obra de Guimarães Rosa se apóia sobre três suportes. Primeiro: o manejo dos dicionários para fabricação das palavras, para o que se fazem necessários paciência, método e tempo disponível de quem não tem obrigações a cumprir. Segundo: o conhecimento dos romances de cavalaria, o que é Grande sertão: veredas, me diga, senão um romance de cavalaria? Para finalizar, o terceiro: a sensibilidade feminina de homossexual, basta ler com atenção" (p. 366).

O choque foi grande: "Juscelino encerra a audiência, manda me chamar. Levanto-me, atarantado recolho os restos mortais de Guimarães Rosa. Cyro dos Anjos retorna a seus papéis de burocrata".

Os restos mortais, jogados ao chão após a "leitura atenta" de Cyro, foram recolhidos por Jorge Amado. Mas as partes imortais, registradas com sangue, ainda são lidas e relidas, muitas e muitas vezes, por esse mundo velho de bambaruê e bambaruá. Um viva aos baianos, e um viva à criação genial registrada em sangue!


Ivan Bilheiro
Juiz de Fora, 17/7/2012


Quem leu este, também leu esse(s):
01. De pé no chão (1978): sambando com Beth Carvalho de Renato Alessandro dos Santos
02. K 466 de Renato Alessandro dos Santos
03. Cidadão Samba: Sílvio Pereira da Silva de Renato Alessandro dos Santos
04. estar onde eu não estou de Luís Fernando Amâncio
05. Como eu escrevo de Luís Fernando Amâncio


Mais Ivan Bilheiro
* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




SALA DOS HOMICÍDIOS - 1ª EDIÇÃO
P. D. JAMES
COMPANHIA DAS LETRAS
(2004)
R$ 15,00



A VIDA É UM PALCO
SHIRLEY MACLAINE
RECORD
(1988)
R$ 4,02



POR ISSO NÃO PROVOQUE
PAULO TADEU
MATRIX
(2010)
R$ 6,90



PSICOLOGIA DA PERCEPÇÃO
JOÃO A. SOSSAI
EDICON
(1981)
R$ 10,00



TOC - TRANSTORNO OBSESSIVO-COMPULSIVO 100 PERGUNTAS MAIS FREQUENTES
GUSTAVO FAUS BORONAT
EDIMSA
(2005)
R$ 20,00



FÍSICA 3 ENSINO MÉDIO
GUIMARÃES PIQUEIRA CARRON
ATICA
(2014)
R$ 8,50



NOÇÕES GERAIS DA PESCA DE ARREMESSO
SILVIO FUKUMOTO
ZILLIG
(1994)
R$ 10,00



LA SUBLIMATION
JEAN LAPLANCHE
PRESS UNIVERSITAIRES DE FRANCE
(1980)
R$ 50,00



ESSE CONTINENTE CHAMADO BRASIL
EDUARDO TOURINHO
JOSÉ OLYMPIO
(1964)
R$ 22,50



A CRISE DA INSTITUIÇÃO FAMILIAR
ISODORO ALONSO HINOJAL
BIBLIOTECA SALVAT
(1979)
R$ 10,00





busca | avançada
44062 visitas/dia
1,3 milhão/mês