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Terça-feira, 17/3/2015
Eu matei Marina Abramovic (Conto)
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 4900 Acessos

Acordei meio tarde. Sobre a mesa do café da manhã, encontrei o jornal com o Caderno de Cultura aberto, onde estava estampada a notícia da primeira exposição no Brasil da artista Marina Abramovic. Li imediatamente a notícia, antes mesmo de colocar o café na xícara.

- Você viu quem estará no Brasil? Perguntou Clara, apontando o dedo para o jornal.

- Sim. Mas me causa espanto saber que Marina Abramovic vai retomar a sua famosa performance onde deixa algumas facas e revólveres carregados à disposição do público... armas que podem até ser usadas contra ela. Mas aqui não diz nada sobre a razão que a levou a vir parar aqui no fim do mundo e muito menos a razão para retomar tal performance.

Clara se aproximou de mim, me beijou e sussurrou no meu ouvido, com o ar morno que saía de sua boca, que era a minha chance de realizar o desejo que sempre tive de participar de uma performance com Abramovic.

- Sim, Clara, este é o momento. Mas te pergunto se a ideia da experiência limite, que é uma prática privilegiada das performances dela, inclusive colocando-a sob risco de morte, teria, no Brasil, algum significado objetivo?

- Pode ser, - disse Clara - talvez ela queira provar para si mesma que ainda que esteja em um lugar tão violento como o Brasil, ninguém ousaria destruir uma obra de arte (sua própria performance). Bom, você que é sabichão nessas coisas de arte pode me dizer.

Fiquei pensando um tempo. Conhecendo o trabalho dela, imagino que pretenda encontrar aqui, onde a possibilidade da morte é real, o momento mais significativo para sua criação, ou seja, a ideia de colocar realmente a própria vida em risco e levar sua performance ao ponto máximo. Expus esta ideia para Clara.

- Afinal, Clara, entre um público "civilizado" como o europeu ou o americano ela tinha certeza de que ninguém a mataria, mas aqui, onde se tem uma guerra não declarada, com milhares de mortes por ano, o perigo é real. Como artista visceral que é, não acabara de encontrar o solo fértil para uma experiência de fato extrema? Teria ela encontrado sua Sérvia novamente?

Não se sabia, afinal, qual a razão que levaria Abramovic a retomar a consagrada performance aqui no Brasil. Sobre isso, a artista não declarou nada à imprensa. No jornal, críticos em rebuliço decidiram colocar suas hipóteses na ordem do dia. Algumas bastante estranhas, diga-se de passagem. Nenhum parecia entender os reais propósitos dela. Indicando de motivos fúteis aos mais sublimes, teóricos se digladiavam para explicar o fenômeno Abramovic. No fim das contas, segundo meu parecer, as explicações escritas ali soavam vazias. Nada mais que isso. É o que tentei dizer para Clara, que parecia ter um sinal de interrogação sobre a cabeça.

Minha conversa com Clara, como sempre, não foi adiante. Durante uma semana não pensei em nada a não ser na ideia de ir ao SESC participar da performance de Abramovic.

No dia da performance, o SESC estava repleto de pessoas, a maioria suadas pelo calor que fazia naquela tarde, esperando numa fila enorme a sua vez de pegar o revólver ou a faca e brincar de matar ou torturar Abramovic. E eu me perguntava o que levaria tantas pessoas a sair de casa, enfrentar um trânsito infernal, aguentar aquele calor também infernal, apenas para participar da performance de uma artista maluca, que para eles não passava de uma espécie de consagrada Mona Lisa do momento.

Curioso sobre as razões que levavam as pessoas a vir ver Abramovic, comecei a conversar na fila com um ou outro "participante".

- Então, rapaz, que loucura! Poderemos participar de uma performance com Abramovic, uma artista internacional!

- Pois é, - me disse um deles - quem sabe não serei até fotografado ao lado dela e minha foto poderá acabar num desses livros coloridos de arte que as pessoas adoram colocar como decoração sobre a mesa de centro de suas salas?

Outro, meio afetado, já disse: - Imagina, que luuuuuxo! Eu e a santa! Delírio total!

Cada um parecia ter sua obscura razão para estar ali.

A minha, que é o que importa, era fazer arte, a minha própria performance. E só havia uma forma para isso acontecer. Eu sabia da existência de um contrato entre a artista e o público participante, de que se alguém a matasse durante a performance essa pessoa estaria juridicamente livre de qualquer criminalização, pois o próprio fato da artista ser morta se tornaria parte da obra e o assassino um coautor da mesma.

Conforme eu havia lido, juízes divergiam sobre esse "direito da artista em colocar sua própria vida em risco e, ainda mais, de levar alguém a cometer um assassinato". Pouco importa, o contrato existia. E, talvez, Abramovic acreditasse que jamais aconteceria qualquer coisa com ela. No máximo pequenos cortes de faca aqui e ali, feitos por alguns artistas de performance também acostumados a esses sadomasoquismos típicos da classe artística. Ela sabia como pisar em um campo minado. Ela estava dentro do jogo, mas sempre como mestra do jogo. Dominava suas regras, mesmo colocando seu corpo à prova de fogo, seja com jejuns absurdos ou silêncios absolutos, dentre outras práticas que visavam destruir o seu "Eu" e apagar a identidade que aprisionava sua consciência, impedindo-a de tocar o absoluto.

Ela não esperava encontrar no Brasil alguém como eu, que havia aprendido de fato o que ela havia ensinado. Eu ia levá-la a provar do próprio veneno. Não sou um desses artistas simplórios que, "para estar por dentro", curtia Abramovic, mas que na primeira paulada procurava um analista. Não, eu aprendi o que ela ensinou: "É preciso entender que o corpo é uma máquina. Essa disciplina é necessária para encarar as tarefas da performance." Me treinei nos seus ensinamentos por anos e agora mostraria o resultado para a mestra.

Conhecendo profundamente a obra de Abramovic, sabia também em que estágio ela se encontrava na sua vida artística. Um crítico classificou (críticos adoram classificar) a fase atual de sua obra de "ações contemplativas", o que é correto, mas sem entender qual o objetivo dessas ações. E é aqui que talvez resida a explicação para a retomada do seu trabalho mais doloroso e perigoso: a performance com faca e revólver. Segundo soube pelos jornais, Abramovic prepara um filme onde vai ser assassinada sete vezes de sete diferentes formas. Uma espécie de "ensaio para seu próprio funeral", como ela disse. Mas... ainda estamos apenas no território da encenação.

Decidi fazê-la pular o ensaio. E naquela fila do SESC, suando por causa do calor, mas não pela emoção, estava prestes a entrar na história da arte como um dos mais ousados artistas da performance. E também como a pessoa que matou Marina Abramovic.

Andando na fila calmamente, enquanto esperava a minha vez de estar diante da artista, me coloquei em estado de "transe". É o que é necessário à consciência que busca o extremo, a experiência limite. Atingi ali mesmo o estado onde o Tempo desaparece, onde a correnteza das forças cósmicas correm sem sentido algum, preparado para executar o meu objetivo.

Encontrei-a sentada numa cadeira, tranquila, e na sua frente, sobre a mesa, algumas facas e revólveres carregados. Escolhi um deles. Estava ainda quente, pois deve ter sido o que mais foi manipulado pelas pessoas que estiveram ali, antes de mim. Bastante manipulado, portanto. Mas não usado. Meus olhos encontraram os de Abramovic. Ela sabia. Encarou-me profundamente. Veio-me à mente apenas a imagem de algum pintor que representou Cristo na cruz no momento em que se entregava à morte, aos desígnios de Deus. Ela sabia e, pelo que pressenti, estava pronta. Todas as suas performances anteriores eram apenas uma preparação para esse momento. Não seria à toa que retomaria a performance.

Sabendo disso, eu já me colocava como coautor da obra. Tentei pensar sobre as reações que Clara teria ao saber da minha ação, mas eu apenas era seduzido pelos olhos de Abramovic que se aprofundavam dentro dos meus. A arma na minha mão já apontava diretamente para seu rosto quando seus lábios se abriram, e seus olhos, com retinas que pareciam navalhas, caíram mais ainda dentro dos meus, como se me puxassem para uma cópula mortal, quando ouvi de sua boca a frase fatal: "A morte é o último grande ato de um artista". Ao fechar os lábios, a bala do revólver já estava iniciando seus estragos na testa branca da artista, que caiu como uma pena ao chão, enquanto sua consciência saltava para o abismo do Nada.

A sua frase lapidar se concretizou. Para meu júbilo, e para o desespero dos fãs, visivelmente atordoados com a cena, aqueles que jamais entenderam e jamais viriam a entender a última performance de Marina Abramovic.

Durante uma das visitas que me fez na prisão, Clara me entregou um presente, com um leve sorriso irônico estampado no rosto. Eram os livros "Crime e Castigo", de Dostoievski, e "Do assassinato como uma das belas-artes", de Thomas De Quincey. Meus livros preferidos.



Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 17/3/2015


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