A revista Bizz | Guilherme Werneck

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Segunda-feira, 14/11/2005
A revista Bizz
Guilherme Werneck

+ de 20700 Acessos
+ 1 Comentário(s)

Em 1985, o Brasil estava fervilhando com a redemocratização. Uma nova juventude rompia com os estereótipos forjados nos 20 anos de Ditadura Militar (1964-1985). A oposição entre engajados e alienados, entre caretas e malucos-beleza, já não fazia sentido. Havia uma vontade de ser plural, de estar mais conectado com o mundo. Essa geração tinha vontade, mas faltava a ela muita, mas muita informação.

Na música, a criação da revista Bizz, nesse ano, foi fundamental para dar voz e começar a preencher as lacunas culturais dessa geração.

Agora, a moçada que obtém suas informações sobre música direto na internet, lendo sites, blogs e baixando música pode ter um gostinho do que representou a Bizz de 1985 até 2001 com o lançamento de toda a coleção da revista em CD ROM, à venda nas bancas de jornal.

São as 192 edições da Bizz, mais os especiais e as músicas que vinham de brinde na revista. É um mundo de fotos, reportagens, entrevistas e críticas. A navegação é fácil, é possível ver as páginas da revista no formato original, que podem ser lidas com uma ferramenta de zoom. Os textos também podem ser vistos em janelas separadas e copiados e colados em um editor de texto, o que facilita o seu uso para pesquisas.

Para encontrar reportagens específicas ou determinados autores ou artistas, há um mecanismo de busca fácil de usar.

Mas o que encanta mesmo no CD-ROM da Bizz é poder voltar no tempo e tentar entender a importância que ela teve durante os anos 80, como foi atropelada por suas próprias idiossincrasias na década de 90 e, depois, pelas revistas estrangeiras e pela internet, que colaboraram para o seu fim, em 2001.

Começo pelos anos 80, quando eu era garoto, a Bizz foi a primeira revista que colecionei, esperando ansiosamente a sua chegada às bancas a cada mês.

Na primeira metade da década, faltavam livros e revistas de música conectados ao presente. O acesso às produções culturais era difícil e caro. Só quem era muito rico, conhecia bons contrabandistas ou havia vivido fora do País conseguia comprar os discos que apontavam novos caminhos na música.

Por outro lado, a informação circulava em pequenos guetos no Rio de Janeiro, em São Paulo, em Brasília e em Porto Alegre. A partir de 1982, com o sucesso nacional da Blitz, uma nova geração roqueira passava por cima dos formalismos e experimentalismos da refinada MPB para, mesmo sem saber tocar direito, pegar suas guitarras Gianini e fazer barulho.

Nesse contexto, a Bizz colocava em palavras os sons que só se ouviam nas primeiras rádios de rock: na pioneira Fluminense FM, a Maldita, lá no Rio, e, a partir de dezembro de 1985, na 89 FM, de São Paulo.

A graça dessa primeira dentição da Bizz é que a revista era roqueira, sim, mas também era pop. O que a diferenciava de outras revistas que martelavam o binômio heavy metal e rock progressivo até a náusea ou embarcavam naquele papo furado do instrumentista virtuose.

Na Bizz cabia desde Gilberto Gil até Madonna, que foi capa da segunda edição da revista. O rock brasileiro, que fazia muito sucesso, conseguia dividir as capas com os estrangeiros. RPM e Paralamas foram os primeiros roqueiros daqui a dividir espaço com Bruce Springsteen, Tears For Fears e Sting.

Na revista entrava o pop rasgado, que tocava em todas as rádios, mas também os sons que vinham dos porões das grandes cidades brasileiras, o rock inglês oitentista e toda sorte de dinossauros.

Pouco depois de lançada a revista, houve o Plano Cruzado, no governo Sarney (1985-90). Essa época ficou marcada pelos produtos com ágio e pelas filas para comprar carne, mas, para o mercado de discos, o cruzado foi excelente. Os bolachões estavam baratos e as gravadoras passaram a investir pesado no lançamento do rock nacional. Bandas menos vendedoras, como Plebe Rude e Inocentes, por exemplo, conseguiam gravar os mini-LPs, coisa que só emplacou nessa época. E estrangeiros como os Smiths tinham singles lançados por aqui.

A Bizz, que tinha um time invejável de jornalistas de música, que acabou exportando para outras mídias, como jornais, TV e revistas, acompanhava empolgada essa ebulição.

E, como quase ninguém tinha acesso às revistas estrangeiras, reciclava as informações dos famosos semanários ingleses como Melody Maker e o New Musical Express, e de revistas como a Rolling Stone, na caradura, para o bem do leitor brasileiro. Logo no começo dos anos 90, há a abertura das importações no Brasil, no governo do presidente Fernando Collor.

A Bizz, então, começa a ter de concorrer com as revistas estrangeiras, que passam a aparecer nas bancas com mais facilidade, e também com a televisão. A MTV Brasil entra no ar em 1990, exibindo muitos clipes e produzindo um bom jornalismo musical.

A revista continua afinada com o presente, mas ganha contornos um pouco mais radicais. Para quem não lembra, os anos 90 começam ruidosos e roqueiros. O grunge do Nirvana explode, e a Bizz embarca nessa viagem roqueira.

Essa também é uma fase em que a revista começa a destratar muitos os artistas brasileiros que cultivou nos primeiros anos. Fica menos pop, mais intransigente e faz alguns inimigos, o que, no fundo, faz bem.

Nos anos 90, a Bizz também é a primeira a dar voz à cena eletrônica e também a perceber o crescimento do hip-hop.

Mas a popularização da internet e a facilidade de encontrar informações e músicas de graça, a partir da segunda metade dos anos 90, sela o fim da aventura da Bizz, ainda que a revista continue sendo referência de boas reportagens e resenhas.

Ter toda essa história à mão para consultar é obrigatório para quem é fã de música pop.

Para ir além

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Publicado originalmente no caderno "Link", do jornal O Estado de S.Paulo, em 24 de outubro de 2005.


Guilherme Werneck
São Paulo, 14/11/2005

Mais Guilherme Werneck
* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
19/5/2006
14h35min
Tenho os 150 volumes da Bizz, pois eu era assinante. Ainda leio a Bizz. Adoro. Abraços do ex-assinante.
[Leia outros Comentários de Florencio Paim]
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