Obras-primas recusadas | Affonso Romano de Sant'Anna

busca | avançada
31843 visitas/dia
1,0 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Banda GELPI, vencedora do concurso EDP LIVE BANDS BRASIL, lança seu primeiro álbum com a Sony
>>> Celso Sabadin e Francisco Ucha lançam livro sobre a vida de Moracy do Val amanhã na Livraria da Vila
>>> No Dia dos Pais, boa comida, lugar bacana e MPB requintada são as opções para acertar no presente
>>> Livro destaca a utilização da robótica nas salas de aula
>>> São Paulo recebe o lançamento do livro Bluebell
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Eu não entendo nada de alta gastronomia - Parte 1
>>> Treliças bem trançadas
>>> Meu Telefunken
>>> Dor e Glória, de Pedro Almodóvar
>>> Leminski, estações da poesia, por R. G. Lopes
>>> Crônica em sustenido
>>> Do inferno ao céu
>>> Meninos, eu vi o Bolsonaro aterrando
>>> Manual para revisores novatos
>>> A Copa, o Mundo, é das mulheres
Colunistas
Últimos Posts
>>> 100 nomes da edição no Brasil
>>> Eu ganhei tanta coisa perdendo
>>> Toda forma de amor
>>> Harvard: o que não se aprende
>>> Pedro Cardoso em #Provocações
>>> Homenagem a Paulo Francis
>>> Arte, cultura e democracia
>>> Mirage, um livro gratuito
>>> Lançamento de livro
>>> Jornada Escrita por Mulheres
Últimos Posts
>>> João Gilberto: o mito
>>> Alma em flor
>>> A mão & a luva
>>> Pesos & Contra-pesos
>>> Grito primal II
>>> Calcanhar de Aquiles
>>> O encanto literário da poesia
>>> Expressão básica II
>>> Expressão básica
>>> Minha terra, a natureza viva.
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Os 60
>>> Tico-Tico de Lucía
>>> Abdominal terceirizado - a fronteira
>>> Cinema é filosofia
>>> Quem é (e o que faz) Julio Daio Borges
>>> Mulher no comando do país! E agora?
>>> YouTube, lá vou eu
>>> YouTube, lá vou eu
>>> Bar azul - a fotografia de Luiz Braga
>>> Eu + Você = ?
Mais Recentes
>>> Vade Mecum acadêmico de direito de Organização; Anne Joyce Angher pela Rideel (2004)
>>> Processo de Execução e Cumprimento de Sentença/ Encad. de Humberto Theorodo Júnior pela Leud (2009)
>>> Processo Civil Commercial de Manoel Aureliano de Gusmão pela Livraria Academica (1924)
>>> Dieta Mediterrânea com sabor brasileiro de Dr. Fernando Lucchese e Anonymus Gourmet pela L&PM Pocket (2005)
>>> Derecho Procesal Civil de Eduardo Pallares pela Porrua S.A Argentina (1961)
>>> Topografia Prática: Tratado da Clotóide - Teoria, Fórmulas, Exemplos.. de Ruey- Chien Lin pela Hemus/ SP. (2019)
>>> La Reconvencion de M. Sanpons Salgado pela Coleccion Nereo (1962)
>>> Construcciones Metalicas (Encadernado) de Fernando Rodriguez- Avial Azcunaga pela Madrid/ Espanha (1958)
>>> tratado das ações (Tomo V ) Condenatórias de Pontes de Miranda pela Revista dos Tribunais (1974)
>>> Tratados das Ações Declarativas Tomo II de Pontes de Miranda pela Revista dos Tribunais (1971)
>>> Tratado das Ações Tomo III Ações Constitutivas de Pontes de Miranda pela Revista dos Tribunais (1972)
>>> Ação Discriminatória de Jacy de Assis pela Forense (1978)
>>> Dos recursos no Código de Processo Civil de João Claudino de Oliveira e Cruz pela Forense (1954)
>>> Petições contestações e recursos de Valdemar P. da Luz pela Forense (2000)
>>> Curso de processual Civil de Luiz Fux pela Forense (2001)
>>> Curso Didático de Direito Processual Civil de Elpídio Donizetti Nunes pela Atlas (2012)
>>> Código de processo Civil Anotado de Sálvio de Figueiredo Teixeira pela Saraiva (2003)
>>> Manual Execução de Araken de Assis pela Revista dos Tribunais (2004)
>>> As Concepções Antropológicas de Schelling de Fernando Rey Puente pela Loyola (1997)
>>> Manual do Processo de Execução de Araken de Assis pela Revista dos Tribunais (2002)
>>> Ministério público e Persecução Criminal de Marcellus Polastri Lima pela Lumen Juris (2002)
>>> Des Problèmes de Droit Judiciaire que Pose L'Union Économique Franco Sarroise de Eugéne Schaeffer pela Librairie Générale de Droit et de Jurisprudence (1953)
>>> Escrever Vidas, Narrar a História de Maria da Glória de Oliveira pela Fgv (2011)
>>> La Accion Civil para la Reparacion de los Perjuicios de Ricardo C. Nuñez pela Bibliográfica Argentina (1948)
>>> Tratado de Los Recursos en El Proceso Civil de Manuel Ibañez Frocham pela Lavalle Buenos Aires (1963)
>>> Theoria e pratica na Execução das Sentenças de Affonso Fraga pela C. Teixeira (1922)
>>> Os Juízes os Escrivães e os oficios de Justiça em Ação ( Código de Processo Civil) de Nemias Nunes Carvalho pela Forense (1997)
>>> Honorários de Advogado de Sebastião de Souza pela Saraiva (1952)
>>> Medidas Preventivas de Alfredo de Araujo Lopes da Costa pela Sugestões Literárias S/A (1966)
>>> Guia para Concurso do Ministério Público de Joaquim Cabral Netto pela Del Rey (1994)
>>> princípios de direito processual Civil (Da Ação Judicial) de Benedicto Barros pela Borsoi (1959)
>>> Dos Processos Especiais de Alfredo de Araujo Lopes da Costa pela Sugestões Literárias S/A
>>> Primeiras Linhas O Processo Civil de Joaquim José Caetano Pereira e Souza pela Freitas Bastos (1879)
>>> Votos e Accordams Julgamentos Proferidos de M. da Costa Manso pela Academica Saraiva (1922)
>>> Dos Aggravos Theoria e Pratica de Martinho Garcez pela Jacintho Ribeiro dos Santos (1914)
>>> Decisões de Laudo de Camargo pela Saraiva (1931)
>>> Lições de direito processual Civil ( Vol. III) de Alexandre Freitas Câmara pela Lumen Juris (2001)
>>> Lições de direito processual Civil Vol. III de Alexandre Freitas Câmara pela Lumen Juris (2003)
>>> Lições de direito processual Civil Volume II de Alexandre Freitas Câmara pela Lumen Juris (2002)
>>> Da Ação Rescisória de Jorge Americano pela Academica Saraiva (1926)
>>> Estudo Theorico e Pratico da Acção Rescisoria de Jorge Americano pela Saraiva (1939)
>>> Tratado da Ação Rescisória de Pontes de Miranda pela Forense (1976)
>>> Manual Doutrinário e prático para o Exercício da Advocacia de Ulderico Pires dos Santos pela Forense (2001)
>>> Medidas Preventivas de Alfredo de Araujo Lopes da Costa pela Liv. Bernardo Álvares (1958)
>>> Retirada de Patrocinadora de Wladimir Novaes Martinez pela LTr (2007)
>>> Um decênio de Judicatura Acórdãos e Votos (Volume 1) de Cordeiro Guerra pela Saraiva (1984)
>>> Direito Processual Civil em 03 Volumes de João Bonuma pela Saraiva (1946)
>>> Estudos Mineiros - Vol. 1 de Diva Ruas Santos: Org. pela Cuatiara (1995)
>>> Estudos Mineiros - Vol. 1 de Diva Ruas Santos: Org./ Autografado pela Cuatiara (1995)
>>> Igual a Ti só no Inferno de Antonio Carlos Resende pela L&PM/ Porto Alegre (1988)
ENSAIOS

Segunda-feira, 19/3/2007
Obras-primas recusadas
Affonso Romano de Sant'Anna

+ de 7100 Acessos
+ 5 Comentário(s)

Engana-se quem acha que a carreira de grandes artistas é feita só de glórias e aplausos. É constituída de mil tropeços, fracassos e rejeições. Só que esses percalços, por terem sido superados, praticamente desaparecem ante o brilho que a obra ganha na posteridade.

Por isto, o escritor que tem seus livros na gaveta e não encontra editor, ou aquele que manda originais para aqui e para ali e, às vezes, não merece sequer uma resposta; ou aqueles que distribuem seus textos pelas editoras e recebem aquela clássica desculpa de que “sua obra é boa mas não se enquadra nos projetos editoriais desta casa”, todos esses devem ter algum consolo ao saberem que Francis Scott Fitzgerald, hoje tido como um dos melhores contistas modernos da literatura norte-americana, era um colecionador de recusas editoriais. Sua biografia registra que, em 1920, tinha dependurados no seu quarto 120 bilhetes de recusas para publicação de seus contos.

Deve ser igualmente consolador ser informado que James Joyce, o grande reformulador do romance no século XX, reconhecia, numa carta de 1916, que seu livro de contos Retrato do artista quando jovem havia sido recusado por vários editores. Esses lhe diziam sempre : “Bom trabalho, mas não se paga”.

Igualmente, Ludwig Wittgenstein, que abalou o pensamento filosófico do século passado, recebia, à altura de 1921, repetidos comunicados dos editores dizendo que “não entendiam uma só palavra” do que ele havia escrito. Bem que Bertrand Russell, tentando lhe abrir as portas, fez uma introdução de 16 páginas para ver se as casas editoriais se interessavam pelo Tractatus logico-philosphoficus. Nem assim. Russell, finalmente, depois de muito empenho, conseguiu publicá-lo na Inglaterra.

E a coisa não pára aí. Hemingway expediu o seu Torrentes da primavera, mas um editor lhe respondeu afirmando que seria sinal de mau gosto publicá-lo. Caso meio parecido ocorreu com D. H. Lawrence – seu próprio editor suplicava que não publicasse O amante de Lady Chatterley, por achar que era por demais arrojado e ia lhe criar problemas, por isto o livro acabou saindo em Florença em 1928, numa edição particular. D. H. Lawrence, aliás, vivia tendo problemas com o que queria publicar e, entre os seus livros, Mulheres apaixonadas foi o mais recusado.

As histórias dessas recusas e de muitas outras foram coligidas por Mario Baudino no livro Il gran rifiuto (“A grande recusa”), editado pela Longanesi, de Milão, em 1991. O leitor vai se espantar e pode até se sentir estimulado a continuar recebendo negativas sem tanto sofrimento.

J.R.R. Tolkien, do avassalador O senhor dos anéis, teve, na década de 30 do século passado, dificuldades com a publicação de seu Silmarillion, que dormitou na gaveta algum tempo. Quem não se lembra, nos anos 60, do nome emblemático de Marshall McLuhan, o canadense que com The medium is the message reinaugurou a fase moderna dos estudos de comunicação? Pois apesar disto, na Itália, sua obra foi recusada na coleção Adelphi, sob a alegação de que “é um livro de um pequeno louco”. E há casos ainda de negativas unânimes como o Lolita, de Nabokov, originalmente rejeitado por todos os editores americanos.

A lista é espantosa. Moby Dick, de Herman Melville, foi refugado com a alegação de que não era “adaptado ao mercado para jovens na Inglaterra”. O poema “Après midi d’un faune”, de Mallarmé, que seria musicado por Debussy e virou balé com Nijinsky, foi esnobado pela revista Parnasse contemporain por ordem de Anatole France. Já o primeiro livro de Arthur Conan Doyle, o criador do detetive Sherlock Holmes, Um estudo em vermelho, não chegou a ser sequer lido pelo editor a quem foi enviado. E o que dizer do bilhete com que despediram Rudyard Kipling do jornal onde trabalhava?: “Aqui não é um asilo para escritores diletantes. Lamento, senhor Kipling, mas o senhor não sabe escrever em inglês”. Também Ezra Pound, que abalou a poesia de língua inglesa no princípio do século XX, não foi aceito pela Quartely Review porque havia publicado na revista futurista Blast (1918). E T.S. Eliot teve que ler este bilhete do editor John Lane: “A obra do sr. Eliot é brilhante, mas não pertence ao gênero que adicionamos ao nosso catálogo”.

E por aí segue a lista. Bernard Shaw, Céline, Irving Stone, Cummings, Italo Calvino, Gertrud Stein, Moravia, García Márquez e até o caso de George Orwell (Animal’s farm) . Mas nesse caso houve uma agravante, pois o parecer era de ninguém menos que T.S. Eliot, aliás, politicamente um conservador, que assim se manifestou: “Não tenho nenhuma convicção de que esta seja a crítica justa à atual situação política”. Além disto, os editores americanos tinham reservas sobre aquela obra de Orwell, alegando que o livro seria menos ofensivo se os personagens não fossem porcos.

Muito se pode discutir sobre esses fatos. A tendência natural dos escritores é culpar os editores por falta de visão. Isto é simplificar por demais a questão. Todo escritor, em princípio, acredita em sua obra, e alguns estão seguros de que ela é genial. Mas as coisas são mais complexas do que parecem. Casas editoriais não são necessariamente instituições de caridade e mesmo entre os pareceristas e entre os diversos grupos escritores há interesses subjetivos e ideológicos. E entre tantos casos da literatura moderna, dois se tornaram célebres: as recusas de Em busca do tempo perdido de Proust, e O Gattopardo de Giuseppe Tomasi di Lampedusa.

* * *

O caso de Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, tornou-se o mais clamoroso. Primeiro, porque o autor foi recusado não apenas por um, mas por vários editores. Segundo, porque essa recusa era meio estranha, posto que o autor estava disposto a pagar a edição e até mesmo a financiar a publicidade.

Há várias justificativas que tentam atenuar esse erro editorial. Como assinala Mario Baudino, a indústria editorial francesa estava economicamente em crise, em 1912, quando as recusas à obra de Proust ocorreram sucessivamente. Mas isto não basta para explicar, posto que o autor estava disposto a pagar não só a edição, dividir os possíveis lucros com o editor além de financiar a divulgação, num gesto premonitório da atual sociedade do marketing. Deste modo, pode-se concluir que os leitores especializados que examinaram os manuscritos não sabiam o que fazer diante daquela narrativa longa e pormenorizada, que contrariava o que estava entrando na ordem do dia, que era a arte de vanguarda pregando a fragmentação, a velocidade, o louvor à máquina e à violência. Enfim, para eles, Proust vinha com uma obra “velha”, “ultrapassada”, “burguesa” e “alienada”. E quando o livro apareceu em 1913, financiado pelo autor através da pequena editora Grasset, iniciou-se então a trajetória de seu sucesso que desmoralizaria essa perversa mania do “novo” trazida pela modernidade e os modernosos.

A editora Fasquelle justificava sua recusa a publicar o romance de Proust alegando que era muito grande e que o público não estava acostumado a esse tipo minucioso de descrições. Já a editora Gallimard submeteu o texto de Proust a pelo menos dois leitores: Jacques Normand e André Gide. O primeiro ironizava o romance dizendo que depois de 712 paginas “não se tem nenhuma noção de que coisa se trata”. De tudo salvam-se “umas seis páginas”. Fazia ainda considerações sobre o personagem sexualmente “invertido” e assinalava que era mesmo um “caso patológico”. Já o outro – André Gide – mesmo sendo homossexual não se deixou seduzir por esse aspecto da obra. Apenas a folheou e a recusou alegando, preconceituosamente, que o autor era um ricaço freqüentador de salões mundanos, e que havia, ainda, uma outra agravante: Proust era colaborador do conservador Figaro. Assim acumulavam-se razões nada literárias para a rejeição. E Gide, que apenas folheara o livro, ainda alegava que o autor tinha tido pouco escrúpulo em dizer que pagaria a edição se fosse preciso.

Proust, no entanto, tinha tanta confiança em seu livro, que dizia que a publicação era apenas uma questão “técnica”. Por isto não se vexava de financiar a edição e a publicidade. Mas não deixa de ser estranho e sintomático que o livro tenha colecionado outras recusas. Além da Ollendorf, que havia editado Maupassant e Romain Rolland, Proust entregou o manuscrito a Alfred Humblot, que pede a Louis Boyer para lê-lo. E este é fulminante: “Não consigo entender como se pode empregar trinta páginas para descrever como se vira e revira na cama antes de pegar no sono”.

Em 14 de novembro de 1913 a pequenina Grasset lança Du côté de chez Swann. Graças a uma boa campanha publicitária orquestrada vendem-se 1.500 exemplares e, uns quatro meses depois, o total chega a três mil. Proust e o editor tentam concorrer ao prêmio Goncourt, mas não dá mais tempo. Contudo, os outros editores que haviam recusado a obra começam a se arrepender e a procurar o autor. Inclusive André Gide, depois que vários autores da Nouvelle Revue Française (NRF) começam a elogiar Proust. Três meses após o aparecimento do livro, Gide escreve uma carta histórica a Proust se desculpando: “Ter recusado este livro ficará como o mais grave erro da NRF (e me toca a vergonha de ter sido em grande parte o responsável) e um dos remorsos mais cruéis de minha vida”.

Enfim, as peripécias pelas quais passou a obra de Proust mereceram até um estudo de Franck Lhomeau e Alain Coelho – Marcel Proust à la recherche d’un éditeur (Olivier Orban).

Já a célebre recusa de O Gattopardo (1958), de Tomasi di Lampedusa, entre outras coisas, exibe o danoso preconceito político e ideológico no julgamento de obras. Como o disse Andrea Vitello na biografia dedicada a Lampedusa, o escritor comunista Elio Vittorini foi o responsável pela recusa daquela obra-prima que viria ser filmada por Visconti tendo Alain Dellon, Claudia Cardinalle e Burt Lancaster nos papéis principais. Mas obedecendo aos preconceitos do partido, Vittorini, usando de sua influência politica, interditou a obra em duas editoras: na Mondadori e na Einaudi. Entre as alegações ideológicas, Vittorini perfilava: “Desde que eu escrevo tenho me batido pela renovação moderna da literatura. Entenda que não posso me impor de gostar de um escritor que se manifesta através de esquemas tradicionais. Poderia gostar de O Gattopardo só como obra do passado que houvesse sido descoberta num arquivo qualquer”.

Quantos de nós não temos lido e ouvido tolices semelhantes emitidas pelos praticantes da neofilia? Na verdade, Vittorini, que se julgava um intelectual engajado, estava censurando a visão histórica e política do nobre Lampedusa. De certo modo repetia-se aqui o veto dado a Proust, por ser um aristocrata. Gide, pelo menos, se arrependeu publicamente do erro em relação a Proust. O caso de Vittorini é lamentável. Porque mesmo quando o livro finalmente saiu e começou a ser aclamado pela crítica e pelo público, os partidários da literatura de uma nota só escreveram textos e cartas de apoio a Vittorini reafirmando que a obra-prima de Lampedusa era uma bobagem.

Leio essas coisas e fico pensando se alguém não poderia fazer um levantamento sócio-literário sobre equívocos semelhantes ocorridos na literatura de língua portuguesa. Neste caso, os mal-entendidos poderiam ser examinados inclusive nos dois sentidos. Não apenas em relação aos que foram obstaculizados, mas também em relação àqueles que num dado momento, por injunções várias, viram celebridade e, de repente, noutro instante mergulham no ostracismo.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado, em duas partes, em janeiro de 2005, no jornal O Globo e integrante da coletânea de crônicas A cegueira e o saber (Rocco, 2006).

Para ir além






Affonso Romano de Sant'Anna
Rio de Janeiro, 19/3/2007

Quem leu este, também leu esse(s):
01. Morreu Vinicius de Moraes de Affonso Romano de Sant'Anna
02. Duchamp e o Dadá de Affonso Romano de Sant'Anna
03. Baixíssima gastronomia de Ricardo Freire


Mais Affonso Romano de Sant'Anna
Mais Acessados de Affonso Romano de Sant'Anna
01. A mulher madura - 14/12/2009
02. Morreu Vinicius de Moraes - 3/8/2009
03. Duchamp e o Dadá - 20/2/2006
04. Obras-primas recusadas - 19/3/2007
05. Situação da poesia hoje - 8/9/2008


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
19/3/2007
02h40min
É quase divertido chegar à conclusão que todo mundo foi recusado, uma vez ou outra. E em todas as áreas: Chaplin, Beatles e até o Paulo Coelho. Ou seja, atrás de um sucesso existe uma sucessão de fracassos. Menos com a Xuxa, que foi ao contrário.
[Leia outros Comentários de Guga Schultze]
20/3/2007
18h04min
Escrever é uma forma de diálogo. O escritor deverá sempre escrever algo que seja original. Caso contrário será supérfluo. Todos os que foram citados, apresentaram novas idéias, ora sob uma forma tradicional, ora sob uma forma revolucionária. Estavam todos adiante do seu tempo. Vencer os obstáculos, conversar sobre novas idéias, ou sobre novas formas de encarar as idéias antigas, é um trabalho tão grande, ou maior do que escrever. Não basta ser literato há que ser também obsessivo. Essa última é a que faz alguém ser editado.
[Leia outros Comentários de Djabal]
20/3/2007
23h08min
Penso em livros e nem sempre eles remetem a um autor. Percebo em determinadas situações até um certo exagero, uma necessidade de idolatria que confere ao escritor uma deferência que não se realiza. Hoje temos inúmeras celebridades que escrevem livros e não sei se isto, aos olhos da literatura, os tornam escritores. Talvez, como figuras do mercado e alavancados por uma estrutura de marketing, sejam relevantes. Talvez o que buscamos esteja perdido num tempo em que escrever fosse talento e abnegação. Hoje vivemos as fusões de muitas mídias, redação técnica, leitura horizontal, carência de letramento e a falta de uma crítica referencial, que aponte aspectos de uma obra e não faça o julgamento de um autor, que, como vimos, foi talvez o principal preconceito a permitir as equívocadas rejeições. Creio que cada obra tenha seu alcance e cada autor o seu público; imagino crítica e editores facilitando possibilidades para um encontro entre estes dois mundos. Arte ou negócio; lucro ou reconhecimento?
[Leia outros Comentários de Carlos E. F. Oliveir]
21/3/2007
11h13min
Affonso: muito bom e reconfortante este teu artigo. Sabia de Proust e de outros famosos que foram recusados sistematicamente e depois foram sucesso internacional, mas nem tantos como você cita... Fico mais consolada agora ja' que meu livro sobre a Hilda Hilst foi recusado por umas cinco, seis editoras, não me lembro. O que não significa que ele seja digno desses outros referidos por você, mas, quem sabe, um dia... Brincadeiras 'a parte, muito bom seu artigo, para deixar muitos autores menos desesperançados. Abraços. Ana
[Leia outros Comentários de Ana Lúcia]
25/3/2007
22h10min
Affonso: seu artigo dá esperança para muitos autores recusados e mostra que o escritor que tem certeza de seu trabalho deve continuar escrevendo e, por quê não?, pagar a edição e financiar a publicidade.Texto oportuno para muitos tímidos escritores. Abraço, Cleusa.
[Leia outros Comentários de Cleusa A.de Azambuja]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.

Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




FINANÇAS FEMININAS
CAROLINA RUHMAN
BENVIRA
(2015)
R$ 11,90



NOSSO LAR
FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER - EMMANUEL
FEB
(2001)
R$ 5,20



A MAIOR PAIXÃO DO MUNDO, A HISTORIA DA FREIRA MARIANA ALCOFORADO
MYRIAM CYR
CASA DA PALAVRA
(2007)
R$ 25,28



JAPA MEDITAÇÃO COM MANTRA
SWAMI DAYANANDA SARASWATI
VIDYA-MANDIR
(1998)
R$ 78,00
+ frete grátis



A NEUROSE OBSESSIVA SOB A ÓTICA DE MELANIE KLEIN
MARCOS L. KLIPAN
NOVAS EDIÇÕES ACADÊMICAS
R$ 391,00



A ILHA DAS COBRAS
M. C. SILVA
BRASIL
(1985)
R$ 4,00



TUDO TEM UMA PRIMEIRA VEZ
VITORIA MORAES
INTRINSECA
(2016)
R$ 21,87



CANCÃO DE FOGO
IRANI MEDEIROS
SEBO VERMELHO
(2018)
R$ 30,00



ESTADO, GLOBALIZAÇÃO E INTEGRAÇÃO REGIONAL
LIER PIRES FERREIRA JUNIOR
AMÉRICA JURÍDICA
(2003)
R$ 10,00



COBRA MY PASSION
JENS OLESEN
JENS OLESEN
(1999)
R$ 120,00
+ frete grátis





busca | avançada
31843 visitas/dia
1,0 milhão/mês