Em busca da pureza perdida | Eduardo Carvalho | Digestivo Cultural

busca | avançada
57238 visitas/dia
1,6 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Espetáculo 'Figural', direçãod e Antonio Nóbrega | Sesc Bom Retiro
>>> Escritas de SI(DA) - o HIV/Aids na literatura brasileira
>>> Com Rincon Sapiência, Samanta Luz prepara quiche vegana no Sabor & Luz
>>> Exposição Alma
>>> Festival internacional de fotografia premia fotos vencedoras da edição de 2022
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Home sweet... O retorno, de Dulce Maria Cardoso
>>> Menos que um, novo romance de Patrícia Melo
>>> Gal Costa (1945-2022)
>>> O segredo para não brigar por política
>>> Endereços antigos, enganos atuais
>>> Rodolfo Felipe Neder (1935-2022)
>>> A pior crônica do mundo
>>> O que lembro, tenho (Grande sertão: veredas)
>>> Neste Momento, poesia de André Dick
>>> Jô Soares (1938-2022)
Colunistas
Últimos Posts
>>> Lula de óculos ou Lula sem óculos?
>>> Uma história do Elo7
>>> Um convite a Xavier Zubiri
>>> Agnaldo Farias sobre Millôr Fernandes
>>> Marcelo Tripoli no TalksbyLeo
>>> Ivan Sant'Anna, o irmão de Sérgio Sant'Anna
>>> A Pathétique de Beethoven por Daniel Barenboim
>>> A história de Roberto Lee e da Avenue
>>> Canções Cruas, por Jacque Falcheti
>>> Running Up That Hill de Kate Bush por SingitLive
Últimos Posts
>>> Nosotros
>>> Berço de lembranças
>>> Não sou eterno, meus atos são
>>> Meu orgulho, brava gente
>>> Sem chance
>>> Imcomparável
>>> Saudade indomável
>>> Às avessas
>>> Amigo do tempo
>>> Desapega, só um pouquinho.
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Revista Florense
>>> Nazismo na era do videogame
>>> A Música Erudita no Brasil
>>> O primeiro assédio, na literatura
>>> O Twitter de Bill Gross
>>> The Boat That Rocked ou Os Piratas do Rock
>>> Livros, revistas, jornais e displays eletrônicos
>>> Música do acaso
>>> Duas cartas
>>> O Suplício do Papai Noel, por Claude Lévi-Strauss
Mais Recentes
>>> Gerenciamento da rotina do trabalho no dia a dia de Vicente falconi pela Falconi (2013)
>>> A logica do cisne negro de Nassim Nicholas Taleb pela Best business (2007)
>>> A Deusa Interior de Jennifer Barker Woolger / Roger J. Woolger pela Cultrix (1989)
>>> Entre a aspidistra e o artocarpus de Olavo cabral ramos filho pela Chiado (2007)
>>> Admiravel mundo novo de Aldous huxley pela Biblioteca azul (1995)
>>> A Mensagem do Mestre de Bhagavad Gita pela Pensamento (2006)
>>> Santos do Povo Brasileiro de Nilza Botelho Megale pela Vozes (2002)
>>> O Livro Completo de Bruxaria do Buckland de Raymond Buckland pela Gaia (2003)
>>> Tudo Sobre Arte - os Movimentos e as Obras Mais Importantes de Todos os Tempos de Stephen Farthing pela Sextante (2011)
>>> 1984 de George Orwell pela Companhia das letras (2009)
>>> A Connecticut Yankee in King Arthur's Court de Mark Twain pela Collins Classics
>>> A song of Ice and Fire - A Game of Thrones de George R. R. Martin pela Harper Voyager (2011)
>>> A Batalha do Apocalípse de Eduardo Spohr pela Verus (2013)
>>> Jane Eyre de Charlotte Brontë pela Oxford (2000)
>>> Seus pontos fracos de Wayne W. Dyer pela Record (1976)
>>> Nas Ciladas da Obsessão de Liszt Rangel pela Dpl (2002)
>>> Transmissão de Energia Elétrica - teoria e prática em linhas aéreas de Cleber oberto Guirelli - Ivanilda Matile pela Mackenzie (2014)
>>> Guia ilustrado TV Globo Novelas e Minisséries de Projeto Memória Globo pela Jorge Zahar (2010)
>>> 60 Histórias para dormir 4 de Vários Autores pela Divisão Cultural do Livro (2012)
>>> 60 Histórias para dormir 3 de Vários Autores pela Divisão Cultural do Livro (2011)
>>> Ikebana - Arte japonesa para arranjos d3e flores de Chiang Sing pela Ediouro (1979)
>>> Arbitragem - temas contemporâneos de Selma Ferreira Lemes - Inez Balbino pela Quartier Latin (2012)
>>> A advocacia na mediação de John W. Cooley pela Unb (2001)
>>> Álgebra I de A. C. Morgado - E. Wagner - M. Jorge pela Francisco Alves (1974)
>>> Estruturas Algébricas de Serge Lang pela Ao Livro Técnico (1972)
COLUNAS

Segunda-feira, 20/5/2002
Em busca da pureza perdida
Eduardo Carvalho

+ de 8500 Acessos
+ 5 Comentário(s)

Radiguet fotografado por Cocteau

Quando o gênio produz sua obra máxima, ainda que quando jovem, talvez seja mesmo melhor que ele morra. A persistente cobrança por um aprimoramento impossível pode lhe ser mais insuportável do que um eventual sofrimento físico. Se o trabalho já está inteiramente cumprido, é melhor descansar em paz. Quando contraiu febre tifóide com pouco mais de 20 anos, então, Raymond Radiguet mereceu e precisou morrer - seu legado literário já estava perfeitamente acabado.

Radiguet nasceu em 1903, em Saint-Maur, subúrbio de Paris, filho de um famoso cartunista, Maurice. Era o mais velho de seis irmãos. Foi um aluno exemplar até, aproximadamente, os 8 anos; largou o liceu Charlemagne em Paris, onde era bolsista, aos 10, como um estudante medíocre - e continuou estudando sob a sensível orientação do seu pai. Radiguet não era bobo: em vez do monótono ambiente escolar, preferia ler os clássicos franceses deitado em um barco amarrado na margem do rio Marne, aproveitando a atmosfera calma e agradável da cercania parisiense de mesmo nome, onde morava com a família. E lia intensamente: de acordo com uma passagem provavelmente autobiográfica de "Com o Diabo no Corpo", uns 200 livros entre os onze e doze anos.

Aos 14 anos, numa ocasião em que foi entregar os desenhos de seu pai ao jornal "L'Intransigeant", conheceu o poeta André Salon, e apresentou a ele seus primeiros poemas. Salon ficou impressionado, e conseguiu espaço para que Radiguet publicasse seus trabalhos em jornais e revistas. Apresentou-o também a Max Jacob, que o introduziria, depois, ao seu futuro amigo e amante, Jean Cocteau, que tinha o dobro da sua idade. Aos 15 anos, Radiguet já começara a freqüentar os círculos de Montparnasse, "a Meca da modernidade", com Picasso, Apollinaire, Breton, Modigliani, Coco Chanel, Stravinsky, entre outros, e, aos poucos, foi conquistando também a alta sociedade parisiense, convivendo com príncipes e princesas - em um lugar em que, diga-se, o termo "alta sociedade" parece ainda corretamente aplicado.

Sua precocidade literária é normalmente comparada com a de Rimbaud, que nasceu em 1854. Faz sentido. Aos 19 anos, Rimbaud já era um reconhecido fenômeno das Letras, com a publicação de "Uma Estação no Inferno" e "O Barco Embriagado". Apesar de uma morte erradamente anunciada, quando desapareceu aos 27 anos, Rimbaud também morreu relativamente novo, aos 37, de doença desconhecida. Mas dificilmente se conhece um caso, em toda Literatura Universal, tão extraordinário como o de Radiguet, que escreveu maravilhosamente ainda adolescente e morreu assustadoramente jovem.

No entanto, Radiguet jamais pretendeu ser reconhecido por isso: nem pelo gênio precoce nem pela morte inesperada, características dos poètes maudits que ele simplesmente abominava. "Idade não significa nada", escreveu, " O que me impressiona é o trabalho de Rimbaud, não a idade com que ele o escreveu. Todos os grandes poetas já tinham escrito aos 17 anos. Os maiores são aqueles que nos fazem esquecer disso". A vida que levou durante o último ano de sua vida, porém, consumindo pesadamente álcool e ópio, contribuiu para sua identificação com eles, apesar do seu forte e lúcido desprezo pela figura do poeta solitário e sofredor. Radiguet não viveu uma vida nem solitária nem sofredora.

Seu primeiro livro, e o único que saiu enquanto Radiguet ainda estava vivo, foi publicado quando o autor tinha apenas 20 anos, resultado de um trabalho que começara aos 17. "Com o Diabo no Corpo", baseado numa relação amorosa que Radiguet teria aos 14 anos, foi escandalosamente recebido em Paris, pelos críticos e pelo público - mas vendeu amplamente (45 mil exemplares, de saída) e, de quebra, recebeu o importante prêmio Nouveau Monde. Radiguet conta a história de uma relação amorosa de um jovem de 16 anos com uma mulher casada, de 19, cujo marido se encontra no front de batalha durante a Primeira Guerra Mundial. Marta, a amante, engravida do garoto, e morre durante o parto.

A capacidade de observação psicológica de Radiguet é surpreendente, mesmo sem considerarmos sua idade - que ele, enfim, nos faz esquecer. Seu estilo é claro e direto, como ele queria que escritores escrevessem, e flui encantadoramente, com capítulos curtos e seqüências de aforismos inesquecíveis, como essa:

"Nada absorve mais do que o amor. Quando se ama, fica-se à toa, mas nem por isso se é preguiçoso. O amor sente confusamente que seu único desvio real é o trabalho. Ele também o considera como rival. E não suporta nenhum rival. Mas o amor é preguiça bem-aventurada, como a chuva branda que fecunda.

Se a juventude é tola, é por não ter sido preguiçosa. O que invalida nossos sistemas educativos é que eles se dirigem aos medíocres, por causa da quantidade. Para um espírito alerta, a preguiça não existe. Nunca aprendi tanto quanto naqueles dias compridos que, para um espectador, teriam parecido vazios, nos quais eu observava meu coração noviço como um novo-rico observa seus gestos à mesa.
"

Radiguet por Picasso Difícil acreditar que o segredo da adolescência, e do amor durante essa fase, tenha sido revelado com tanta elegância e precisão como o fez Radiguet. E mais do que isso: seus dois romances são histórias de adultérios tão sofisticadas que mesmo Proust, como reparou Paulo Francis, talvez não tenha ido tão longe, nesse aspecto. E Radiguet parecia ter consciência disso, quando escreveu sobre seu segundo livro, "O Baile do Conde d'Orgel", publicado depois da sua morte:

"Romance de amor casto, mas tão escabroso quanto o romance menos casto. (...) Não é a pintura do mundo, ao contrario de Proust. O cenário não conta. O único esforço de imaginação utilizado aqui não está nos acontecimentos externos, mas na análise dos sentimentos".

Se no seu primeiro livro, então, o romance entre o narrador e Marta se consumou, materializando-se o adultério que, no final, será castigado, a relação entre François de Séryeuse e Mahaut d'Orgel, personagens principais de "O Baile", não poderia ser mais casta - e não poderia ser mais forte. E é precisamente por ter resistido a essa força quase incontrolável que Radiguet, como um moralista do século XVII, os considera tão virtuosos e interessantes. O que, aliás, eles realmente são, como justifica o autor, a respeito da condessa, já no primeiro parágrafo, em uma introdução irresistivelmente bonita:

"Os movimentos de um coração como o da condessa d'Orgel serão antiquados? Tal mescla de dever e inação talvez pareça inacreditável em nossos dias, até mesmo numa pessoa de estirpe e nascida nas Antilhas. Não será que nossa atenção se desvia da pureza, sob o pretexto de que esta oferece menos sabor do que a desordem?

Mas as manobras inconscientes de uma alma pura são ainda mais singulares que as combinações do vício. É o que respondemos às mulheres que, algumas, acharão Mme. d'Orgel excessivamente honesta, e às outras, que a acharão fácil demais
".

François tinha 20 anos, era muito inteligente e respeitado pelos mais velhos. Não fazia nada. Vivia com sua mãe, que possuía um espírito suficientemente nobre e compreensivo, segundo Radiguet, para entender que, nessa idade, é justamente isso que um jovem deve fazer.

"Toda idade produz seus frutos, e é preciso saber colhê-los. Mas os jovens são tão impacientes por atingir os menos acessíveis, e por se tornar homens, que negligenciam os que se oferecem.

Numa palavra, François tinha exatamente sua própria idade. E, entre todas as estações, a primavera, se é a estação que nos assenta melhor, é também a mais difícil de usar.
"

François, portanto, pertencia a essa espécie rara: era um sujeito que, apesar de novo, sabia aproveitar a vida em sua plenitude, reconhecendo, inconscientemente, os limites que a idade lhe impõe, e formando, assim, uma personalidade, digamos, saudável. François era um cara bacana. Diferentemente do seu melhor amigo, o diplomata Paul Robin, que procurava a todo custo ascender socialmente, construindo, assim, uma personalidade corrompida: "Paul acreditava ter sido bem-sucedido na construção de uma imagem; na realidade, ele se contentara em não combater os próprios defeitos.", escreveu Radiguet.

A atração de Paul pelo casal d'Orgel, que ele e François conheceram juntos, é obviamente limitada, centrada em mesquinhos interesses sociais. François, porém, encanta-se com Mahaut, e, como novo e íntimo amigo do casal d'Orgel, passa a freqüentar a casa deles. E apaixonam-se François e Mahaut, um pelo outro, sem, no entanto, saberem que são correspondidos. Até que, preocupada com que essa atração ficasse definitivamente incontrolável, Mahat confessa seus sentimentos para a mãe de François, pedindo que essa tentasse afastá-los um do outro. Não adianta.

Na jantar que os d'Orgel oferecem, na mesma noite, a um príncipe russo refugiado, François comparece. Mahaut não sabe se ele foi avisado ou não pela sua mãe, e fica confusa, com ciúmes de François, que conversa com uma convidada jovem e linda, mas exercita sutilmente seu auto-controle. Em uma cena delicada e complexa, Mahaut defende publicamente seu marido em uma situação inesperada - que, exceto o leitor, só o convidado russo compreende: Mahaut decide continuar com Anne, seu frívolo marido.

Em "Com o Diabo no Corpo", Radiguet narra o complexo processo da perda da pureza de um adolescente inocente e inteligente; já em "O Baile do Conde d'Orgel", essa pureza perdida é, na figura de Mme. d'Orgel, virtuosamente redescoberta.





Eduardo Carvalho
São Paulo, 20/5/2002


Mais Eduardo Carvalho
Mais Acessadas de Eduardo Carvalho em 2002
01. Com a calcinha aparecendo - 6/5/2002
02. Festa na floresta - 9/9/2002
03. Hoje a festa é nossa - 23/9/2002
04. Todas as paixões desperdiçadas - 23/12/2002
05. O do contra - 11/3/2002


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
20/5/2002
17h05min
Eduardo, "Com o Diabo no Corpo" deu origem a um filme italiano que causou bastante furor, em 1987, por causa da interpretação de Maruschka Detmers. Mas diabo no corpo bom mesmo era aquele de Miss Jones.
[Leia outros Comentários de Rafael Lima]
20/5/2002
18h57min
Rafa,
Há, se não me engano, duas adaptações de "Le Diable" para o cinema, a outra, francesa, de 1947. (A imagem do casal se abraçando na capa do livro, aliás, é desse filme.) Infelizmente, não estão disponíveis nas melhores locadoras. E, ainda que fora de catálogo, a versão com Detmers encontrei classificada entre os "Eróticos". Entendo o "furor", então. Abraço,
Eduardo
[Leia outros Comentários de Eduardo]
9/6/2002
02h23min
A qualidade deste texto é resposta suficiente a quem criticou de forma tão infantil o anterior. Parabéns.
[Leia outros Comentários de RICARDO]
9/6/2002
14h13min
Muito obrigado pelos parabéns, Ricardo. O que acontece é que assuntos como este, de um nível ligeiramente superior ao do Saia Justa, não interessam à "elite intelectual brasileira" que me xingou no fórum do "Com a calcinha aparecendo". Aquele abraço, Eduardo
[Leia outros Comentários de Eduardo]
11/6/2002
00h52min
Eduardo, meu caro alter ego, você está de parabéns! Eu mesma não faria melhor! Epa! E agora? Fui eu que fiz? Essa coisa de dupla identidade ainda me deixa lelé da cuca! De qualquer forma, está muito bom! Beijos da Sue
[Leia outros Comentários de Assunção Medeiros ]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Forró no Engenho Cananéia
Antonio Callado
Civilização Brasileira
(1964)



Inspired Level 1: Workbook
Judy Garton-sprenger, Philip Prowse
Macmillan Education
(2016)



Será Que Eles Falam? - Maio 2015
National Geographic Brasil
Abril



O Sol de Rovenah
Ana Cláudia Jadão
Coerência
(2018)



Ser
Sri Maha Krishna Swami
SMKs



Moral e Sociedade
Della Volpe e Outros
Paz e Terra
(1969)



Cantare Estorias
José Alaercio Zammer
Pleiade
(2011)



Elogio dos Intelectuais
Bernard Henri Lévy
Rocco
(1988)



Eternidade por um fio
Ken Follett
arqueiro
(2014)



Go Starters - Sb (2018)
H. Q. Mitchell
Mm Publications
(2018)





busca | avançada
57238 visitas/dia
1,6 milhão/mês