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Segunda-feira, 5/2/2001
A literatura da falência do macho
Paulo Polzonoff Jr

+ de 4700 Acessos

É inegável que o homem moderno tenha passado, nos últimos trinta ou quarenta anos, por uma profunda modificação em seu comportamento, o que o colocou, teoricamente, em pé de igualdade com as mulheres, principalmente no que diz respeito ao comportamento sexual e correlatos. Nada muito simples de ser absorvido, tanto assim que a década de 90, principalmente, foi marcada por uma forte crise do macho. A mulher se impôs como o único ser biologicamente necessário e como força-motriz da espécie. A nós, falsos protagonistas durante milênios, coube aceitarmos de cabeça baixa o papel de figurantes.

Neste ínterim, dois livros, romances, são imprescindíveis para quem, homem ou mulher, quiser entender um pouco desta angústia por que passam aqueles que vivem a era da sublimação da testosterona: Partículas Elementares, do francês Michel Houellebecq, que teve pouca repercussão aqui no Brasil, mas que vendeu mais de 2 milhões de exemplares em seu país de origem, provocando aquela celeuma que os franceses tanto adoram, e o best-seller Alta Fidelidade, do inglês Nick Hornby, lido por aqui mais como um folhetim de música pop, que no entanto analisa com muita propriedade a adultescência, mal que aflige nove em cada dez homens nascidos depois de 1970. Ler os dois livros propicia uma visão contundente sobre o papel (ou falta de) do homem na sociedade contemporânea. Ao mesmo tempo, são dois pontos de vista totalmente antagônicos: Houellebecq é um desesperado, um niilista, um admirador da danação em que vivemos, criadas por nossa próprias mãos; Hornby, por sua vez, é um otimista, um crédulo, lúcido do presente brumoso, mas um tanto quanto deslumbrado com o futuro do homem (e talvez por isso mesmo ele seja mais popular).

Partículas Elementares foi lançado aqui pela pequenina Editora Sulina. Sugiro que o leitor compre o livro, que é um daqueles volumes definitivos da década. O livro propõe, a partir de um contraponto entre dois irmãos nascidos das confusões político-culturais dos anos sessenta, a falência do homem e a criação, a partir desta derrocada, de um novo modelo teológico, centrado sobretudo na ciência. Parece catastrófico; e é. Filhos de uma mãe que viveu o apogeu da liberalidade sexual, os dois irmãos crescem num mundo em que a família, esta instituição supervalorizada, já não mais existe. Um - impregnado de uma visão pragmática e aristotélica da vida - decide virar cientista. O outro - lúdico e platônico - vive suas desventuras sentimentais e acaba aderindo à loucura como única saída possível para sua angústia hormonal.

Houellebecq, que dedica o livro "aos homens", não encontra saídas para o homem moderno. O de tradição rígida, aristotélica, é o responsável pela criação de um novo sistema religioso, do qual posteriormente acaba virando um ícone, uma espécie de "Cristo do Tubo de Ensaio". Para ele o homem, provido de pênis e pêlos no peito, já não serve mais para nada e sua existência só se dará por aceitação da nova divindade, a ciência. Teríamos, sobretudo, de nos curvarmos à inexorabilidade de nossa extinção. Reverenciemos, pois, a ciência.

O irmão boa-vida, espécie de playboy perdido nas infinitas possibilidades do amor sexual depois dos anos 70, mas que ao mesmo tempo vive uma crise de sublimação por conta da AIDS, religiões e leis, é a prova de nossa possível extinção moral e na nossa irrecuperável decadência física. É patente, no livro, a constatação de que nós, homens modernos, somos algo inferiores, por exemplo, ao homem das cavernas, uma vez que estamos, por força da vida sedentária, incapacitados para ganharmos nosso sustento com nossa próprias mãos. Não estamos habilitados para coisas simples, como matar um animal e comê-lo ou plantarmos nosso alimento. Chegamos, por este prisma, ao ponto mais baixo de nossa escala evolutiva.

Nick Hornby, com Alta Fidelidade, aponta também para a falência do homem contemporâneo, mas com um toque de humor e uma ilusão de maturidade e posterior redenção. Seu herói é um homem em plena crise de maturidade, isto aos 36 anos, que descobre-se para o mundo adulto assim, meio de supetão. É uma adolescência que avançou no tempo, algo muito comum hoje em dia, e que o liga diretamente ao irmão platônico de Partículas Elementares. Algo mais acessível ao grande público, best-seller transformado em filme, Alta Fidelidade vê lucidamente o fenômeno da adultescência, sem, no entanto, glamourizá-lo, como era de se esperar num livro menor. A entrada do protagonista na maturidade, finalmente, é o ponto alto do livro e ao mesmo tempo a inscrição definitiva numa lápide virtual ao homem morto em sua completa inutilidade biológica. Há quem leia o livro assim como uma Bíblia da música pop, a qual, advirto, é coadjuvante apenas. Sábia, no entanto, é a utilização da música, tanto mercadologicamente quanto literariamente, porque o rock e pop são os gêneros de identificação mais rápida com toda uma geração que se interliga desde 1970 a 2000.

Para uma década que não deu quase nada à literatura mundial, a não ser a confirmação de uma busca espiritual vazia através da literatura, exemplificada em fenômenos como o multicitado Paulo Coelho, Houellebecq e Hornby fincam seus nomes como os melhores analistas de um tempo marcado pelo homem em detrimento do homem, numa guerra multifacetária, na qual, acho, venceu a primazia do cérebro em toda sua capacidade de criação tecnológica. Minto; venceu a primazia do cérebro feminino, em toda sua capacidade de aceitar mudanças no meio sem ser afetada principalmente pela relativização do tempo o que, muito modestamente, justifico graças ao ciclo hormonal que dá ao corpo feminino um prazo de validade para a reprodução, finalidade única da vida. Este, contudo, é uma caso para cientistas e não para especuladores de plantão, como eu.

Um último conselho ao leitor: nada de música pop ao ler Partículas Elementares. Houellebecq é, por assim dizer, um conservador moralista, que condena a morte da civilização ocidental, tal qual Saramago disse e redisse em sua visita ao Brasil. Ouvir qualquer coisa que não o silêncio provocaria sérios ruídos de comunicação, responsáveis, em experiências anteriores, por leituras erradas do livro. Sei que soa meio pretensioso dizer como se ler um livro, e não é esta minha intenção. Quer saber, leia o livro como quiser, mas leia. Afinal, ainda dá tempo de crescer e evitar a queda.


Paulo Polzonoff Jr
Rio de Janeiro, 5/2/2001


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